Cigana De Luxo!
5 Inferno
Ele podia ver que ela chorava mas a última coisa que sentiria era pena de uma garota considerada por ele tão despresível. As mãos seguravam no volante com força, como segurava em uma de suas armas que usara no exército. Talvez mirasse um inimigo intimo, um inimigo calmo e que parecia ser tão vulnerável. Porém, ele sabia que mulheres não era assim, todo cuidado era pouco quando se tratava da serpente da natureza. Cruel e venenosa ela atacaria sempre que virasse de costas, e Bernardo não cometeria o mesmo erro duas vezes.
- Entre menina!
Os olhos frios do homem parecia segurar e prender os de Jazmim para si. Não que ela quisesse irritá-lo novamente, mas estava com medo... E se ele lhe fizesse mal outra vez? E se a machucasse? Todas as possibilidades passaram pela cabeça dela em questão de segundos, junto as várias formas de fuga. A garota olhou para os lados, pensou em gritar, em correr... Tudo seria melhor do que entrar daquele carro.
Bernardo sorriu vendo o medo em seus olhos, mas sinceramente, não esperava que a garota corresse como uma coelhinha assustada.
Arrancou o carro quando a viu se desviar da rua e o atravessou pela calçada a toda velocidade. A cigana se desesperou... O que ele queria? Mata-lá? Respirou fundo e correu como se sua vida dependesse disso, e talvez fosse verdade.
Seria sonho se conseguisse correr mais de três quadras, e o sorriso no rosto de Bernardo mostrava que a única coisa que queria era torturá-la. Jazmim atravessou a rua, fazendo Bernardo manobrar o carro e o estacionar em sua frente, não dando permissão de fuga para a garota. Seu coração parecia sair pela boca, ela chegava a tremer e suar pelas mãos.
Quando a porta do motorista foi aberta, a única coisa que Jazmim pedira era que sua vida fosse poupada de qualquer forma, mesmo que a expressão daquele homem mostrasse que sua vida estava em suas mãos.
— Não se aproxima de mim.
Ela tentou se afastar, ficando presa ao carro fazendo Bernardo, em passos lentos, se aproximar de seu corpo a segurança pelo braço.
— NÃO! ME SOLTA! SOCORRO!
Jazmim berrou, no entando parecia que cada gesto agressivo ou cada grito eram musicas para os ouvidos daquele homem infernal. Sua vida estava um inferno desde que chegou, e por um segundo, uma luz pareceu iluminar o caminho escuro.
Como um super-herói que salvara a mocinha do vilão, Jazmim depositou um olhar esperançoso na pessoa que se aproximou com o peito estufado e o pescoço erguido.
- Larga a moça rapaz!
A voz grossa falou como uma ordem. Bernardo não gostava de ser interrompido, e por um momento achou graça de tal ato. Que coragem! Ou talvez burrice...
- O que?
Ele soltou a mão de Jazmim e se afastou da escuridão que cobrira seu rosto. Dando passos rápidos em direção a luz e ao homem que acabara de levar as mãos à cintura.
- Por que não mexe com um... Homem... — Ele gaguejou ao ver os olhos brilhantes e intimidadores do loiro, que sem fazer nenhum movimento, colocou o homem para correr.
Quem era aquele homem que Jazmim estava fugindo? Do que ele era capaz? Por que havia tanto medo das pessoas à com ele?
Com um sorriso vencedor nos lábios, mostrando toda a sua força e poder que tinha diante de qualquer um, apenas abriu a porta e jogou a garota no carro como uma boneca de pano. Então ele não a mataria? Bom, isso já devia ser um alívio.
Durante as poucas quadras de volta a casa a cigana permaneceu em silêncio, e sem exagerar, completamente imóvel. Se sentia vencida, submissa e o silêncio daquele homem apenas a fazia ter certeza que nada acabara ali.
O carro parou em frente a casa, onde na frente, Ana estava anciosa junto a Camila que parecia não parar nem um segundo de se mover. Bernardo desceu do carro e abriu a porta do passageiro, onde a cigana desceu, fazendo Ana correr ao seu encontro e surpreendentemente a abraçar.
- Eu te disse para nunca mais sair sem alguém... — Ana se aproximou de Bernardo o abraçando. — Obrigada.
— Não tem nada a dizer? — Ana se virou em direção a Jazmim que parou de conversar com Camila e a fitou.
- Não.
- Ora Jazmim!
- Aquele homem nojento me tocou...
