Ciel Bleu
2 Chicago, outra vez
Celine
Acho que finalmente estava tudo bem. Fael havia superado. Cheryl estava grávida. Jesse estava se arranjando à vida em Chicago. E, mais importante. Minha mãe estava viva. Era bom tê-la mais uma vez. Bem, acho que valia a pena ser acordada todo dia pela minha mãe nada escandalosa... Mas seria só por mais uns dias. Então ela provavelmente seria chamada para fazer outro filme, e iria para Hollywood, e eu não a veria por no mínimo três meses. Mas eu já havia me acostumado, e ela me ligava todo dia quando estava fora. E eu já era bem crescidinha para entender aquilo. E eu tinha Fael. Logo, nada importava, se ele estiver lá.
Eram 6:40, e minha mãe estava me acordando, como sempre. Ela mandou acordar Fael. Eu troquei de roupa e obedeci. Fael se levantou e se trocou também. Então olhei para ele. Ele estava todo marcado de queimaduras. Terríveis. Causadas por mim. Desde que ele havia dormido no chalé de Eros, meu pai havia feito o favor de fazer com que ele se queimasse sempre que me tocasse. Então, era possível ver que seus lábios apresentavam pequenas feridas, suas mãos estavam sempre cheias de bolhas e seu peito estava avermelhado. Ele dizia não se importar, mas eu acabava com ele, eu sabia. Eu só queria que esse "acabava" fosse em um sentido melhor. Mas isso vai acabar, eu tenho certeza de que vai. Ele me ama, eu o amo. Por que tem de ser tão difícil?
Fui até a cozinha, onde encontrei Jesse e minha mãe conversando. Eles estavam se dando muito bem ultimamente. Eles sempre acordavam antes de mim, e ela sempre fazia os ovos com bacon que Jesse adorava. Eu não comia aquilo, preferia um cereal. No começo, eu praticamente tinha de dar comida na boca de Fael, pois ele não tinha muito ânimo para nada, quem diria comer. Mas ultimamente ele estava melhorando, e parecia comer tudo o que não quisera comer durante as últimas semanas. Ele sempre comia Waffles, muitos Waffles, com mel. Muito mel. Bem, em compensação, ele não comia muito durante o resto do dia, então acabava sendo uma relação de igualdade entre o café da manhã e as outras refeições. Ainda assim, eu me sentia estranhamente muito magra comendo apenas cereal, enquanto Fael comia toneladas de Waffles. Minha mãe fazia questão de cozinhar nosso café da manhã, embora houvesse uma cozinheira em casa. Presente de mamãe, por assim dizer. Ela pagaria a cozinheira enquanto estivesse fora. Na verdade, eu não via muito sentido em pagar alguém para cozinhar. Eu cozinho muito bem. Só o que falta é Fael concordar com isso.
Jesse e minha mãe conversavam alegremente sobre qualquer coisa que não me parecia muito atraente. Provavelmente sobre alguma matéria da escola. Como Fael e eu não gostávamos de falar sobre aulas e escola em geral, era ótimo que ele conversasse com a minha mãe. Tirava dúvidas, era exatamente o que minha mãe queria. E para mim era um alívio, já que as minhas notas não eram exatamente as melhores. Nem as de Fael. Mas as de Jesse eram. Então ele gostava de falar sobre isso.
Desejei um bom dia à Jesse e à minha mãe, comi meu cereal e fui ao banheiro arrumar meu cabelo. Desde que Fael havia começado a melhorar, eu poderia cuidar um pouco mais de mim. Acho que eu merecia. Escovei o cabelo com cuidado, e arrumei o coque que Fael tanto amava. Delineador, batom. Somente. E me preparei para a loucura que era chegar na aula.
