Cigana De Luxo!
10 Desabafo
Um trovão clareou o quarto, estava frio, e Jazmim sentiu algo cobrindo suas costas.
Respirou fundo e fitou os olhar de Sandra, que ia desde um incompreensível a um olhar profundo de pena. Sentia-se fraca, vulnerável, parecia que qualquer toque mais agressivo partiria seu corpo em mil pedaços. Acho que era seu coração que estava assim, mas ela não ousou procurar uma resposta mais profunda sobre isso, preferiu simplesmente ignorar. O casaco que cobria seu corpo tinha o cheiro provocante de Bernardo, e sem questionar, era ótimo.
Sandra tirou o cabelo do rosto de Jazmim delicadamente e fechou a janela. Mesmo não dizendo nada, podia ver naqueles olhos azuis como o céu que aquela menina sofria... Uma beleza morta, se posso ousar nas palavras. Um jardim repleto das mais magníficas flores não eram o suficiente para competir com o encanto dos traços perfeitos que aquela menina tinha... Era como ver a primavera surgiu em meio ao inverno, ou uma pequena borboleta que mesmo não sabendo voar, com o esplendor de suas azas, apaga as que voam livremente. Sandra não descobriu ou sequer entendeu o que aqueles olhos estavam querendo dizer, pareciam gritar em sua mente... Nem palavras a faziam decifrar tal enigma.
- Sandra... – Suspirou a cigana ao vê-la sentar ao seu lado. – Não conte à Bernardo por favor...
- Calminha criança, eu não vou contar. – Ela abriu um sorriso confortante, e mesmo Jazmim estando desconfiada, percebeu que havia verdade nele. – Por que ia fazer algo tão horrível?
Fazia perguntas enquanto acariciava seus cabelos negros.
- Não posso mais viver assim.
- Ora, ora menina não diga isso... Todos nós estamos aqui para realizar alguma coisa, não jogue a vida que Deus lhe deu fora dessa maneira.
Jazmim abaixou a cabeça lentamente, precisava desabafar... Mas podia confiar nela? Talvez seus pensamentos não importassem agora.
- A senhora não entende.
- Então me conte... Minhas filhas não vivem comigo, mas sempre me mandam cartas querendo conselhos, e não querendo me gabar, mas sou uma ótima conselheira. – A mulher soltou uma gostosa gargalhada, fazendo um sorriso fraco surgir nos lábios de Jazmim. A cigana voltou a ficar séria e pensativa. – Por que essa desconfiança toda?
- Meu Tio sempre me ensinou a nunca confiar em ninguém.
- Que generalizador. Nem todas as pessoas são ruins. – Sandra segurou sua mão, o que fez Jazmim se assustar, mas não recuar.
A cigana mordeu os lábios inferiores e erguendo a cabeça olhou em seus olhos.
- Se eu contar promete que guardará segredo?
- É claro. – Sandra sorriu e continuou com essa expressão até Jazmim soltar as primeiras palavras.
- Eu morava em uma aldeia cigana, um pouco longe daqui. Meu Tio sempre me protegia, me dizia para não sair de casa porque era perigoso e eu entendia, sabe? Eu o amava e era feliz estando ao seu lado. Também tinha o meu melhor amigo Alexander, nós sempre conversávamos pela janela, era segredo, nós sempre víamos o sol nascer juntos.
Sandra sorriu ao vê-la falando dessa maneira. Quem não conhecesse a história, diria que pelo sorriso Jazmim estava apaixonada, ou talvez encantada por um amor infantil. No entanto, Sandra teve seu sorriso desmanchado ao ver o brilho dos olhos de Jazmim sumir.
- Só que um dia eu pedi pro meu Tio me levar até a cidade, eu nunca tinha saído da aldeia e então ele me levou. Eu estava tão feliz, acho que ele percebeu que eu já estava crescendo. Arrependo-me até hoje de ter pedido ou pensado dessa forma.
- O que aconteceu?
