Cigana De Luxo!
8 Nos braços do monstro
Notas iniciais
A casa dele era com entrar em um castelo antigo, com Estátuas temidas e quadros de guerra quase espalhados pela sala e corredor inteiro. Prestava atenção em cada detalhe, principalmente na face do homem que lhe arrancara a virgindade dos lábios. Nos trintas segundos que ficou admirando a casa de Bernardo, deu tempo suficiente para a empregada aparecer com as mãos vazias e o olhar curioso. Se apresentou normalmente, sempre recebera ordens do patrão de ser gentil com qualquer pessoa que ele trouxesse em sua casa.
- Sandra, traga roupas para a nossa hospede, estas estão imundas.
- Sim senhor.
Hospede? Aquelas palavras lhe pareceram estranhas, até mesmo na forma de pronunciar. Uma prostituta que ele poderia possuir quando bem quisesse poderia ser tratada como um de seus amigos que trazia de bom gosto? A resposta era óbvia. Então porque ainda se auto reprimia? Por que não conseguia enxergar aquela menina como um simples objeto insignificante? Talvez por lhe desejar. Não negava isso a si mesmo. Ele a desejava de forma obsena, maliciosa e criava fantasias em sua mente louca a possuindo de todas as maneiras possíveis. O simples fato de ela o temer e de lutar contra ele já o excitava de forma sem igual. Pobre Jazmim. Mal sabia que acabara de entrar no ninho de seu caçador.
- Vista o que Sandra irá lhe trazer e me espere aqui. Vou comunicar Ana que está aqui.
- Por favor... – Antes que ele pudesse lhe dar as costas Jazmim se pronunciou. – Vai contar a ela que tentei fugir?
- Isso depende.
- Do que?
- De como vai ser sua estadia aqui.
Um sorriso maldoso surgiu em seus lábios e Bernardo lhe deu as costas subindo pela enorme escada de mármore. Jazmim sentou-se e respirou fundo, se propondo a pensar sobre Alexander e como ele estava naquele momento. Morto? Não negaria que isso passou pela sua cabeça, no entanto a esperança de o ver novamente para lhe pedir perdão ainda permanecia. A culpa bateu em seu coração. Pois em sua cabeça, se tivesse recusado a frustrada tentativa de fugirem juntos ele estaria em segurança.
As palavras de Bernardo não foram mentirosas. O lugar para onde Alexander foi chegava perto de um inferno real. Ao entrar foi recebido a pancadas, e após isso jogado em um bueiro onde era impossível fechar os olhos sem ser despertado em sustos por homens gritando de dor. Sentia fome, frio e medo... Tendo suas esperanças soterradas por um lugar em que o cheiro de morte podia ser sentido a milhares de metros. Apenas uma pessoa o fazia ter vontade de viver após uma semana sem ao menos ver um flash de luz naquele lugar, apenas uma pessoa o fazia sonhar nem que seja por cinco minutos a cada noite, apenas uma pessoa o fazia ter fome de sobreviver para fugir e sentirem a liberdade juntos, em fim, Jazmim. A cigana de seu coração.
Ela contava os segundos pela terceira vez. Havia cansado de ficar sentada apenas esperando, e talvez o terror de ver isso acontecer a fizesse agradecer por isso. Levantou-se e andou pela sala, passando uma, duas, três vezes pelo mesmo quadro. Se escorou na parede e lançou um olhar curioso para a porta entre aberta que guardava um artefato valioso à seus olhos. Sorriu e antes de entrar pela porta, verificou se ninguém a estava observando . Entrou naquela pequena sala, tendo uma mesa com vários papéis, mapas e uma poltrona de couro com uma chave em cima. Tudo isso que seus olhos analistas enxergaram e passaram como um vazio diante da pintura incrível de Moneh. A paisagem exuberante com traços finos e singelos a faziam se lembrar de sua aldeia, onde a água corrente dos rios eram a coisa mais bela depois do sol nascendo. Nunca havia visto tamanha beleza em um quadro de madeira. Deslizou o dedo sobre ela e fechando os olhos sentiu os traços da pintura incompreendida. Ela própria, assim como a pintura, era uma incompreendida, talvez por isso mirar aquela imagem a fazia enxergar ela própria, bela e enigmática, como se olhasse em um espelho embaçado e visse o quanto estava triste. Se enxergando em um mar de decepções, e vendo que em um único sorriso se escondiam lágrimas que ela não podia colocar para fora, percebeu o quanto ela era fraca diante de tudo, e o quanto guardar lágrimas para se sentir forte a deixavam ainda mais fraca. Isso sim a fez chorar. A pintura mais bela era a mais triste e a garota mais triste era a mais bela, ambas choravam diante da vida. Uma com pingos de tinta que deslizavam perante o céu azul imperfeito, e a outra com lágrimas que manchavam um rosto valioso.
