Cigana De Luxo!
14 Sentimentos encobertos
- Jazminzita...
Os olhos de Joselo brilharam ao vê-la, diferente dos de Ana que a encarou assustada, não era para a cigana aparecer de repente. Camila correu até ela, se colocando ao seu lado.
- Tio!
Ela estava feliz em vê-lo, mas a dúvida ainda permanecia martelando em sua cabeça. Sua boca se abrira, mas parecia que nenhuma palavra sairia... Até Jazmim apertar com força o corrimão da escada.
- Por onde esteve?
- Te procurando. – Joselo abriu os braços com a intenção de a garota correr e o abraçar com força, no entanto alguma coisa a bloqueava de fazer isso... – Quero você de volta, quero a minha Jazminzita de volta...
Os olhos de Jazmim brilhavam com uma expressão de esperança sem tamanha, em seu coração, embora alguns momentos na escuridão, dizia que seu Tio nunca abandonara... Que ele sempre procurou por ela, que havia sido um engano e que ele sofreu por isso. Um sorriso magnífico surgiu em seus lábios, e o gesto que saira de Bernardo que observava mais distante foi um suspiro longo que dizia a si mesmo que as coisas ficariam ainda mais difíceis.
Jazmim deu um passo para descer as enormes escadas, mas Camila se colocou em sua frente, segurando sua mão.
- Não vá Jazmim, ele só está aqui porque sabe que você vale dinheiro... Vai lhe vender novamente!
Jazmim engoliu seco... Não sabia o que fazer... Fitou seu Tio que tinha aquele mesmo sorriso simbólico de tantos anos e fitou Bernardo que a encarava com uma expressão severa. Estava divida entre a cruz e a espada, e de certo modo, ambas não a traziam uma certeza absoluta.
E meio a tantas indecisões e malícias, algo mais proporcional estava junto naquele momento no instante em que Jazmim colocou o pé para descer a escada. Era pesado e se tornava ainda maior se acontecesse o que passava na cabeça de Bernardo. Sua perna chegava a doer à medida que sua mão segurou o gatilho frio... Estava pronto para matar aquele homem se ousasse fazer mais do que devia, embora soubesse que Jazmim jamais o perdoaria se isso acontecesse. Mas se foi uma coisa que Bernardo aprendeu em sua vida, foi que é preciso fazer sacrifícios para se conseguir um bem maior.
Jazmim se afastou bruscamente de Camila, mas antes que pudesse descer as escadas sentiu o braço brusco lhe envolver a cintura, a puxando para o lado novamente. Ela se debateu, gritou, chorou... Mas nada que fizesse podia fazer Bernardo ter uma reação diferente. Ele a puxava friamente e parecia não pedir sua força, ou não ter percebido... Quando finalmente parou em frente à porta no final do corredor foi que levantou a garota pelos braços enquanto Jazmim esperneava e batia contra seu peito. Sentia ódio por confiar que aquele homem não a machucaria novamente, nunca iria o perdoar por aquilo...
- ME SOLTA PRECISO VER MEU TIO!
A cigana gritou com todas as forças, mas com o silêncio de Bernardo também veio suas ações insensíveis e corretas, digo assim.
Abriu a porta do quarto e jogou Jazmim na cama, indo em direção à saída logo em seguida. Parecia que ele já esperava aquelas palavras e de certo modo, já sabia a resposta que veio naturalmente...
- Você prometeu... Prometeu que nunca mais me machucaria de nenhuma forma... – Jazmim falou entre soluços.
- Eu sei. – Bernardo a fitou de canto. – E é assim que estou cumprindo minha promessa.
Bernardo saíra do quarto, trancando a porta logo em seguida. A cigana, não tendo escolhas e nem mais forças, apenas puxou o lençol com força para si enquanto deixara cair suas últimas lágrimas.
