Cidade Zero-Hora
8 Vozes da Noite
Notas iniciais

Nina o esperava sentada em um banco de madeira.
De longe, era normal e ordinária, como toda garota que estava por aquela praça. Vestia-se com roupas casuais, e, apesar de pouco satisfazerem seus gostos pessoais, era obrigada a usar aquilo para se enquadrar. Um shorts jeans que exibia as coxas, coisa que nunca gostou de o fazer, sentia-se desconfortável exibindo o corpo, mas o dia estava muito quente para um vestido ou uma calça jeans. A blusa era folgada e balançava com a brisa franca, os pássaros da estampa pareciam realmente estar voando. Estava concentrada no pequeno grimório que tinha em mãos, uma das poucas lembranças que tinha de onde morava, dado a ela pela bruxa anciã.
Nina agradecera pelo presente no mesmo dia, e agradecia infinitamente por ter ganho um livro tão especial. Poucas bruxas tinham acesso aquele conhecimento que a anciã havia escrito, e ela havia sido selecionada. O que a fez pensar porque havia sido a única sobrevivente. Talvez a anciã havia visto o futuro com uma magia, e dado a ela. Bruxas, assim como todos os usuários de magia, sabiam, que, com esforço, era possível ver o futuro, e sabiam também que era impossível mudá-lo. Por isso odiavam ter visões, pois essas apenas mostravam o futuro inevitável.
Nina mesmo nunca havia tido uma visão, e desejava nunca ter. Era um fardo tão pesado, nunca quis ser uma vidente, era mais uma maldição que um poder. Um grito lhe chamou a atenção, e quando olhou, viu uma criança caindo no chão, com uma bola nas mãos. Ela se encheu de terra e de grama verde, quase caiu em cima das tulipas do jardim público daquela praça, que não ficava tão longe de seu apartamento. Havia combinado com ele que o encontraria lá, e estava adiantada de propósito, queria alguns minutos para refletir. Fechou o livro suavemente e o deixou em seu colo, com as mãos fechadas delineou as curvas das coxas enquanto sentia o vento as alvejar. Era tão pequena, da última vez que se medira, há dois meses, tinha apenas um metro e sessenta e dois. Duvidava quando rapazes olhavam para ela, podiam muito bem a confundir com uma criança.
Checando a própria segurança, Nina verificou se a athame ainda se encontrava na lateral do tênis de cano alto. Nunca saia de casa sem sua faca de invocações, que sempre lhe acompanhou desde a infância até seus atuais dezoito anos. Mikael dizia que a cidade era perigosa, e, apesar de achar que um dos maiores perigos da cidade eram os vampiros, ela reconhecia que os lobisomens famintos e ghouls sedentos eram uma ameaça em potencial. Não que fosse indefesa, sabia muito bem que poderia evocar demônios que destruiriam hordas de licantropos.
Viu ao longe uma menina fada — de olhos completamente rosados — beijando um ordinário. Ela olhou para Nina quando a invocadora desvirou o olhar. Mais um que havia caído na graça das fadas, Nina lamentou.
— É perigoso uma dama andar por aí, principalmente uma senhorita igual você, tão especial — disse uma voz que não era de Ian. Nina foi para trás, e apertou o encosto do banco com as próprias costas. As mãos correram até o tênis, a ponta dos dedos ameaçaram pegar a athame. — Se acalme, eu vim apenas para um convite.
Nina olhou para o rapaz que estava na sua frente, parado como uma estátua. Tinha um corpo digno de um atleta incansável, com ombros largos e braços que escorriam tatuagens, muitas, entre elas, runas mágicas. A magia exalava nos desenhos escritos nos antebraços dele, e, pelo jeito que se portava, ela sabia que ele era um escravo. O olhar perdido, sem foco no mundo a sua volta, mas apenas no seu objetivo que fora mandado para realizar. Escravos eram servos de bruxas, Nina lembrou, humanos seduzidos que, depois de retirados do livre arbítrio, tinham apenas um propósito.
Nina não chegou a retirar a athame do sapato, mas continuou com a mão astuta. Ele não atacaria em público. O jovem esticou a mão para ela.
— Me chamo Luan — apresentou-se, com seu tom ameno e sem sentimentos. Era como um zumbi, na verdade, ele era um zumbi. — Podemos conversar em um local mais privado?
