Cigana De Luxo!
13 Promessa
Notas iniciais
Já estava quase amanhecendo. Os soluços chorosos de uma garota ecoavam por toda a casa após adentrar pela porta correndo. Subiu as escadas que pareciam nunca ter fim, enquanto o rosto estressado de uma mulher berrou da ponta da escada:
– PRECISA ACEITAR A REALIDADE MENINA! VOCÊ É UMA PROSTITUTA COMO TODAS AS OUTRAS!
É claro que Ana estava estressada, resultado de uma noite em claro... Normalmente ela não falaria assim, mas estava tão alterada que isso foi o que menos importou. Pensou em falar com Camila, mas lembrou-se que a garota estava em um programa com um vendedor. Ana acendeu um cigarro e sentou-se no sofá, enquanto no mesmo instante Bernardo adentrara pela porta, sozinho.
...
Não, ela não conseguia aceitar. Ser vendida de novo era demais pra ela, não iria suportar aquilo das formas que viriam. Qualquer coisa naquele momento, na cabeça na cigana, se encontrava tão instável que ela podia explodir facilmente... Afinal, é do sangue cigano possuir a alma mais dura que uma pedra e mais frágil que uma flor.
No entanto não eram motivos bobos. Jazmim enquanto chorava se olhava no espelho ao lado e tentava entender em que estava se transformando. Surgiam perguntas agonizantes em sua cabeça como “em que estou me tornando?”, “Por que estou vestida assim?”... Eram perguntas tristes, raivosas, sufocantes...
Jazmim não conseguia parar de chorar um segundo sequer, quando a primeira lágrima cai, ela não tem forças para controlar as outras... Nunca teve.
Após ver sua imagem refletida mais uma vez no espelho de parede, levantou-se, caminhando em direção ao mesmo enquanto seus olhos cheios de lágrimas pareciam embaçar sua vista. Observou seu rosto, a maquiagem borrada pelas lágrimas não conseguia estragar o que de tão belo possuía. Mas Jazmim não se sentia assim... Na verdade sentia ódio de si mesma, raiva por estar vestida daquela maneira, sentia vontade de gritar até suas cordas vocais explodirem, mas a única solução que encontrou, foi quando fitou o seu lindo vestido vermelho. Deslizou a mão entre o tecido, e encarou-se como se dissesse a si mesma que era forte o suficiente para fazer qualquer coisa...
Segurou com força o tecido vermelho e com um puxão arrancou sua borda. Soltando um grito estridente que feriu sua garganta Jazmim rasgara todo o vestido, jogando o caos da luxúria pra fora e tudo o que a obrigou a ser o que não era. No final, caiu ao chão novamente sentindo seu coração tão partido e tão devastado que teve forças para chorar novamente quase um rio de lágrimas.
A porta atrás de si foi aberta, mas ela não queria ver ninguém naquele momento, Camila provavelmente a faria milhões de perguntas e o que ela menos queria era escutar que tinha que aceitar o que estava sendo imposto a ela.
– Me deixa sozinha Camila, não quero conversar agora.
Percebeu um silêncio estranho ainda mais por sentir que ainda não estava sozinha. Ouviu a porta batendo novamente, mas não era o que esperava ser. Camila não ficaria em silêncio por muito tempo.
Os olhos da cigana se arregalaram àquela imagem séria, fria e de certa forma triste aparecer em sua frente. Suas mãos estavam geladas, e dessa vez, ela não recuou ao vê-lo tocar sua face. Bernardo estava a fitando de forma sem explicação, e ouso dizer que o aconteceu, estava longe de haver qualquer sinal que acontecesse. Foi algo momentâneo sim, pois ninguém julgaria, ninguém desprezaria e nem colocaria opiniões, foi um momento apenas para os dois.
Jazmim o abraçou com força enquanto Bernardo não êxito, nem por um momento, a recebê-la em seus braços. Acariciou os cabelos negros da garota enquanto Jazmim molhara sua calça com lágrimas... Era como ver o anjo nos braços do demônio.
Quando choro cessou por alguns minutos, Bernardo a separou de seu colo, fazendo a garota ficar ajoelhada em sua frente... Fitando aqueles olhos azuis, que escondiam dor e sofrimento. Bernardo não queria vê-la daquela maneira, embora sua cabeça gritasse que foi ele quem atirou a primeira pedra. A cigana abaixou a cabeça, tentando esconder os olhos inchados fazendo Bernardo erguer seu queixo.
