Cicatrizes do Passado
1 O Olhar Frio
Saya aprendeu cedo que o amor não se mede pela intensidade das promessas, mas pela facilidade com que são quebradas.
Teve muitos homens na sua vida. Alguns pareciam certos, outros apenas convenientes, mas todos acabaram da mesma forma: desculpas vazias, infantilidades disfarçadas de maturidade, e a sensação amarga de tempo desperdiçado. Durante anos, acreditou que a próxima tentativa seria diferente, que talvez fosse apenas uma questão de persistência. Até ao dia em que se cansou.
Quando o último relacionamento terminou, não chorou. Não gritou. Apenas sentiu algo fechar-se dentro de si de forma definitiva. Nesse dia, Saya decidiu que não voltaria a colocar o amor como prioridade. Selou o coração e reorganizou a vida.
Com o tempo, o olhar quente que antes tinha transformou-se num olhar neutro, quase frio. Não era dureza; era defesa. Os homens ainda apareciam, tentavam a sorte, confundiam a sua competência com desafio. Desistiam rapidamente. Saya não os impedia simplesmente não lhes dava espaço.
O trabalho tornou-se o seu único parceiro constante. Exigente, previsível, justo. Era ali que sentia controlo.
Nos primeiros anos, a mãe insistia. Telefonemas constantes, comentários venenosos, comparações com outras mulheres da família.
“Quando arranjas um marido?” “Não vais para nova.” “Ninguém gosta de mulheres assim frias.”
Saya tentou explicar. Pediu respeito. Não o teve. Cortou relações sem dramatismos, como quem fecha uma porta que só traz frio.
Com o pai era diferente. Falavam com frequência. Ele ouvia. Não julgava. Dizia-lhe apenas para escolher a sua felicidade qualquer que fosse a forma que ela assumisse.
Foi também por isso que se mudou para a cidade. Ali, longe de expectativas alheias, descobriu algo precioso: liberdade. Horários longos, ruas cheias, noites silenciosas em casa. Era suficiente.
Na empresa, Saya era respeitada. Membro mais sénior do departamento, apesar da aparência jovem. Não levantava a voz, não competia por atenção. Entregava resultados. Isso bastava. E assim viveu durante anos estável, organizada, protegida.
Em casa, Saya deixou-se ficar no banho quente, desligando-se do mundo por alguns momentos, sentindo que apenas ali podia encontrar algum conforto. Fora do trabalho, a vida era um campo de batalhas silenciosas: o trabalho absorvia o seu tempo, os relacionamentos estavam fora da equação, e a liberdade conquistada era seu bem mais precioso.
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