Notas iniciais
Olá leitores! Alguém aqui curtiu X-Men Apocalipse?

Tempo.

Tempo depende de tudo. Tudo depende do tempo. Qualquer compromisso pode tornar o tempo curto e uma hora apressada. Qualquer encontro pode tornar uma hora grande ou pequena. Depende do seu bem-estar e o que você está fazendo. Eu?

Eu estou sentado, parado, cansado, emburrado e com um tédio da porra que eu mesmo não consigo aguentar. Faço os cálculos.

Tempo que demora para eu fazer esta escola pegar fogo: Cinco minutos. Cinco minutos de mais explicação chata do meu professor de química e ele vai ter desejado nunca me contar as substâncias que alastram o fogo.

Ah, sinto meu dedo queimar. Quanto mais tempo? Olho para o relógio da sala. Percebo que o ponteiro de segundos não se move. Está quebrado. Arggh!

Nessas horas eu costumava passar uma folha de papel para o Leyland dizendo o nível de tédio que eu sentia. Olho para trás. Leyland está no canto da sala, quieto. Quanto tempo vamos continuar assim?

Já faz duas semanas desde que descobri que Selena era a Revolucionária. Podia ser até coincidência, apenas o fator do cabelo, mas TUDO se encaixa.

Selena foi atingida durante trabalho voluntário de vigia(bem provável a que atirou em mim, mas quem dá uma arma a uma adolescente?) e ficou apenas seis dias de coma até acordar com saúde incrível. Desde o início ela desconfia de mim, principalmente agora que namoro sua irmã.

E nada de Edward e seus capangas. Se esconderam na toca como uma cobra, prontos para atacarem novamente com um plano melhor. Quando? Não faço ideia.

Sinto que minha concentração nas aulas caiu. A superconcentração que a pedra brilhante me deu faz qualquer barulho, um rasgo na ponta do caderno, o risco de uma caneta ou o som de um lápis sendo apontado torna-se um estrondo. Sim, por mais estranho que pareça, isso me deixa de cabeça quente.

Na aula de basquete, continuo sendo separado para o time contrário ao do Ethan. Tento evitar fazer movimentos rápidos demais para a noção natural humana, e muito menos pular da metade da quadra até a cesta (pode chamar muita atenção, e é isso que menos desejo).

Caitlin continua almoçando comigo e sua irmã nos vigiando. Perco a fome toda vez que ela passa olhar para mim.

Á noite, encontro Fatal no mesmo telhado da loja que fora queimada. Pode cair a qualquer momento, e isso me deixa tentado a entrar em combustão.

—Fatal?- chamo por ele. Na ponta do telhado, sua silhueta se levanta, e caminha até mim.

—Parece que há outro Afetado na área. Ele vem atacando multidões e realmente não dá a mínima pros civis. Seu poder é de controlar tempestades. Parece que todo lugar que ele vai, uma névoa segue ele...

Fico confuso. -Pera, tá me dizendo que nós temos uma Tempestade atirando raios na Manhattan alheia.

—É por aí.- então ele suspira, olhando para os lados. -Hoje eu não estou vendo nenhuma neblina na cidade... parece que está tudo limpo. Mas é esse meta-humano que vem destruindo após o Camaleão.

—Falando nisso, por que você não estava aqui quando este lugar...- aponto para baixo. -... quase queimou por completo?

Ele desvia o olhar, movendo sua máscara negra de ninja para o lado esquerdo.

—Eu estava com a minha família.

Família? Onde seria aquilo? Penso nele com os filhos, brincando com eles, e então ouvindo o radar da polícia apitar sobre um roubo e incêndio numa loja de joias, parar, e continuar brincando.

—Olhe...- ele para. Quer saber como me chamaria.

—Hiperion.

—Olhe, Hiperion. Suponho que você também tenha uma família, né? Não, não filhos, você é muito novo para isso. Posso ver por trás da sua máscara.

Sinto minha máscara pesar e ao mesmo tempo como se não houvesse nada ali escondendo minha identidade, como um inútil.