— Não, não podemos — ela negou, imóvel. Cruzou as pernas, ansiosa para que Luan fosse embora o mais rápido possível, a presença dele era estranha, o jeito o qual aqueles olhos escuros e sem vida olhavam para ela, com um sorriso de um homem que já fora louco de desejo. — Seja o que tenha para falar, fale logo.
Ele engoliu em seco e olhou em volta. Firmou as mãos na cintura. Uma das marcas mágicas que havia no braço tremulou.
— Eu vim, em nome da minha ama, lhe fazer um convite. — anunciou.
Convite? Nina estava há tão pouco tempo na cidade, não imaginaria que soubessem de sua existência, quanto mais a ponto de a convidarem para alguma comemoração. Sabia que em menos de um mês haveria o sabbath de bruxas, e que por cultura, iria se reunir com outras semelhantes.
— Explique melhor — exigiu, cerrando a vista.
Luan tirou um papel do bolso, era um cartão.
— Tudo o que precisa saber está aí — falava, sorridente. Os dentes alvos naquele sorriso hostil, pronto para fazer qualquer ordem que recebesse da bruxa que o escravizou. Ele se virou de costas. — Até mais tarde, Nina. — E saiu de cena, desaparecendo junto a multidão depois de passar por um arco de madeira decorado por flores coloridas.
Nina olhou o cartão, despretensiosa. Um folheto escuro, com letras brancas se destacando. As letras bem desenhadas formavam curtas palavras: ELIZA, A CONSULTORA.
Ela olhou novamente, e viu símbolos desbotando pela lateral até no centro, símbolos mágicos que apenas infernais poderiam ver. Outras palavras apareceram, indicando compra, venda e troca de artigos mágicos. Nina continuou o fitando por alguns instantes, até que o guardou no bolso. O endereço estava marcado ali, bastava ela ir.
Já olhava para o jardim de tulipas novamente, via as flores balançando de um lado para o outro, com sua coloração se destacando no sol daquele dia, quando viu Ian aparecendo ao longe. Ele finalmente chegara.
***
Tália acordou quando Rafael abriu a porta de seu quarto.
Ela não aprovava ações desse tipo, principalmente vindo de um homem tão cheio de ética como o tutor. Rafael era do tipo de homem que batia na porta para entrar no quarto da própria esposa, e não era costumeiro ele entrar no quarto dela — principalmente Tália, uma garota, que poderia estar nua — sem bater ou perguntar, só o fazia quando estava nervoso.
E ele estava.
Muito.
Ela estava sonolenta, por isso não capitou muito bem as feições broncas dele. Seus olhos caramelo ardendo de ódio, suas têmporas pulsando a cada segundo, a ponto de explodir. Os cabelos desgrenhados, e alguns fios nos dedos. Ela continuou se levantando lentamente, mesmo sabendo que escutaria, o que seria até o momento, o maior sermão de sua vida.
— O que você foi fazer? — ele perguntou, apressado. Apesar de raivoso, Rafael não gritava com ela, justo porque era ela que pagava seu salário, e pelo respeito mútuo entre os dois.
Tália terminou de se levantar, jogou os cabelos para trás. Não sabia se tinha força suficiente para continuar apoiada no braço, estava trêmulo, devido ao uso excessivo de energia na madrugada. Evocar chamas a custava tanto de si mesma. Olhou para a janela e suas grossas cortinas de veludo, e via o sol transpassando pelas brechas. Já amanhecera, e ela não havia dormido um terço do que suficiente para recuperar as energias.
— O quê? — inquiriu, sonolenta. Na verdade, era apenas uma estratégia para fazer Rafael ir embora, se acalmar e mais tarde conversarem. Mas ele estava com tanta raiva que não iria embora tão fácil. — Aconteceu alguma coisa?
— Sim, Tália, aconteceu — ele continuou, não cedendo. Ela fechou os olhos, mas ele falava de uma forma tão apresada que ela os abriu novamente. — Você foi imprudente novamente.
— Do que está falando? — Tália repensou nas suas últimas ações. Dirigir a moto sem os documentos em mãos, dirigir sem capacete, ter matado goblins e não ter pego as essências, ter jogado papel de bala na rua… nada disso parecia tão fatal para Rafael estar como estava.
