Cicatrizes do Passado
5 Fragilidade Revelada
Na manhã seguinte, Saya acordou com a sensação estranha de que algo não estava bem. O corpo pesado, a garganta seca e a febre que começava a queimar-lhe a pele indicavam que estava doente. Por instinto, sentiu um aperto no peito faltar ao trabalho nunca era uma opção. Com passos lentos, vestiu-se e saiu de casa, tentando manter a compostura habitual.
O escritório parecia normal, com colaboradores a movimentarem-se entre mesas e computadores, mas para Saya tudo estava ligeiramente desfocado, o som das conversas parecia distante. Ela passou despercebida, como sempre, mas não a Riku.
Ele observava-a discretamente, notando a palidez do seu rosto, o ligeiro tremor nas mãos, o modo como se apoiava levemente na mesa ao sentar-se. A sua preocupação cresceu silenciosamente, mas decidiu não interromper a rotina dela, permitindo que mantivesse a fachada de profissionalidade que a caracterizava.
Durante a tarde, enquanto Saya revisava documentos e ajustava apresentações, Aiko, alheia ao estado real de Saya, falava animadamente sobre o seu dia. Saya ouvia, mas a mente estava noutro lugar, os olhos fixos nos papéis à sua frente. Aiko teve de repetir algumas vezes o que dizia, percebendo que a amiga estava distraída. Quando se apercebeu da situação, sorriu com cuidado, compreensiva, mas sem pressionar.
À hora de saída, Saya sentiu a cabeça a girar ligeiramente, o ambiente a perder nitidez. Tentou afastar o desequilíbrio com passos firmes, mas foi em vão. Riku, que já ia a caminho da saída, percebeu de imediato que algo estava errado. Sem hesitar, aproximou-se dela e, num gesto rápido mas cuidadoso, segurou-a nos braços, prevenindo uma queda.
— Está bem? Anda, vou levar-te a casa. — disse ele, firme mas calmo.
Saya, surpresa e ainda desorientada, apenas assentiu. No carro, o silêncio entre eles era carregado de preocupação não dita. Ela sentia o corpo pesado, a febre a arder-lhe, mas também um estranho alívio por finalmente não ter que fingir força.
Ao chegar a casa, Riku ajudou-a a deitar-se na cama. Colocou um pano húmido na sua testa, entregou-lhe a medicação e ajustou o cobertor. Cada gesto era meticuloso, feito com paciência e cuidado, revelando uma faceta de proximidade que Saya não sentia há muito tempo.
Quando ele se preparava para sair, Saya, sem perceber conscientemente, agarrou a manga da camisola dele.
— Fica… — murmurou, a voz fraca, carregada de vulnerabilidade.
Riku parou. A surpresa passou rapidamente para compreensão. Ele sentou-se ao lado dela e colocou a mão suavemente sobre a sua cabeça, acariciando-lhe o cabelo com cuidado.
— Descansa, estás em segurança. — disse, firme e sereno.
Essa noite, Saya sentiu pela primeira vez há muito tempo a liberdade de se permitir ser cuidada. Entre lágrimas silenciosas e suspiros contidos, percebeu que havia alguém que podia ver além da sua máscara de frieza e neutralidade, alguém capaz de entender a sua vulnerabilidade sem julgar.
Mesmo exausta, os pensamentos de Saya corriam rapidamente sobre tudo o que a vida lhe tinha ensinado: a dor de amores passados, a frustração de se sentir constantemente julgada e a necessidade de manter distância emocional. Mas, ali, ao lado de Riku, sentiu algo novo, uma confiança silenciosa, um conforto que ela não queria admitir, mas que não podia negar.
O relógio marcava já tarde, mas nenhum deles se moveu imediatamente. A respiração de Saya começou a regular-se e, lentamente, a tensão acumulada nos dias de trabalho e preocupações dissipou-se. Riku permaneceu até que sentiu que ela estava suficientemente calma, o corpo já menos quente, os olhos a piscarem suavemente em sinal de sono.
Antes de se levantar, lançou-lhe um olhar sério mas delicado, oferecendo um sorriso quase imperceptível.
Pela primeira vez em muito tempo, percebeu que deixar alguém aproximar-se não significava perder o controlo. Era apenas uma oportunidade de sentir segurança e apoio, algo que nem toda a frieza do mundo poderia substituir.
A noite terminou em silêncio, mas com uma sensação de proximidade que ambos ainda não compreendiam totalmente. O primeiro passo de algo maior estava dado, e o equilíbrio entre profissionalismo e emoção começava a ser redefinido.
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