Cidade Da Noite
3 Capítulo 2
Notas iniciais
Sei que a história ainda está sem leitores, mas tenho mania de escrever rápido demais e não consigo ficar sem postar!
Por esse motivo também provavelmente postaria um capítulo por dia ou dia sim, dia não kkkkkk não aguento esperar pra postar, definitivamente!
– Sabe, você precisa se exercitar.
– Já disse que gosto do meu sedentarismo, gato. – Carol rebateu.
Ela havia chegado cansada e estressada da casa de Letícia e agora estava jogada no sofá com uma panela de brigadeiro no colo. O gato se aconchegara a seu lado, como sempre querendo carinho.
– Só uma vez! Não custa tentar, vou com você. – Ele deu um de seus sorrisos animalescos.
Carol revirou os olhos. Mais um amigo em sua vida para contribuir em sua lesão por esforço repetitivo. Resmungou enquanto se levantava e fitou o gato com os olhos estreitados.
– Você pode falar o dia inteiro na minha cabeça, pode me fazer parecer louca na frente dos outros, mas NÃO FALE NADA ENQUANTO EU ESTIVER LENDO. – Ela terminou a frase gritando e marchou para seu quarto.
O apartamento de Carol era mais ou menos grande. A sala tinha as paredes verdes claras e nela havia um sofá, uma televisão e um pufe. Dali chegava-se a um corredor de paredes do mesmo tom e que tinha quatro portas: uma levava até a cozinha, que era azul e bem pequena, já que a menina não sabia cozinhar; a outra até o banheiro, completamente branco e grande – Carol amava banheiros grandes; e, por fim, duas que levavam até seu quarto e um quarto sobressalente.
Seu quarto era como seu paraíso. As paredes rosadas eram preenchidas por prateleiras e mais prateleiras de livros. A cama ficava no canto praticamente esquecida, enquanto no meio do quarto pendia uma cadeira de pano e, no chão, outro pufe que ela usava com frequência para se aventurar em suas leituras.
Carol olhou suas prateleiras com admiração, como sempre fazia. Não conseguia evitar aquela paixão, a vontade de abraçar todas as páginas ao mesmo tempo, de fazer com que tudo aquilo fosse real. Queria pegar cada livro com cuidado, folheá-los e cheirá-los. Eles eram como a presença de velhos amigos. Aproximou-se e puxou “Anjo Mecânico”, de Clarisse Clare, para si. Era um de seus livros prediletos. Tentou não suspirar ao pensar no seu personagem favorito.
– Você idolatra esses livros. – O gato reapareceu, mas ela notou a aprovação em sua voz. – Livros são poderosos.
O estranho animal não disse nada enquanto ela se deliciava com sua releitura. Ele havia se empoleirado no pufe enquanto ela estava sentada sobre ele, na cadeira de pano. Quando resolveu parar, assustou-se ao notar que já era madrugada.
– Me convenceu, gatinho. Você foi tão bonzinho que vou caminhar com você.
Aconchegou-se na cama e o gato pulou ao lado dela, encostando o corpo peludo e quente contra sua barriga. Por mais que não quisesse admitir, Carol se sentiu bem: odiava dormir sozinha. O calor e o movimento da respiração do gato, estranhamente, fez com que ela se sentisse mais segura do que em qualquer outro dia de sua vida.
Depois da escola, Carol colocou um top, uma blusa larga e uma calça de cotton. Apanhou seu celular e colocou Lynyrd Skynyrd para tocar, sorrindo para o gato que virou a cabeça com curiosidade quando ouviu a música.
Fazia tempo que ela não via a praia. Andava sempre tão ocupada, que se esquecia de ir até ali e ter aquela vista maravilhosa. Enquanto caminhava no calçadão, ciente da presença do gato a seu lado, ela observou os coqueiros que se movimentavam ao vento, a grande extensão da praia e o mar, com suas ondas esverdeadas e cristalinas.
De repente viu-se caída no chão. Olhou aturdida para os lados, esbarrara em alguém. Um garoto de cabelos castanhos compridos e lisos a observava com olhos também castanhos. Ele parecia perdido, talvez por causa do encontrão.
– Eu... Me desculpe – Carol disse timidamente.
O garoto se encolheu e a observou mais atentamente. Havia algo de estranho na expressão dele. Ela levantou-se e ficou encarando-o, esperando que ele dissesse algo ou levantasse também.
– Ana? – ele perguntou.
Carol ficou paralisada. Ele podia obviamente ter se confundido, pois ninguém a chamava assim. Mas a forma como ele havia dito, como olhava para ela, provavam que ele tinha certeza do que dizia.
– Eu te conheço?
Ele balançou a cabeça e adquiriu uma expressão de tristeza.
– Eu não sei. Não me lembro de nada. De repente quando te vi... Me veio o nome na cabeça. Pensei que talvez você pudesse saber algo sobre mim.
– Ele tem um cheiro estranho.
Carol sobressaltou-se quando o gato falou com ela, havia se esquecido de sua presença.
– Você está cheirando ele? – disse em voz alta sem querer de forma incrédula.
