Cigana De Luxo!
1 Objeto
Amanheceu um dia lindo como o de costume naquele pequeno pedaço de terra. Os ciganos levantam cedo para apreciar o sol subindo no orizonte até atingir o ponto mais alto do céu. Os olhos de Jazmim naquela manhã se encontravam presos a ele, a imensidão azulada sempre tornava sua vida mais calma, pois não importava a cor que o céu estava em cada manhã, seus olhos sempre amanheciam da cor do mesmo.
Mãe Carlota, uma vidente velha, ao ler a mão de Jazmim quando esta completou seus onze anos, disse-lhe que o sangue cigano corria em suas veias como pássaros pertenciam ao céu, mas sua linha da vida estava fraca à com esse povo, pois apesar de seu coração estar inteiramente naquelas terras, seu destino não seria o escolhido por ela. Mesmo depois de quatro anos Jazmim nunca esqueceu das palavras da mãe cigana, lembrava-se delas uma vez que outra e temia de certa forma seu destino se o mesmo fosse longe de seu povo. Por conta deste aviso, a menina nunca conheceu outros lugares, nunca sabia que existia outras culturas e nem sequer segurou na mão de um garoto. Seu tio a proibia de qualquer contato fisico com jovens ciganos, pois sem contestar, ela era de longe a mais bonita criatura já vista naquelas terras.
Com a cabeça apoiada na janela, Jazmin agradecia por ver o sol iluminar a escuridão mais uma vez, todos os dias. Joselo Bascos, seu tio, aparecia-lhe sempre de repente quando ela pensara em sair da tenda.
- Feche a jenela Jazminzita! — Exclamou o tio robusto.
Jazmin a fechou e se virou em direção ao tio com um meio sorriso puro e travesso nos lábios.
- Tio, o senhor podia me levar até a próxima aldeia não podia?
- Não sabes o perigos da viagem! Há bandidos querida, muitos bandidos!
Jazmim voltou a se apoiar na jenela, espiando pelas frestas.
- Mas o senhor vai e volta bem! — A menina respirou triste. — Aliás tio, por que o senhor vai até lá?
- Ora Jazminzita! Vendo o que temos por dinheiro... É assim que nosso povo vive.
- Odeio dinheiro!
Joselo soltou uma gargalhada e observou a menina se vestir de longe. Colocou uma saia de pano comprida branca com detalhes escuros e colares que iam em volta de sua cintura, a veste de cima vermelha. Balançou a cintura e olhou para tio, onde o mesmo batendo palmas deu permissão para a menina começar uma dança animada.
A dança era simples, mais Jazmim já havia aprendido a dançar igual sua mãe. Seu cabelo era comprido, atingindo a bunda, já que em sua linha não se pode cortar o cabelo, pois é a virtude de cada mulher.
Joselo se afastou e saiu pela porta da tenda enquanto deslisava a mão por entre o bigode com o olhar frio. Era obvio que sua sobrinha havia crescido e daria um ótimo dinheiro, mais teria ele coragem para vendê-la? Tentou não pensar muito sobre isso, e pôs seus pensamentos apenas na grande recompensa.
Acabando de dançar discretamente, correu até sua cama e levantando o colchão, tirou a pulseira de ouro que sua mãe havia deixado antes de ir embora, e a única coisa que seu tio não havia vendido. Guardara apenas para si, a única lembrança que tinha de sua mãe.
- RÁPIDO! RÁPIDO! — A voz de Joselo fez a menina esconder a pulseira nas vestes e virar em direção a porta. Seu tio a abriu rapidamente. — Jazmim querida, não quer visitar outra aldeia?
Os olhos da garota se enxeram de felicidade e um sorriso ingênuo saiu de seus lábios, se pondo a abraçá-lo com toda a força.
- Obrigada Tio!
- Você está crescendo, e acho que posso te dar essa responsabilidade.
- Não vou decepcioná-lo.
Jazmin a largou, fazendo Joselo a cobrir com uma capa velha que ia até a ponta da saia da menina. Levantou o capuz e a olhou nos olhos azuis de forma infeliz e ambiciosa.
- Você cresceu Jazminzita, já é quase mulher... — Ergueu o corpo e arrumou a cela do cavalo. Colocando a garota sobre o mesmo. — Agora vamos.
Jazmin abanou para a tenda ao lado da sua, onde um cigano de dezesseis anos abanou de volta. Conversava com Alexander pela janela escondido de seu Tio, ele sempre trazia novidades pra ela sobre os outros lugares. A aldeia não era como Jazmin imaginara. Na verdade, não se parecia nem um pouco com a sua. Onde estavam os ciganos? Se perguntava.