Foi assim que Bernardo as viu parado diante da porta: Duas coisas belas e que valiosas...
Mas cabe aqui, a mim, questionar esse fato. Duvido até hoje, e pode me contrariar se quiser, que Bernardo havia as classificado não como algo valioso vendido em milhares de reais, e sim, algo valioso para o seu próprio eu.
Esse pensamento rápido, é claro, não revigorou diante de suas ações. Como em sua mente cruel, se aproximou como um leão sem fazer o mínimo de barulho e sem ao menos Jazmim perceber que ele lhe estava vigiando. Puxou seu ombro para trás com um sorriso malicioso pronto para a dar um tremendo susto e a punir por não fazer o que lhe foi ordenado. Esse era o princípios de seus planos, se Jazmim não tivesse virado junto com sua mão e agarrado-lhe a cintura e um abraço necessário. Foi Bernardo que levou um susto, mais ouso dizer que se sentiu tão necessário diante da dor daquela garota que teve seu sorriso desmanchado no momento que ela o tocara. Primeiro ficou imóvel e pensou até em joga-lá longe, mas não havia sentido fazer aquilo, havia?
Jazmin chorava nos braços do homem que a condenou, mas nesse momento ela só precisava chorar. Não havia importância com quem e nem o que aconteceria depois... Ela decidiu deixar tudo nas mãos daquele homem, e embora se sentisse boba por haver lhe entregue sua tristeza, recebeu de volta uma coisa que nunca imaginava receber dele.
Bernardo a abraçou com força e fechando os olhos apenas ouvira seus soluços ecoarem pelas paredes silenciosas da enorme mansão. Acariciava seus cabelos com uma mão enquanto a outra a puxava cada vez mais para si, fazendo Jazmim perceber que aquilo era uma forma de a confortar. Houve momentos em que Bernardo se reprimia bruscamente por estar entregue daquela maneira, assim como ela, e a vontade que tinha era de acabar com a vida daquela cigana que o fazia se sentir vulnerável.
Não posso dizer quanto tempo permaneceram assim, mas foi o suficiente para a escuridão tomar conta da cidade ou até as lágrimas da cigana acabar. Quando Bernardo abriu os olhos e viu em que posição se encontrava, ríspido, a afastou de si fazendo a garota olhar em seus olhos e ele os desviar. Deslizou uma das mãos sobre os cabelos louros e disse de forma irônica:
- Devia ter feito o que eu mandei e ficado quieta.
Passou pela porta e parou em frente à mesma mirando Jazmim que secou o rosto com as mãos e passou por ele indo em direção a sala.
Ela se sentiu idiota de ter chorado na frente dele e o abraçado sem pensar. Se pelo menos Bernardo a tratasse bem... Bom, a cigana não entendia o por que de ainda se surpreender com suas atitudes.
Sentou-se emburrada no sofá no mesmo instante em que recebeu a noticia que mais temia:
- Irá passar a noite aqui.
Falou Bernardo normalmente.
- O que?
- Está surda? Disse que vai passar a noite aqui.
Jazmim ficou em silêncio por alguns segundos e abrira a boca para falar periodicamente, mas nada saia. No começo lhe faltou coragem, depois, só de pensar o que podia acontecer estando junto com aquele homem saiu palavras mais do que necessárias.
