Notas iniciais
Como não há muito no Prólogo, posto logo esse capítulo hoje junto com o outro, porque ai dará pra terem uma base melhor da história e descobrirem se gostaram ou não ^^

Ela havia acordado em um de seus dias de mal humor. Resmungou para a imagem no espelho e se arrumou lentamente.

– Carol, onde você está? – Ouviu a voz exasperada de sua amiga no telefone. – Vamos chegar atrasadas desse jeito.

Revirou os olhos.

– Não cansa de fazer isso todos os dias, Letícia? Sabe que sempre chego em cima da hora. Relaxe.

Desligou, desceu as escadas do prédio, jogou a bolsa de qualquer jeito no banco de trás do carro e dirigiu até o apartamento de Letícia. Fazia isso todos os dias desde que o ganhara, que foi há exatamente dois meses, quando tirou sua carteira de motorista.

– Finalmente! Vamos chegar atrasadas – Letícia resmungou.

– Não vamos não – Carol disse abrindo um sorriso de diversão.

– Ah, não... Carol... Não! – gritou enquanto a amiga pisava no acelerador.

É claro que Letícia já perdera a conta de quantas vezes Carol havia ultrapassado a velocidade e nunca fora pega, por motivos que ela desconhecia, e mesmo assim, nunca se acostumava com aquilo. A garota parecia ter uma sede por adrenalina, perigo e ciclistas, principalmente ciclistas.

Elas haviam se mudado para o interior do Espírito Santo para cursar o ensino médio e estavam no terceiro ano. Pretendiam fazer faculdade ali também, embora Carol não tivesse a menor ideia do que iria fazer.

– Pare... De... Correr! – Letícia disse agarrando-se ao banco.

Carol revirou os olhos. Na verdade, fazia isso tantas vezes por dia perto da amiga, que certas vezes seus olhos começavam a doer, como uma espécie de LER. Riu de sua teoria idiota e ignorou o olhar feio que Letícia lhe lançou.

Era bem óbvio que as duas eram completamente diferentes, mas Carol sentia que deveria proteger a amiga. Sentimentalmente, é claro. O fato de estar em alta velocidade com o carro só mostrava que ela provavelmente não ligava se acabasse por infringir uma dor física em Letícia.

– Eu jamais deixaria algo acontecer com você. Faço isso porque confio no meu talento como motorista! – Carol disse jogando os braços para o alto enquanto caminhava em direção ao prédio.

– Sei... – resmungou Letícia.

Passaram a manhã fazendo provas e combinaram de se encontrar à tarde para fazer trabalho. Mais rotina. E mais uma vez, como sempre, brigou com sua melhor amiga sem nenhum motivo aparente. Carol não entendia como suportava aquilo, essa falta de tempo para si, para tudo. Levantou os olhos e encontrou aqueles que seriam capazes de fazê-la esquecer de tudo em segundos.

Victor fez a mesma careta que sempre fazia, aquela quando tentava não sorrir e que sempre dava incrivelmente errada. Ela correu para seus braços e quase o derrubou no chão, finalmente ouvindo-o rir com a boca perto de seu ouvido.

Passou os braços à volta do garoto como se fosse a última vez que pudesse fazê-lo e levantou o rosto com os olhos já fechados. Ele automaticamente respondeu a seu gesto, encostando os lábios nos dela, tão familiares e gentis, enquanto acariciava suas costas.

– Senti saudade – disse contra seu peito, sentindo o queixo dele apoiado em sua cabeça e seus longos braços a sua volta de forma protetora.

– Você me viu ontem, Carol. – Ele riu novamente.

Ela levantou os olhos e o observou, como sempre fazia. Queria ser capaz de gravar cada detalhe daquele rosto, mas sua memória era boa o bastante para lembrar-se apenas do lampejo de seus olhos verdes azulados. Suspirou e deixou o corpo relaxar.

– Algum problema? – ele perguntou carinhosamente.

– O mesmo de sempre, briguei com Letícia.

– Ainda bem que vocês não moram juntas. – Ele cutucou sua barriga em uma clara tentativa de fazê-la rir. – Imagina, destruiriam o prédio!

Ela riu e balançou a cabeça. Mais uma vez fitando-o e permanecendo assim. Observou como seus cabelos negros caíam em seu rosto, como ele sorria de uma forma espontânea e contagiante, como a barba por fazer – ele a deixava sempre assim – fazia-o parecer mais velho do que realmente era. Percebeu que ele dizia algo, piscou os olhos, aturdida.

– Carol? Ouviu alguma coisa do que eu disse?

– Na verdade não. – Ela mordeu o lábio.

Sua expressão ficou impassível, ele balançou a cabeça levemente e em seguida pressionou a ponte do nariz com os dedos longos.

– Vai ver se eu lesse mentes ao menos poderia fazer você me colocar em primeiro plano, não sei o que se passa nessa cabeça, mas obviamente você não está aqui. – E suspirou.

– Victor... – ela tentou começar. – Não é isso... Eu estava só...

– Carol! – Letícia gritou atrás dela – Estou te esperando, não esqueça pelo menos desta vez!

Aparentemente a amiga já havia esquecido a briga. Olhou para seu namorado: ele a observava com uma expressão obscura. Ficou na ponta dos pés e deu-lhe um beijo rápido nos lábios.

– Me desculpe – sussurrou.

Estava irritada com Letícia, era verdade, mas não sabia como segurar a garota. Levou-a até sua casa em uma velocidade comum, o que parecia ter assustado a amiga mais do que quando corria, e lutou contra a dor de cabeça que a impedia de pensar.

Trancou as portas do carro e estava prestes a subir quando notou um vulto negro na garagem. Estava morrendo de medo, sempre ficava quando via coisas não identificadas.