– O silêncio nunca é bom quando algo machuca.
Jazmim fitou a face de Bernardo, agora serena como nunca havia visto.
– Você me machuca, por isso prefiro o silêncio.
Aquelas palavras pegaram Bernardo de surpresa. Ele não negava a si mesmo que já tivesse machucado aquela menina de várias formas, mas as lágrimas daquele momento na pareciam pra ele. Ninguém nunca chorou por ele...
– Conte-me!
Era certo? Possível? Perguntas que surgiram e que ela só tratou de responder a si mesma em seus pensamentos.
– É como se tudo estivesse desmoronando sobre a minha cabeça e eu não conseguisse segurar... Sabe Bernardo, eu desejei por tanto tempo sentir a liberdade, viver feliz, viver bem. – Jazmim sorriu com lágrimas nos olhos enquanto Bernardo prestava atenção em cada palavra, em cada gesto, em cada expressão daquela menina. – Sempre imaginei o meu futuro crescendo ao lado de meus pais, com eles me ensinando o valor da vida e de como é bom ser feliz... Via meu futuro comigo casando naquelas fantásticas cerimônias de dias e depois indo morar em uma casinha no meio do bosque... Mas agora, eu nem sei se tenho um futuro.
Jazmim limpou a lágrima teimosa que escorrera sobre sua face, fazendo Bernardo abaixar o olhar e dar um leve suspiro.
– Nem tudo vem como desejamos. E mesmo não entendendo os motivos de sua escolha posso entender seus sentimentos, embora ache que eu não tenha nenhum. Talvez possa ter razão, mas eu sempre serei assim...
– Não acho que não tenha sentimentos. – Jazmim o interrompeu fazendo Bernardo a fitar estranhando aquelas palavras. – Só acho que tenha medo de demonstrá-los.
Bernardo sorriu torto, e de certa forma não como uma confirmação, e sim por depois de tanto tempo alguém acreditar que ele possuía um coração. Engraçado... Nem seu pai achara isso.
– O mundo em que vivo não há espaço para sentimentos. – Bernardo falou sério, fazendo Jazmim morder os lábios inferiores e abaixar a cabeça.
– A mãe cigana dizia que não há como se viver sem sentimentos. Em quase todas as fases da vida sentimentos ódio, raiva, medo, coragem... Amor. Se sentimos estamos vivos.
Tanto poder nas palavras para alguém tão jovem. Aquele homem esbelto parado escutando uma simples cigana falar se desmanchou por esses longos minutos. Ele não era mais o comerciante Bernardo Guilertina de quem todos temiam e ouviam falar, e sim, apenas Bernardo... Um homem comum que se tornara militar muito jovem.
– Não tente procurar em mim o que não existe Jazmim. Só irá se decepcionar.
Jazmim ficou em silêncio, sinceramente esperava outra resposta, algo mais irreal, talvez. Mesmo sabendo que algumas coisas não podem ser mudadas, não era uma questão de não aceitar a realidade e sim, de querer mudar o que há muito tempo foi escondido.
– Aceite a realidade que está vivendo e tente enfrentá-la da melhor maneira possível.
O que ele estava dizendo? Para ela aceitar ser vendida como qualquer coisa? Nunca aceitaria, fez uma promessa a si mesma naquela noite, quando passou pela primeira vez sem ver a lua.
– Não consigo fazer isso... Não vou suportar passar por tudo aquilo de novo. – As lágrimas voltaram quase que imperceptíveis. — Prefiro morrer a ser vendida novamente.
Morrer? Jazmim morrer? Não, Bernardo nunca permitiria. Em sua cabeça já se passaram momentos em que queria matá-la, mas o único que o dava direito a pensar assim era ele mesmo. Sempre foi assim... Ele podia machucá-la, mas seria capaz de matar quem fizesse isso se não por sua ordem. Era como se ela apenas pudesse sofrer e odiar por suas mãos, e assim sendo, amar também.
Mal sabia ele que tudo aquilo que passou a ignorar e as esconder dentro de si o faria enlouquecer mais tarde. A obsessão que se formara em seu coração era a obsessão da fúria, do desejo, do físico... Mudava, se transformava e evoluía aos poucos.
