VENDIDA?

- Por que está com medo Jazmim? Sou eu, seu Tio...

Aqueles olhos azuis assustados o olhava como se ele fosse um desconhecido, pois na verdade, havia se tornado diante de seus olhos.

- Não estou com medo do senhor, apenas não sei mais quem é.

Seus olhos se encheram de lágrimas, não queria mais passar por isso, não queria mais se decepcionar. Guardara tanto rancor e sofrimento em seu coração que o mesmo já machucado se transformara em um poço de desilusões... Chorava, pois tudo o que quis encontrar naquele olhar, não passou nem perto da verdade.

- Sou seu Tio Jazminzita! Por favor, venha comigo, vamos embora!

- O que aconteceu naquele dia? É verdade que o senhor me vendeu? – Joselo abaixou a cabeça, ficou em silêncio, enquanto a garota o fitava escondendo as lágrimas. – É verdade?

- Não. – O cigano acariciou seu rosto a fazendo recuar. – Foi um mal entendido aquele dia, eles estão fazendo sua cabeça querida...

- Sabe o que eu passei? – Jazmim mordeu os lábios inferiores, deixando algumas lágrimas caírem. – Sabe quantas noites eu chorei? Tem ideia de o quanto eu sofri sabendo que tinha me abandonado? De quanto pensei que viria me procurar?

- Eu sinto muito pequena... Você é a minha princesa, eu te amo... Podemos recomeçar!

A cigana se afastou bruscamente. Esperou tanto por esse momento... Então porque agora não conseguia acreditar? Por que não era fácil como antes? Seu coração não lhe dava confiança, era isso. E se o que Camila disse fosse certo? E se Joselo a vendesse novamente? Não suportaria passar por tudo de novo.

Joselo a abraçou com força, a garota sentira seu coração repeli-lo, por quê? Foi então que uma imagem invadiu sua cabeça, uma lembrança na verdade. Aquele homem louro de braços fortes a prendera com força enquanto acariciava seus cabelos, sentiu saudades daquela proteção imensa... Afinal, isso era loucura? Porque pensara daquela forma? Um homem sanguinário que só pensava em si mesmo podia ter um espaço em seu coração?

Jazmim soltou-se do abraço de seu tio, recuando alguns passos.

- Não posso. Desculpa mas não posso...

- Por que não pode? – Joselo respirou fundo.

- Nunca confie em ninguém, principalmente naqueles que um dia tentaram lhe tirar sua dignidade. – Jazmim falou entre lágrimas, fazendo Joselo engolir seco. – Lembra-se dessas palavras? O senhor me ensinou...

- Jazmim, querida...

Joselo tentou se aproximar, tentou tocá-la, mas a garota se afastou bruscamente, com tristeza no olhar e raiva nas palavras.

- NÃO ME TOQUE!

Jazmim suspirou, tentou se manter calma, mas era como pedir a um cristão para não ter fé.

- Não posso seguir me enganando Tio, desculpe, o senhor me vendeu... E a partir de agora o meu destino está longe de meu povo. – Jazmim sorriu de lado, tristemente. – Não me procure mais.

- Não vai conseguir se livrar de mim!

A cigana se afastou, caminhando em direção ao lado contrário. As mãos de Joselo tentaram impedir sua passagem, porém seu grito foi mais alto, despertando a atenção do segurança. Joselo fugiu novamente, mas com uma ambição cruel na cabeça, algo que teria consequências horríveis em sua própria vida, e a todos aqueles que participassem dela.

- O que a mãe cigana disse se cumpriu ao final de contas...

Um sorriso indescritível tomou conta de seus lábios, lembrava-se daquele momento.

- O que?

Camila apareceu ao seu lado fazendo a cigana balançar a cabeça negativamente como se dissesse “nada”, e entrar na loja com ela.

...

A beleza estava presente em cada canto daquela loja, era diferente do que Jazmim vira em várias outras. Cada peça transmitia um segredo diferente, como se gritassem para serem revelados. Vestidos, saias, blusas, casacos... Naquele novo lugar havia tantas roupas que, sem exagerar, era possível se perder por elas.

- O que aconteceu lá fora?

Jazmim desviou o olhar, mas Camila ainda queria uma resposta.

- Meu tio... – A cigana gaguejou, ainda estava triste o suficiente para não conseguir falar sobre isso. – Não quero falar sobre aquilo.

Camila entortou a boca, enquanto Jazmim disfarçava vendo algumas roupas.

- O que ele disse Jazmim?

- A questão não foi o que ele disse Camila e sim o que eu disse!

A cigana aumentou a voz, sentindo seus olhos se enxerem de lágrimas novamente, estava se tornando simples chorar, mas não era e nunca foi. O problema era apenas o motivo, havia negado quem sempre esperou aparecer.

- Eu... Eu disse pra ele que... Que não era pra me procurar mais. – Jazmim limpou uma lágrima teimosa, soluçando baixinho. – Entende o que eu fiz? Eu, eu abandonei tudo o que me podia fazer feliz novamente!

- Você pode ser feliz aqui. Todos podemos construir nossa própria felicidade!