– Tem medo de mim, Carolina?

Carol ofegou e olhou para a entrada do prédio. Se fosse alguém perigoso, ela poderia gritar e então o porteiro provavelmente ouviria, mas...

– Deixe disso, não quero fazer mal a você.

– O que há de errado com a sua voz? – a garota indagou, assustada.

– Não há nada de errado, porque eu não tenho uma voz. Estou na sua cabeça!

Os olhos dela se arregalaram um pouco, notando que era realmente aquilo que acontecia. Não estava ouvindo algo através de seus ouvidos, mas como uma voz interior, que sussurrava em sua mente. Estremeceu, agora estava enlouquecendo, sempre soube que aquela escola a deixaria assim um dia.

Antes que pensasse no que fazer, um gato negro de vivos olhos violetas saltou para o capô de seu carro e a fitou. Ela podia jurar que ele estava curioso.

– Acho que o termo mais apropriado seria que você está na minha...

O gato inclinou a cabeça. Carol apoiou-se na pilastra atrás de si. Agora imaginava que um gato falava com ela. Fechou os olhos e massageou as têmporas, esperando que a dor de cabeça passasse e o gato sumisse.

– Sabe, os gatos têm vontade própria, você não vai me expulsar daqui. – Havia certa diversão na voz imaginária.

Carol virou as costas e entrou no prédio, subindo as escadas. Entrou em seu apartamento e se jogou no sofá. Deixou a cabeça cair para trás, e sobressaltou-se quando sentiu pelos macios passando por seu braço. Abriu os olhos novamente e encontrou o gato arrastando-se ali, pedindo atenção.

– Se vou ser seu dono agora, saiba que sou possessivo. Gosto de atenção e carinho atrás das orelhas...

– O que você quer dizer com ser o meu dono? Você é um gato! – Então ela percebeu o que estava fazendo. – Meu Deus! Estou sucumbindo à loucura. É o fim, vou ser internada...

– Se o seu medo é esse, e se insiste em achar que tudo isso é coisa da sua cabeça, é só me dar atenção e fingir para os outros que nada disso acontece. Tente me responder na sua cabeça, pode ajudar.

A garota olhou incrédula para o gato. Os olhos violetas estavam brilhando com os raios de sol que entravam pela janela. Havia algo de diferente nele, não só a estranha cor dos olhos.

Ela pensou em uma coisa qualquer, mas aparentemente o gato não recebeu nada, pois permaneceu quieto.

– Por que antes você lia minha mente e agora não mais?

– Eu não estava lendo sua mente. – O gato revirou os olhos visivelmente. – Você estava enviando tudo para mim, acho que porque não estava tentando, quando é natural é mais fácil.

Carol tentou concentrar-se no gato. Havia algo vindo dele, ela percebia. Um pulsar. Ofegou quando pensou que talvez fosse capaz de notar a presença das ondas, mas os seres humanos não conseguiam isso! Era uma coisa absurda. Mas a sensação estava ali.

Concentrou-se no pulso das ondas invisíveis que a atingiam e fechou os olhos. Em segundos percebeu que ela mesma emitia ondas em resposta, circulando as outras, dominando-as. Então um turbilhão de imagens a preencheu e ela piscou, fascinada, notando que havia caído no chão.

– Vá com calma, você veio com tanta sede ao pote que se embaralhou, você misturou todas as minhas memórias. – O animal sacudiu a cabeça como se estivesse confuso.

– Preciso tomar um banho e... Esfriar minha cabeça e... – Ela tentava organizar a mente. – Depois tenho que ir fazer trabalho na casa de Letícia. Isso. – Então virou-se para o gato – E você fica aqui.

O gato mostrou os dentes branquíssimos em um sorriso.

– Sou livre, Carolina. Vou com você.

– Contanto que não me distraia tagarelando na minha cabeça.

Carol tomou um banho gelado, agradecendo por se livrar das calças jeans: estava extremamente quente naquele dia. Colocou um short e uma blusa solta, calçou um chinelo e deixou o cabelo solto.

O gato sentou-se no banco da frente do carro, ao lado dela.

– Sabe que eu deveria colocar você em uma caixa de transporte? Um guarda vai acabar me parando.

– Nunca te pararam por velocidade, não vão parar por minha causa. – Havia um estranho divertimento em sua voz, como se ele soubesse de algo que ela não.

A garota apertou o volante com força, tentando ignorar a forma negra a seu lado, mas durante o caminho, volta e meia via um lampejo violeta.

– Desde quando você tem um gato? – Letícia perguntou enquanto recebia a amiga.

– Desde hoje. – Carol fez uma careta quando o gato pulou para seu colo. – Apareceu no meu prédio.

– Resposta errada, você não tem um gato, eu não sou seu, você é que...

– Já entendi – Carol disse entredentes.

– O que? – Letícia perguntou franzindo o cenho.

– Nada, estava falando comigo mesma.

O gato se mexeu e fez um barulho estranho no colo de Carol e pela onda mental que vinha dele, ela notou que ele ria da situação. Era realmente muito engraçado fazer papel de idiota. Suspirou.

– Amiga? – Letícia disse timidamente. – Acha mesmo que Leonardo gosta de mim?

Carol revirou os olhos. Havia dito aquilo para a amiga pelo menos mil vezes nos últimos dias, tentando ajudar o amigo. Era óbvio que Letícia também gostava dele, mas sua timidez impedia qualquer avanço no relacionamento.

– Já deve estar deixando de gostar em... – Carol olhou o relógio de pulso. – Cinco minutos.

Letícia fechou a cara.

– Haha, muito engraçadinha.

Notas finais
Então, gostaram?
Beijinhos e obrigada quem ler/comentar! =)))