— O vampiro, — e quando ele disse, ela se lembrou. A imagem de Cássio veio a sua mente, como um balde de água fria.
Ela pôde finalmente abrir os olhos e levantar por completo, jogando os pés para fora da cama e as cobertas para o lado. Os beijos dele, as mãos firmes e rígidas, os braços tão duros e malhados. Tália pôde ver todas essas partes que tanto adorou nele queimar, no seu fogo.
— Como você ficou sabendo disso? — perguntou, ainda atordoada de sono. — Já faz mais de uma semana.
— As notícias correm — ele explicou. — Eu não acreditei quando ouvi, ou melhor, não pensei. Depois que me disseram que não havia nenhum rastro de magia, e o incêndio foi causado naturalmente, eu juntei as peças. — ele jogou as mãos para cima. — Tália, você não deveria ter feito isso.
Ela arqueou-se para frente e deixou os ombros exaustos caírem. Os cachos caíram sobre a vista, dificultando a visão.
— É, — concluiu, insatisfeita. Odiava admitir. — você tem razão. Mas eu precisava ajudar Daniel.
— Matando um vampiro?
— O plano não era esse, mas eu tive que usar… você sabe… meus talentos. — Ela olhou de soslaio para o lado. — Sabe quando aplicar golpes de judô não basta? Então, a situação estava prestes a sair do controle, então mostrei o fogo para ele, porque sabia que ele temeria. Mas depois disso já não tinha o que se fazer, tudo saiu como esperávamos e bem… ele não podia saber quem eu era.
Ela sorriu para ele, emendando um pedido de desculpas que não precisou ser dito. Ele enfiou a face na palma da mão.
— E agora os vampiros estão descontrolados contra os lobisomens. — ele anunciou uma notícia não muito recente a ela. — Sabia disso?
— E isso é ótimo, mal desconfiam de mim. — Comemorou sob o olhar desapontado de Rafael.
— Bárbara me falou mais sobre essa disputa que está acontecendo, isso pode eclodir para algo maior. — ele alertou.
— Não finja que se preocupa — ela disse, fria. — Você sabe que esses dois, vampiros e lobisomens, só precisam um motivo fútil para brigarem, se odeiam de natureza. E não sei porque se importa tanto, você é apenas um ordinário.
— Pense como quiser. — ele virou-se de costas. — Estava pensando em seu bem, mas acho que você não quer ajuda. — E saiu, batendo a porta atrás de si.
Tália pensou na maneira trágica que ele perdera a mulher e filha recém-nascida, enquanto voltavam do hospital para a casa, logo após o parto. A cidade estava em guerra, vampiros contra lobisomens, e o carro deles foi atacado por uma ninhada de vampiros sedentos por sangue. Ele tentou defendê-las, mas os vampiros as levaram e o deixaram para trás, no veículo capotado. Segundo Rafael, o carro havia começado a pegar fogo alguns instantes depois, mas ele já havia conseguido sair, mesmo com uma das pernas quebradas. E assim ele conheceu o pai de Tália, que estava passando na rua e o ajudou o homem de perna quebrada a chegar ao hospital mais próximo.
Eram tantas histórias de Rafael que ela se perdia, ele era um ordinário, mas provavelmente havia vivido mais aventuras do que muitos infernais. Se deitou novamente na cama, se afundando em seu colchão confortável e sendo abraçada pelo sono.
***
— Acho que quero apenas um suco de laranja.
Ian dizia à garçonete, enquanto Nina escolhia algumas das limitadas opções no cardápio. Depois de dias passando na companhia dela, a obrigação havia se tornado algo bom. Nos primeiros dias, ele apenas ia ao apartamento dela, enquanto ela lia sem lhe dar atenção. Passavam horas assim, cada um no seu canto. Com o tempo foram se soltando, e estavam em uma boa condição, quase amigos de verdade um do outro. Nina era inteligente, e adorava debater sobre assuntos do cotidiano que eram tabu na sociedade, e Ian sempre comentava dessas coisas com ela, adorava uma pessoa de opinião forte, para se chocar com as suas.