– O quê? – o garoto perguntou.
– Nada. – Ela lançou um olhar irritado para o gato. – Qual o seu nome?
Ele balançou a cabeça novamente.
– Não sei. Só sei o seu nome, mais nada. – E começou a se balançar de forma histérica, os olhos vidrados e cheios de pavor.
A garota sentiu pena, não tinha como evitar. Deveria ser horrível não lembrar-se de nada. Abaixou-se ao lado dele e colocou a mão em seu ombro.
– Nada? Nem família? Nem casa? Nem amigos?
O garoto a fitou e pareceu relaxar um pouco, então negou mais uma vez. Carol suspirou, como o deixaria ali daquela forma?
– Vamos, levante-se. Vou levar você para um hospital.
Ela tinha receio de colocar um cara desconhecido dentro do seu carro, então acabou ligando para Victor leva-lo e foi para casa. A imagem do desconhecido ficara gravada em sua mente. O corpo comprido e esguio, a pele morena clara, os olhos...
– Estou vendo que gostou do que viu. – O gato riu.
– Cale a boca.
– Minha boca está muito bem fechada. – E riu novamente.
O gato era irritante. Incrivelmente irritante. Percebeu que seu celular vibrava, atendeu.
– Acabei de deixar o garoto lá, amor. Vou jogar bola agora, te ligo quando voltar – Victor disse.
– Ok. Amo você.
Ela se jogou no sofá e encarou o teto. Como o garoto estranho poderia saber quem era ela? Como poderia lembra-se somente dela? Revirou-se de forma inquieta até acabar adormecendo.
Acordou sobressaltada com o barulho do interfone. Engatinhou até lá.
– Carol, um garoto está pedindo para entrar. – Ouviu a voz conhecida do porteiro.
– Quem é, Jorge?
– Ele disse que não sabe.
Os olhos de Carol se arregalaram. O que o estranho estava fazendo ali? Pior, como sabia onde encontra-la? Teria Victor dito?
– Carol? – Jorge perguntou.
– Não deixe que ele entre, mas peça para esperar que eu estou descendo.
Ela arrumou-se rapidamente, só para ficar apresentável, e desceu correndo. O gato atrás dela. Lá em baixo, o garoto esperava olhando o céu. Parecia mais calmo, os ombros relaxados, as mãos colocadas casualmente nos bolsos. Ela parou e ficou observando-o. Era óbvio que deveria ser um daqueles garotos desejados, provavelmente tinha uma namorada e talvez pais maravilhosos. Deviam estar procurando por ele.
– Oi – ela disse.
– Ah! – Ele se virou e olhou-a dos pés à cabeça. – Oi, Ana.
Carol estremeceu, não conseguiu evitar. A forma como ele a chamava, era como se eles se conhecessem há séculos, como se fossem íntimos. Ela gostava que ele a chamasse assim. Balançou a cabeça. Ele era um estranho desconhecido que descobrira onde ela morava.
– O que está fazendo aqui?
– Não sabia para onde ir. Então me lembrei que você morava aqui. – Deu de ombros.
– Como você pode saber onde eu moro se nunca nos vimos?
– Eu não sei.
– É difícil confiar em alguém que diz não se lembrar de nada, mas sabe meu nome e meu endereço. O que mais sabe? Meu celular, minha escola?
– Talvez... – ele disse parecendo pensar. Então notou que ela havia cruzado os braços e o encarava. – Foi só uma brincadeira, Ana. Não sei porque me lembro dessas coisas. Talvez eu morasse nesse condomínio também? Talvez conhecesse alguém que te conhecia? Como vou saber?
A expressão de tristeza voltou a seu rosto. De alguma forma, ela odiava que ele ficasse daquele jeito. Queria aproximar-se e dizer que ele podia ir com ela, que o ajudaria. Mas como se ele poderia ser alguém com outras intenções?
– Ele está dizendo a verdade, Carolina – o gato disse sério em sua cabeça.
– Como você sabe? – ela perguntou virando-se para ele.
– Nós, os gatos, conseguimos ler a mente das pessoas. A cabeça dele está vazia. Não acredito que vá fazer algum mal a você.
– E se você estiver errado?
– Um gato nunca está errado – ele disse e seus olhos tiveram um lampejo de irritação. – Além disso, eu poderia te defender.
Como para mostrar que estava falando sério, o gato levantou a pata e a movimentou no ar, que zumbiu quando as longas garras afiadas e brancas ficaram à mostra. Em seguida sorriu, os dentes pontiagudos brilhando com a luz da lua.
– Você tem um gato muito interessante – o garoto disse, fazendo com que ela se perguntasse se ele também podia ouvi-lo.
Olhou para ele. Os olhos castanhos observavam o gato com curiosidade. Ele parecia completamente inocente, como uma criança. Carol suspirou. Não podia deixa-lo na rua. Além disso, ela confiava em seu amigo animal.
– Vamos, venha comigo. Vou preparar algo pra gente comer e você pode ficar lá em casa enquanto se recupera da amnésia.
Notas finais
Beijinhoss
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