Saki se aproximou de Toshio.

– Hum... O que houve?

Saki pediu desculpas.

– Desculpas? Pelo quê exatamente?

Saki lamentou não ter confiado sua verdadeira história a Toshio, mesmo após tanto tempo juntos.

– ...Eu entendo... Confesso que se você tivesse me dito isso logo no início, eu acharia que você estava louca... Tudo bem, Saki.

Toshio estendeu sua mão direita para Saki. Ela retribuiu o gesto, e os dois apertaram as mãos.

– Então... Vamos ver quem está nos chamando.

Os dois voltaram para o carro de Toshio. O céu estava escuro novamente, e uma fina garoa começava a cair.

O carro de Toshio parou em frente a uma praça.

– Ei, Saki... Eu estou vendo alguém...

Saki olhou pela janela. Aparentemente, havia uma mulher na praça. Ela estava de costas para eles, com seus longos cabelos balançando ao vento. Toshio abriu a porta do carro. Saki fez o mesmo. Os dois desceram.

– Ei... — Gritou Toshio — Quem é você?!

A mulher se virou. Saki levou um susto.

– ...Olá, Saki... — Disse a mulher.

Aquela era... A sacerdotisa? Não havia dúvidas. Era ela mesma!

– Você conhece a Saki? — Perguntou Toshio.

– Sim... Eu a conheço muito bem. Meu nome é Sirena.

Saki explicou à Toshio que aquela era a sacerdotisa que ela procurava.

– Sério?! Você é a sacerdotisa?

– Sim... E você deve ser Toshio.

– Espere... Como sabe meu nome?

– Como sacerdotisa, eu posso ver muito além do que humanos como você e Saki podem enxergar.

Sirena virou-se de costas para os dois.

– ...No entanto, eu tenho outra habilidade bem interessante.

– E qual seria? — Perguntou Toshio.

– Eu também posso fazer com que outras pessoas comuns enxerguem o que eu vejo.

Toshio e Saki se entreolharam.

– ...Vocês querem ver o que eu enxergo agora? — Perguntou Sirena.

– ...Como assim? — Perguntou Toshio.

Sirena ergueu seus braços. Uma luz se formou em suas mãos. De repente, Toshio e Saki ficaram horrorizados com o que viram: Dezenas de cabeças humanas voavam pelas árvores e ao redor deles. Essas cabeças emitiam gritos de dor. Os dois tamparam seus ouvidos e fecharam os olhos na esperança de evitar aquela cena. A luz sumiu das mãos de Sirena e as aparições se foram.

– O... O que foi isso?! — Perguntou Toshio.

– Esse é o sofrimento dos moradores dessa cidade.

– ...Como assim? O que aconteceu aqui?

Sirena riu.

– Você ainda não descobriu, Toshio? Como um simples ser humano destruiu essa cidade?

Saki mencionou o Doutor Keichi.

– Exato, Saki... O Doutor Keichi queria testar um novo experimento. Ele tinha sede de conhecimento... Mas as coisas fugiram do controle.

Sirena continuou falando.

– Quando o Doutor Keichi secretamente colocou suas bactérias de teste nas vacinas contra a gripe, várias pessoas acabaram sendo contaminadas. Não demorou muito para que a cidade começasse a sentir os sintomas. As pessoas que foram vacinadas, começaram a se comportar de forma estranha, sofrendo mudança repentinas de humor, se auto-mutilando e até mesmo machucando fatalmente seus familiares. Muitas pessoas morreram. Em outros casos, o vírus levou as cobaias ao suicídio.

Toshio cobriu a boca com as mãos.

– Todos morreram?

– Não exatamente... Alguns dias depois, surgiu uma ordem de evacuação. Todos que não tomaram a vacina deviam deixar a cidade às pressas.

– Então... Minha família pode estar viva... — Disse Toshio.

– Quanto ao Doutor Keichi... Ele se suicidou após ver o resultado de seus testes. Ele deixou uma carta de confissão, mas nunca veio à público. Em outras palavras, apenas a polícia sabe o que realmente aconteceu nessa cidade.

Saki e Toshio se lembraram das aparições que viram.

– Então, aqueles espíritos que nós vimos... Eram vítimas dessa vacina?

– Não. Eram vítimas do Doutor Keichi. Um ser humano que saiu do controle. — Respondeu Sirena.

Sirena olhou para Saki.

– Saki... Sabe porque eu te chamei como uma de minhas fiéis acompanhantes, mesmo sem você possuir nenhuma habilidade?

Saki disse que não.