—Você deve ter um pai. Ou uma namorada, até. Olhe, o que você sentiria se soubesse que um transmorfo soubesse quem você realmente é, pudesse ir para sua casa, pretender que é você e matar seus pais em um só movimento? Eu tenho filhos, Hiperion, filhos que eu continuo tendo que levar para a escola e vigiá-los enquanto dorme, porque a qualquer momento pode entrar um líder de máfia e matar a minha mulher e raptar meus filhos, apenas porque eu não estaria lá para protegê-los! Eu coloco a minha família em jogo apenas para poder salvar outras pessoas, estranhas e nem inocentes como meus garotos... mas eu faço de qualquer jeito.

Permaneço parado. O que se diz numa hora dessas? Ele continua: -Eu tenho você como alguém que eu possa confiar, você é meu aliado, mas você pode proteger minha família se eu morrer?

"Se eu morrer". Eu tenho combatido o crime por um mês, quase, mas nunca imaginei assim: um erro e você pode não voltar para a casa.

—Fatal...- tento dizer algo, mas ele me interrompe.

—Você pode?

Penso. Alguém pode prometer algo tão difícil?

—Sim.- respondo.

—Prometa!- ele exige, chegando mais perto. Não posso ver seus olhos, mas consigo senti-los por dentro da máscara.

—Eu prometo.

—Bom. Agora posso confiar em você.

Ficamos parados por um momento. O que fazer? Ouço o barulho da cidade aumentar a medida que o trânsito desacelera. Ilumino o teto com o dedo indicador esquerdo e observo ele se movimentar pela direção do vento.

—Acho que avistei alguma coisa.- Fatal diz enfim.

—Avistar?- penso alto. -Então o seu poder vem da visão? E como você vai chamar isso? Sharingan?

—Não compreendi o que você quis dizer com sharingan, mas sim, eu vejo cada movimento antes de realmente acontecer, as coisas e pessoas por trás de paredes e o coração delas batendo. E não estranhe que eu use máscara. Meus olhos ficaram dourados desde a explosão.

—E ninguém percebe essa cor peculiar?

—Eu uso óculos. De qualquer jeito, tem uma perda de temperatura a três quadras daqui.

Ele aponta para a direção. Olho para lá. Algumas nuvens começam a juntar.

—Avante, então!- exclamo.

Quando chegamos até o local, a Columbus Circle, uma praça quase vazia, se não fosse pela movimentação das pessoas, a multidão anda normalmente. As nuvens no céu são menores do que antes. Pergunto-me se chegamos tarde demais.

—Consegue ver algo?- pergunto ao Fatal. Ele parece procurar, movendo a cabeça para os lados. Olha novamente. então fixa seu olhar em uma só direção.

—Ali!- ele aponta.

—Onde?- pergunto. Vejo nada, apenas uma multidão de pessoas prosseguindo com suas vidas desinteressantes.

Ele, então, pula do prédio até o beco. Num salto mortal, agarra-se na parede e pula para a do lado. Aterrissa suavemente no chão do beco estreito.

—Me siga!- ele desafia. Pulo do prédio, dando um mortal, e acendo fogo no ar, mando as chamas contra o chão, aterrissando no solo firme.

Fatal nem comemora. Só começa a correr em meio a multidão. Sim, dois loucos correndo mascarados na praça à noite. Qualquer um suspeita. Mas esta é Manhattan, cidade grande e louca não tem como a gente não passar só de outro detalhe na grande imagem.

Passamos pelas pessoas. Algumas se assustam, outras já estavam olhando para nós. Isso que é o termo vigilante? Acho que não, mas que escolha nós temos?

Fatal desacelera. Tudo ocorre muito rápido.

—Cuidado!- ele grita. Eu paro. As nuvens tornam a se aglomerar. Uma mulher na multidão levanta os braços e aperta os punhos. Demoro para gravar seu rosto, um milhão de anos olhando ela levantar os pulsos ao ar e fazer esses milhões de anos virarem um segundo até os raios atingirem o chão.