Cidade Zero-Hora

7 Murmúrios dos Infernais


Notas iniciais
- Olá, pessoas! Então, peço desculpas pela demora. Era final de ano letivo, provas, trabalhos e apresentações ficaram justo para a última hora, e eu não podia fazer nada. - Enfim, como dito no capítulo anterior, estávamos entrando numa nova parte da fic. Enquanto a parte 1 foi responsável por apresentar os personagens para a trama, cabe a segunda os desenvolver e esclarecer algumas coisas. - Sem muita enrolação, vamos lá. Parte 2: "Em Nome da Rosa" " As pétalas se espalham agora Cada pesadelo se revela É o teu sangue que é vermelho como as rosas E não importa o que eu faço Nada nunca tomará o teu lugar" (Jeff Williams)

— Esse foi o último? — Daniel perguntava, enquanto fagulhas azuladas iluminavam as pontas dos dedos.

Tália olhou para ele, sujo de sangue de demônio da cabeça aos pés. O cabelo loiro agora era apagado pelo icor negro, o sangue dos goblins que haviam aparecido por ali. Os diabretes eram pequenos e chatos, e, ainda mais atacando em bando como faziam, tornavam a situação ainda pior de se lidar.

Ela puxou as mãos para perto do corpo, e sentiu o fogo se desfazendo na ponta dos dedos. Limpou o sangue de demônio na bochecha, justo no momento que estava começando a arder. Um goblin surgiu, rápido, nas sombras daquele prédio velho. Tália já estava cansada para usar algumas de suas habilidades, por tanto, se limitou apenas a esmagar o monstrinho com seu pé. Com um chute forte, ela o desnorteou, o fez colidir contra a parede. Afundou a sola contra a boca escancarada dele, quebrando sua mandíbula. O estalo fora frio, ele grunhiu baixo.

Esse foi o último — ela concluiu, contente. Olhou novamente para ele, apesar de tenso, soltava um riso frouxo. Ele sempre ficava nervoso com aquela situação, diferente dela, que já havia se acostumado.

Daniel estava entre sombras, o que deixava apenas os olhos aparecerem na noite escura. A única luz que banhava o local era de uma lâmpada velha, que ele mesmo havia energizado. Os olhos dele eram duas lâmpadas a parte, o ciano profundo brilhando ao longe.

— Acha que isso vai dar uma boa grana? — ela perguntou. Se agachou e pegou a essência que o goblin deixara no chão, quando seu corpo explodiu em um banho de sangue. Era um cristal escuro e apagado, Tália sempre achou que as essências de demônios não eram apenas sangue dos próprios, de certa forma, cristalizados. — Foram pelo menos uns quinze aqui.

— Sabe que goblins são os que menos valem — ele respondia arfando, ainda se recuperando de ter usado suas energias. O suor banhava a testa, junto com o sangue escuro. — Ainda mais quando temos que rachar o lucro.

— Dessa vez eu passo. — Deu uma piscadela para ele, sorrindo. — Não estou precisando desse dinheiro.

— Você nunca precisou — ele rebateu. — Você é rica, garota.

— Sim, sou e não nego. — Ela anuiu, olhando para ele diretamente. — Mas acha que tudo que eu peço caí do céu? Acha que eu me sinto bem?

— Escuta aqui, não vamos discutir. — Ele espalmou as mãos, em um gesto de paz. — Agradeço por você não querer a grana dessa vez, minha guitarra deu problema e eu vou precisar arrumá-la, e minha mesada já acabou.

Tália pegou outra pedra, girou-a nos dedos e a jogou para cima, ainda a analisando.

— O que será que a chifruda faz com isso tudo?

— A Eliza, você quer dizer? — ele a corrigiu.

— Você entendeu — ela resmungou, entredentes.

— Sinceramente, eu não me importo com o que ela faz com esse monte de pedra que compra e troca. — Deu de ombros. — Ela tem os segredos dela, assim como eu tenho os meus.

— Seu segredo nem tão secreto assim… — Tália disse, vaga. Daniel capitou a mensagem, e virou-se para ela, incomodado. — O que ela pensa o que você é?

— Um difundido — falou. — E seu amigo? Ele já sabe?

— Ainda não. E não vai saber tão cedo.

Daniel se agachou e ficou da mesma altura dela, afundou a mão em um amontoado de carne morta e fedorenta. Resgatou de lá mais uma essência, e fitou o cristal, vendo Tália ao fundo.

