Notas iniciais
Mais um capítulo ;)
Espero que gostem!

– Isso é o que você chama de refeição? – o garoto perguntou.

– E ainda reclama... – Carol respondeu com falsa indignação.

Ela havia preparado hambúrguer para eles e estava muito orgulhosa de si mesma. Fritara bacon pela primeira vez na vida e ele estava com uma cara ótima. Colocara tudo na mesa junto com suco de maracujá – uma de suas especialidades.

– Não posso continuar te chamando de “garoto” o tempo todo. Temos que inventar um nome para você.

– Mário? – ele perguntou sorrindo.

– Não, definitivamente não.

– Porque não escolhe o nome de um cara dos seus livros?

Carol não questionou o fato de ele saber que ela gostava de livros, já sabia que ele fazia isso por algum impulso estranho e ela aceitaria por enquanto. Torcia para que ele não fosse um maníaco que a espiava nas horas vagas.

– James, William, Patch, Eragon, Harry, Tristan, Xavier, Cato, Peeta, Finnick… – Ela enumerava nos dedos. – Você não combina com nenhum desses nomes.

– Também acho que não... – ele disse e depois abocanhou seu hambúrguer.

Eles comeram em silêncio, deixando o assunto de lado, embora a mente de Carol continuasse a funcionar, pensando em um bom nome. Diversas vezes pegou-se o encarando, pois tinha a ligeira impressão de que ele a lembrava alguém. Quando estavam lavando vasilhas juntos, ela se lembrou.

– Já sei! Ben! É assim que vou te chamar!

– Por que Ben? – ele indagou, tentando limpar a espuma que ela jogara sobre ele quando anunciou o nome com orgulho.

– Porque você se parece muito com um ator inglês: Ben Barnes!

Ele apenas ergueu as sobrancelhas.

– Ele é bonito?

– O quê? – Carol indagou.

– Perguntei se ele é bonito, esse tal de Ben Barnes. Sabe, com esse meu rostinho não posso receber um nome qualquer – ele respondeu dando uma piscadela e um sorrisinho feminino, só para depois cair na gargalhada.

– Idiota – ela disse, rindo também, e encheu o garoto de espuma.

Em questão de segundos viu-se no chão, com o ga... Com Ben sobre ela esfregando espuma em seu nariz, bochechas, orelhas e braços. Ela se debateu inutilmente embaixo dele e teve a impressão de ouvir o gato dizendo algo como “crianças” em sua cabeça, mas ignorou.

A brincadeira continuou até que eles começassem a jogar água um no outro, ficando completamente molhados. Ela não conseguiu evitar observar o tórax de Ben. A camisa havia colado, delineando o corpo magro. Não foram músculos que chamaram a atenção dela, isso nunca a impressionava, mas os ombros largos e marcantes. Por um instante imaginou como seria estar com a cabeça encostada ali, sentindo... Eles ouviram batidas na porta. Carol despertou de seu torpor e sentiu-se corar. Ben manteve o olhar sobre ela, não disfarçando sua especulação. Ela pigarreou e foi até a sala: era Victor.

Não podia deixa-lo esperando na porta, já que pelo porteiro ele já sabia que ela estava em casa. Respirou fundo e abriu. Victor a olhou com curiosidade e riu.

– Resolveu tomar banho de roupa? – E puxou-a para si.

– Na verdade não... Victor...

Antes que Carol pudesse terminar a frase, Victor ficou tenso e a afastou bruscamente, os olhos vidrados em um ponto atrás dela. A garota suspirou, já entendendo.

– O que você está fazendo aqui? – Seus olhos estavam sombrios e Carol estremeceu.

– Ei cara, deixe a gente explicar. – Ben levantou as mãos como se dissesse que era inocente.

– Pois eu estou esperando – Victor disse cruzando os braços e encostando-se ao batente da porta.

– O Ben não tinha para onde ir...

– Ah, ele lembrou-se do nome? – disse com rispidez.

– Não, foi o nome que eu dei a ele... Aaah, não interessa! Mas ele se lembrava do meu endereço e veio parar aqui, então eu resolvi ceder o quarto vazio pra ele até resolver essa... Essa situação.