– É porque eu sinto que você sempre faz as escolhas corretas. Você tem uma incrível habilidade de raciocínio.

Sirena se virou de costas novamente.

– Mas de que adianta...? De que adianta eu proteger o meu reino... Se a qualquer momento alguém pode sair do controle e destruir tudo? Seres humanos são guiados por sua ganância e sede de conhecimento...

Toshio interrompeu.

– Você está errada! Nem todos os humanos são assim! Não pode generalizar dessa forma!

Sirena se irritou. Uma luz amarela surgiu em sua mão direita. Rapidamente, ela estendeu seu braço em direção à Toshio e disparou um projétil contra ele. Toshio se jogou no chão. O disparo de Sirena atingiu um carro do outro lado da rua, fazendo com que o mesmo explodisse.

– Você não viu tudo que eu vi, não é? — Perguntou Sirena, ainda com sua mão aberta em direção à Toshio — Todas essas almas agonizando eternamente.

Toshio se levantou.

– Mesmo que um ser humano tenha cometido um erro que causou tantas mortes... Você não pode culpar toda a humanidade.

Naquele instante, Sirena colocou sua mão em sua cintura. Ela puxou um objeto e mostrou para Saki.

– Saki, isso aqui foi criado por seres humanos. Sabe pra que ele serve?

O objeto em questão era um revólver.

– Ele serve para matar. Aperte esse gatilho, e a pessoa que está em sua frente cai morta no chão. É isso que queremos defender?

Saki não sabia o que dizer.

– Em nosso reino, nós lutamos contra monstros e criaturas que tentam destruir nossa cidade. Mas existem humanos capazes de destruir a si mesmo. Da mesma forma como aconteceu nessa dimensão, pode acontecer na nossa. Por isso, acho que devo fazer algo para evitar que isso se torne real.

Toshio se desesperou. Estaria Sirena prestes a matá-los?

– Você está louca! — Gritou Toshio.

Sirena apontou a arma para Toshio. Saki se afastou.

– Talvez eu apenas tenha levado um choque de realidade. — Disse Sirena.

Toshio se aproximou de Sirena lentamente.

– Por favor... Solte essa arma!

– Você deve ser o humano sem habilidades mais corajoso que eu já vi. — Disse Sirena.

Toshio parou a apenas alguns metros de Sirena.

– ...Só me diga uma coisa... O que você pretende fazer com Saki?

– Ela fez um excelente trabalho vindo me procurar. Eu pretendo voltar com ela para meu reino... Onde pretendo fazer algumas mudanças. Eu quero tornar meu reino um local mais seguro... Com novas leis.

Toshio respirou fundo.

– Desculpe, mas eu não posso permitir isso.

– ...Do que está falando?

– Eu estou falando que não vou deixar Saki voltar pra casa com alguém como você!

Sirena engatilhou a arma.

– Então, nesse caso... Eu vou ter que fazer algo a respeito.

– O quê? Vai me matar? Isso não tornaria você algo semelhante ao Doutor Keichi?

– Não se eu matar alguém que está me impedindo de alcançar a Utopia.

Naquele instante, Sirena foi surpreendida. Saki a agarrou pelas costas. Durante esse tempo em que ela discutia com Toshio, Saki aproveitou para preparar uma emboscada.

– Saki!! O que está fazendo? — Gritou Sirena.

Toshio bateu no braço de Sirena. A arma voou de sua mão.

– ...Argh!! — Sirena gritou fazendo uma luz cercar seu corpo.

Toshio e Saki foram arremessados. Saki caiu perto da arma. Toshio bateu em uma árvore e caiu sentado.

– ...Chega... Eu vou acabar com isso agora.

Sirena se aproximou de Toshio, que estava ofegante.

– ...Antes de me matar... — Disse Toshio — Eu quero te pedir algo...

– Não posso prometer que vou cumprir, mas diga.

Toshio pegou a foto de sua família.

– ...Essa mulher e essa criança... São minha família... Eles estão vivos ou mortos?

Sirena pegou a foto.

– Eu posso sentir a aura de pessoas através de objetos pessoais... Posso dizer que essas pessoas estão vivas em algum tipo de casa em meio à uma floresta.

– ...A nossa casa de férias! Eles fugiram... Graças a Deus... — Disse Toshio.

Sirena devolveu a foto, e abriu sua mão em direção à Toshio. Uma luz se formou nela.

Foi quando Saki alcançou a arma. O tempo parecia ter parado. Havia uma bala à sua disposição, mas... O que ela faria?

Saki tinha uma escolha extremamente difícil a fazer. E isso mudaria totalmente o destino de sua vida.