– Como disse?
– Olhe em que estou me transformando... Eu não sou assim...!
Bernardo segurou seu rosto entre as mãos fazendo a cigana o olhar nos olhos.
– O que eu vejo, é a mulher mais linda de todas. – A lágrima de Jazmim atingiu a mão de Bernardo, fazendo a garota se afastar.
– Não basta ser linda por fora e morrer aos poucos por dentro.
Bernardo se aproximou com os músculos do corpo rígidos fazendo Jazmim fazer o mesmo, onde ela apoiou a cabeça em seu peito, ouvindo seu coração bater rapidamente, com força. Ela não conseguia negar as caricias do homem que quase a havia matado, e ele não conseguia se afastar mesmo sabendo que tudo poderia mudar amanhã.
...
O carro acabara de dobrar a esquina quando Camila virou o pescoço, era Joselo parado em frente a casa. Camila se despediu rapidamente, correndo pela parte de trás para dentro da casa. Ana estava quase cochilando no sofá quando a garota subiu as escadas. Não tardou para alguém bater na porta e Ana pular de susto. Arrumou o cabelo em frente ao espelho e abriu a porta, sorrindo da forma mais amigável possível.
– Sim? O que deseja?
– Meu nome é Joselo, e quero Jazmim de volta.
Ana arregalou os olhos e seu sorriso se desmanchou lentamente, seu coração quase saiu pela boca enquanto suas mãos suaram. Só podia ser brincadeira...
Camila que espiava tudo da escada levou uma das mãos a boca enquanto cuidara se Jazmim não aparecesse no corredor. Se a cigana o visse Bernardo seria capaz de cumprir a ameaça que fizera, e seu maior medo era esse.
Não faltavam mais problemas para Ana, e Joselo apareceu no pior momento possível.
– Não há nenhuma Jazmim aqui senhor! Sugiro que vá embora!
Ana tentou fechar a porta, porém Joselo foi mais rápido, colocando o pé em frente a mesma. O homem empurrou a porta com força e entrou, fitando ao redor.
– Eu sei há está vendendo, e estou disposto a comprá-la de volta... Não podemos negociar?
Ana engoliu seco, respirou fundo tentando manter a calma. Por fim, sorriu de forma sínica.
– Nenhuma das minhas garotas estão à venda, saia antes que...
– ANTES QUE O QUE?
Joselo empurrou Ana fazendo a mulher bater em algumas coisas e no mesmo instante um segurança entrar. Joselo se afastou fazendo Ana o olhar como o homem fosse um misero inseto, e talvez fosse... Porém o que parecia acabado teve consequências muito grandes.
– Não vou sair sem falar com a minha sobrinha.
– Quem? A sobrinha que você vendeu? – Ana gargalhou. – Acha mesmo que ela vai querer vê-lo?
Joselo encarou com Ana com ódio enquanto a mulher permanecia séria, com as mãos voltadas para trás. O homem pensou em sair, mas nada que passou de uma ideia fraca e passageira aos seus olhos.
– JAZMIM! JAZMIM!
...
O corpo seminu de Jazmim era coberto pelo casaco de Bernardo, enquanto o mesmo a abraçava. Os pedaços do vestido rasgado ainda estavam espalhados pelo chão, e o espelho ao seu lado fazia Bernardo mirar seu reflexo abraçado a uma cigana... Uma situação que nunca imaginara estar em sua vida toda. Sempre considerou os ciganos desprezíveis, ladrões e tudo o que se pode imaginar. Mas havia alguma coisa naquela menina que a fazia ser diferente, e ele não ignorava isso.
Com os olhos percorrendo seu corpo, fitou discretamente uma pequena cicatriz em suas costas, e então se lembrou da vez em que mandara Ana a surrar. Como foi prazeroso aquele momento, vê-la sentindo ódio dele... Mas agora, essa possibilidade se tornava um martírio. Levou a mão discretamente ate a cicatriz, a abafando com o casaco... Jazmim se arrepiou, mas antes que pudesse dizer qualquer coisa Bernardo sussurrou:
– Me desculpe por tê-la machucado...
Pensou que ela dormira pelos vários segundos em silêncio, mas estava enganado. A cigana por nenhum momento fechou os olhos, estava com medo de acordar e ver que tudo não passou de um sonho.