Já era a segunda semana que saiam desse jeito, como um encontro formal, apesar de nenhum dos dois falarem abertamente que estavam indo para um encontro. Ian a levou para um dos seus lugares preferidos para se comer e se divertir, ela não pareceu gostar muito das praças da cidade de noite — local do primeiro encontro deles. O Tortas e etc era um estabelecimento de esquina, um pouco estreito, mas muito agradável. Costumava ir ali na saída da escola, junto de Tália, que fora quem o apresentou o lugar. Os bancos estofados eram dispostos de maneira americana, de um jeito que ele e Nina ficavam um de frente para o outro. Uma música popular tocava ao fundo.
Janete olhou para Nina, exigindo uma resposta.
— E então? — perguntou a atendente, sua voz nasalada soou irônica.
Nina olhou para Ian, procurando ajuda.
— Uma torta de amora — Nina falou para ela, olhou para ele. — Certeza que não vai querer nada?
Ele a olhou e riu, já havia provado todos os sabores de torta do local, e podia descrever todos com a maior facilidade possível, mas ter andando no sol até o local havia lhe dado um pequeno vazio no estômago.
— Pensando bem. — disse Ian. — Quero uma de banana.
Janete se retirou.
Ian olhou ao redor e viu o lugar arejado e agradável de se olhar, era tão bom poder fazer algo tão ordinário novamente. Não haviam vampiros sanguinários nas mesas, guardando as portas, apoiados nas paredes, apenas bons e comuns ordinários, como ele. Se sentia um pouco mais normal de novo, como se nunca tivesse descoberto dos infernais. Mas era uma sensação passageira, sabia, e daqui a poucos minutos se sentiria um assassino de aluguel novamente. Não tinha como se evitar.
Resolveu parar de gastar tempo pensando em si mesmo e dedicou alguns segundos à Nina. A garota tão bela, e tão tímida a sua frente. No começo dos dias que ele ia em seu apartamento, ela servia a ele algumas coisas simples que preparava na cozinha — como pães e bolos, que o faziam lembrar de Beth, a enfermeira amiga de sua mãe, e também a melhor cozinheira que Ian já conhecera. Nina não parecia tão promissora como Mikael falava, mas, se havia algo que ela era, era misteriosa. Todos os seus olhares ao redor, como se encarasse as coisas como se fosse a primeira vez, eram contidos, com um olhar em segundo plano, desconfiando de todos a sua volta. Era simples para ela acabar com um problema, bastava apenas retirar sua adaga de sacrifício do tênis e cortar a garganta de que lhe importunasse.
— Esse lugar é agradável — ela disse, olhando ao redor. Seus cabelos balançaram quando um vento forte entrou pela janela. O sol refletia no olhar cor de esmeralda, e Ian viu que eles não tinham as típicas nebulosas amareladas das pessoas que costumavam ter olhos verdes. — Bem arejado, o atendimento também é ótimo.
— Sim, é. — respondeu. — Descobri há uns anos, quando Tália me trouxe aqui quando bolamos aula. — Deu uma risadinha, tentando descontrair. — Sem falar que as tortas daqui são as melhores que você vai comer em sua vida.
— Essa Tália. — ela continuou, hesitando um pouco quando dizia o nome da amiga de Ian. — É sua namorada? Você fala dela sempre.
A confusão típica de todos, inclusive de todos que conviviam com eles. Ian já estava acostumado a responder essa pergunta.
— Não. Somos apenas amigos, bons amigos, apesar de eu não estar falando com ela…
— Perderam o contato? — Nina perguntou, por debaixo de uma sobrancelha arqueada.
— Não é bem isso, eu apenas não consegui a encontrar depois que tudo isso começou. — Olhou para Nina e não a viu, e viu Tália em seu lugar. Os longos cachos caindo em cima dos ombros rígidos e alegres, o sorriso simples e expressivo dela. Podia a ver em todos os cantos, uma triste visão do passado, ela e ele. Algo o impedia de olhar para a cara dela e mentir sobre o que era, ou omitir, como pretendia fazer. Tália era sempre tão sincera, ele seria tão sacana caso o fizesse. Por isso decidiu evitá-la. — Ela é uma ordinária. Não sei se devo falar para ela dos infernais.
Janete chegou com a badeja. Servi-os e logo se retirou.
— Eu acho que você deve permanecer como está. — ela falou, após beber um pouco do suco de laranja que pediu em um canudo fino. Expressou a satisfação quando ergueu ambas as sobrancelhas. — Ordinários podem não reagir tão bem ao submundo. Alguns realmente enlouquecem.