— E você, já sabe dele? — perguntou, petulante.

Tália suspirou fundo, soprou uma de suas mechas cacheadas para fora do rosto.

— Sim — respondeu, seca. — Descobri há poucos dias, e ele já está realizando serviços para os vampiros há umas semanas já. Mal sabe onde está se metendo…

— Você, como melhor amiga dele, deveria ir falar sobre isso. — Daniel aconselhou, sorrindo. Jogou a pedra para cima e a pegou novamente. — Sabe onde isso pode dar, e, se não fizer nada, sabe que nenhum final possível será feliz.

— Olha que lindo. Termino minha noite ouvindo os seus conselhos. — ela jogou a pedra para ele, frustrada. — Ainda não te perdoei pelo que fez eu me sujeitar com aquele vampiro.

— Qual é, foi há mais de uma semana já. Já fez coisas piores e esqueceu no dia seguinte.

Ela virou o rosto, descontente. Se levantou, e ficou por uma janela pequena ao fundo o movimento da rua. Não haviam mais pessoas acordadas, mas a cidade ainda fervia., não com pessoas. Olhou para lua e uma pergunta brotou em sua cabeça.

— E ela? — perguntou, vagamente.

— Ela é… peculiar. Já conversamos algumas vezes, e ela ainda não caiu no meu charme — brincou, mas Tália continuou séria, sem sinal dos seus ombros subirem e descerem em uma risada. — De qualquer forma, seu amigo está guardando ela também, não acho que alguma coisa vá acontecer com ela.

Ela jogou as mãos para o alto, e virou-se para a saída.

— Eu preciso urgentemente falar com Ian. — deixou escapar, e Daniel sorriu quando ouviu.

— Sim, você precisa.

***

Já fazia uma semana que ela permanecia dormindo.

Levi já não sabia mais o que fazer. Havia conversado com Beth pelo telefone, e ela dissera que ele poderia tentar um feitiço para acordá-la. A mulher o visitara no dia seguinte, dizendo palavras esquisitas enquanto colocava as mãos envolta da cabeça dela. A garota — que Levi chamara de Tati. — continuou dormindo, como um anjo. Sentiu-se infame ao fazer essa comparação.

Beth não deu as caras, e não voltara lá no dia seguinte, como falou que faria. Há dois dias Toni havia dado sinais de melhoras, mas ainda estava num estado delicado que merecia a atenção da esposa em tempo integral. Sem a aprovação de Ian, Levi havia levado-a para sua casa, onde dormia na cama dos pais, que até os dias atuais não haviam voltado. Mas essa era uma esperança que Levi e Ian perderam juntos, há muito tempo.

Alguns dias depois, enquanto lia em seu grimório procurando formas para acordá-la, Alex bateu à porta dele. Levi não dormia há três noites, e suas olheiras acentuadas denunciavam seu mal-estar. Tentou disfarçar lavando o rosto, mas isso não adiantara.

Quando atendeu, se deparou com o garoto entusiasmado e sorridente que sempre o alegrava também. Alex pediu para entrar, e ele, sem dizer nada, consentiu.

— Nossa, você está um caco — Alex disse, sorrindo.

— Eu não tenho dormido bem. — Com um anjo em casa, quem dormiria bem? Levi pensou, mas não disse. — O que foi que veio fazer aqui?

— Essa agressividade tem motivo?

Levi levantou o olhar tímido e viu que Alex o encarava. O olhar escuro e profundo dele, sempre descontraído. Alex balançou os cachos da cabeça com uma das mãos.

— Eu só não estou bem — foi o que Levi se limitou a responder.

Alex olhou em volta, procurando alguma coisa que Levi não soube dizer o que era. Ele tirou do bolso o celular, e entregou a Levi. Havia a foto de uma garota magra, de cabelos coloridos e lábios encrustados de batom. Fitou sem dizer nada.

— E aí? — Alex perguntou, exigindo uma resposta.

Levi ergue a vista e o respondeu:

— Bonita.

— Só? — Alex elevou o tom de voz uma oitava. — Ela vai dar uma festa, e me convidou. Estava pensando em te chamar, mas não parece interessado.

— E realmente não estou. — disse, seco.

Alex fez uma cara de descontentamento, e logo colocou uma das mãos no ombro de Levi.

— O que está havendo? — perguntou, exigindo saber a resposta.