Passava pela multidão de pessoas que só erguiam comidas e animais em direção ao rosto os oferecendo para compra. Jazmim olhava aquilo com pavor... Nunca tratavam animais assim em sua aldeia e sentia repuno por aquilo existir. Talvez fosse por isso que Joselo sempre a preveniu de vir para lugares como esse, e agora, estava arrependida de ter insistido. Era o que pensava. Continuou triste e com os olhos em direção ao chão, mas quando o cavalo parou e seu tio desceu, colocou pela primeira vez os pés em outras terras.
- Fique aqui, não se separe.
Joselo se afastou e a garota ficou ali parada, no canto, um pouco afastada da gritaria dos comerciantes. Observava distraída as pessoas que passavam por ela e erguiam os olhos de forma estupenda, achava até engraçado mas não o bastante para rir. Eram belas negras que carregavam sacos na cabeça, mendigos e homens de baixo porte que arrastavam suas cabras para fora. Estava exatamente na periferia da cidade nova. Procurou novamente o tio com os olhos e o encontrou ao lado de um homem alto, com uma pequena cicatriz na boca e olhos negros. Mirava Jazmin com um olhar severo que a fez arrepiar-se. O homem, entregou a Joselo um saco e fez um gesto com a cabeça enquanto sorria em direção a jovem que parecia perdida e confusa.
Não encontrou mais o seu tio quando fitou os cantos... Será que havia se perdido dela?
Tão rápido e imprevisto, uma mão aspera e grossa segurou o pulso de Jazmim a fazendo olhar para trás em um susto. O homem alto e copolento que nem sequer olhava em seus olhos a fez achar que era um ladrão... Mal sabia que o mesmo lhe robaria a vida. Suas mãos lutaram involuntariamente enquanto era afastada de seu cavalo, levada para perto do homem que a lançara um olhar severo. Jazmim se desesperou, atingindo o homem que se curvara se dor enquanto corria em direção ao lado oposto. Não deu mais de dez passos para ser alcançada, já que aquela área pertencia ao homem que acabara de lhe comprar, e ela nem sequer sabia.
- TIOO! TIOO!
Jazmim gritava por Joselo, mas não o via nem para entender o que estava acontecendo. A largaram na frente do homem de olhar reprensor, que se levantou e puxou seu capuz para trás, revelando os incriveis olhos azuis, misturados a beleza única da inocente cigana. Um sorriso malicioso surgiu e com o dedo acariciou a face branca da garota que não desviava seus olhos dele nem por um segundo.
- Qual seu nome?
- Jazmim Romero. — Respondeu ela rapidamente.
- Jazmim Romero... — Repetiu ele analisando a situação. — Agora você pertence a mim, terá que me obedecer entendido?
- Eu não pertenço a você e meu tio virá me buscar.
Estava com medo, mesmo a seriedade em suas palavras fizesse duvidar disso.
- Seu tio te vendeu pra mim, agora se prepare pois vamos viajar. Está com fome?
- Não. E você é um mentiroso! Meu tio nunca me venderia! Nunca!
Jazmim foi em direção a parede após ele a empurrar, onde seus olhos se enxeram de lágrimas. A cicatriz que vinha desde a buchecha até o canto da boca do comerciante, de nome não revelado, se estendeu após se aproximar do rosto da garota, que olhava para baixo.
- Olhe nos meus olhos. — Jazmim ergueu os olhos azuis, prendendo contra os dele. — Você, minha querida, vale muito dinheiro. Por que acha que ele não lhe venderia? Ciganos são assim, podres. Tem sorte, pois ninguém tocará em você enquanto estiver comigo... Sabe onde acabaria?
Ela balançou a cabeça de forma inocente fazendo ele soltar uma discreta gargalhada.
— Em um lugar muito pior onde cada gota de água é cobrado. Então, dessa forma, acredito que não irá fugir não é mesmo?
Jazmim ficou em silêncio por alguns instantes e balançou a cabeça novamente, fazendo o homem se afastar e respirar fundo. Ela se desencostou da parede ficando imóvel e submissa, onde logo depois, foi levada para um quarto onde passou uma noite inteira, trancada.
Ali onde estava, não se podia enxergar o céu. Enquanto apoiava a cabeça no travesseiro e se encolhia na cama abraçando os joelhos, pensava em como um ser-humano podia inventar tamanha mentira. Seu tio a vendera? Nunca! tentava se convencer disso. Mas só de pensar na possibilidade de ser verdade tinha vontade de chorar rios de lágrimas. Dormira de tristeza naquela noite pensando no que a mãe cigana havia dito a ela, seu destino estava além de seu povo. Se fosse verdade, rezava para que a Deusa a livrasse de seu destino. Os ciganos buscam a liberdade tanto fisica como espiritual, e não é vida para ninguém, ser vendida como um objeto.
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