— Eu sei. Mas não temo por ela, sei que ela não enlouqueceria. Mas eu olho no espelho e vejo o que me transformei, não fico satisfeito.
Nina ria enquanto mordia seu primeiro pedaço de torta, a boca pequena e fina curvada em um sorriso tímido.
— Minha babá? — indagou. — Eu não acharia tão ruim, sou uma bruxa muito poderosa.
Ele sorriu para ela.
— Não é isso. — Ian se sentia envergonhado, mas nem tanto. Sabia que Nina podia o entender. — Ser um assassino, as vezes eu não consigo dormir. Já matei um lobisomem e um ghoul, apenas por ordem de Mikael. Não sei se o que estou fazendo é certo, mas ao mesmo tempo, eu não ligo. O que importa para mim é o dinheiro que eu ganho com isso. Sou uma péssima pessoa, não sou?
Ela pousou o garfo calmamente na mesa, enquanto mastigava. Engoliu com a ajuda do suco de laranja.
— Humano, eu diria. Não errado, mas muito humano. É o que você é, entende? Não há como fugir disso. Eu, por exemplo, convivo com demônios, e mesmo assim, sei que eles querem me matar, como fizeram com todas as outras… — ela parou por aí, fechando a boca de súbito.
Nina poucas vezes falava de seu passado, e nunca parecia disposta a falar. Dizia poucas coisas, como das flores do jardim da casa onde morava, ou das outras meninas que a invejavam pelo seu potencial. Ian não queria a forçar a nada, mas sempre teve uma curiosidade oriunda.
— Como era lá? — ousou, ela o olhou, com os olhos brilhantes de saudade.
— Lindo. — disse, a boca suave abrindo e fechando. — Até que tudo foi destruído por aquele demônio ifrit. Até a invocação sair de controle.
Ian sabia o resto da história porque Solange havia o contado. A casa onde as bruxas moravam havia pegado fogo, queimando por completo. Foi um milagre Nina ter sobrevivido, e a diretora do coven de bruxas, mandou um aviso para Mikael minutos antes da morte, pois eram amantes de outra época.
Nina deu outra garfada na torta, mas não apreciou como da primeira vez. Fez uma careta.
Dois lobisomens entraram pela porta, sorrindo e conversando em tom alto. Olharam para Ian e rosnaram baixo, ele ignorou. Nina começou a falar de Dom Casmurro, e de como achava a narrativa interessante e profunda. Ian odiava a aula de literatura, por isso prestou pouca atenção na conversa. Assim como nas aulas, o celular o salvou do tédio. Viu as mensagens que ainda notificavam, e notou que havia uma de um número familiar.
“Hoje a meia-noite, em você sabe onde.”
Era de Tália.
Ele sabia bem.
O mundo a sua volta se abafou, a voz de Nina era apenas um murmúrio distante, junto aos outros ruídos do ambiente. Tália soava tão séria por aquele recado eletrônico, e, certa parte de Ian, já sabia o assunto da noite.
***
E dois anjos desceram dos céus.
Esse era o primeiro versículo contado pelos feiticeiros, que explanava sua origem na terra.
O primeiro dos anjos, Miguel, o príncipe dos anjos, cortou seu braço, e o homem pôde beber de seu sangue dourado.
O segundo dos anjos, Gabriel, o mensageiro, foi responsável por transmitir o recado para eles, já que a voz de Miguel não era traduzida para a língua dos homens. Foi dado-lhes a missão de guiar a raça dos homens para a quietude, para que nada estragasse o sono do senhor.
Mas como tudo naquele mundo, os aprendizes dos anjos eram corruptíveis, e deixaram-se corromper, como todos os homens. Logo o propósito dos feiticeiros foi perdido, enquanto eram caçados pelos bruxos, suas contrapartes. E nos dias atuais, nenhum feiticeiro pensava em sequer livrar a humanidade daquela corrupção toda, eram infernais como o resto, e, os outros diziam, que muitos dos demônios já foram anjos, incluindo os feiticeiros.
