Cicatrizes.
13 #13 – Fuga.
Notas iniciais
– Está tudo bem – tentava consolar Paula.
Ela me olhou – seus olhos verdes e lagrimejantes fizeram me acalmar e me desesperar ao mesmo tempo. E logo em seguida meu corpo tremeu com um grito agonizante que vinha do outro quarto.
Paula e eu olhamos em direção a porta – que estava fechada – e logo em seguida olhamos um para o outro. Seus olhos, assim como os meus, estavam arregalados. Novamente ouvimos outro grito, ainda mais agonizante, o que me fez tremer novamente.
– O que está acontecendo? – Perguntou Paula, nervosa.
– Eu vou lá – disse a ela. – Fique aqui.
Andei até a porta, levando o guarda-chuva que ainda segurava, e a abri.
O corredor meio iluminado estava vazio e todas as portas dos outros quartos estavam fechadas. Não sabia de onde vinha aquele grito, ou quem estava gritando. Andava lentamente, segurando o guarda-chuva com muita força desnecessária, olhando para os dois lados do corredor, esperando que alguém abrisse a porta.
Olhei para a porta que estava do meu lado direito, assustado. Mas, sem hesitar, abri a porta rapidamente e entrei. O quarto estava escuro, mas antes mesmo de eu ter a chance de acender a luz, algo veio em minha direção.
– Socorro! – Gritou Laís, me abraçando.
– O que houve? – Perguntei, preocupado.
– Tinha alguém aqui! – Falou ela, desesperada.
Olhei para o quarto escuro e logo em seguida olhei para a parede ao meu lado em busca do interruptor. Forçando um pouco a vista, consegui enxergar onde ele estava, e então estiquei um dos braços – enquanto o outro abraçava Laís – e iluminei o quarto.
Não havia ninguém no quarto, além de nós dois.
– Eu juro – ela estava quase chorando – tinha alguém aqui. Ele tentou...
– O que ele tentou? – Perguntei, com a voz fraca, tentando acalmá-la.
– Me matar – respondeu. – Ele tentou me matar colocando o... Travesseiro sobre o meu ro-rosto... – ela agora soluçava. – Mas eu co-consegui me so-soltar... – Ela não estava conseguindo mais continuar e me abraçou, pondo o rosto sobre o meu peito e começando a chorar.
– Está tudo bem agora – disse enquanto acariciava seu cabelo.
Olhei novamente para o quarto. A cama estava completamente bagunçada e um dos travesseiros estava no chão. O abajur que ficava ao lado da cama também estava no chão e a janela estava aberta.
– Espere um minuto – disse, afastando-a de mim e caminhando em direção a janela.
Lá fora, os primeiros vestígios do sol começava a aparecer, alguns pássaros já voavam no céu ainda escuro e o vento continuava frio. Olhei para baixo – para ter certeza de que ninguém subiria até ali –, e estava certo do que eu imaginava: era muito alto para alguém subir e não havia nada para servir como apoio; mas, o que eu não esperava, era um pequeno corredor exterior – duas vezes menor do que o corredor interior – que dava acesso aos outros quartos.
– O que aconteceu?
Olhei para trás e vi Paula abraçando Laís.
– Parece que alguém entrou aqui no quarto e... – não consegui completar a frase.
– E...? – Perguntou Paula, nervosa.
– Alguém tentou me matar – respondeu Laís.
Paula olhou para mim com os olhos arregalados e soltou Laís.
– Primeiro a câmera, depois encontramos os tios de Layanne mortos, e agora isso... – ela passou as mãos em seu cabelo, jogando-os para trás, e depois passou as mãos sobre o rosto.
– Meus tios estão mortos? – Perguntou Laís, ainda mais nervosa, quase gritando.
– Temos que ir embora daqui – disse Paula.
– Paula, mantenha a calma, primeiro temos que saber o que está acontecendo – disse.
– Saber o que está acontecendo? – Gritou ela. – Parece que tem alguém aqui nessa casa querendo nos matar, é isso que está acon... – ela parou de falar de repente. – Gustavo! – Ela se virou e saiu correndo.
– Paula, espere! – Gritei, largando o guarda-chuva e começando a segui-la. – Venha! – Disse para Laís.
Corri em direção ao quarto de Gustavo, perguntando-me se Paula teria razão, se tem alguém que realmente quer nos... Isso não era possível, não poderia ser. Talvez tenha uma explicação razoável para aquelas câmeras, talvez Laís estivesse apenas sonhando... Apenas uma coisa não entrava no meu círculo de negação: os tios de Lay estavam mortos.
Chegando no quarto de Gustavo, olhei Paula o acordando desesperadamente. Gustavo se levantou rapidamente, assustado, nervoso. Paula o abraçou enquanto ele olhava para ela, sem reação.
– O que houve? – Perguntou ele.
– Temos que sair daqui – disse Paula. – Vamos!
– Sair daqui? – Perguntou ele enquanto se levantava. Vi que ele ainda usava as mesmas roupas da festa de ontem. – Porque? O que está acontecendo?
