Cicatrizes.
14 #14 – Cicatrizes.
Notas iniciais
Um turbilhão de lembranças vieram em minha mente naquele momento – no momento em que a vi apontando uma das armas em minha direção. Não sabia o que dizer, estupefato pelo o que eu acabara de presenciar. Ao longe, a garota que eu amava gritava meu nome desesperadamente enquanto eu a encarava.
– Você? – Foi a única coisa que saiu da minha boca, antes dela apontar-me a outra arma, e atirar sem nenhuma reação.
Silêncio.
Negridão.
Lentamente abri meus olhos, com minha visão ainda turva, piscando rapidamente por causa da luminosidade que entrava pelo o que parecia com uma porta – ou seria uma janela? –, virei meu rosto para o lugar mais escuro do lugar, esperando que meus olhos se acostumasse com o ambiente.
– Você acordou! – Ouvi uma voz doce e feminina vindo em minha direção. – Pensei que dormiria o dia todo.
Quando enfim minha vista se acostumou com a luminosidade, olhei para a pessoa que segurava uma bandeja com comida e algumas frutas, e depois olhei para o lugar em que estava.
– Onde estou, e... ? – Tentei mover meus braços, mas ambos estavam presos, virados para trás.
– Shiii... – disse ela, colocando o dedo indicador sobre os seus lábios. – Você precisa se alimentar primeiro – mostrou-me a bandeja.
As imagens das mortes pairavam em minha cabeça enquanto a olhava. Não poderia ter sido ela, não mesmo. Olhei para sua roupa de modo repulsivo... como ela tem a coragem de usar aquele vestido de noiva, mesmo depois de ter feito aquilo com Davi?!
– Lay, o que você está fazendo? – Perguntei.
– Como assim?
– Você matou a todos. Porque?
Meus olhos começaram a lagrimejar.
– Como assim você não sabe o “porque”? Você não se lembra?
– Lembrar? Lembrar do quê? Do que você está falando?
– Da nossa promessa! – Ela colocou a bandeja em uma mesa velha que estava ao seu lado e aproximou-se de mim até seu rosto ficar tão perto do meu, que dava para sentir sua respiração. – Prometemos ficar juntos... Para sempre!
Nessa hora senti a marca em meu braço queimar enquanto as lembranças do passado me assombravam.
[ANTES]
Aqui é o paraíso – pelo menos era assim que eu o imaginava. Árvores por todos os lados, campos, rios... Tudo parece ser tão grande diante dos meus olhos de adolescente. Um mundo parcialmente inexplorado, onde cada nova árvore que eu via, cada nova grama que eu pisava, fazia com que tudo se tornasse novo, de novo.
– Eu vou te pegar – ouvi o som de sua bela e delicada voz. – Aí está você!
Olhei para trás enquanto corria e a vi. Sua blusa vermelha era tão colada em seu corpo que fazia destacar seus pequenos seios, e sua calça jeans, meio sujas de terra, a deixavam mais... sexy? Nunca pensei que a adolescência me faria olhá-la com esses olhos.
Cheguei a uma imensa área aberta, sem árvores, e continuei correndo.
– Você não me pega – gritei para a garota que estava cada vez mais perto.
Me assustei. Nossa, como ela era rápida.
E antes mesmo de chegar no meio daquela área aberta, ela me puxou pelo braço e nós dois caímos. Senti seus pequenos seios sobre o meu corpo quando nós paramos de rolar e ela ficou em cima de mim, rindo.
– Peguei você – disse ela.
– Você é rápida.
Demos algumas risadas da situação e tudo ficou em silencio. O vento não balançava mais as árvores ao longe, nenhum pássaro cantava, não havia som algum. Fiquei olhando seus olhos escuros... Meu coração batia tão rápido. O que está acontecendo comigo?
– Venha comigo – disse ela, quebrando o silêncio que pairava ao nosso redor.