Levi contemplava um anjo a sua frente, mas não fazia a mínima ideia de como reagir. A garota faminta que comera três tigelas de cereal não parecia ser um celestial, talvez pelo seu corpo simples e sem músculos, ou pela pouca aptidão física que ela parecia ter. Anjos eram, acima de tudo, guerreiros de Deus, e ela poderia ser tudo, menos uma guerreira. Sabia que muitos de seus semelhantes dariam tudo por estarem junto ao um anjo, e Levi não fazia questão de ter uma estranha acabando com a sua comida.
Tati olhou em volta, confusa ainda.
— Você vive aqui? — perguntou. Seu olhar escuro transmitindo um brilho frágil, quebrável. — É bem bonito.
— Sim. Meu irmão também mora aqui, mas ele não está.
Ela se assustou e deixou a colher cair no chão.
— Ele não me viu, viu? — indagou, mais assustada. — A notícia que eu fui presa nesse corpo não pode se espalhar. Mais feiticeiros não podem saber que há um anjo non plano terreno.
As palavras que ela usavam eram, de certa forma, cômicas para Levi. Muito confusas e elaboradas, um pouco exageradas.
— Não, ele não te viu. Pode ficar tranquila. — Se sentou a mesa junto a ela e abandonou o balcão. Enquanto se aproximava, ela se apertava mais na cadeira, receosa — Além do mais, ele não é um feiticeiro como eu.
Ela ergueu uma sobrancelha.
— Vocês são realmente irmãos?
— Sim… — Levi respondeu, com a voz falhando. Era demais para ele pensar que ele e Ian não eram irmãos de verdade, nunca considerou essa hipótese. Sua mãe amava tanto seu pai, e Patrícia não tinha olhos para ninguém além de Fernando.
— Impossível! — ela afirmou, irreverente. — sangue de anjo prevalece, sempre. Não há como uma criança nascer meio anjo e outra não.
— Sim, é bem possível e isso aconteceu com a gente. — Levi continuou, seco. — Mas não estamos aqui para falar de mim, e sim de você. Diga mais sobre você. Como foi parar lá?
O olhar dela caiu para o prato vazio, onde há poucos minutos haviam os cereais. Procurou as respostas no vazio, e não encontrou alguma. Ela forçava os lábios, fazendo-os se avermelharem contra toda a branquidão que era a pele. Talvez Levi finalmente havia encontrado alguma pessoa tão alva como ele, ou até mais.
— Você não sabe. Não é?
— Sim, é isso. — disse, descontente. — Eu não sei.
— Ótimo, Tati, continuo sem saber o que fazer com você.
Ela olhou pensativa para ele.
— Como sabe meu nome?
— Você o disse, logo quando acordou, lá na mata. — explicou.
O celular de Levi tocou, e ele teve que voltar até a sala de estar para o pegar. Pensou que seria Alex ou até mesmo Ian, em uma hipótese impossível que passou por sua cabeça em um segundo, mas era Bárbara.
— Alô. — atendeu, frio, como toda vez que falava com ela.
Bárbara estalou a língua do outro lado da linha.
— Oi, Levi! — falou, alegra. Levi havia dado seu número a ela depois de uma ou duas vezes que voltou no bala de prata, para procurar por serviços que não encontrou. Ela disse a ele que avisaria caso algo novo aparecesse. E aparentava que essa hora havia chegado. — Tenho uma boa notícia.
Tati apareceu diante dele, assustada e com as mãos fechadas. Empunhava uma das facas que Levi sabiam que mal cortavam os pães. A balançava para todas as direções. Em uma longínqua visão, podia a ver como um anjo justiceiro. Mas logo voltou a realidade, e viu apenas a garota amedrontada com uma faca nas mãos, a fazendo de espada.
Ele fez um chiado para ela se calar, pois não parava de perguntar o que estava havendo.
— Estou atrapalhando? — Bárbara perguntou. A licantropo já havia percebido a indiferença que Levi tratava a todos, e as vezes se sentia inconveniente ao falar com ele. — Me desculpe se eu…
— Não. — A cortou. — Você não está atrapalhando.
— Enfim, o assunto é delicado. — ela dizia, com uma voz preocupada. — Se pudesse vir aqui mais tarde, todos nós agradeceríamos. Não é eu que vou lhe contratar dessa vez, Levi, vai ser a alcateia. Aconteceu algo terrível, e precisamos de sua mágica.
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