- Aquele homem nojento seria seu futuro comprador. — Ana cruzou os braços, brandando da forma mais simples.
- Nunca. — Teimou. O homem achou graça daquele atrevimento. Embora parecesse uma coelhinha assutada, defendia sua dignidade como uma leoa selvagem.
Então Benardo entendeu. Era isso que precisava arrancar de sua vida para vê-la se rastejando...
— Vamos ver.
Ana passou pela garota com um sorriso, entrando de volta na casa onde a música era alta. Camila, com o olhar mais curioso que o de costume, mirou Bernardo de forma indecisa como se o analisasse: O modo como se vestia, o olhar superior... Nada parecia estar fora do que estava acostumada a enxergar nele. Jazmim , pelo contrário, não conhecia nada dele e tão pouco queria ser mais intima de sua pessoa. Além de o achar estúpido, imoral e grosso guardava um rancor confuso por aquele homem... Podia ser inocente, mas sabia o que significava respeito, e o valor de palavras que machucavam.
- Temos que entrar.
Camila puxou Jazmim para dentro, onde após entrarem parecia que todos as pessoas paravam o que estava fazendo para mirarem as jovens.
Aquele olhar aparentemente calmo a estava observando de longe e ciganos podiam sentir isso, podiam sentir quando estavam ameaçados. Andou mais alguns passos e se sentou em uma mesa perto do palco junto com Camila, onde sem perceber, Gaspar tomou o último gole de bebida e se levantou indo em direção a morena.
Suas mãos apoiavam o rosto que tinha os olhos quase fechados. Sim, ninguém odiava estar naquele lugar mais do que Jazmim... Estava cansada, queria sua vida de volta. Camila levantou antes de ela abrir os olhos, e após isso, Jazmim sentiu seu cabelo sendo puxado para trás.
Seus olhos se abriram e uma expressão surpresa e indiferente surgiu em seu rosto. Não ficou com medo, e podia até ser irônico lido assim, mas estava tão triste que qualquer reação sua seria destruida por um olhar de solidão e cansaço. Gaspar não via nenhuma diferença, era bela do mesmo geito, e escolhera ela para si desde que o negara.
Bernardo Guilertina se transformara em um poço de raiva. Primeiro, Ana lhe revelara aquilo da jovem que jurou atormentar... Não podia negar o fato de ela nunca ter sido tocado por um homem o excitar, o atiçava muito e transformava aquilo no jogo mais divertido que já teve aos seus olhos. Por isso Ana a protegia tanto, e é claro que só a batera porque ele pediu.
Caminhou, desviando-se das mulheres que carregavam as bebidas quase sem trajes se aproximando da mesa onde Gaspar estava com Jazmim.
Camila que observava de longe, abrira a boca categoricamente.
— Olá Gaspar.
A cara de pau de Bernardo chegava a ser conveniente, e nada diferente do que Gaspar esperava. Eles ja se conheciam. Há muitos anos já foram inimigos politicos.
- Bernardo. — o homem respirou fundo. — Não sabia que já tinha chegado.
- Cheguei na cidade mais cedo.
- Ora. Que ótimo.
Era como uma briga por pensamentos. Todos os ataques eram cobertos, guerras ocultas por debaixo dos planos.
— Ana está lhe chamando Julieta.
Jazmim tentou levar rapidamente, sendo interrompida pelo braço de Gaspar. A vontade de Bernardo era de sacar-lhe a arma e efiar um tiro no meio da testa daquele ser despresivel, mas isso significaria perder muitos sócios.
— Estamos conversando.
- Não interessa!
Respondeu tentando se manter calmo, e quando fazia isso, parecia ser pior. Forçando não apertar o gatilho da arma por debaixo do casaco.
Jazmim levantou e saiu passando por Bernardo, que levou a mão em seu ombro e a levou para dentro.
A cigana não sabia o que pensar. Na verdade, não sabia o que era pior... Ficar com o homem que temia, ou com o que a enojava. Tentou não decidir por si, fez o que achou mais seguro e fez certo. Camila pelo contrário, viu naquilo algo que a deixou extramamente admirada, afinal... Seria ilusão de seus olhos, ou Bernardo Guilhertina se preocupou, nem que fosse por um segundo, com Jazmim perto daquele maldito? É, talvez tenha sido uma pura ilusão de seus olhos.
Ana sentou-se. Com as unhas grandes e vermelhas batendo na mesa e um sorriso satisfátorio nos lábios, seus planos já estavam definidos desde que aquela garota parou em suas mãos.