Nos levantamos e caminhamos até entrar em uma das várias trilhas – uma que eu sabia exatamente para onde nos levaria – e a segui, sem entender absolutamente nada.
– O sítio não é para esse lado – disse.
Ela parou de caminhar, pegou minha mão e me puxou.
– Venha.
Sua mão estava quente. Olhei da blusa vermelha para calça jeans que ela usava e novamente meus pensamentos ficaram confusos. Estava sentindo algo inexplicável, uma sensação estranha. Por que ultimamente minha melhor amiga estava me chamando à atenção?
Após a trilha terminar, olhei para a água verde do lago e senti o vento úmido bater em meu rosto. Que lugar lindo.
– O que viemos fazer aqui? – Perguntei.
– Esse lugar é lindo, não é? – Perguntou ela, desviando-se da minha pergunta.
Olhei novamente para o lago de águas verdes à minha frente, para as árvores que me cercavam, e ouvi os sons dos pássaros ao longe. Tudo estava calmo. Olhei para Lay e ela me encarava de um jeito estranho.
– O que foi? – Perguntei.
– Você sente algo por mim? – Perguntou ela de repente.
Arregalei os olhos, assustado com a pergunta repentina.
– Como assim?
– Se você sente alguma tração por mim?! Sei lá, isso é tão estranho...
– Como assim “estranho”?
– Eu acho que estou gostando de você – respondeu ela.
Silêncio.
– Eu acho que também estou gostando de você – disse timidamente.
Mais silêncio.
Não sabia porque ela havia me levado até o lago, ou porque ela estava dizendo aquilo, mas no fundo eu... Estava gostando. O silêncio ainda pairava enquanto ela me olhava com aqueles olhos negros e belos, até que de repente ela aproximou seu rosto tão perto do meu, que dava para sentir sua respiração, e, sem hesitar, ela me beijou. Nunca havia beijado uma garota antes, por isso não sabia o que fazer e que reação eu deveria ter. Fiquei apenas parado, com os olhos abertos, vendo seus olhos fechados enquanto seus lábios encostavam nos meus.
Segundos depois ela afastou-se, rindo. Do que ela estava rindo?
– Você gosta daqui? – Perguntou ela, desviando os olhos de mim e olhando para o lago.
– É claro que eu gosto – respondi. – Viveria aqui pelo resto da minha vida.
– Comigo? – Ela agora me encarava.
– Com você – respondi.
Aproximando-se de mim novamente, ela perguntou:
– Vamos fazer uma promessa?
– Que... Que promessa? – Disse enquanto olhava seu rosto próximo ao meu.
– Que viveremos aqui, que nunca abandonaremos um ao outro e que ficaremos juntos para sempre – respondeu ela, de um jeito delicado.
– Prometo – respondi, depois de alguns segundos.
Ela deu um largo sorriso e seus olhos brilharam.
– Que tal deixarmos isso mais oficial? – Perguntou afastando-se de mim e começando a procurar algo no chão.
– Mas oficial? Como?
Ela agachou-se e pegou uma pedra pontuda.
– Com uma marca – respondeu, vindo em minha direção. – Uma marca que não se apague com o tempo, uma marca que durará para sempre, uma marca que nos fará lembrar dessa promessa pelo resto de nossas vidas. Erga seu braço.
Levantei meu braço direito, com medo, e ela agarrou minha mão trêmula.
– Isso vai doer, mas eu faço isso por nós dois – desviando os olhos de mim e encarando meu braço, ela levantou a mão que estava com a pedra e a enfiou em meu braço.
Ela segurou minha mão para que eu não a mexesse. Dava gritos e mais gritos enquanto ela afundava a pedra em meu braço. Estava com os olhos fechados, já não suportando tanta dor. Queria pedir para ela parar, mas a dor era tão insuportável que nenhuma palavra saia de minha boca, apenas gritos. Quando ela enfim tirou a pedra cravada em meu braço, um alivio me dominou, mas a dor continuava. Abri meus olhos e olhei para meu braço ensanguentado. Com a mão esquerda, tentei tapar o ferimento, e foi quando ouvi seu grito.