– Ainda estamos querendo saber – respondi. – Começando por isso – apontei para o ponto preto em cima da cama dele. – Isso é uma câmera!
Todos olharam para a direção que eu apontava.
– Porque tem uma câmera no meu quarto? – Perguntou Gustavo, confuso.
– Temos que chamar os outros – disse a Paula.
– Também tem uma dessa no meu quarto, mas eu pensei que fosse sujeira... – disse Laís.
– Vamos chamar os outros e sair daqui! – Disse Paula.
Paula e Laís não contaram para Gustavo sobre a morte dos tios de Lay, talvez porque, assim como eu, elas não queriam acreditar nessa realidade. Saímos do quaro de Gustavo e fomos para o largo corredor. Não sabíamos quem chamaríamos primeiros, ou se era melhor ficarmos juntos ou nos separarmos.
– Gustavo e eu iremos chamar as pessoas do lado esquerdo e você e Laís chamarão as pessoas do lado direito do corredor – disse Paula. Ela olhou para o final do corredor, onde ficava o quarto dos tios de Lay. – Não deixem que olhem... – seus olhos lagrimejaram novamente.
Eu apenas assenti. Gustavo olhava para todos, ainda sem entender nada e Laís segurava meu braço, insegura. Andando a passos céleres, fui até o final do corredor, fechei a porta do quarto dos tios de Lay e entrei no primeiro quarto a direita. Liguei a luz de imediato, pois precisávamos ser rápidos.
– É o quarto de Mateus – disse Laís.
Andei em direção a cama enquanto Laís continuou perto da porta. Mateus estava todo coberto e, pelo volume debaixo do lençol, ele não estava só. Peguei a ponta do lençol e, lentamente, fui o tirando. Aos poucos o rosto de Mateus foi aparecendo... E me sobressaltei. Seus olhos estavam abertos – como o da sra. Sara – e ele não piscava. Olhei na direção da segunda pessoa ao seu lado, que ainda estava coberta, e puxei o lençol bruscamente. Ao seu lado, com manchas de sangue em seu peito, estava Bruno. Ambos ainda usavam as mesmas roupas da festa.
Laís deu um grito que logo foi silenciado pelo medo. Ela se ajoelhou e colocou as duas mãos sobre o rosto enquanto eu ficava parado, imóvel, sem reação para o que eu estava vendo.
– Vamos sair daqui! – Disse.
Agora eu estava desesperado.
Andei rapidamente na direção de Laís e a puxei pelo braço para que ela se levantasse. Saí do quarto rapidamente e fui em direção ao próximo, com medo de presenciar a mesma cena... Ou até pior. Só quando iluminei o ambiente que eu percebi de quem era o quarto – Jef. – Mas ao contrário dos outros, a cama dele estava arrumada e não havia sinal de que alguém estivera ali durante a noite. Olhei para a janela e vi que estava fechada. Lá fora, os primeiros raios de sol começava a aparecer.
Onde Jef está?
– De quem é esse quarto? – Perguntou Laís.
– Jef – respondi.
– E onde ele está?
– Boa pergunta.
Sem perder tempo, fui em direção ao último quarto — passando direto pelo quarto de Laís e Gustavo –, mas em vez de entrar, fiquei apenas parado, segurando a maçaneta.
– O que foi? – Perguntou Laís, preocupada.
– Nada – menti.
Sabia muito bem de quem era aquele quarto e estava com medo do que eu poderia encontrar nele. Respirando fundo e lentamente, girei a maçaneta e estiquei meu braço em direção ao interruptor. Meu coração parou por um segundo quando iluminei o lugar: quando iluminei o quarto de Davi e Lay. Um medo me fez tremer dos pés à cabeça quando olhei o que mais temia. Davi estava no chão, com o rosto virado em nossa direção e com o pescoço cortado.
Laís pôs a cabeça em meu braço, querendo não ver aquilo. Chorando, olhei o restante do quarto a procura de Lay, mas não havia mais ninguém lá.
– Onde está Lay? – Perguntei, nervoso.
Sem responder, Laís saiu do quarto, se agachou e colocou o cabelo para trás, pronta para vomitar. Segurei seu cabelo, e esperei, mas ela apenas chorava.
– Calma... Calma... – dizia a ela.
Como posso pedi-la para ficar calma quando logo eu não estava?!
Paula e Gustavo saíram do quarto que ficava de frente para o quarto em que Davi estava... Ambos chorando.
– Vocês viram Lay? – Perguntei de imediato.
– Não... – respondeu Paula, abraçando seu irmão. – Também não encontrei o Bruno. Enquanto a... Jessica... – Ela afundou no peito de Gustavo, chorando.
– Não encontramos Jef. O Bruno está com o Mateus... – comecei – Os dois e Davi estão... – respirei fundo, tentando manter a calma – Temos que sair daqui!
Ajudei Laís a se levantar enquanto Gustavo acalmava Paula e então descemos as escadas.
– Espere! – Disse para Gustavo, que já levava Paula em direção a saída.