Na fração de segundo que teve, Levi não conseguiu pensar em nada que fosse agradável aos ouvidos do amigo. Nada que Alex ouvisse e pudesse enxergar um fundamento, tudo o que podia falar era sem sentido. Lobisomens, vampiros, bruxos, feiticeiros, nada poderia ser possível. E ali Levi soube o que o diferenciava de Alex, dos ordinários em geral. Ele aceitava as coisas novas com facilidade, e não teve dificuldade em aceitar sua própria natureza. Diferente de Alex, que nunca aceitaria. A aceitação era uma linha tênue que os dividiam brutalmente.

— Eu não estou bem, só isso. — Levi tirou a mão de Alex de seu ombro e lhe lançou um olhar rígido. — Não dormi direito nos últimos dias, e não estou com humor para festas.

— Tem certeza que não vai falar o que está acontecendo? — Alex reforçou. Sabia quando Levi mentia, até mesmo pelo fato do amigo não saber mentir.

— Que saco! — esbravejou, e Alex retrocedeu quando ouviu as palavras cheias de sentimento. — Eu estou bem!

Alex estava formulando uma resposta com sua face pensativa, mas parou quando o baque da porta ressoou pelo cômodo. A porta havia batido com força, sem a ajuda de ninguém. Levi sabia o que estava acontecendo, e olhou para os dedos, que formigavam.

— Vá embora — disse.

Alex não soube como receber as palavras frias de Levi. Estava o expulsando, mesmo que fosse contra sua vontade. Levi engoliu em seco logo após dizer as palavras, tinha de ser tão grosso para proteger Alex? Se perguntava tanto, mas não achava a resposta.

Alex se virou e saiu.

Levi voltou para o quarto, com os ombros cansados e tensos. Por sorte não havia machucado Alex com seu descontrole, mas tinha de continuar como estava, não sabia quando e como acabaria se descontrolando pela próxima vez, e alguém, certamente, sairia machucado.

Arregalou os olhos quando viu a cama vazia. Apenas um furdunço de cobertas e lençóis finos, que ele colocara para a menina há dias. Nenhum sinal dela. A porta do banheiro estava entreaberta, ele, apresado, e ignorando a hipótese dela poder estar pelada naquele momento, entrou sem bater.

Ela se olhava no espelho, em frente a pia. Apalpava o rosto, com expressão desesperada. Os dedos pequenos corriam de um lado para o outro pela face, puxando as bochechas e o cenho. Ela parecia não reconhecer o próprio rosto. Ela parou por um segundo, e viu Levi atrás de si, pelo reflexo.

— O que está acontecendo? — ela perguntou.

— Acho que eu devia te perguntar isso — ele rebateu. — Você apareceu me chamando do nada.

— Não é isso! — ela gritou, um grito seco que havia rasgado a garganta. — Eu, meu corpo. Esse não é meu corpo. Por que não consigo sair?

— Do que está falando? — Levi se aproximou dela, mas ela se afastou. Virou contra ele.

— O que fez comigo?

— Eu não fiz nada — disse novamente. — Eu só quero saber, quem é você?

— Eu já te disse. Eu sou um anjo.

Levi se aborreceu com a garota, mesmo sabendo que não deveria o fazer com tanta facilidade. Tudo o que pedia era uma simples resposta, e ela sempre respondia a mesma coisa. Apesar de tudo o que passara nas últimas semanas, Levi não engolia essa história de anjo, desde o dia que a encontrou. Durante seus dias dormindo ela murmurava isso. Eu sou um anjo, eu sou um anjo. Já estava farto de ouvir essas palavras tão atormentadas.

O espelho do banheiro quebrou em inúmeros pedaços quando Levi cerrou os punhos. Tati retrocedeu, assustada. Alguns cacos caíram nos seus pés descalços, mas nenhum provocou um machucado.

Ela virou para ele e rosnou, como um cachorro selvagem. Seus olhos escuros esbanjaram um brilho selvagem, e o cenho franzido combinou com sua expressão de raiva. As mãos pequenas se cerraram ao lado do corpo, e suas veias saltaram no braço fino e branco como papel. Era tão delicada e frágil, Levi não esperava que ela o atacaria, e continuou não acreditando, mesmo quando ela o fez.