– As palavras doíam mais...
Bernardo a puxou ainda mais para si fazendo Jazmim se remexer e ele sussurrar novamente em seu ouvido.
– Nunca mais irei machucá-la.
– Promete? – Jazmim se deitou em seu colo, olhando nos olhos frios e verdadeiros de Bernardo.
– Eu prometo.
O homem acariciou seu rosto e aproximando de seus lábios, a beijou delicadamente pela primeira vez. Sinceramente, Jazmim não sabia se ele iria cumprir a promessa, se tudo não voltaria ao normal no dia seguinte ou se foi pura mentira, o que importa foi o que ela sentiu.
Minhas palavras não foram questionadas, e posso afirmar com absoluta certeza que o que sentiu ao vê-lo dizer aquelas palavras foi o suficiente para depositar a confiança que sempre desconheceu naquele homem e em toda a sua vida.
" O que posso fazer para consertar todo o mal que lhe causei pequena? Me diga como posso lhe recompensar... Te darei o mundo todo se me pedir. "
Sim aquelas palavras sairam da boca de Bernardo Guilertina, em forma de sussurro e transmitindo uma paz incrivel para a cigana de olhos azuis. O que pediria não seria o mundo e nem uma parte fisica dele... Deixo a seu critério óbvio imaginar o que ela desejou... Pois o pedido sim, realmente nunca existiu., não houve tempo de fazê-lo...
Jazmim acreditou cegamente em suas palavras, mas não vou dizer se a promessa foi quebrada, pois naquele momento, algo mais importante interrompeu o momento que pelos dois, durariam uma eternidade.
Um sorriso foi desmanchado, e algo em seu coração cigano a fez escutar mais do que devia.
– JAZMIM! JAZMIM!
Sim, ela conhecia aquela voz muito bem. E por um segundo retomou a consciência da realidade. Afastou-se de Bernardo que junto tentava escutar melhor a voz que vinha da parte inferior. Jazmim levantou e após mais um grito teve certeza de quem era.
Foi mais forte que seu passado, mais forte que o seu presente e mais forte que seus instintos. Ela precisava vê-lo novamente. Nem que fosse para perguntar o que aconteceu por todos esses dias... Por que ele a abandonara... Se fosse para seguir em frente definitivamente, teria que ter a certeza em seu coração cigano que seu Tio era aquele homem que todos diziam que era.
Jazmim escutou aquela voz interior que vinha de sua cabeça, mas o que não sabia é que muitas vezes essa voz nos faz tomar escolhas simplesmente porque é o que mais queremos no momento. Somos enganados por nós mesmos. Todas as nossas escolhas tem consequências e isso faz refletir na nossa vida, cada passo em falso nos torna mais vulneráveis. Porém quase nunca pensamos dessa força, e não há quem culpar... A realidade é essa, que estamos vivendo agora... Não podemos também nos privar de fazer qualquer coisa com medo do futuro, afinal ele não reflete aquilo que fizemos no passado e sim como fizemos. Para o bem? Para o mal? Está no coração de cada um.
Quando Jazmim se levantou Bernardo fez o mesmo, e verdadeiramente não se passou nem meio segundos após os gritos para Jazmim sair correndo porta a fora. Bernardo não conseguiu segurá-la, queria, mas não houve tempo. Ele devia saber que Joselo não demoraria a descobrir onde Jazmim estava, e Bernardo sabia que ela o vendo sofreria ainda mais. Não gostava dessa ideia, e o pior de tudo, era aderir e possibilidade de ela tentar ir embora com ele... Egoísta, sim... Mas Bernardo nunca deixaria.
Enquanto vira os cabelos negros da menina sumirem após atravessar a porta, Bernardo se perguntava o quanto ela poderia ser importante pra ele. É claro que ele poderia fazer o que quisesse, e não seria nada mal tirá-lo da vida de Jazmim... Eram os pensamentos possessivos que guiavam seus olhos em direção à porta. Bernardo passou pela mesma, enquanto fitara um pouco de longe os olhos de Camila assustados, e o corpo de Jazmim se apoiar no corrimão na escada para vê-lo. Ela não sorriu, mas seus olhos demonstraram uma saudade nunca antes vista... O coração de Bernardo chegou a doer.
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