Jazmim balançou a cabeça negativamente, o que sentia estava longe de ser uma aceitação, embora as palavras que saíram de sua boca sejam completamente diferentes.

- Não importa... Olha pra mim Camila, eu sou uma idiota não faço parte do seu mundo. Nunca vou me encaixar.

- Você é especial Jazmim... Não é como eu, não é como as garotas que estão lá. Tem algo de diferente em você, uma luz própria. – Camila tocou em seus cabelos pretos, agora levemente ondulados. – Esqueça o passado, busque sua própria felicidade.

Jazmim não sabia se aquelas palavras eram certas, mas de certa forma se sentiu bem com elas. Não que fosse capaz de esquecer o seu passado, mas tentaria recomeçar uma nova vida.

Camila a abraçou com força, fazendo as duas sorrirem, onde o momento e a atenção de ambas foram desviados por um lindo vestido vermelho pendurado atrás de alguns casacos pretos. Não foi possível visualizar outra coisa da loja, aquele vestido era perfeito.

- Encontramos.

Jazmim sorriu junto com Camila, onde após comprar as duas foram pra casa.

...

Na mansão distante da cidade, Bernardo tomou o ultimo gole de Rum, colocou o casaco cinza e deslizou a mão sobre o cabelo. O espelho refletia seus olhos verdes de volta para si, o dando a impressão, ou melhor, a expressão de seus próprios deveres. Aquele homem tinha o mundo nas mãos e mesmo assim ainda não parecia o suficiente. Queria expandir, era político sem ao menos participar da política... Transformar o mundo, nem que a guerra fosse à solução.

Pegou a maleta sobre a cama e saiu, descendo as escadas em direção à porta. Rebeca o observou com o canto dos olhos, devagar, tirando a revista da frente do rosto.

- Aonde vai?

Mordeu os lábios inferiores, esperando uma resposta convincente de Bernardo. O homem, pelo contrário, lançou-lhe um olhar severo, levando a mão em direção à maçaneta da porta.

- Não te interessa.

Antes que a porta pudesse ser aberta, Rebeca deu um pulo do sofá, largando a revista sobre o mesmo e indo em direção a Bernardo. Sua mão desceu sobre seu peito, seus lábios atingiram o lóbulo da orelha do louro... a beijando.

- Fica comigo! – Sussurrou.

Bernardo abriu a porta e se afastou, mas a boca de Rebeca fez mais coisas naquele dia. Soltou palavras erradas.

- Vai ir ver aquela vadia não vai? Nunca vai poder ficar com ela... – Rebeca se enfureceu, cuspindo palavras. – NÃO PERCEBE O QUE AQUELA PUTA ESTÁ FAZENDO COM VOCÊ?

A mão de Bernardo lhe atingiu o rosto antes que pudesse dizer mais uma palavra ofensiva. Sentia tanto ódio daquela mulher que se tivesse um revólver carregado em seu bolso, agora mesmo a teria matado. Rebeca o olhou com ódio, recebendo outra tapa mais forte sobre a face. O homem simplesmente não a olhou, mas antes que saísse ouviu os soluços de Rebeca.

- Nunca mais... – Cerrou os dentes. – É meu último aviso.

A porta bateu em sua frente após Bernardo sair, fazendo Rebeca levantar o rosto e bufar de raiva.

- Vai se arrepender!

Entre gritos de raiva Rebeca subiu as escadas gritando pelo nome da empregada.

...

Entrando na casa, Jazmim subiu as escadas correndo, enquanto Camila de atrás quase entrava se rastejando. A falta de pressa, mesmo que parecendo inevitável, fez Camila ouvir vozes que não deveria, mas que antes de tudo revelou muitas coisas.

Seus passos foram apressados, e à medida que parou atrás da porta – no escritório de Ana – escutou o que seria a notícia mais dolorosa a ser dada. Desesperou-se, como após todos os desabafos iria dizer aquilo? Às vezes nada pode ser planejado, existem momentos que temos que deixar acontecer, e escolhas que apenas devemos seguir com o coração. Não se pode controlar o destino, nem uma parte dele. Não se pode querer mudar tudo, consertar apenas para a vida acontecer como queremos. O que pode acontecer em nosso futuro é inevitável, certo ou errado, vai vir para se tornar inesquecível.

- Não pode ser... – Camila correu para cima.

Pensou muitas vezes antes de entrar no quarto, pensou no que ia dizer, se ia contar alguma coisa. Pensou nas consequências, imaginou o quão importante era contar aquilo naquele momento, mas principalmente, se seria justo não contar. Segredos que não são nossos... É justo ficarmos com eles?

...

A porta foi aberta, e no quarto Jazmim dançava. Camila ficou em silêncio a observando com um sorriso, até o último passo ser dado. Um estalar de palmas se estenderem pelo dormitório.

- Nossa! Não sabia que dançava assim. Pensei que só sabia dançar flamenco.

- Está no meu sangue!

As duas sorriram, porém o sorriso de Camila desmanchou-se cedo demais.

- O que houve?

Camila respirou fundo, sentou-se na cama e olhou bem no fundo dos olhos da amiga. Suas mãos suavam, o que fez Jazmim sentar ao seu lado.

