Cigana De Luxo!
15 Frieza
Notas iniciais
- Você? O que quer?
- Conversar.
Nada daquela olhar entregaria o real motivo da visita, pois o que parecia ser um sorriso agradável não passava de uma máscara sem faces.
- Sobre o que? – Alexander o encarou sério. – Sobre Jazmim? Eu já sei o que vai dizer...
- Não sabe. – Respondeu Bernardo ríspido. – Tudo o que sabe é o que sua vida miserável deixa você enxergar.
- Acha que porque não carrego uma arma e não mato pessoas sou cego à com o mundo?
- Acho que porque nunca ouviu uma arma engatilhar e nem uma pessoa ser morta, faz de você um cego. – Bernardo se ajeitou na cadeira discretamente fazendo Alexander ficar em silêncio.
Suspeitava de certa manipulação, mas as palavras que saiam de sua boca não encaixavam com essa suspeita. Alexander desistiu de analisar aquele homem complexo, simplesmente se deixou levar até o ponto.
- Você adivinhou... Ciganos... Pra vocês é fácil não é mesmo? – Bernardo sorriu torto, e antes que pudesse continuar Alexander o interrompeu.
- Não importa o que diga, não importa quem seja e nem o que faça. Nunca irei deixá-la.
Seus movimentos foram tão rápidos que Alexander nem viu a mão de Bernardo lhe puxando o cabelo, empurrando seu rosto em direção à mesa. Rangia os dentes enquanto as mãos presas com correntes não lhe davam forma de defesa e nem de fuga. Bernardo arrancou a arma da cintura e a engatilhou apontando para a cabeça de Alexander. O garoto sentiu o sangue ferver e um desespero lhe dominar o coração... E se tudo acabasse ali? E se nunca mais visse Jazmim? Se não houvesse mais uma volta para sua terra?
Enquanto pensamentos lhe domavam a mente, o medo de morrer que nunca pensara sentir foi mais forte diante das circunstâncias. As palavras de Bernardo chegaram a doer.
- Você não tem escolha. Ou vai embora vivo ou vai sair daqui morto, é simples. – Bernardo estava prestes a matá-lo, se não fossem seus futuros planos que o impediram. – Escolha...
A arma pressionou a cabeça do cigano a ponto de o mesmo sentir o gosto amargo da mesa de ferro. A mão se cerrou com raiva e não era novidade pensamentos assassinos invadirem a sua cabeça. A raiva que sentira daquele homem colocava sua dignidade em prova, e isso era o que temia, perdê-la.
- Eu nunca vou abandoná-la.
Alexander não conseguiu ver o sorriso estampado na face de Bernardo, pois ele só precisava disso, um pretexto para estourar a cabeça daquele moleque cigano.
- Ótima escolha!
O coração de Alexander, se pressionasse, era capaz de sair pela boca de tanto nervosismo. Suas mãos suavam e a única coisa calma e serena era seus olhos. Os policiais que fitavam a cena apenas gargalhavam enquanto Bernardo estava prestes a apertar o gatilho.
A espera pela morte durou cinco segundos, mas ela não chegou como imaginado. Na verdade, o que mais temia perder, antes que o imaginado, já estava nas mãos do homem em sua frente.
- Espera! Espera!
- O que?
- Eu, eu... Eu vou embora...
Bernardo separou a arma de sua cabeça, mas antes que Alexander pudesse respirar a arma lhe foi em direção ao meio do rosto, fazendo o garoto fitar o cano que estava prestes a lhe partir o rosto.
- Tarde demais.
Alexander gritou, mas tão pouco a dor veio como a morte, e sim um grande vazio desesperador enquanto fitava a face satisfeita de seu inimigo. O clique baixinho da arma descarregada foi a única coisa que ouvira, onde as balas deslizaram da mãos de Bernardo. Alexander levantou a cabeça com lágrimas nos olhos fazendo Bernardo se levantar a guardar e arma, carregada e travada.