- Lá, eu vi meu Tio conversando com um homem, e logo depois não o vi mais... Achei que tínhamos nos perdido. Eram muitas pessoas... – Jazmim conseguia reviver em sua cabeça cada detalhe daquele momento, como se estivesse sentido o cheiro de bebida e urina daquele lugar. – Até que m homem me agarrou e me levou pra longe dizendo que agora eu não pertencia mais ao meu Tio, porque ele havia me vendido. Eu não acreditei sabe... Como podia?
As lágrimas caiam de seus olhos manchando seu rosto, o que fez Sandra se emocionar de certa forma. Nunca se imaginou vendendo uma de suas filhas.
- Então eu fui levada até Ana. Ela parecia legal no começo, confiante e me levou até uma casa. Só depois eu descobri que era uma casa de...
Jazmim tentou se lembrar das palavras daquele homem. “ Elas são prostitutas.” – Recordou-se.
- Prostitutas.
- Nossa, que horror. Ainda não acredito que um Ser humano possa fazer isso. – Sandra falou com repuno. – O patrão trás muitas prostitutas aqui, e eu pensei que...
- Não! – Jazmim limpou uma lágrima teimosa e se ajeitou na cadeira. – Eu não quero estar aqui...
- Então por que não vai embora?
- Não posso. Já pensei em fugir mais tenho medo dele!
Sandra quase caiu da cadeira com aquela resposta. Trabalhava a mais de dez anos para Bernardo, e nunca o vira fazer algo tão cruel como isso. Obrigar uma menina a ficar com ele? Que martírio terrível! Pensava que nada podia ser pior, até que uma ideia surgiu em sua cabeça. Suas mãos até tremeram.
- Criança... Ele fez alguma coisa com você?
Jazmim desviou o olhar, as palavras lhe faltaram. Não sabia o que dizer. Se Sandra falasse alguma coisa à cigana poderia ser severamente punida por isso, e já estava machucada o suficiente.
Bernardo ainda encara o olhar penoso de Rebeca, mas não sentia absolutamente nada com aquilo. Levava em conta o tempo que passou com ela, mas as coisas haviam mudado desde que seu pai morreu, e certas coisas não tinham mais volta.
- Não vai dizer nada? – Perguntou Rebeca levantando-se do chão.
- Não devia estar aqui...
Bernardo virou de costas bebendo o resto de uísque que sobrava no copo e apoiou-se na pequena mesa. Rebeca se aproximou, cruzando seus braços no peito de Bernardo juntando seu corpo ao dele. Bernardo fechou os olhos e apertou com força o copo de uísque, quase o quebrando em sua mão.
- Rebeca não.
Bernardo a separou de si, ficando de frente para a mulher que mantinha um olhar raivoso.
- O que está acontecendo? – Perguntou a mulher com raiva.
- Olha como fala. – Rebeca recuou com as palavras de Bernardo. – O que nós tivemos já acabou, e eu não quero mais saber de você. Saia antes que eu te expulse pelos cabelos.
Rebeca entendia o motivo daquelas palavras, mas questionava o fato de Bernardo nem sequer querer dormir com ela. Ele devia estar se satisfazendo com prostitutas, era o que pensava, pois desde o seu casamento ele a traía. Para não perder quem amava, a mulher simplesmente ignorava, fechava os olhos para a verdade e para ao que realmente acontecia dentro e fora da casa.
- Não tenho para onde ir. – A voz agora chorosa ecoou por toda a sala, fazendo Bernardo respirar fundo a fim de não perder a paciência. – Por favor.
Encarou a mulher de forma tediosa. Estava simplesmente casado daquele drama, do teatro sem plateia e de ter que recordar um passado que não queria. Seria obrigado a ajudá-la, embora sua cabeça estivesse dizendo para não fazer.
- Apenas duas noites.
- Obrigada.
Rebeca sorriu. Na verdade, as ideias presentes em sua cabeça eram outras, e para ela, duas noites seria o suficiente para ter Bernardo de volta.
