Cicatrizes do Passado

2 Sob o Olhar do Diretor


A chuva caía fina sobre a cidade, tornando os reflexos das luzes da rua ainda mais difusos. Saya, sem guarda-chuva, permanecia imóvel na calçada, deixando que as gotas escorressem pelo cabelo e rosto. Não se incomodava com o frio da chuva era quase reconfortante, lembrando-lhe que estava viva e no controlo da sua própria rotina. O seu olhar, antes quente e aberto, agora era neutro, quase gelado, afastando qualquer tentativa de aproximação dos homens que cruzavam o seu caminho.

No escritório, o ambiente parecia agitado naquela manhã. O coordenador reuniu a equipa para apresentar o novo diretor do departamento.

— Este é Riku, — disse ele, — ele ficará responsável por este departamento a partir de hoje.

Saya levantou o olhar do computador, avaliando rapidamente o homem que se apresentava: alto, elegante, com olhos atentos que pareciam absorver tudo à sua volta. Para ela, era apenas mais um chefe um obstáculo a respeitar, não uma distração emocional. Chefes vinham e iam. O trabalho permanecia.

Riku apresentou-se com um tom calmo, postura direita e um olhar atento que não procurava dominar a sala. Observava. O coordenador começou a explicar as funções de cada membro da equipa enquanto caminhavam pelo espaço aberto do departamento.

Quando chegaram ao posto de Aiko, a tensão era evidente. A jovem colaboradora estava visivelmente stressada, com o rosto pálido e os dedos a tremer ligeiramente sobre o teclado.

— Eu cometi um erro no ficheiro final… — murmurou ela. — Isto vai atrasar a entrega. — Enquanto validava cada pormenor, uma vez que poderia comprometer um projeto importante.

Antes que alguém respondesse, Saya levantou-se sem hesitar. Aproximou-se de Aiko com naturalidade.

— Mostra-me onde está o problema. — disse num tom firme mas calmo.

Durante alguns minutos, Saya analisou os documentos e fez sugestões rápidas e precisas. Não havia reprovação no seu olhar, apenas foco. Explicou, corrigiu, reorganizou. O que para Aiko parecia o fim do mundo reduziu-se a um contratempo resolúvel.

— Está feito. — disse Saya, ainda a organizar os documentos.

Aiko respirou fundo, aliviada. Sorrindo, genuinamente grata.

— Eu… pensei que era impossível de corrigir. — confessou. — Obrigada, Saya… de verdade.

— Sem problemas. — disse Saya com uma expressão neutra.

Riku notou. A expressão neutra de Saya ao qual não se alterou com o agradecimento, nem com o sorriso. Aquilo intrigou-o.

— Têm um bom descanso, Aiko. — respondeu Saya, voltando ao seu posto, mantendo a neutralidade no rosto.

— A Saya é nossa colaboradora mais sénior. — explicou o coordenador. — Apesar da sua aparência.

Riku observou-a mais uma vez antes de seguir para o novo gabinete.

Horas depois, durante a pausa para café, Riku viu Saya junto à janela, a chávena nas mãos, a olhar a cidade como se estivesse noutro lugar. Não parecia cansada. Parecia distante.

No final do dia, quando os colegas se despediam, Saya organizava o seu trabalho, indiferente à chuva que começou a cair com mais intensidade e forte. Cá fora um colega tentou oferecer-lhe um chapéu de chuva, mas ela recusou com um simples

— Não é necessário. — acompanhado de um olhar frio que fez o homem recuar.

Riku ficou a observá-la pela porta envidraçada.

Em casa, Saya deixou-se ficar no banho quente, desligando-se do mundo por alguns momentos, sentindo que apenas ali podia encontrar algum conforto. Fora do trabalho, a vida era um campo de batalhas silenciosas: o trabalho absorvia o seu tempo, os relacionamentos estavam fora da equação, e a liberdade conquistada era seu bem mais precioso.

Apesar de tudo, havia uma sensação crescente de curiosidade. Quem era aquele homem que observava cada gesto seu com atenção silenciosa? Riku. E, sem saber, aquele detalhe marcaria o início de uma série de acontecimentos que testariam a frieza e o controle que Saya acreditava ter sobre a própria vida.