Olhei para Lay e ela se contorcia com a dor que sentia. Ela acabara de enfiar a mesma pedra em seu braço direito e gritava enquanto a cravava. Por um minuto pensei que ela enfiaria a pedra ao ponto de atravessar seu braço, mas fiquei feliz quando ela tirou a pedra e a jogou no chão ao seu lado. Seu braço, assim como o meu, sangrava muito.
Ela aproximou-se de mim, me beijou e disse:
– Viveremos aqui, nunca abandonaremos um ao outro e ficaremos juntos para sempre!
[AGORA]
A cicatriz em meu braço ardia ao lembrar de tudo aquilo.
“Estávamos correndo e caímos”, dissemos aos tios e aos pais de Lay quando voltamos para a mansão. Lembro-me do hospital, dos pontos, de tudo.
– Não precisava ter matado nossos amigos – disse, agora chorando.
– Fizemos uma promessa, Pedro. Que viveríamos aqui no sítio que era dos meus tios – disse ela, enfatizando a palavra “era” –, que ficaríamos juntos para sempre e que nunca abandonaríamos um ao outro; coisa que você fez quando começou a sair com Paula. – Ela afastou-se mim e gritou: — Você me abandonou!
– Os que seus pais achariam de você agora, depois de...
– Meus pais?! – Interrompeu-me ela, rindo. – Aqueles idiotas não foram nada mais do que a primeira fase disso tudo.
– Do que você está falando? – Perguntei, confuso.
– Eu comecei o incêndio! Eu os matei! Fui lá no quarto deles enquanto dormiam e coloquei fogo. Só não esperava que as chamas se espalhassem tão rápido e, quando pensei que eu também morreria, eu ouvi meu telefone tocar. E era você. Você me salvou. E foi então que eu realmente vi que fiz a coisa certa, que eu deveria fazer qualquer coisa para cumprirmos nossa promessa.
“Tudo indica que o incêndio começou no quarto dos pais da garota, e infelizmente eles faleceram.”, à frase que o bombeiro dissera a minha mãe pairava na minha mente.
– Você matou seus pais?!
Não conseguia raciocinar, não conseguia pensar. Tudo o que eu vivi desmoronava a cada revelação. Não sabia mais quem era a garota na minha frente. A cicatriz em meu braço ardia a cada pulsar acelerado do meu coração enquanto meus olhos lagrimejantes a encaravam com ódio e desprezo por tudo o que fizera até agora. Todos estavam mortos.
– Você supera, eu superei rapidinho – disse ela.
– E porque você matou nossos amigos? – Perguntei com medo da resposta, mas eu precisava saber de tudo.
– Esse foi só um meio de trazer você até aqui! “E conto com a presença de todos vocês.” – Ela repetiu a mesma frase que dissera semana passada na pizzaria. – Depois das cicatrizes, você nunca mais veio para cá. No começo você dizia que sua mãe não o deixava voltar por causa do “acidente” – ela apontou para a cicatriz em seu braço –, mas, mesmo depois que você podia tomar suas próprias decisões, você não quis voltar. Então o idiota do Davi começou a se apaixonar por mim – a cena de Davi com a garganta cortada viera em minha mente e uma lágrima caiu dos meus olhos. – Que cara idiota! Mas então eu vi uma vantagem naquilo tudo e comecei a fazer meus planos para trazer você de volta ao sítio que eram dos meus tios...
– Você quer dizer que tudo o que aconteceu foi planejado? – A interrompi.