– Carol, você está louca? – Victor indagou olhando-a sem acreditar. – Você trouxe um homem desconhecido pra dentro da sua casa assim? Depois de ele saber quem você é e o seu endereço?

– Eu confio nele, Victor!

– Como pode confiar? Você não o conhece! – ele disse aumentando o tom de voz. – E o que estavam fazendo? Tomando banho juntos? Além de agir como uma idiota, ainda ia me trair com ele, Carolina?

– Você entendeu tudo errado! – ela tentou argumentar.

Ele fitou-a, seus olhos estavam sombrios e gélidos de uma forma que a fazia sentir um medo intenso. Deu um passo para trás e sentiu Ben colocar as mãos em seus ombros de forma protetora. Por que um estranho que poderia ser um maníaco estava protegendo-a de seu próprio namorado?

Exasperada e confusa, pegou a chave do carro do chaveiro ao lado da porta e saiu com o gato em seu encalço, largando os garotos paralisados na porta de seu apartamento. Que eles se matassem, ela não ligava. Sua cabeça voltava a latejar e queria ficar sozinha.

Dirigiu pelas ruas sem qualquer rumo específico, talvez por minutos ou horas. O gato não disse nada, mas permaneceu sentado a seu lado com os olhos observadores, como um guarda-costas. Ela sentiu-se relaxar, observando os universitários animados nas ruas, as luzes dos prédios, os carros que passavam. Acabou voltando para a casa com a mente vazia e decidiu que se aqueles dois tivessem arrumado confusão, iria expulsa-los de lá.

Carol subiu as escadas lentamente e não se surpreendeu ao notar a porta aberta. Reprimiu um grito quando viu que nela havia marcas de sangue, assim como no chão. Olhou para a escada pela qual acabara de passar e notou que havia um rastro inteiro. Ah, não.

Correu pelo corredor até ficar de frente para sua sala. Ali no canto, jogado, estava Victor. Havia sangue em suas mãos e alguns cortes feios, além de vidro espalhado pelo chão.

– Ah, meu amor, o que foi que houve?

Ela pulou, passou pelos cacos de vidro com cuidado, e se abaixou perto dele, tirando o cabelo de seu rosto. Ele abriu os olhos e a fitou, sem qualquer sinal de emoção. Carol sentiu seu estômago revirar com a situação, em um ponto de sua barriga, onde havia um grande pedaço de vidro agarrado, escorria sangue de forma nauseante.

– Vou ligar para um hospital, vai ficar tudo bem. – Ela não sabia se dizia aquilo pra ele ou para si mesma.

– Ana Carolina.

A menina virou os olhos na direção dele, assustada com a voz fria. O telefone estava em seu ouvido, ela esperava alguém do hospital atender. Ouviu o gato rosnar em algum ponto atrás dela, mas o ignorou.

– Vá.

Carol não entendeu o que ele queria dizer, fitou-o pensando que talvez ele estivesse delirando, pois havia perdido muito sangue. Jamais o deixaria ali e afinal de contas, era o seu apartamento.

– Não vou sair daqui, não venha falar de traição agora, depois conversamos sobre isso...

– EU DISSE VÁ! – ele gritou, fazendo-a pular.

Ela tropeçou nos próprios pés enquanto lutava para se levantar, depois sai correndo dali, sem saber ao certo porque fazia isso, só sabia que uma onda de medo a invadia. A voz de uma mulher falava “alô” insistentemente no telefone, mas tudo o que ela conseguia fazer era pensar em fugir, seu coração martelava no peito.

Quando chegou ao estacionamento, correu para seu carro. Sentou no banco, trancou as portas e respirou fundo, sentindo as lágrimas em seus olhos. O que estava acontecendo? Olhou para as próprias mãos trêmulas e notou que uma delas estava sangrando, com um pequeno caco enfiado em sua pele. Puxou rapidamente e então levou a ferida à boca instintivamente. Depois desligou a chamada, sem dizer uma palavra se quer à atendente.

Ouviu um barulho na janela a seu lado e pulou, assustada. Ali estava Ben, segurando o braço encharcado de sangue, os olhos pálidos de uma forma preocupante. Ela ficou paralisada, sem saber ao certo o que fazer.