- Me conta... Você tá bem? Está...

- Jazmim! – Camila a interrompeu, fechou os olhos e deixou as palavras saírem naturalmente, o menos doloroso possível. – Você foi vendida... Virão te buscar amanhã!

A cigana sentiu seu coração acelerar, tremores lhe tomaram as mãos... Vendida? Tão rápido, nem foi avisada... Isso não podia acontecer... Não queria acreditar. Eram coisas ruins de mais em apenas um dia.

- Não! – Levantou-se. – Isso não pode acontecer... Não agora!

- Queria poder te dizer que sim, mas... Não há mais volta. Ele vai vir amanhã de manhã!

Jazmim levou as duas mãos à boca em um ato desesperado, caminhou de um lado pra outro, tentou se manter calma mas era quase impossível. Camila a segurou antes que a garota desmoronasse.

- Tem que manter a calma. – Camila a olhou de forma séria, confiante. – Se concentre na dança... Tudo bem?

A morena concordou com a cabeça, e assim, descarregou toda a energia que possuía presa dentro do corpo em sua própria dança.

...

O vestido vermelho lhe era colado na cintura, soltando-se nos quadris e estendendo-se até o joelho. Um decote lhe deixava extremamente sexy, onde seu cabelo ondulado solto até a cintura deixava em destaque as belas curvas na moça que se transformara em mulher. As pulseiras de sua mãe estavam em seus pulsos naquela noite, o que deixou tudo se mais especial... Era a primeira vez que as usava em público.

A música sempre fez parte de sua vida, sempre lhe preencheu a alma mesmo que o mais humilhante vazio tomava seu peito. O lugar era tomado pelas mais diferentes pessoas, todas das mais altas classes, não deixando de lado os bêbados e pequenos compradores.

Quando o lugar ficou escuro, e apenas o palco se iluminou todos pararam para ver quem iria dar de trás das curiosas cortinas. É claro que Bernardo estava lá, sempre de longe, com os olhos atentos... Rodeado de pessoas, prestes a ver o que em seus sonhos secretos sempre pensou testemunhar.

Uma palma. Foi o que fez a música lenta começar, música cigana. Leves cochichos se estenderam... Como podem deixar tocar uma música selvagem em um lugar luxuoso? Porém o que surgiu quando as cortinas subiram, excitou todas as mais selvagens e reprimidas almas daquele lugar egoísta. Bernardo levantou-se, enquanto seus olhos viam no palco, uma garota que dançava por entre sombras.

Surgiu completamente o ser mais belo já visto, dançando flamenco, ingênuo, calmo... Pouco. Uma última palma fez a música acelerar, uma volta rápida fez uma parte de seu vestido ser arrancado e lançado longe, deixando suas pernas nuas, sexy. A dança se transformou em algo sedutor... Mas não havia mudado... Ciganas sempre enfeitiçavam.

Gritos, aplausos, champanhes estourando, eram apenas dez por centro o que se via ali. O mais inimaginável, se ouso dizer, era que cada gesto provocante e cada olhar sedutor iam em direção à apenas um homem. O mesmo que a olhara com um desejo sem igual. Ela o estava provocando. Ele percebeu... Sorriu. “Você é minha, pensou.”


O vestido foi rasgado na cintura, rebolando, batendo palmas... Homens foram ao delírio, Ana gargalhava observando o que havia perdido, um tesouro. Bêbados abandonavam acompanhantes e se aproximando do palco, mas a pergunta ainda persistia em cada gesto da cigana... Quem a havia comprado? Seus olhos fitavam cada face deplorável, até das mais maliciosas... Por incrível, por ironia, por insistência de seu coração, só desejava que um homem a levasse para casa naquela noite. Sua proteção.

Era o poder de sedução dos ciganos que a fizeram dançar como nunca havia dançado naquela noite. Jazmim se sentia aliviada por tudo ter passado, por não ter errado, embora seus olhos não conseguiam mirar outro alguém... Sentia-se presa.

Apenas uma hora depois apareceu ao publico novamente. Esperava que viesse até ela o homem que a comprou, esperava que ao menos se pronunciasse... Mas nada aconteceu naquele momento. Quem esperava não moveu-se de seu lugar, e mesmo que estivesse aliviada por não ter que enfrentar tudo naquela noite, a dúvida ainda confrontava seu coração.

- Cigana!

De quem era aquela voz? Através da cortina via Bernardo, sentado tomando uma garrafa de champanhe. Camila e Ana conversavam com o Dr Fred – Médico famoso por partos de sucesso — já tentara comprar Camila, mas isso não importa naquele momento. Sentia medo, pois não estranhava aquela voz, já havia a ouvido em algum lugar.

A mão áspera e grossa lhe tocou o ombro nu, fazendo Jazmim girar os calcanhares, e lentamente, fitar o rosto para quem acreditava ter sido vendida. Não houve só decepção, houve repuno, medo, aflição... Aquele rosto a transmitia nojo.

- Não toque em mim!

Notas finais
Gente espero que gostem. O próximo capitulo vai ser MUITOOOOOO especial! Bjs