Não queria responder aquela pergunta, mas Sandra insistia e o medo de falar mais do que devia estava presente e seu coração. Das outras vezes foi punida, o que aconteceria se Bernardo soubesse? Mil possibilidades passavam em sua cabeça, e a dor em seu pescoço ainda não havia passado. Mentir, se tornou a única possibilidade para Jazmim.
- Não. Ele não faz nada senhora.
Sandra não era tão ingênua e manipulável, sabia que aqueles olhos azuis mentiam pra ela, com dificuldade, mas mentiam. Apesar de estar com raiva, não era algo tão surpreendente vindo de Bernardo. Conhecia sua personalidade, e sabia que um homem como aquele, faria o possível e o impossível para ser feita a sua vontade. Sandra tinha plena consciência que trabalhava para um homem cruel, frio e calculista, sabendo após olhar para a cigana, que não havia escapatória. Quando Bernardo colocava uma coisa na cabeça era quase impossível de fazê-lo mudar de ideia, e embora odiasse que o falassem isso, era idêntico ao pai nesse aspecto. Sentia pena da calma daquela jovem menina, e não sabia como ajudá-la nem trazendo palavras de consolo.
- SANDRA! SANDRA!
Ouvira o grito de seu patrão, pulando de cadeira e correndo em direção a porta. Jazmim segurou sua mão antes de sair.
- Por favor, me ajude!
Mesmo se tivesse como, Sandra não poderia fazer nada. Soltou sua mão, e o que falara para a menina, talvez desmanchasse todos os seus sonhos, mas era a pura verdade.
- Não há o que fazer criança. Desculpe não poder ajudá-la. Mas o melhor a se fazer, é aceitá-lo de uma vez antes que o pior aconteça!
Saiu às pressas pelo corredor e desceu as escadas. Jazmim viu a porta bater em sua frente e soltou um grito baixo de raiva misturado com desespero. Aceitá-lo não poderia ser a melhor coisa e prometeu a si mesma, enquanto chorava sozinha na cama, que nunca faria tal coisa. Ir para o inferno era melhor do que ter o diabo dentro de si.
Bernardo subiu as escadas rapidamente. A única coisa que queria era entrar em seu quarto e dormir, mas sorriu ao perceber o que havia se esquecido dentro do mesmo. Jazmim ainda estava lá, e um sorriso malicioso surgiu em seus lábios assim como os estímulos de seu corpo que agiram por conta própria. Tirou a chave do bolso e após colocar sobre a fechadura a porta se abriu devagar, deixando Bernardo muito desconfiado. Recordava-se notoriamente de ter a trancado quando saiu, por que estaria destrancada? Ou melhor, quem a havia destrancado?
Jazmim levantou-se ao ver que ele se aproximava e cruzando os braços, ficou parado no canto da parede. Encarou a face de Bernardo, onde o mesmo deixando a porta entreaberta se aproximou da cigana, deslizando a mão sobre a sua cintura. Jazmim pode sentir o cheiro de uísque vindo de sua boca, e os olhos de Bernardo que foram em direção ao colo de seus seios. A mão de Bernardo subiu por debaixo da blusa fazendo a garota se afastar e os lábios de Bernardo, rígidos, funcionaram como sua mão, que prendeu seus cabelos a prensando contra a parede. Seu coração disparou, e incrivelmente o de Bernardo também. Jazmim sentia o medo misturado com algo inevitável que ela não sabia explicar, enquanto Bernardo deixava os estímulos falarem mais alto. Tentava se controlar perto dela, mas era como uma droga, uma droga pesada que passa a ser sufocante se não for provada.