– Precisamos leva-lo a um hospital, abra a porta.

Ela obedeceu ao gato sem discutir, não conseguia pensar por conta própria. Assim que entrou, Ben inclinou-se para frente e virou o rosto de Carol para si abruptamente.

– Ele machucou você? Ana, você está bem? – Seus olhos caminharam por ela até ver o corte na palma da mão. – Está sangrando, precisa cuidar disso, eu...

– Cale a boca – ela disse, surpresa pela firmeza de sua voz. – Você é que precisa de um hospital, olhe seu braço Ben!

O garoto assentiu e se jogou no banco de trás, deixando a cabeça pender. Antes que chegassem ao hospital, ele desmaiou.

– Ajuda, eu preciso de ajuda aqui! – ela gritou para alguns paramédicos que estavam saindo de uma ambulância.

Alguns deles foram até ela e agiram rapidamente ao verem o garoto ensanguentado no banco de trás. Fizeram questão de enfaixar sua mão, embora ela não sentisse necessidade, e levaram Ben para dentro. Disseram que ele ficaria bem, apenas os cortes precisavam ser fechados e talvez um pouco de sangue reposto.

Após algum tempo de espera no carro, pois não deixaram o gato entrar no hospital e ela sentiu que precisava dele, um homem de jaleco apareceu e acenou para ela.

– Olá, sou o Dr. André, você deve ser Ana Carolina Desiderio.

– Isso mesmo, doutor.

– Você é parente do garoto que foi trazido machucado hoje?

– Não, sou só uma amiga. Ele está bem? – ela perguntou preocupada.

– Não posso dizer com certeza... Mas eu preferia conversar com a família, poderia contatá-la?

Carol mordeu o lábio.

– Na verdade, é uma história complicada. Ele tem amnésia, doutor, não se lembra de nada e eu o conheci justamente nesse estado... Perturbado. Por enquanto, ele só tem a mim.

O médico assentiu e ela percebeu que ele estava com pressa, provavelmente tinha outros pacientes para atender.

– Já cuidamos dos ferimentos de seu amigo, mas ele não está muito bem. Perdeu muito sangue e acreditamos que o corpo está muito fraco para repor. Tentamos fazer uma transfusão de sangue, mas o corpo rejeita assim que injetamos em sua veia.

– Mas disseram que eram só alguns cortes!

– Ele parecia melhor do que realmente estava. Alguns pedaços de vidro atingiram veias importantes, outros estavam fundos demais. – Ele a estudou com os olhos. – Posso perguntar o que houve?

– Briga. – Ela disse sem pensar, e então formulou uma resposta rapidamente, não podia entregar Victor. – Estávamos em um barzinho quando um bêbado veio para cima de mim, Ben quis me defender, mas o homem começou a quebrar garrafas e avançar para ele. Então...

Ela não conseguiu continuar com a mentira, sentindo seu coração ficar apertado. Tinha compaixão por Ben. Primeiro ele havia perdido a memória e depois se metido em uma briga que podia leva-lo à morte. Ele havia sido um idiota de brigar com Victor, mas talvez a culpa não tivesse sido dele.

– Eu posso vê-lo, doutor?

– Me desculpe, mas não. Ele está na UTI no momento e mesmo que você fosse uma familiar, não está no horário para visitas.

– Não podem abrir uma exceção? Ele não tem mais ninguém! Vai deixa-lo morrer sozinho?

O olhar do médico se suavizou. Ele pareceu pensar por um instante e então se aproximou dela.

– Vou conseguir que você entre, mas isso será um segredo nosso. Volte amanhã às duas da tarde – sussurrou.

Ela assentiu e voltou para casa, infeliz. O gato permaneceu em seu colo enquanto ela dirigia e subia as escadas até seu apartamento. Sentia que nos últimos dias havia subido e descido por elas mais do que em uma semana inteira.

A porta ainda estava escancarada, os cacos de vidro espalhados e sangue por vários cantos, mas Victor havia sumido. Ela começou a limpar tudo vagarosamente, as lágrimas escorrendo por seus olhos e a certeza de que ela sentiria o peso da morte de Ben em seus próprios ombros.

Notas finais
Opinião? hhehehe
Beijinhos!