Cicatrizes do Passado
10 Entre a Preocupação e a Confiança
O telefone de Saya tocou na calada da noite, onde um número desconhecido apareceu no visor. Ao atender, a voz do hospital surgiu do outro lado, firme e rápida: o pai de Saya tinha dado entrada de emergência. Apesar de estar estável, estava sob observação e os médicos não tinham ainda data de alta.
O corpo de Saya gelou, o coração acelerou e uma sensação de impotência invadiu-a. Por muito que tentasse manter a frieza e o controlo, desta vez não conseguiu. Os olhos dela perderam momentaneamente a habitual neutralidade, e uma ponta de pânico começou a emergir. Riku também acordou e ficou à porta do quarto dela.
— Riku…— murmurou, com a voz trémula. — Preciso… preciso que me acompanhes.
Ele não hesitou um segundo. Num instante, estava ao lado dela, firme e seguro.
— Não te preocupes, eu acompanharei-te. — disse, num tom calmo que contrastava com a ansiedade dela.
Na manhã seguinte, antes de partirem Riku teve o cuidado de organizar a equipa de modo a não haver falhas, na produtividade.
O caminho até ao hospital foi tenso. Saya manteve-se em silêncio, as mãos entrelaçadas no colo, os pensamentos a correr entre lembranças e receios. Riku conduzia com atenção, atento não apenas ao trânsito, mas à sua presença. Havia algo nos gestos dele, a firmeza, o cuidado, a paciência, que transmitia segurança, mesmo quando ela sentia o mundo a desabar à sua volta.
Ao chegarem, Saya pediu a Riku que ficasse na receção. A tensão com a mãe, distante e rígida, era palpável, mas ela concentrou-se no pai. O contacto com ele, embora breve, trouxe uma mistura de alívio e tristeza. Após cerca de vinte minutos, o seu pai encontrava-se bem e estável, e os médicos explicaram que ele precisaria de alguns dias sob observação.
No caminho de regresso, ambos ficaram em silêncio, cada um imerso nos próprios pensamentos. Saya finalmente quebrou o silêncio, a voz baixa e quase hesitante.
— Riku… lembra-te da pergunta de ontem?
Ele olhou para ela, ligeiramente surpreso, mas atento.
— Sim… lembro-me.
Ela respirou fundo, olhando para a estrada ao longe.
— Todos os relacionamentos que tive… falharam. E a minha mãe… nunca quis ouvir a verdade. Era sempre culpou-me, quando, na realidade, eram eles que eram demasiado infantis para uma relação. Foi por isso que me mudei para a cidade… para escapar.
Riku manteve-se em silêncio, absorvendo cada palavra, compreendendo a profundidade das experiências que moldaram Saya. Ela continuou.
— O meu pai sempre me dizia para escolher a minha felicidade… mas mesmo assim, tentei algumas vezes mas acabei por desistir. Foquei-me no trabalho. Sempre.
O carro seguiu em silêncio, mas a atmosfera carregava uma sensação de intimidade silenciosa. Riku não tentou interromper ou julgar, apenas permitiu que ela falasse, criando um espaço seguro para que desabafasse.
Quando chegaram a casa de Saya, ela suspirou, sentindo-se exausta mas ligeiramente aliviada por ter partilhado parte do seu peso emocional.
— Obrigada… por estares aqui. — disse, finalmente, com um tom que misturava gratidão e vulnerabilidade.
Riku apenas respondeu com um olhar firme e sereno.
— Não precisas de agradecer. Nem toda a gente é maliciosa, mas experiências más sentidas em grande escala pode levar algum tempo a desaparecer. Mas não precisas de passar por isso sozinha.
Pela primeira vez, os olhos de Saya suavizaram-se. O olhar frio que mantinha por fora começou a ceder, revelando uma ponta da sua humanidade que raramente mostrava.
— Se precisares de alguma coisa…— começou ele.
— Eu sei. — interrompeu Saya, com um aceno breve.
Naquele momento, entre a preocupação pelo pai e a presença constante de Riku, Saya compreendeu algo essencial: confiar em alguém não significava perder controlo. Significava permitir que alguém caminhasse ao seu lado nos momentos mais difíceis. E, silenciosamente, aceitou que Riku tinha, de forma subtil, conquistado esse lugar no seu mundo.
Fale com o autor