Alexander não sabia o que sentia, mas era algo parecido com uma decepção própria, algo que só ele sabia como era sentir naquele momento.
- Levem ele.
O cigano foi levado novamente para a cela enquanto aguardou por dias até ser exportado.
...
O dia estava maravilhoso, os pássaros gorjeavam e nenhuma nuvem escondia o céu azul. A leve chuva que caíra de noite não dava sinal de voltar, e a manhã não podia ser desperdiçada... O que fez Camila acordar Jazmim.
- Vamos sair preguiçosa.
Camila abriu as cortinas fazendo a luz a cegar por alguns segundos. Jazmim levantou-se de imediato e colocou um vestido levinho, rosa.
- Aonde vamos?
- Sair, afinal, amanhã à noite você vai dançar.
- O que? – Os olhos da morena brilharam fazendo Camila sorrir.
- Quando Ana lhe contar, finja que não sabe.
As duas gargalharam e após alguns minutos arrumando o quarto, elas saíram em direção à mesma loja de livros, conhecida aos olhos da cigana. O sino pendurado na porta acionou o jovem que saíra de trás das prateleiras... Junto a um sorriso amigável.
- Olá cigana, quanto tempo?
- Um pouco. – Ela sorriu.
- Está convertendo Camila as leituras?
Não houve uma resposta retórica para aquela pergunta. Jazmim apenas observou quando Camila se aproximou do jovem, e assim ficaram conversando por um longo tempo. A cigana aproveitou e leu um livro inteiro, pois quando finalmente foram embora já era meio-dia. O segurança – exigido por Ana que acompanhasse Jazmim em qualquer lugar que fosse – estava esperando na porta.
- Você gosta dele, não é mesmo?
Camila chegou a parar de caminhar com aquela pergunta. Sua boca se abriu várias vezes, enquanto Jazmim ainda a fitava esperando uma resposta.
- É claro que não. – Camila passou por ela, andando rápido.
- Posso não saber muito sobre o amor, mas sei identificar quando duas pessoas se amam. – Jazmim falou enquanto tentava acompanhar os longos passos de Camila. A garota estava nervosa, e pararam na esquina, perto da casa.
- Prostitutas não podem amar Jazmim. Nem eu e nem você... O amor não faz parte de nossas vidas...
Foi difícil dizer aquilo, mas de certa forma, necessário. A cigana não acreditava naquilo, todos somos amados, todos amamos... Embora alguns não o mereçam, os tem mesmo assim, nem que seja uma vez na vida. A conversa sobre o amor acabou ali, e isso não interferiu de nenhum modo na relação das duas. Após almoçarem, sentadas no sofá confortavelmente, Camila contou um pouco de sua história.
- Nasci em uma pequena cidade, longe daqui. Eu cresci em vários lares diferentes porque meus pais me abandonaram com meses de vida... Acho que não tinham como criar um filho, não sei... Eu nem me lembro deles. – Camila sorriu tristemente fazendo Jazmim segurar sua mão. – Na minha última casa eu tinha onze anos, me obrigavam a trabalhar muito e eu mal dormia, mal me alimentava. Não era um lugar bom para se viver... Às vezes o padrasto chegava em casa bêbado e muito agressivo, e batia em mim. Não sinto ódio dele, sabe? Mas às vezes ainda dói. – Jazmim ouvia em silêncio a história de Camila, que deixava derramar lágrimas silenciosas mesmo que sem querer. – Eu fugi quando tinha treze anos, e na segunda noite que passei na rua, Ana me encontrou e me ajudou. Devo muito a ela Jazmim... Foi mãe que nunca tive.
Jazmim abraçou Camila, que recordando seu passado chorava em seu colo. Ficaram alguns minutos assim, em silêncio, onde apenas os soluços chorosos ecoavam pela casa.
...
Na entrada da cidade dois homens conversavam. As armas que portavam entregavam que era algo escondido, principalmente por a única coisa visível em volta era a estrada de areia. Um furgão acompanhava o carro de Bernardo enquanto uma van, parada do outro lado, recebia a mercadoria.