Bernardo sentia que precisava fazer aquilo, e estava com o sangue tão quente que opiniões são as que menos iriam importar. Atravessou o corredor em meio segundo, o suficiente para tirar sua arma da cintura e apontar para o homem cigano que fazia uma revolução lá em baixo. Com uma faca ameaçava os seguranças, no entanto não seria mais problema, ele já o tinha na mira.
Não foi algo planejado, foi apenas impensado. Assim como o ato farejador de se esquivar quando se sentem ameaçados, atacar na hora certa... Perigosos ciganos vingativos.
A bala do revólver de Bernardo atravessou seu casaco de seda vermelho, mas não sua pele como o comerciante gostaria. Bernardo encarou aqueles olhos, levantando a cabeça em direção ao topo da escada... As mãos de Joselo tremeram tanto que o homem quase entrou em convulsão. E ainda sim, antes que pudesse dar o próximo tiro, Joselo correra para fora fazendo Bernardo apenas ver o vulto do homem se atacar em meio às folhagens.
Camila ao ver que tudo tinha acabado caiu sentada, assim como Ana. Bernardo apenas deslizou a mão sobre o cabelo louro enquanto berrava consigo mesmo por pensamentos. Nunca havia errado um alvo tão fácil... Mas seria o pretendido? Seria uma escolha oculta? Quem sabe... Podia se esperar tudo de Bernardo Guilertina.
...
Bernardo desceu as escadas com a arma na cintura, abotoando a blusa de botão enquanto Ana o alcançara um casaco.
- Coloque seguranças.
O homem bateu a porta atrás de si e entrou no carro, seguindo em direção para casa.
No caminho pensou em tantas coisas que se seu coração havia, por milagre, descongelado, foi transformado em pedra. Desde quando havia virado tão fraco? Desde quando se importava tanto com uma garotinha a ponto de errar de propósito um alvo? E desde quando ele demonstrava sentimentos tão recíprocos? Fracos...
Abriu o porta-luvas do carro, tirando uma garrafa de uísque e bebendo com vontade. Largou o uísque e arrancou o carro, sentindo sua visão ficando embaçada cada vez mais. Ele suava e suas mãos não tinham mais controle, sentia vontade de correr, de gritar e matar um se pudesse... Mas ora... Ele podia, não?
O carro atravessou o portão e parou em frente a casa, de onde o homem desceu tonto já com a garrafa vazia na mão, e tropeçando nos próprios pés entrou na casa. Rebeca estava no sofá, deitada e lendo uma revista até ser despertada de sua atenção por Bernardo que deixara os objetos caírem.
- Bernardo! – Exclamou a mulher berrando. – Existem coisas que nunca mudam.
- Cala a boca. – Falou com dificuldade tentando subir as escadas, até ser segurado por Rebeca que o levou até o quarto.
Bernardo caiu sobre a cama fazendo no rosto de Rebeca surgir um sorriso malicioso, onde a mesma tirou a camisa de Bernardo revelando seus rígidos músculos.
- Se lembra quando a gente transava? – Perguntou a mulher no lóbulo de sua orelha.
- Você gemia como uma puta.
Bernardo gargalhou alto fazendo Rebeca tirar a blusa do corpo revelando um sutiã de renda com pequenos brilhantes cravados nas bordas. O que foi desmanchado em cinco segundos. Rebeca se deitou sobre Bernardo, deslizando a mão em direção ao membro quase rígido do louro... Arrancou o sutiã de seu próprio corpo, o que foi mais que o suficiente para Bernardo a puxar pelos cabelos com força. Prendeu Rebeca sobre a cama enquanto tirava a calça e a cueca, beijando seu corpo com fúria e tensidade. A mulher gemia a cada toque, fazendo a mão de Bernardo levantar sua saia social a pressionando com força. Parecia que Rebeca ainda não esquecera os anos que ficara com aquele homem... Anos de prazer e dor.
- É assim que eu gosto de ver você... Gritando por mim que nem uma vagabunda.