- Por que não me leva de volta?
- Porque não estou afim.
-Então peça para Ana vir me buscar.
Bernardo percebeu que ela parecia estar desesperada e achou divertido assustá-la um pouco... No entanto aquela insistência o estava irritando, e ele explodia fácil de mais.
- Ana tem coisas mais importantes para fazer do que se preocupar com um ser inútil como você...
Jazmim se magoou com aquelas palavras, mas ao invés de permanecer em silêncio, respondeu depressa:
- Você não tem... Não é mesmo?
O gesto rápido que Bernardo fez chegou a disparar o coração de Jazmim. Realmente não esperava que após o que acontecera ele tivesse uma mudança de comportamento tão rápido. Deslize que nunca mais cometera estando ao seu lado, já devia ter aprendido.
Parecia ter passado apenas meio segundo quando a mão de Bernardo lhe invadira o pescoço e ela perdeu o ar. Viu tudo escurecer tão devagar e ao mesmo tempo tão rápido que conseguira ouvir as palavras que saiam da boca dele:
- Sua puta imunda! Vai aprender a controlar sua língua e a me obedecer antes que te jogue aos cães.
A raiva que estava não o fez soltar o pescoço da garota antes que desmaiasse. A cigana caiu ao chão e Bernardo levantou-se depressa e respirou fundo, indo em direção à mesa de bebidas e tomando um gole amargo de uísque. Girou os calcanhares e fitou a garota mais uma vez, se perguntando o porquê de não comê-la por inteiro nesse exato momento. Ana, era apenas por ela que ele não lançara o revólver e a fazia implorar pela vida antes de fuzilar o seu rosto. No entanto, pensando bem, daria algum dinheiro para a amiga que ficaria tudo bem como sempre foi, tudo voltaria à normalidade. Acabaria com esse fardo irritante que desde o inicio não o respeitava, que ninguém sentiria falta, e deixaria de mostrar as fraquezas que ele odiava em si mesmo.
“VAMOS SEU FILHO DA PUTA MATE ELA AGORA!”
Sua cabeça gritava com tanta força que chegava a explodir seus neurônios. Tentando não pensar em nada que o fizesse voltar atrás dessa escolha, levou a mão ao revolver que guardava na cintura e mordeu os lábios de raiva. Sentiu o peso que carregou desde que era apenas um garotinho e antes que pudesse apontar a arma para Jazmim e a matar, o copo em sua mão se partiu em pedaços. O sangue fervendo atingiu o chão, mas só percebeu quando a dor viera de imediato. Largou a arma em cima da mesa e arrancou o pedaço de vidro de sua mão o jogando longe... Abaixou o rosto e com apenas um gesto, derrubou todas as garrafas em direção ao solo, que se estilhaçaram. Gritou de raiva, e antes que fizesse alguma loucura, se afastou do revólver e sentou-se na beira da escada.
- Meus deus! O que aconteceu aqui?
Sandra aparecia assustada com os barulhos, e o que recebeu, foi os gritos de Bernardo que quase a lançaram longe.
- SAIA DAQUI SANDRA AGORA!
- Mas senhor...
- SAIA ANTES QUE EU TE MATE!
A mulher não recolheu nada, apenas correu em direção ao seu humilde quarto e ficou lá até segunda ordem. Mas o que não saia de sua cabeça, era a imagem daquela garota desmaiada em cima do sofá... Parecia não respirar! Será que ele a havia matado? Milhares de possibilidades passavam pela cabeça da senhora, e o único resultado após isso, foi o que sempre fazia diante de seus medos.
- Irei rezar por ela...
Sussurrou a senhora com o terço entre as mãos.
Mas a noite ainda não havia acabado, pelo contrário. Após a cigana abrir os olhos com o trovão que iluminara a cama onde estava, recordou-se de tudo o que aconteceu e sentiu medo. O temporal ficara mais cada vez mais forte, mas não era isso que a afligia, e sim a imagem do homem transtornado e completamente fora de si parado ao pé da cama.
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