– Tudo! – Respondeu ela. – O namoro com Davi, o casamento... Sabia que você não perderia o casamento de sua melhor amiga, mesmo depois de eu convencer Davi a torna-lo padrinho. Mas uma festa de casamento tem que ter convidados, mesmo que poucos, então resolvi convidar todos os nossos amigos. Claro, uma única coisa eu não havia planejado, uma coisa que você conseguiu esconder de mim por um breve período, mas que eu acabei descobrindo antes mesmo de você contar no dia em que fomos acampar. Você e Paula Oliveira estavam saindo – os olhos dela começaram a lagrimejarem. – Como você pôde fazer isso comigo? Quando eu vi você dando aquele beijo ao pôr do sol na beirada da piscina, eu... Eu... Mas eu resolvi seguir meu plano.
– Então era você que estava atrás daqueles arbustos naquele dia!
– Eu estava por trás de tudo, estava monitorando cada passo de vocês, principalmente o seu. Pelo o que eu pude ver, você e sua namoradinha descobriram minhas câmeras. Pena que tenha sido tarde demais.
– Você sabe que esse seu plano não vai dar certo.
– E porque você acha isso?
– O padre, as pessoas que organizaram seu casamento, a empregada da mansão, os garçons... Todos virão.
– Não virão, eu os dispensei – respondeu ela, aproximando de mim e me beijando. – Estaremos só nós dois, aqui, para sempre, como prometemos. Por nossas cicatrizes.
Minhas esperanças esvaiam-se a cada minuto que se passava. Todos estavam mortos, só restava nós dois. Ela conseguira o que queria.
– Enfim, deixa eu terminar com meu plano – disse ela, afastando-se mim. – Quando eu voltar, seremos apenas um do outro.
– Para onde você vai?
– Irei acabar com sua namoradinha e com o irmãozinho dela. Deixarei ela por último, por quase estragar meus planos – disse ela pegando uma das armas que estavam em cima da mesa.
– Paula ainda está viva? – Um momento de esperança me dominou.
– Está, mas não por muito tempo. Iria matá-la, mas vi que ela não iria a lugar nenhum depois que o irmãozinho dela caiu em uma das minhas armadilhas, então resolvi trazê-lo para a mansão primeiro e esperar que meu dardo tranquilizante não tivesse lhe ferido de alguma forma.
– Suas armadilhas?
– Sim, fui eu que as coloquei. Meu tio conseguiu até desarmar algumas que ele encontrou, mas ainda tem muitas por aí – ela ria. – Lucas quem o diga – ela caminhou em direção as escadas e subiu.
Então eu estava na mansão, e por julgar o lugar, estava no porão. O que ela quis dizer com “Lucas quem o diga”? Não conseguia imaginar Lay dessa forma, pois ela era uma garota tão doce e tão frágil. Mas estava enganado. O verdadeiro motivo de eu não ter voltado mais ao sítios dos falecidos tios de Lay é que eu estava com medo, medo do que acontecera naquele dia em que fizemos aquela maldita promessa e não queria lembrar pelo o que passei, mesmo carregando a marca em meu braço. A cicatriz que agora ardia.
Comecei a tentar soltar-me da corda que prendia meus pulsos nas barras de ferro da cadeira logo atrás de mim, mas todo esforço era em vão. E foi então que me lembrei da pequena faca entre minha calça e minha costa – faca que eu pegara da cozinha antes de encontrar Jef, ainda vivo, dentro do banheiro.
Rapidamente comecei a me contorcer para tentar agarrá-la, e quando enfim a senti sobre os meus dedos, a puxei. Senti a ponta ferir-me, mas não estava dando a mínima para aquela dor, pois o que realmente importava naquele momento era que eu me soltasse e fosse salvar a garota que eu tanto amava, e que agora estava correndo perigo.
Alguns minutos depois consegui me soltar, tendo apenas dificuldade por minhas mãos estarem trêmulas, então me levantei e segui em direção a escada. Mas antes, visualizei o objeto em cima da velha mesa – ao lado da bandeja — e o peguei. Era a mesma arma que Lay havia disparado contra mim, e dentro dela havia apenas um dardo tranquilizante. Sem perder tempo, coloquei a arma e a faca que eu segurava em minha cintura, subi as escadas e saí da mansão.