- O que está pensando Ana?
- Coisas querida, coisas... — Suspirou fundo e fitou o palco, onde uma garota dançava.
- É claro...
- O quê?
- Você vai fazer uma coisa por mim, e vai ser bem recompensada.
Sorriu e esperou Camila concordar com a cabeça. É claro que não discordaria, afinal, Ana ficar lhe devendo um favor era muito melhor do que ela dever a sua patroa.
A obsessão estava presente em seus olhos, e não que fossem como mar de ressaca, mas atraiam qualquer coisa para sua imensidão azulada. O que eu me referi no inicio não era uma obsessão malicioso, passava longe disso, e sim uma curiosidade aguçada e infatil que de certa forma incomodava o homem em sua frente. Lia o jornal com cuidado mas nao desviava a atenção da menina que o encarava sem precaução. Jazmim levantou da cadeira, fazendo ele a olhar de canto.
- Onde pensa que vai?
A garota girou os calcanhares e respondeu séria.
- Isso não lhe diz respeito... Senhor...
O corpo violento de Bernardo se ergueu, lançando Jazmim contra a parede fria e prendendo seus braços. Ergueu os olhos cheio de lágrimas e mordeu os próprios lábios para não derramar nenhuma sequer. A mão de Bernardo deslisou sobre seu braço, atingindo sua boca e cruzando seu pescoço nú, fazendo ela se arrepiar. Ele fechou os olhos, sentindo o cheiro da garota e a textura de sua pele. O que ela era, uma feitiçeira? Um bruxa que jogou algum feitiço sobre ele para fazê-lo ficar encantado por sua beleza?
Se fazia essas perguntas enquanto admirava o rosto da cigana que também olhou em seus olhos.
— Que feitiço é esse menina? Quem te deu o rosto mais belo de todos?
Tentou falar, mas ao abrir a boca estava dificil de alguma palavra sair. Até que engolindo as lágrimas que nunca sairam, perguntou:
- Por que me machucou?
- Por que me desafiou? — Respondeu rápido, dificilmente o deixavam sem resposta. Jazmim percebeu que uma das mãos dele pareceu amolecer.
- Só lhe disse o que eu sintia.
— Foi imprudente... — Sussurrou ao lóbulo de sua orelha.
- Não. Imprudente é quem julga sem conhecer.
Respondeu de uma maneira mais agressiva, fazendo ele voltar a apertar seu braço.
- Conheço gente de sua laia.
— Mentira, se conhecesse não diria isso! — Fechou os olhos de dor e os abriu novamente. Bernardo franziu o cenho com os lábios rigidos.
— Sei que seu tio lhe vendeu por dinheiro. É esse tipo de pessoas que defende?
- Você é um mentiroso. Ele não me vendeu.
A cigana falou entre os dentes fazendo Bernardo soltar um sorriso debochado.
— Ser bonita não lhe salva a vida cigana... Se voltar a falar comigo dessa forma novamente precisará de uma muleta para andar.
- É por isso que as pessoas tem tanto medo de você? — Perguntou quase tremendo, mas Bernardo estava tão fascinado por aquele ser que nem se tocou.
- Tem medo de mim?
- Não...
Mentiu, mas o que importou não foi isso e sim a forma como lhe deu a resposta. A mão fria de Bernardo que refletia em seus olhos, tomara conta do pescoço de Jazmim e a puxara para cima. A garota perdeu o ar, ficando na ponta dos pés apenas conseguindo encarar o olhar raivoso e frio que aquele homem lhe depositava. Sua visão chegou a escurecer e vira tudo rodar, depositando sua mão fraca em cima da de Guilertina. A proximou seus lábios dos dela, e fechou os olhos...
Chegava a sentir o rosto que o medo daquela garota produzia sobre sua boca. Desviou de seus lábios e atingiu sua orelha, onde eles se abriram de forma feroz.
- Vou fazer de sua vida um inferno tão grande que até o diabo lhe negará ajuda.
E assim a largou como qualquer coisa. Arrumou o casaco e caminhou aparentemente calmo em direção a porta onde a cigana levantara a cabeça tentando se manter em pé, puxando todo o ar para si. Fitou as costas do homem responsável pela sua dor, e puxando todo o ar possivel para dentro dos pulmões, novamente, só teve forças para sussurrar uma única frase:
- Minha vida já está sendo um inferno...
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