Nos primeiros meses de aula, minha mãe fazia questão de andar sempre meio camuflada, com lenços, óculos escuros, e com os vidros do carro levantados. Mas um dia um par de papparazzi conseguiu tirar uma foto dela enquanto eu descia do carro. E depois daquilo tudo virou uma loucura. Sempre que eu chegava, voavam papparazzi em cima de mim. Não que eu não gostasse. Após ver várias celebridades perdendo a compostura perto deles, eu resolvi que ser simpática seria melhor. Por ser filha de uma atriz de Hollywood, eu já sabia que mais cedo ou mais tarde eu teria de lidar com os fotógrafos. Minha mãe havia oferecido uma mudança de escola, mas eu recusei. Era simples lidar com os repórteres. Bastava um aceno, um sorrisinho de vez em quando, um "bom dia", e eles iriam à loucura. E me deixariam em paz. Funcionava!
O grande problema era Fael. Minha mãe, por medo do que as revistas de fofoca poderiam falar se me vissem junto com Fael em sua depressão. Mas, felizmente, ele entendeu, e forçava um sorriso ao meu lado. Ele era bem convincente. Por sorte, os paparazzi não tinham permissão para entrar nas instalações escolares, então lá dentro nós tínhamos sossego. Claro que por vezes entrava alguém com uma câmera se passando por estudante, mas não demorava muito para que fosse descoberto. E vez ou outra isso parava na delegacia. Mas eu nunca estava envolvida, felizmente. Geralmente era entre um segurança e o paparazzi. Então eu simplesmente continuava como se nada houvesse acontecido. No pior dos casos, eu falava que não tinha ideia do que estava acontecendo, e que realmente sentia muito pelo caminho que as coisas tomaram, e pronto. Dar uma de sonsa era a melhor ideia.
Nossa primeira aula era com Jake. O que era bom, porque a aula dele era uma comédia. Ele quase sempre errava uma palavra ou outra, e alguém o corrigia, e ele dizia "tanto faz", e um bando de garotas suspirava. Claro, elas estariam encrencadas se Cheryl visse, mas ela nunca via. Felizmente.
A aula havia começado. Como sempre, Jake desejou bom dia e passou a matéria. Então ele chamou Jesse, Fael e eu à mesa dele.
– Como vão o bebê e Cheryl? – Perguntou Fael.
– Vão bem! Cheryl anda meio enjoada, mas o médico disse que é normal.
– Já decidiram o nome? – Perguntou Jesse.
– Ainda não sabemos se é menino ou menina, então decidimos o nome. Mas achamos que poderia ser Johanna, ou Lucca. Eu prefiro Lucca.
Nesse momento Fael tocou em meu ombro. Eu já sabia o que aquilo queria dizer.
Não, não. Ali não, em qualquer outro lugar, mas ali não!
Era uma profecia. Desde que voltamos para Chicago, Fael recebia algumas profecias. Bem, nós não acreditávamos que eram profecias, até que ele previu que Cheryl iria ficar grávida e ela ficou. Foi a única profecia dele que não me envolveu, ou as nossas futuras filhas. E ele as desenhava, e as chamava de Alicia e Kathryn. Mas infelizmente essas profecias vinham de um modo sinistro. Primeiro, seus olhos perdiam o tom dourado e se tornavam beges, opacos. Em seguida, seu rosto tornava-se inexpressivo. Então ele entrava em uma espécie de transe, que parecia um ataque epiléptico. Com alguma sorte, tínhamos 10 minutos entre a mudança de cor de seus olhos e o recebimento da profecia. Jake, Jesse e Cheryl eram os únicos além de mim que haviam presenciado uma profecia. Eu tinha cuidado para que minha mãe não visse, também. Jake logo entendeu.
– Classe, temos um pequeno problema. Um aluno está passando mal. Eu o acompanharei até a enfermaria. Jesse irá olhar vocês por mim, ok?
A classe concordou. Era de praxe. Toda vez que Jake saía, era Jesse quem vigiava a sala. No começo, ele ficava envergonhado e vermelho, mas se acostumou, com o tempo. Então ele simplesmente se sentou na cadeira do professor enquanto eu e Jake levávamos Fael até a sala da diretora. Era o único lugar onde ninguém iria vê-lo. Jake estava praticamente carregando Fael quando chegamos lá. Cheryl nos olhou:
– Mas... Aqui? Tem certeza de que realmente é uma profecia? – Sussurou ela. Nem respondemos. Fael sentou-se no chão e começou a contorcer-se. Então ele abriu a boca.
– Merda... – Praguejou Jake
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