Voou contra ele num piscar de olhos, e com o ombro o empurrou para trás. Levi caiu no chão, devido a sua pouca resistência física, e bateu a cabeça na madeira morna. Ela pulou por cima dele, apressada. A camisola se esvoaçou como um balão agitado, assim como seus cabelos enormes e negros, tão escuros quanto uma noite sem estrelas. Ela era um monumento alvo e negro, com as cores tão bem distribuídas. Daria inveja em qualquer garota, ele pensou por um instante.

Levi brincou com as pontas dos dedos e o armário, agora envolto em faíscas esverdeadas, se mexeu para o lado, bloqueando a saída. Ela parou onde estava, e voltou alguns passos. Para evitar voltar para onde Levi estava, ainda no chão, ela andou em direção a cama. Com outros gestos com seus dedos, Levi fez os lençóis envolverem as pernas finas dela, ela caiu no chão gritando, e, por um segundo, a encarou de igual para igual.

A boca fina era uma linha rosada, as bochechas coradas e enrubescidas, desbotando no vermelho do nervosismo. Podia a imaginar como um anjo, com toda aquela beleza digna de apenas um ser celestial. Já havia conhecido garotas bonitas, mas havia algo a mais nessa. Talvez seu comportamento conturbado, ou o mistério que eram suas falas repetidas e sem nexo.

Levi se levantou arduamente. A batida havia sido forte, e havia gastado energia nos encantos e feitiços que improvisara nos últimos instantes. Ela se debatia, tentando sair da sua prisão de pano. Os lençóis enfeitiçados prendiam fortemente os pulsos e calcanhares na frente do corpo. Ele lançou um olhar para ela, que respondeu com os mesmos olhos de irreverência. Apoiou o queixo que finalizava seu rosto redondo nos joelhos.

— Agora pode me explicar? — seu tom impaciente fez ela ficar atenta.

— Não há o que explicar. — ela disse, com raiva nas palavras rápidas. — Você está prendendo uma celestial, não reclame quando sofrer a ira do paraíso, infernal.

Levi nunca entendeu o sentido do termo infernal ser utilizado para incluir todos os seres sobrenaturais. Alguns — como vampiros, lobisomens, ghouls e bruxos — eram realmente de linhagens infernais, e possuíam resquícios demoníacos em seus corpos, mas feiticeiros e magos, eram puros. Feiticeiros eram pessoas com sangue de anjo correndo em suas veias, e eram destetados pelo resto por causa disso. E os magos eram apenas humanos extraordinários, a prova que o ser humano conseguia se superar a cada geração. Mas havia uma malícia que todos desse submundo compartilhavam, todos tinham dons, e usavam para sua própria causa e para seu egoísmo, usufruíam de seus talentos e personalidade para satisfazer a própria ambição. Talvez por isso todos fossem infernais, não apenas fisicamente, mas sim no caráter.

— Explique direito! — exigiu, elevando gravemente o tom de voz. — Como você veio parar aqui?

Ela pensou. O olhar se perdeu encarando o teto com leves manchas escuras de mofo, já estava na hora de pintar novamente. Os olhos escuros e tempestuosos fitando todos os cantos do quarto, procurando uma resposta por lá. A boca se encurtara para o canto do rosto.

— Eu não me lembro — admitiu, triste. Parecia desesperada internamente, mas se continha. — Eu não me lembro! Não me lembro de nada, além do meu nome.

— Certo, Tati. Agora, realmente, eu não sei o que fazer com você.

— Como sabe meu nome? — perguntou, inquieta. Ela avançou e quase caiu no chão, seu olhar lustroso explicou para Levi que ela tinha esperanças dele souber sobre seu passado, mas Levi era a única pessoa que estava mais perdida do que ela mesma.

— Você falou. Foi a única coisa que disse, além de falar inúmeras vezes que você era um anjo.

— O que aconteceu? — Ela lançou mais uma questão que Levi não sabia ideia de como responder, mas que o continuava ao deixá-lo triste. Tati era tão frágil, parecia estar em cacos. — Viu quem fez isso comigo?

— Não. — falou, abaixando o rosto.

Levi olhou pela janela quando levantou o olhar. Evitou encará-la, ou fraquejaria junto a ela. Se sentiu tão diferente quando observou as pessoas na rua, se preocupando com coisas ordinárias. Pensou ter visto Alex, mas foi apenas uma confusão momentânea. Em menos de um mês seus pais haviam desaparecido, seu irmão mais velho assumido as rédeas da casa, brigado com seu melhor amigo, descoberto ser um feiticeiro, e achado um anjo. Levi chegou a conclusão que a situação não podia ficar pior.

