Cicatrizes do Passado

4 A Grande Apresentação


O dia amanheceu com um céu límpido, mas a tensão no escritório era palpável. Saya sentiu o frio habitual no estômago uma mistura de ansiedade e foco absoluto. A apresentação para o novo cliente era crucial, não apenas para o departamento, mas para a sua reputação profissional.

Aiko cumprimentou-a com um sorriso e uma palmadinha leve no braço.

— Boa sorte hoje, Saya. Vais arrasar.

Saya agradeceu com um aceno discreto, mantendo o tom neutro.

— Obrigado, Aiko. Vamos ver.

No salão de reuniões, a luz natural iluminava a mesa oval de madeira, refletindo o brilho dos laptops e documentos organizados. Saya verificou pela última vez os slides da apresentação, respirando fundo e recitando mentalmente cada ponto. Cada gráfico, cada frase, cada dado tinha sido analisado e reanalisado até à exaustão.

Riku entrou silenciosamente, o olhar firme e atento.

— Tudo pronto? — perguntou, com a voz calma que contrastava com a sua presença imponente.

— Sim, — respondeu Saya, mantendo o olhar firme nele por um breve instante antes de se concentrar no trabalho à sua frente.

O cliente chegou, acompanhado por dois assessores. Cumprimentos formais foram trocados, apertos de mão medidos, e finalmente a apresentação começou. Saya falou com naturalidade e profissionalismo, cada palavra escolhida com precisão, cada explicação entregue com firmeza e clareza.

Riku observava de um canto da sala, notando cada gesto de Saya, cada subtileza no tom de voz. Ele via-a lidar com perguntas difíceis, responder com segurança e, ainda assim, manter uma postura séria e elegante.

Por momentos, sentiu-se surpreendentemente impressionado não apenas com as capacidades profissionais dela, mas com a forma como se mantinha íntegra, mesmo sob pressão extrema.

No final da apresentação, o cliente sorriu discretamente e fez um comentário indireto.

— Parece que temos motivo para um jantar de negócios.

Saya piscou ligeiramente, desconfortável. Para ela, jantares de negócios eram quase sempre um desperdício de tempo, conversas prolongadas, bebida em excesso, apresentações vazias. Mas era parte do trabalho, e ela sabia que não podia recusar.

Riku notou o seu desconforto.

— Eu dou-te boleia. O local é um pouco distante, daqui. — disse com um tom neutro, mas com firmeza suficiente para não permitir objeções. Saya hesitou, mas acabou por aceitar, indicando que estaria pronta quando ele quisesse partir.

O percurso até ao restaurante foi em silêncio, quebrado apenas pelo som do trânsito e pelo ocasional clique do rádio. Riku observava-a discretamente, reparando nos momentos em que ela se perdia nos pensamentos, o olhar distante. Cada gesto dela, cada expressão, era meticulosamente guardado na sua memória.

O jantar foi longo e mais cansativo do que Saya esperava. Conversas intermináveis, brindes formais, e a inevitável bebida a criar um ambiente desconfortável para quem preferia manter distância de situações sociais vazias. Mas, apesar disso, o negócio foi fechado com sucesso.

No regresso, o cansaço tornou-se evidente no rosto de Saya. Ela adormeceu discretamente no carro, e Riku, ao reparar nisso, sentiu a necessidade de cuidar dela de uma forma que nunca imaginara. Ao parar num sinal, puxou o casaco para cobrir os ombros dela. Saya suspirou suavemente, inconsciente da intimidade do gesto.

Quando chegaram a casa dela, Riku acordou-a com delicadeza.

— Saya, chegamos. — disse, quase como uma constatação. Saya abriu os olhos, confusa, notando o casaco que lhe cobria a parte da frente.

— Obrigada pela boleia. — murmurou, ainda sonolenta.

Riku respondeu com um simples

— Boa noite. Tem um bom descanso. — Mas, de alguma forma, aquelas palavras provocaram uma reação inesperada nela. Memórias de relações passadas vieram à superfície promessas quebradas, dores antigas, traumas que ela pensava ter superado. Com um leve suspiro, fez uma pequena vénia e entrou em casa, tentando manter a frieza habitual.

No banho rápido, enquanto a água quente escorria, Saya refletiu sobre o dia. O cliente satisfeito, a apresentação impecável, a presença silenciosa e protetora de Riku. E por mais que quisesse ignorar, havia algo naquela noite que mexera com ela, algo que não conseguia nomear, mas que a deixava inquieta e, de certo modo, viva.

O trabalho podia consumir a maior parte do seu tempo, mas Riku começava a ocupar um espaço que ela não sabia se queria admitir e isso, por enquanto, era algo que Saya estava determinada a controlar.