Passando pelo corpo de Jef, sem nem ao menos olhar – pois tinha que ficar concentrado no que eu estava fazendo – entrei na floresta e comecei a ir na direção em que eu havia visto Paula pela última vez. Só sabia que estava realmente no caminho certo quando passei pelo corpo de Laís, e então comecei a correr em frente.
Descendo lentamente um pequeno desfiladeiro, eu finalmente pude avistá-los. Lá em baixo, Paula chorava enquanto olhava para frente, segurando a faca que eu havia lhe dado; ao lado dela estava Gustavo, agachado, com um dos pés preso em uma armadilha de urso. Virei-me um pouco para direção em que Paula olhava, e lá estava Lay, com o vestido de noiva, apontando a arma para eles.
Estava próximo a Paula, mas eu não podia chama-la, não podia dizer para manter a calma, não podia nem ao menos dizer um “Eu te amo!”. Fiquei atrás daquela grande árvore enquanto ouvia Lay falar:
– Você quase estragou tudo, mas como dizem: “O amor sempre vence”.
– Layanne, por favor, não faça isso – implorou Paula.
– Não fazer? Acho que você não entendeu nada do que eu disse. TODOS ESTÃO MORTOS! – Ela agora gritava, e senti meu corpo arrepiar-se. – Yasmin, Lucas, Amanda, Jessica, Davi... Todos que você conheceu estão mortos, e vocês serão os próximos, começando por seu irmãozinho.
Gustavo levantou o rosto quando ela disse aquilo e vi que ele também chorava.
– Não, não o mate – Paula ainda implorava. – Mate a mim, mas não mate ele.
– Matá-la primeiro? Até que não é uma má ideia – ouvi seus passos se aproximando –, até porque, seu irmão não apresenta nenhuma ameaça nessas condições – olhei para a armadilha de urso que prendia o pé de Gustavo. – Como você desejar!
Clic.
E tudo pareceu acontecer em câmera lenta. Saí de trás da árvore e corri em direção a Paula enquanto Lay puxava o gatilho da arma. Ouvi o som do disparo e então pulei em sua frente. Senti a bala rasgar-me o peito, na direção do meu coração, enquanto caía no chão.
– Pedro! – Ouvi Paula gritar meu nome e então olhei em sua direção.
Ela se agachou ao meu lado, chorando.
– Pedro? – Ouvi a voz de Lay.
Tudo acontecia tão rápido e tão lentamente.
Levantei minha camisa e Paula olhou o que eu queria lhe mostrar.
– Eu te amo – disse, já sentindo minha vista ficar turva e o rosto de Paula parecer um borrão.
– Eu também te amo – disse ela.
Uma de suas lágrimas caiu em meu rosto e percorreu toda a minha face. Já não conseguia enxergar muita coisa, pois tudo estava ficando escuro. Em breve me juntaria aos meus amigos. Fiquei imaginando os momentos em que tive com cada um deles: da festa no dia anterior, dos encontros no Rio, das risadas... Tudo agora não passava de lembranças.
E o borrão em minha frente, a garota que eu amava... Tivemos tão poucos momentos juntos, mas cada minuto tinha valido apena. Nossos encontros, nosso inesquecível segundo primeiro beijo, seu corpo colado no meu, seu cheiro, e – uma das coisas que eu mais admirava – seu pequeno sorriso.
Meus pensamentos se dissipavam conforme a escuridão me dominava. E tudo aquilo estava acontecendo por causa de uma promessa de muitos anos atrás, tudo isso por causa de uma garota que me “amava” – não sei se essa seria a palavra certa –, tudo isso por causa das marcas em nossos braços. Das cicatrizes.
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