***

Já era o quinto dia da semana que Daniel chegava em casa pela manhã e seu pai não notara, porque não estava em casa. Havia passado a noite inteira com Tália, e a matança de demônios havia o ajudado a o manter acordado. Trazia em uma sacola de pano as essências que conseguira naquela noite, que Tália negara.

O apartamento que vivia era relativamente pequeno quando lá moravam mais de uma pessoa, mas Daniel sempre o achou tão grande, já que na maior parte do tempo que estava em casa, estava sozinho. Era como dividir a casa com alguém em turnos diferentes. Seu pai só estava em casa nos fanais de semana, e eram apenas poucos os feriados que ele descansava.

Deixou a sacola em cima do sofá, cansado. Caiu nas almofadas confortáveis, e deixou-se relaxar por minutos, o uso de suas habilidades consumia muito de sua energia, e, na noite passada, quase havia desmaiado no embate com os goblins. Se não fosse por Tália estar ali para auxiliar, acabaria morrendo para aqueles demônios inferiores devido a fadiga. Lembrou-se de quando a conheceu, quando ela o parou na rua, dizendo que era como ele, que deviam se ajudar, já que eram poucos. Se sentia tão sozinho, era como viver num mundo onde tudo e todos eram gelo, e fosse a única chama, e riu consigo mesmo, pensando que essa metáfora se adequaria mais a Tália, não a si mesmo. Mas no mesmo instante, pensou que Tália não sentia assim, ela era forte emocionalmente, talvez a pessoa mais forte que ele conhecia. Ela, diferente dele, devia se sentir feliz por ser diferente da maioria, e por poder colocar medo em quem a ameaçasse.

Seu olhar foi ofuscado quando o sol saiu de trás de uma nuvem e o dia ficou ainda mais amarelado. Desviou os olhos da janela, e viu a fotografia da família na parede à esquerda. A mãe, o pai, e o irmão mais velho. Nessa época ainda não havia nascido, até porque, quando nascera, a mãe morrera no mesmo instante, o que o impossibilitara a vida inteira de ter uma foto com ela. Sentia-se vazio, e isso era mais um motivo para se sentir diferente dos demais. Via afeto de mãe o filho a cada esquina que trombava, a mãe que limpava o filho do sorvete, a mãe superprotetora que evitava as saídas de um filho com seus amigos, a mãe que ele matou.

Seu pai sempre conviveu bem com o fato da esposa morrer no parto do filho, estava ciente dos problemas de saúde que ela tinha, além do mais, engravidar outra vez havia sido escolha da própria. Pelo que haviam contado a Daniel, a gravidez fora complicada, com quedas de pressão e desmaios constantes. E depois dos tão aguardados nove meses, o parto conseguiu ser mais complicado ainda. Daniel, obviamente, não se recordava desses instantes, mas seu coração apertava toda vez que o irmão contava essa história. Na sala de espera, ele o pai, ansiosos. A notícia da mãe falecida o abateu de surpresa.

A causa da morte segundo aos médicos havia sido uma parada cardíaca tão forte que o coração dela explodiu dentro do peito.

Daniel nunca acreditou nisso. Nenhum coração explode do nada, sempre dizia isso para si mesmo. E por isso se culpava. Sabia do que era capaz de fazer, e, quando pequeno, podia muito bem ter dado uma descarga elétrica na mãe, por puro reflexo. Não que detestasse o dom que tinha, adorava acender luzes sem nem ao menos tocar nos interruptores, e mágica que fazia em acender uma lâmpada na própria mão sempre o alegrava na roda de amigos, mas acabara usando para coisas tão fúteis que achava que não tinha tanto significado.

Afastou esses pensamentos, e se limitou a encarar o futuro. Pensar no passado não mudaria nada, nenhum fato poderia ser mudado por arrependimento, mas, talvez, se melhorasse na sua conduta, isso não aconteceria novamente.

Fazia dois dias que não falava com Nina, e mais de uma semana que não ensaiava com sua banda, apesar de que, parcialmente, a culpa também ser de Eliza, que cancelava os ensaios.

Suspirou forte antes de cair no sono.

Notas finais
O Prisma: https://fanfiction.com.br/historia/656285/OPrisma/