Cicatrizes do Passado

9 Confronto e Proteção


A Primavera aproximava-se lentamente, e a cidade começava a ganhar tons mais vivos. No escritório, o ritmo de trabalho era intenso, mas Saya sentia-se relativamente tranquila, embora a sua mente permanecesse alerta, sempre atenta a detalhes que os outros poderiam ignorar.

Riku aproximou-se dela pela manhã, com um tom firme mas neutro.

— Vou ausentar-me para uma reunião com um cliente. Hoje ficarás responsável pelo departamento.

Saya suspirou discretamente. Mais trabalho significava ficar mais tarde no escritório, mas estava habituada a gerir prazos apertados.

— Está bem. — respondeu, mantendo a compostura profissional habitual.

O dia passou sem grandes incidentes, quando saiu bastante tarde do trabalho. A caminho de casa, Saya notou Aki com um grupo de rapazes, abraçando outra rapariga de forma excessivamente íntima. Uma lembrança imediata de experiências passadas fez o seu corpo reagir com tensão e alerta. Ela tentou passar despercebida, mas Aki reconheceu-a e começou a aproximar-se, com um sorriso arrogante e perguntas provocadoras.

Saya manteve-se firme, a postura séria e os olhos frios, respondendo em silêncio às provocações, tentando não perder o controlo. Mas Aki começou a impaciência e, num gesto brusco, agarrou-a pelo pulso.

Antes que pudesse reagir, os faróis de um carro iluminaram a rua, cegando temporariamente Aki. O impacto permitiu que Saya se soltasse, e Riku surgiu do carro, rápido e preciso.

— Está tudo bem? — perguntou ele, descendo do carro com uma expressão firme, quase implacável.

Saya respirou fundo, ainda tensa, mas sentiu-se segura pela presença dele.

— Sim…— murmurou, sem conseguir completar a frase.

Riku olhou diretamente para ela, notando o estado emocional e físico de Saya.

— Vamos embora, daqui.

Ela assentiu, e ambos entraram no carro. O silêncio dominou a viagem, mas não era desconfortável, era carregado de compreensão mútua. Saya, apesar da tensão ainda a percorrer-lhe o corpo, sentiu-se protegida de uma forma que não acontecia há anos.

Ao chegar a casa, Saya demorou alguns segundos a reagir, antes de falar.

— Não quero que intérpretes mal, o que vou propor. Mas… — disse, ainda a tentar manter o tom neutro, consciente do efeito que a proximidade de Riku tinha nela. — ...queres passar a noite aqui? Isto é, já é tarde e….

— Sim, mas não te preocupes. — respondeu Riku, com a firmeza calma que ela já conhecia. A sua presença silenciosa era reconfortante, e algo dentro de Saya relaxou pela primeira vez em muito tempo.

Dentro de casa, enquanto fechava a porta, sentiu um leve arrepio. A tensão do encontro com Aki persistia, mas o cuidado e a atenção de Riku fizeram-na perceber algo essencial: podia confiar nele. Não precisava de mostrar fraqueza, mas também não precisava de enfrentar tudo sozinha.

Riku mantinha-se atento, observando-a sem invadir, oferecendo apoio apenas quando necessário. Saya, por sua vez, começava a sentir que podia permitir-se a confiar nele, ainda que apenas parcialmente, e que essa confiança não significava perda de controlo.

Saya durante a preparação da cama para Riku, ele comenta.

— O director, sempre teve dúvidas, que irias chegar a onde chegaste.

— As pessoas gostam muito de falar e mandar dicas daquilo que desconhecem. — com sorriso amargo.

— Saya, eu gostava de fazer-te uma questão, mas só respondes se quiseres. — disse Riku, com tom de voz calmo.

— Pergunta. — Olhando para Riku

— O que aconteceu no teu passado?

Saya refletiu sobre a pergunta de Riku, mas não veio nenhuma resposta dela e Riku não insistiu, com o assunto.

Naquela noite, enquanto a cidade adormecia sob a luz amarela dos postes, Saya fechou os olhos, sentindo uma estranha mistura de alívio, tensão e curiosidade. Pela primeira vez em muito tempo, sentiu que poderia existir segurança sem perder a sua autonomia, e que talvez, apenas talvez, pudesse permitir-se aceitar essa presença na sua vida.

Pela primeira vez em muito tempo, sentiu que poderia existir segurança sem perder a sua autonomia, e que talvez, apenas talvez, pudesse permitir-se aceitar essa presença na sua vida.