Os olhos de ressaca o puxavam para dentro, e apesar de ser supersticioso Bernardo conseguiu enxergar, mesmo que por alguns segundos, os gritos de dor presos na alma daquela menina. Ela sem dúvida o temia, mas por que isso importava agora? Sentiu-se mal, e algo em seus olhos o fez recordar-se do passado que tentava esquecer. Eram aqueles mesmos olhos, os mesmos olhos seus trancados em um espelho sombrio quando o chicote raspava em suas costas. Piscou várias vezes e respirou fundo, tirando aquelas imagens da cabeça e olhando apenas a face assustada da cigana. Apertou a mão em seus cabelos negros e aproximou seu rosto do seu, beijando demoradamente seus lábios. Introduzindo a língua quente, que explorava toda a sua boca, a fazendo sentir o gosto excitante e amargo da bebida. Suas mãos apoiadas sobre o peito nú de Bernardo, enquanto o homem entre suspiros abafados, sussurrou:
- Saia antes que eu perca o controle de mim...
Antes que a menina pudesse sair pressionou seus lábios contra os dela, a separando de si logo em seguida.
- Boa noite.
Sorriu de forma irônica, fazendo Jazmim sair correndo do quarto enquanto Bernardo deslizou a mão sobre o cabelo louro e sentou-se na cama, observando a chuva caindo.
Seria mentira se dissesse que teve uma boa noite de sono como todas as outras. Não conseguira fechar os olhos após meia hora deitado, e após fazer isso, o sono não veio. Bernardo se revirava na cama, não achava a posição certa, ou talvez o pensamento certo para poder se concentrar em pelo menos uma hora de descanso. Tudo pareceu invadir a sua mente... Desde o seu passado ao corpo de Jazmim junto ao seu. Estava enlouquecendo... A insônia não fazia parte de sua vida, desde que se aventurara a seguir a carreira militar. Seu corpo não obedecia e de certa forma nem sua cabeça, pois seus pensamentos não eram nem um pouco inocentes.
Quando o sol tomou seu espaço no céu, se Bernardo dormiu duas horas foi muito. Levantou-se e tomou um banho rápido, gelado.
Acordada também estava Jazmim, que esperava ansiosamente para ser levada de volta. O quarto de hospede era maior do que o seu, embora os dois fossem muitos maiores do que passou seus quinze anos. Observou com um sorriso quando um pequeno pássaro de penas azuis pousou sobre a janela, mas o viu se afastar após a porta ser aberta. Era Sandra, que disse para esperar o patrão na sala, que o mesmo já estava descendo. Jazmim concordou com a cabeça, dando um abraço forte em Sandra antes de descer. A mulher sorriu, apertando fortemente seu crucifixo e levou as roupas de cama para a lavanderia. Jazmim desceu as escadas lentamente, e já conseguia ver a imensa sala com quadros e pinturas magnificas. A sua surpresa, não muito agradável, foi encontrar uma mulher sentada no sofá de couro, que passava o batom vermelho sobre os lábios.
Rebeca não esperava ver alguém, e tão pouco uma mulher descendo de onde provavelmente Bernardo dormira. Via na face da cigana a beleza descomunal, não negara isso, mas a única coisa que não aceitara era ter no mesmo ambiente a mulher que lhe havia tirado seu homem à noite. Era o que pensava.
A ponta de raiva e de inveja à fez olhar a morena com desprezo, e caminhando até ela com a pose superior, não negou tal fato. Jazmim desviou o olhar, ela parecia ser amiga de Bernardo e não queria ser inconveniente. A mulher agarrou-lhe o braço cravando as unhas após apertar-lhe. Ela nem sentia dor, apenas raiva por ser submetida a isso novamente.
- Quem é você? O que faz aqui? – Rebeca a encarou, mas recebendo apena um silêncio desprezível já que Jazmim mal olhava em seus olhos, cerrou os dentes. – RESPONDA!
O estalo foi mais forte que a dor. A mão de Rebeca atingiu sua face e a garota caiu no chão, sentindo sua boca arder. Não houve tempo de defesa, e mesmo se tivesse nada aconteceria, já que a mão que lhe atingira o rosto também foi usada para defender-se do enorme puxão de cabelos que parecera lhe arrancar o couro. Rebeca soltou um grito fino que pareceu rasgar sua garganta enquanto Bernardo lhe empurrara outra vez em direção à parede.
- Nunca mais toque nela sua vagabunda!
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