- Como sempre, sua contribuição foi de grande valor.
Bernardo nunca gostou daquele homem e nem de seu sorrisos amarelo, mas tinha que o suportar. Girou os olhos e esperou o dinheiro, deixando o resto das armas em grandes pacotes.
- Até o próximo mês.
O motorista arrancou o carro com a ordem de Bernardo, enquanto o homem apenas juntou as coisas e colocou na van, indo para o lado contrário logo em seguida.
No carro, Bernardo fitou o dinheiro, deslizando lentamente a mão sobre o queixo.
...
Na porta da mansão de Bernardo, estava Rebeca, andando em direção ao carro que Bernardo a deixara junto com um motorista. O mesmo abriu a porta pra ela, fazendo a mulher colocar os óculos e olhar-se no pequeno espelho de sua bolsa. Sorriu.
O carro arrancou, as mais diferentes pessoas eram vistas da janela, algumas eram “merecedoras” de seu olhar enquanto outras, ela nem respirava ao carro passar perto. Sua mãe nunca soube de onde Rebeca puxou esse ar hostil e malvado, e por isso brigavam frequentemente. A garota saiu de casa aos dezessete anos, foi morar com os tios até o pai arrumar um casamento arranjado. O resto, bom... Vocês já sabem.
Rebeca parou em algumas lojas, comprou coisas necessárias e passou pela casa de prostituição. Odiava aquele lugar... Bernardo sempre a deixava para frequentar lugares assim. Por mais que ela se esforçasse na cama ele sempre procurava algo novo... Isso a deixava com ódio. Seria capaz de queimar aquela casa com todas as mulheres dentro.
Ficou meia hora planejando assassinatos em sua cabeça doentia. Se livrando delas talvez tudo voltasse a ser como era antes.
Quando finalmente deu sinal para o motorista ir embora, pois já estava quase dormindo, fitou algo demasiado interessante. Um sorriso esclarecedor tomou conta de sua face, era apenas isto que precisava.
Em frente à casa, sendo impedido pelos seguranças de entrar, estava ele... Um cigano. Murros lhe deixaram a face sangrando, onde Joselo corria para o lado contrário antes de ser agredido novamente. O carro andara devagar ao seu lado, e quando a janela foi abaixada, os pensamentos ousados de Rebeca foi o que menos importou. Joselo parou, e girando os calcanhares encarou aquela face de sorriso venenoso. Sentira o perigo evidente, mas não recuou.
- Quem é você?
- Uma amiga. – Disse a mulher.
- Não tenho amigos aqui. – Respondeu o cigano defensivo. Recuando devagar.
- Creio que podemos ser bons amigos, se me disser por que está aqui...
Joselo pensou, analisou, e embora achasse um equívoco alguma coisa o dizia que seus interesses e o daquela fina mulher não eram tão, tão distantes. Por fim, decidiu contar, mantendo certa descrição.
- Vim aqui por minha sobrinha...
Não foi planejado, simplesmente aconteceu, era o destino. Cruel, mas ele existe.
...
A casa não estava mais silenciosa como antes, as garotas havia chegado tomado conta da sala mostrando o resultado de uma tarde inteira de compras. Indiferente, uma cigana com olhos atentos fitava discretamente as pulseiras que sua mãe havia lhe deixado, suspirava tristemente, em nenhum momento esqueceu-se daquele sorriso materno. Como sentia falta de seus carinhos e de suas canções à noite.
Sentada ao lado das mulheres que exibiam roupas, a garota escondeu suas riquezas e retirou o livro de suas coleções: “Nietzsche”. Jazmim sempre foi uma devoradora de livros, e mesmo lendo alguns que contrariavam ou que iam completamente contra sua cultura, tudo o que vinha de conhecimento era valido.