Colocou Rebeca de costas arrancando sua calcinha e abrindo suas pernas o máximo possível. A mulher mordeu os lábios inferiores, sentindo o membro de Bernardo a invadir com toda a força... Gritara de dor e prazer. Bernardo podia ser o máximo agressivo possível na cama, mas tinha o dom de enlouquecer as mulheres ao mesmo tempo. Rebeca conhecia muito bem esse dom, assim como as prostitutas. Querendo ou não, é raro mulheres assim desejarem um homem para transarem, normalmente evitam todos quando não há dinheiro envolvido. No entanto, com Bernardo não era assim... Se deitar com ele era como uma gratificação, ou reconhecimento de ser escolhida pelo homem mais poderoso do país, tirando fora os rumores de como ele tratava as mulheres na cama.
Bernardo puxava os cabelos de Rebeca com força enquanto a penetrava agressivamente fazendo a mulher soltar gritos e gemidos.
- Tá gostando sua puta? É isso que você queria não era?
Bernardo colocou Rebeca de frente para si, apoiando todo seu peso no corpo da mulher enquanto a invadira por trás novamente, levando seus dedos em direção à vagina de Rebeca que gritava para ser preenchida. Ele sabia disso e a penetrou com toda a força nos dois lugares fazendo a mulher se contorcer com uma dor estridente e prazerosa. O coração parecia sair do peito de Rebeca enquanto a mesma mordia os lábios inferiores...
- Goza em mim.
Bernardo sorriu com raiva segurando seu pescoço e após alguns segundos gozou. Rebeca apenas observou o homem desmaiar de bêbado ao seu lado enquanto a mulher caíra de exaustão. Suas pernas estavam bambas e por um segundo após tudo acontecer, sentiu ter Bernardo de volta.
Rebeca deitou ao seu lado, ficando observando atentamente aquela face bela e intrigante. Não tardou a dormir, pois o desejo que tomou Bernardo naquela noite talvez não fosse o mesmo que ele continuaria a ter de manhã, e se esse fosse o caso, teria que ir embora...
...
Já era noite e Ana não havia dormido. Apenas pelo fato de ter recebido aquela visita, ou melhor, invasão completamente inesperada já era o suficiente para lhe cortar algumas horas de sono. Circulava pela sala sem parar, caminhando de um lado pra outro observando cada misero detalhe que nunca analisou enquanto estava naquela sala. Ana parecia estar atenta, apreensiva... E o que finalmente a interrompeu de ter um surto de loucura foi a carta que lhe chegara por Camila que bateu na porta.
- É pra você Ana.
Ana deu um pulo da cadeira, pegou a carta da mão de Camila e voltou a sentar-se. Mas antes que pudesse abrir a carta lançou um olhar reprendedor a Camila que se encontrava ainda espiando na fresta da porta.
- Saia!
Camila sorriu torto e fechou a porta fazendo Ana abrir delicadamente. Leu com cuidado, não deixando escapar cada ponto e nem cada vírgula.
- Não creio... – Ana gargalhou, suspirando fundo. – Bom, já está feito...
Dessa vez ela pode dormir mais tranquila, com a consciência limpa, de certo modo.
...
Quando Jazmim acordou estava sendo levada de volta ao quarto, mas não conseguiu ver quem era, dormira a noite toda como nunca fez na vida, mas levantou cedo para ver o sol nascer como sempre fez.
Pensou em Alexander...
“ O que aconteceu com você? Se pelo menos eu conseguisse descobrir... Ter uma pista, qualquer coisa. Preciso de você e sei que precisa de mim. Tomara que esteja bem e a salvo...”
