Cicatrizes do Passado

7 Laços que Surgem


O ritmo do dia no escritório era tranquilo, mas Saya sentia ainda o efeito do repouso obrigatório do dia anterior. Embora estivesse recuperada, o corpo reclamava um pouco de descanso, e a mente estava mais alerta para cada detalhe que surgia ao seu redor.

Aiko, sempre animada e atenta, aproximou-se com um sorriso discreto.

— Saya, estás melhor hoje?

— Sim, — respondeu Saya, num tom neutro, mas com um ligeiro brilho de reconhecimento nos olhos. — Obrigada por perguntares.

Aiko sorriu, satisfeita, e começou a falar sobre algumas pequenas novidades do departamento. Saya ouviu, mas a mente dela flutuava por instantes, voltando-se para os pequenos gestos de Riku. Cada cuidado, cada observação silenciosa, cada frase dita com firmeza mas sem invasão de espaço tudo isso começava a deixar marcas discretas na frieza que sempre definira a sua postura.

Mais tarde, durante a tarde, Riku chamou-a ao gabinete. Saya, curiosa, aproximou-se, sem saber se a reunião seria apenas sobre trabalho ou se ele iria, de algum modo, tocar novamente no episódio de ontem. Para sua surpresa, o assunto era apenas profissional.

— Revê este relatório antes de enviar ao cliente. — disse ele, entregando alguns documentos.

Saya pegou no papel, analisando cuidadosamente cada ponto. Riku permaneceu de pé, silencioso, observando os seus gestos. Por breves momentos, os olhos de ambos encontraram-se, e Saya notou algo na firmeza do olhar dele, atenção, preocupação e uma estranha suavidade que ela não queria admitir sentir.

Quando terminou de rever os documentos, Riku aproximou-se novamente, baixando o tom:

— Sugiro que descanses um pouco esta noite. A tua postura de hoje mostrou algum cansaço.

Saya ergueu uma sobrancelha, surpresa com a observação.

— Eu estou bem. Ainda posso continuar a trabalhar.

Ele balançou a cabeça ligeiramente, com um sorriso quase imperceptível.

— Só não ignores o teu corpo. Descansa quando necessário.

O dia continuou, e o escritório lentamente encheu-se de uma luz dourada do fim da tarde. Saya observava pela janela a cidade a transformar-se em tons laranja e rosa, e sentiu uma estranha paz, uma sensação de que podia, finalmente, permitir-se algum espaço para a própria humanidade algo que nunca tinha deixado acontecer nos últimos anos.

Mais tarde, após todos os colegas saírem, Saya ficou sozinha a organizar os últimos detalhes do trabalho. Riku aproximou-se novamente, oferecendo ajuda discreta em tarefas menores, sem invadir o seu espaço, apenas estando presente quando necessário.

— Queres ajuda com esta parte? — perguntou, calmamente, com os olhos atentos.

Saya hesitou por um instante, mas depois assentiu.

— Sim, seria útil. — respondeu, mantendo o tom neutro, mas a voz traindo um ligeiro relaxamento.

Enquanto trabalhavam lado a lado, sem falarem demasiado, havia uma compreensão silenciosa entre ambos. Cada gesto de Riku era cuidadoso, cada ação medida para apoiar sem invadir. E Saya começou a perceber que, pela primeira vez em muito tempo, podia confiar em alguém sem se sentir vulnerável ou exposta.

Ao fim do dia, Saya levantou-se, respirou fundo e começou a arrumar a sua mesa. Riku observava-a do outro lado do escritório, e por breves segundos os olhos de ambos encontraram-se. Não era apenas trabalho que passava entre eles, havia algo mais uma ligação silenciosa, quase imperceptível, mas já presente.

Enquanto saía do escritório, a cidade iluminada pelo pôr do sol refletia nos vidros do prédio. Saya sentiu um pequeno arrepio, não de frio, mas de consciência. Algo estava a mudar, de forma subtil mas irreversível. Riku acompanhou-a até à saída, mantendo a distância habitual, mas a atenção nunca diminuía.

Na rua, enquanto caminhava em direção ao seu carro, Saya percebeu que a frieza que sempre a protegia estava a vacilar. Por mais que quisesse manter o seu mundo isolado e seguro, a presença constante de Riku começava a abrir fissuras na sua muralha.

E naquele momento, enquanto os últimos raios de sol desapareciam no horizonte, Saya compreendeu que algo silencioso e profundo começava a surgir, algo que não podia controlar, mas que também não queria afastar.

A Primavera deu lugar ao Verão, o Verão ao Outono. O trabalho manteve-se intenso, mas equilibrado. Saya e Riku comunicavam com respeito, profissionalismo e uma confiança silenciosa. Quando o Inverno chegou, trouxe consigo o Natal.

O departamento organizou um jantar entre colegas. Saya compareceu por dever, não por entusiasmo. Já gostara mais daquela época. Agora, era-lhe indiferente.

Após algum convívio, afastou-se para o exterior. O ar frio fê-la estremecer ligeiramente. Segurava um copo de licor e observava a noite, as luzes da cidade refletidas no asfalto molhado.

— Não és muito fã desta época, pois não? — perguntou Riku, aproximando-se.

— Já fui, mais em tempos. — respondeu ela, bebendo um gole. — Agora… é apenas mais uma fase do ano.

— Porquê?

Saya olhou o copo, pensativa.

— Há alturas na vida em que o mundo real mostra as suas verdadeiras cores — disse. — O brilho morre, nós aprendemos, escolhemos e seguimos em frente.

Sorriu de forma breve, amarga, como quem fecha um assunto. Riku não respondeu. Respeitou o silêncio.

Quando Saya decidiu ir para casa, percebeu que não estava em condições de ir sozinha. O álcool tornara os movimentos mais lentos, menos seguros. Aceitou a boleia de Riku sem protestar, uma vez que estava demasiado cansada para argumentar.

Durante o trajecto, o silêncio instalou-se naturalmente. Num dos semáforos, Riku reparou que ela observava um casal de namorados na rua. Riam, protegidos um do outro do frio. Havia algo no olhar de Saya, uma tristeza breve, quase imperceptível, revelada apenas pela vulnerabilidade do momento.

Ela apercebeu-se e desviou o olhar para a janela.

Ao chegarem, ficou sentada por alguns segundos no carro, como se precisasse de reunir forças.

— Estás bem? — perguntou ele.

— Sim, estou.

Mas, ao sair, tropeçou. O mundo inclinou-se por um segundo. Foi amparada de imediato pelos braços de Riku.

O contacto foi breve. Inesperado. Por um instante, sentiu-se bem. Segura. Sustida. E isso assustou-a mais do que qualquer queda. Afastou-se com cuidado, murmurou um agradecimento e entrou em casa sem olhar para trás. As distâncias continuavam seguras. Mas já não eram tão simples de manter.