Porém, sua atenção foi interrompida por gritos histéricos a uma garota anunciar com o rosto grudado na janela de vidro:
- BERNARDO GUILERTINA ESTÁ AQUI!
As garotas correram desesperadas de um lado pra outro, arrumando-se ou se acomodando no sofá de forma exibicionista. No começo, apenas três garotos o cercaram à ele entrar pela porta, tirando seu casaco e seu chapéu, logo depois vieram mais duas e a assim sucessivamente. Bernardo adorava toda aquela atenção, embora já tivesse se acostumado com isso. Se dissesse que aquela visita foi igual às outras, como sempre fez ao longo dos anos, estaria mentindo... Pois seus olhos não tardaram a fitar a garota cigana que desarrumada, e descontraída tinha seus olhos somente ao livro em suas mãos. Bernardo se surpreendeu, nem sabia que ela lia.
Andou um pouco e sentou-se em sua frente rodeado de garotas, mas de quem realmente queria ter despertado toda essa atenção, absolutamente nada. Nem um olá, nem um olhar “sem querer”, nem mesmo um movimento nervoso. A cigana não se interessava, e parecia não se importar com sua presença. ORA! COMO ELA PODIA O TRATAR DAQUELA MANEIRA?
Seus pensamentos gritaram. Mas foi então que se recordou... Ele havia lhe trancado no quarto a uma noite atrás, o impedindo de ver seu tio. Ela só podia estar magoada, era isso! – Pensou ele.
Felizmente sabia como tratar mulheres, sabia como conquistar sua confiança. No entanto, Bernardo não sabia que tampouco Jazmim era diferente como nunca confiou em ninguém. Principalmente agora, já que a única pessoa que jurou no túmulo de seus pais que a protegeria, abandonou-a sem piedade. Estava com raiva do mundo, e com isso, a frieza pura tomou conta de seu coração.
- Saiam.
As garotas que o rodeavam levantaram-se desanimadas, subindo as escadas tristemente. A única que permaneceu imóvel, com nenhuma expressão ativa no rosto foi Jazmim. Mesmo como um anjo de gelo, ela era o ser mais lindo que ele já vira.
- Gosta de Nietzsche? – Ela não respondeu, o que fez Bernardo continuar. – Ele é fascinantemente criticado, mas tão pouco entendido.
- As ideias “desmascaradoras” dele são bem claras pra mim. – Respondeu a cigana sem tirar o livro dos olhos.
- Concorda com suas ideias?
- Algumas.
A mão de Bernardo lhe puxou o livro para baixo, impedindo Jazmim de terminar a leitura. Bernardo fechou o livro e o colocou em cima da cômoda.
- Sei que está magoada, mas não se torture com isso.
A cigana que tinha o olhar baixo ergueu a cabeça seriamente.
- Não estou incomodada, o senhor está?
Aquelas palavras saíram de forma debochada, e Bernardo odiou aquilo, respirando fundo.
- Não me teste menina. Pra mim você não é diferente a nenhuma puta desta casa...
- E pra mim, o senhor não é diferente de todos os tiranos que conheci.
Como ele podia permitir que ela chegasse a tanto? Como pode deixar as coisas se elevarem deste modo? Se uma prostitua não o respeitassem quem mais iria?
Perguntas o incomodavam, tanto na mente como no coração. O homem de olhar frio cerrou o punho, mas antes que fosse a agredir, segurou seu pescoço com uma mão, a prensando contra o sofá. Os olhar frio de Jazmim se converteu para o medo, mesmo não sendo muito evidente em sua face... Bernardo a olhou nos olhos.
- Não tem ideia do que posso ser ou fazer. – Bernardo fitou dos pés a cabeça aquele corpo frágil e puro, que só ele havia sentido mais de perto. Sorriu maliciosamente. – Não vai demorar.
A cigana fitou aquele olhar severo, nem que fosse por cinco segundos, queria ver se diziam a verdade.
- Essa raça cigana só precisa ser corrigida, e está perto de isso acontecer. – Bernardo mordeu os lábios inferiores de raiva. – Fui visitar seu amiguinho hoje...