Deixei Laís sozinha e fui em direção a cozinha. Fui até a gaveta onde ficavam as facas e peguei algumas, colocando a menor entre minha calça e minha costa, cobrindo-a com a camisa.
– Tem alguém aí? – Ouvi alguém dizer.
Saí da cozinha e fui em direção ao pequeno corredor que levava a sala.
– A porta está emperrada – continuou a pessoa.
No pequeno corredor ficava os banheiros, e de um deles vinha a voz que logo reconheci – Jef. – Lembrei de imediato que eu e Gustavo o havíamos deixado lá dentro para tomar um banho gelado, pois ele estava muito bêbado.
– Jef ainda está aí? – Perguntou Gustavo.
– Está – disse, me preparando para chutar a porta. – Jef, se afaste da porta!
Esperando alguns segundo – dando tempo suficiente para que Jef se afastasse –, chutei a porta com toda força que tive. A porta abriu bruscamente, revelando um rapaz todo molhado e com uma cara cansada. Não ligando muito, o abracei pelo simples fato de estar vivo.
– Cara, sabia que você era gay – disse ele, sem retribuir o abraço.
Dei um leve sorriso por um momento, mas logo em seguida lembrei de tudo o que estava acontecendo.
– Temos que sair daqui – disse, fazendo um gesto para que ele me seguisse.
– Sair daqui? – Perguntou ele, confuso.
– Pegue! – Lhe entreguei uma das facas que segurava.
– O que está acontecendo? – Perguntou ele enquanto pegava a faca da minha mão.
– Depois explicamos, mas agora temos que sair daqui! – Respondi.
Entreguei uma faca aos demais, sobrando apenas uma com a qual fiquei e, sem perder tempo, fomos para o lado de fora.
– Os carros – disse Gustavo, indo em direção as BMW’s Série 3 M3 Coupé Sport azul e X5 SUV prata.
Todos nós começamos a correr em direção as BMW’s, querendo sair o mais rápido possível daquele lugar. Pelo menos eles queriam... Estava feliz por Paula (e seu irmão, que ela tanto amava) estarem vivos, mas ainda estava preocupado com Lay.
– Está sem chave – disse Gustavo indo do Série 3 M3 Coupé Sport azul ao X5 SUV prata. – E esse também.
– O que está acontecendo? – Perguntou Jef, novamente, agora meio desesperado.
– Tem alguém querendo nos... – comecei a responder, mas antes que eu pudesse terminar a frase, ouvi o som de um tiro. Os olhos vagos de Jef encararam os meus olhos já lagrimejantes, e antes mesmo de eu ter qualquer reação, ele caiu no chão. Atrás de sua cabeça havia um buraco no qual saia sangue. – Corram! – Gritei para Gustavo, Paula e Laís, que estavam imóveis olhando o corpo de Jef.
Passando pelos carros, comecei a segui-los floresta dentro.
Olhava a toda hora para trás, e aos poucos a mansão ia sumindo.
Corríamos desesperadamente, sem nem mesmo saber para onde estávamos indo. Paula e Gustavo iam à frente, seguidos por Laís, e eu corria logo atrás deles, enxugando as lágrimas que saiam dos meus olhos com a costa da mão.
Alguns metros depois, Laís tropeçou em uma pedra e caiu no chão. Paula e Gustavo estavam parando de correr para ajudá-la, quando gritei:
– Vão, eu a ajudo!
E então eles continuaram correndo.
– Está tudo bem? – Perguntei a Laís.
Ela apenas assentiu.
– Pedro! – Ouvi Paula gritar, mas eu já não a via. – Pedro!
O que está acontecendo? Paula...
Ajudei Laís a se levantar.
– Vamos! – Comecei a correr na direção da voz de Paula.
– Espere – disse Laís, caindo no chão novamente.
– O que houve? – Perguntei a ela.
– Meu pé... Está doendo!
Olhei na direção em que Paula gritava e depois andei na direção de Laís para ajudá-la novamente. A levantei e coloquei seu braço sobre a minha cintura – pois ela não alcançava meu ombro – e comecei a andar lentamente enquanto ela mancava.
– Obrigada – disse ela.
Olhei para ela e a imagem da garota com óculos, aparelho e o rosto cheio de espinhas veio em minha mente... Das brincadeiras de criança, dos sorrisos. Mas logo em seguida essas lembranças se dissiparam com o som de um tiro. Olhei de imediato na direção em que Paula e Gustavo correram, mas logo em seguida parei de sentir as mãos de Laís sobre a minha cintura e a olhei caindo no chão novamente.
– Laís! – Gritei.
– Pedro! – Ouvi a voz de Paula me chamar.
Olhando para os lados, querendo saber de onde viera aquele disparo, me assustei quando vi uma pessoa parada logo atrás de mim. Essa pessoa segurava duas armas, uma em cada mão – com a da direita apontada em minha direção.
– Você? – Foi a única coisa que eu consegui dizer, pois antes mesmo de eu poder dizer qualquer outra coisa, a pessoa abaixou a arma que estava em sua mão direita e apontou-me a da esquerda.
E atirou.
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