A luz não podia entrar onde era coberto... Já fazia mais de uma semana que não saia daquele cubículo de cela, mal conseguia ficar em pé... Seu corpo todo doía por causa das surras diárias, mas o pior de tudo era a esperança da liberdade que ia desaparecendo pouco a pouco. Em nenhum momento sequer deixou de pensar em Jazmim, a cigana de olhos azuis como o céu que o esperava em algum lugar do lado de fora. Era apenas por isso que ainda estava vivo, ela era a chama de seu coração que não se apagava tão facilmente, ela era a garota por quem tramava um desejo de fuga e até se arriscaria se necessários. Não se passou nenhum dia sequer, em que uma navalha não era empurrada por de baixo da porta com um adereço dizendo “acabe com esse sofrimento logo”. Não negou seus pensamentos, ele pensou em tal possibilidade, mas não iria transformar aquilo em um fato, não tão cedo.
...
Bernardo acordou com o sol em seu rosto, tentou se remexer e percebeu que Rebeca ainda estava ao seu lado. A empurrou e levantou da cama com a dor matinal na cabeça, havia bebido demais... Já era de se esperar.
Tomou dois remédios de cima da cômoda e caminhou até o banheiro olhando-se no espelho...
- Droga. – Sussurrou para si.
Foi em direção a porta onde gritou para Sandra subir. A empregada apareceu em menos de um minuto, com a expressão amigável de sempre.
- Prepare meu almoço.
- Sim senhor.
Sandra saiu as pressas enquanto Bernardo fitou rebeca em cima da cama e a empurrou para fora, fazendo a mulher acordar irritada.
- Saia daqui.
- DROGA BERNARDO! NÃO ME ACORDE MAIS ASSIM! – A mulher gritou fazendo Bernardo a segurar pelo braço.
- Olha como fala sua puta...
Bernardo a empurrou fazendo a mulher recolher as roupas rapidamente e ir em direção a porta.
- FODA-SE!
Bernardo sorriu com aquelas palavras e se virou em direção a Rebeca.
- Já fizemos isso.
A mulher saiu irritada, mas sem dizer uma única palavra, Bernardo, pelo contrário apesar da dor de cabeça, tomou um banho, almoçou e saiu, precisava fazer uma coisa que já havia adiado o bastante tempo.
...
A única diferença daquele dia, é que acordou com o rangido da porta e a luz que cegou seus olhos. Alexander levantou-se com dificuldade e saiu, podendo pela primeira vez levantar a cabeça. Empurrões o fizeram caminhar, era assim que funcionava naquele lugar. Alexander ouvia os gritos de tortura, os de deboche e os dos policiais o dizendo para caminhar logo. Mesmo que saísse daquele lugar antes da morte, iria ficar para sempre com essas vozes na cabeça, ordens infundadas...
Quando a porta cinza se abriu, a última pessoa que esperava ver era quem se encontrava sentado em sua frente. O general fardado o fitava sério enquanto Alexander se aproximava algemado sentando em sua frente.
Aquele olhar temido por muitos para Alexander não parecia nada, o encarava da mesma maneira, com a mesma superioridade... Ora que atrevimento! Pensava Bernardo. Chegava a ser irritante essa raça de ciganos que não se rendiam a nada e nem a ninguém. As mãos de Alexander estavam presas e mesmo assim olhava Bernardo como se o pudesse matar a qualquer momento. Bernardo sorriu, achou aquilo engraçado... Um garoto achando que podia com ele? Que piada! O matava ali mesmo sem arma alguma e com apenas um braço... De verdade, já o fizera antes, não era suposição.
Bernardo era como um caçador, tinha a inteligência na mente, a visão aguçada assim como o faro e o imenso prazer de atacar e matar. Era esse seu segredo, isso que Alexander não conhecia. Quando olhou Bernardo daquela forma não fazia ideia que estava lidando com um poderoso caçador... Mas ainda sim, mesmo sendo ingênuo, havia uma coisa persistindo em sua mente cigana, questionadora... Se Alexander era assim tão desprezível, se era apenas mais um fardo, porque ainda continuava vivo?
Sim, aquela visita trouxe mais respostas que o imaginado.
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