A face esperançosa de Jazmim dava pena, mas não a ele. Sentia gosto em dizer que eles nunca mais se veriam. Afinal, não seria diferente mesmo se Alexander não tivesse sido capturado.
- Esqueça-se dele, pois garanto a você que ele já te esqueceu.
- Não acredito!
Jazmim aumentou a voz e foi o suficiente para Bernardo cerrar ainda mais a mão, enquanto batera fortemente com a outra ao lado de seu rosto. Jazmim levou as duas mãos ao braço de Bernardo, tentando o afastar de si. Inútil.
- E por que não acredita? – Perguntou com raiva, fazendo Jazmim abrir os olhos azuis.
- Não é um homem de palavra.
Aquela frase saiu fraca mais nada que pudesse passar despercebida a seus ouvidos...
“ – Promete que nunca mais vai me machucar?
- Eu prometo!”
Sim, ele havia prometido. Mas por quê? Nem mesmo ele sabia responder. Não sabendo o que dizer, não sabendo o que fazer, ou lhe faltando astúcia para tal ato. Levantou-se, largando a cigana e indo em direção a porta. Colocou o casaco e levou o chapéu a cabeça... Fitou o sofá por meio segundo... Deixando mais uma vez o motivo de suas loucuras viver. Como podia ser tão fraco?
- DIABOS! ARGH!
Saiu esbravejando em direção ao carro.
Subindo as escadas, a cigana toma um banho e vai deitar, onde dormira pensando no que Bernardo lhe disse. Minha deusa! Ele estaria morto? – Se perguntava Jazmim.
Sentia-se mais uma vez sozinha e abandonada, mesmo com Camila ao seu lado há alguns minutos dizendo para esquecer e que tudo iria ficar bem. Não era a mesma coisa. Camila não era uma cigana, não conhecia a fé de seu povo... Nesse momento, isto era a única coisa que a cigana desejava: Conseguir ter fé.
Muito mais do que perguntas lhe apareceram àquela noite, provavelmente respostas, manifestando-se junto aos terrores noturnos. Fazia algum tempo que não havia dito pensamentos como aqueles. Mal fechou os olhos para o pesadelo começar... Sim, era com Alexander.
"Corria pela enorme floresta de árvores imensas, barro, onde o sol não conseguia alcançar. Fugia de alguém, enquanto seus sapatos brancos afundavam na lama a cada passo, estava perdida, não sabia em que direção ia. Parecia estar sendo caçada, conseguia ouvir tiros estridentes, estava com medo, sentia o medo lhe percorrer as veias. Caiu, levantou... Continuou correndo até visualizar aquela imagem sorrindo de longe. Estava salva! Era Alexander... Havia encontrado seu porto-seguro... Mesmo não conseguindo ver quem estava atrás de si. Corria com todas as forças em direção a ele... Mas por que parecia estar cada vez mais longe? Ele não se movia, cada vez mais o ver se tornava difícil... Por que estava indo embora? Por que a abandonava desta maneira? NÃO ME DEIXE! – Gritou. A voz não saia, não conseguia pedir ajuda, não conseguia ser salva. Lentamente... Caiu na escuridão."
- ACORDE JAZMIM! ACORDE!
A cigana abriu os olhos, com a respiração presa saltou da cama. Em sua frente, Camila a olhava tremendo de frio.
- O que aconteceu?
- Estava gritando, tive que te acordar... – Camila voltou a se deitar.
- Tive um pesadelo...
Foi difícil dormir o resto da noite, mas ela conseguiu... Não houve mais nenhum terror noturno e nem sequer um pesadelo, a única coisa diferente, foi que não acordou cedo como das outras vezes. Estava mais cansada que o costume, pois quando abriu os olhos, já era quase meio-dia.
...
Quem levantara cedo naquele dia foi Ana. Não eram nem oito horas quando saiu de casa, o caminho não era tão longo até a casa de um velho amigo. Inevitável, eles precisavam conversar.
Não vou contar aqui o que disseram o que discutiram, como aconteceram as risadas e as brigas, a conversa séria... Perderia o mistério, perderia a graça da história e o envolvimento. Não era um assunto fácil, mas também não se tratava de uma morte. Apenas de um futuro...
...
- Até que enfim levantou preguiçosa!
Mais uma vez, Camila pulava em sua cama fazendo Jazmim girar os olhos.
- Por quê?
- Vamos sair.
Com o pouco tempo que passaram juntas, a cigana conhecia aquele sorriso bobo, enigmático... Teve que perguntar...
- Vamos na livraria novamente? – Sorriu recebendo um olhar repreendedor de Camila.
- Não. – Mostrou a língua.
- Então...?
- Temos que comprar sua roupa, hoje é a grande noite.
Desejava não ter que ouvir isso, pois mais uma vez teria que entrar em lojas chatas e comprar coisas que não teriam nada haver com o poder cigano dentro de si. Sorriu desanimada.
- Ei! Você vai dançar, pode escolher a roupa que quiser...
Seu humor automaticamente mudou, é claro. A cigana soltou o longo cabelo e depressa, colocou o sapato.
- Então vamos logo.
Entre as risadas de Camila, a mesma se aproximou discretamente, tocando em um assunto necessário e absurdo para Jazmim.
- Amiga, só uma dica... Tem que parecer sensual, tem que saber seduzir...
Jazmim a encarou estupefaça... Como assim “tem que saber seduzir”? Ciganos seduzem por natureza, é a dança da sedução, do equilíbrio, da beleza... Camila estava ficando louca? É claro que Jazmim não disse nada, apenas concordou com a cabeça, enquanto em seus pensamentos queria gritar “Irão ver o que é seduzir”.
Saíram pela porta acompanhadas do segurança em direção as lojas. Antes das compras, Camila deu uma passada na livraria para a felicidade de Jazmim que tinha certeza que a amiga estava nutrindo um sentimento especial pelo garoto que lá trabalhava. Mesmo as palavras que saíram da própria boca de Camila serem reais, achava que lutar por amor não era e nunca iria ser uma causa perdida ou insignificante... Afinal, era o amor, o sentimento mais lindo que todos os outros.
Distraiu-se, atravessou a rua fitando uma menina sentada no chão pedindo esmolas. Jazmim tirou das vestes três moedas e a deu, fazendo a garota agradecer com um meio sorriso. Sentiu um aperto no coração... Viu-se sendo aquela menina... Como acabaria? Desejava que o destino daquela criança fosse melhor que o que foi designado a ela. Jazmim, mesmo depois de tanto tempo, ainda ouvia a voz da mãe cigana, dizia: “Seu destino está além de seu povo”. A velha sempre esteve certa.
Com lágrimas nos olhos esperou os carros passarem, e de longe fitou o segurança distraído em uma barraca de troca-troca, estava sozinha, mas não era mais possível fugir... O que pensaria algumas semanas atrás. Respirou fundo, mas antes que pudesse atravessar a rua, uma mão grossa agarrou-lhe seu pulso, com força a puxando para trás. As lágrimas que não caíram de seus olhos sumiram, evaporaram. Seu sangue ferveu, e em menos de um segundo que o fitara, todos os seus sentimentos deram lugar a frieza e ao ódio. As perguntas que lhe assombraram por todas as noites ainda não estava esclarecidas, e só ele sabia as respostas...
A cigana o encarou com o coração acelerado, mesmo não demonstrando. Estava a ponto de saber toda a verdade, mesmo sabendo que poderia não suportar. As esperanças? De certa forma as havia perdido, mas nunca completamente... Elas poderiam serem restauradas se dos lábios de Joselo saíssem que ele nunca a vendeu, que todo esse tempo procurou por ela... Mas apenas se enxergasse em seus olhos tal verdade.
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