Ciberlove
14 Capítulo 14
Os dias se passaram arrastados enquanto o garoto estava de repouso. Derek aparecia todas as noites, quando o xerife estava de plantão e após ele ter ido dormir. Mas naquele dia em especial ele chegou um pouco mais cedo, antes mesmo do sol se por.
Encontrou o rapaz na cozinha, reunindo ingredientes para um lanche e se aproximou sorrateiro, abraçando-o por trás e rindo do susto que ele levou, largando-o após depositar um beijo em sua nuca. Moveu-se para ao lado e ficou observando o modo como ele se movimentava pelo cômodo.
Stiles juntou tudo o que precisava da geladeira e dos armários e colocou sobre o balcão enquanto falava sem parar sobre a aula e as idiotices dos colegas, até que sentiu o olhar de Derek sobre si, um olhar ligeiramente tenso e apreensivo.
- O que foi? – perguntou, sentando-se num dos bancos da cozinha.
- Olha, a gente precisa conversar. — Derek começou, segurando as mãos de Stiles. Percebeu então que aquela foi uma má escolha de palavras, pois sabia bem que toda conversa que começava com aquela frase sempre precedia términos de relacionamento e não queria que o rapaz sequer cogitasse a hipótese disso acontecer entre eles.
- Ok, nós conversaremos. Sobre o quê? — Stiles respirou fundo, tentando manter a calma. Impossibilitado, no entanto, de mantê-la, visto que aquele tipo de frase era indício de término de relacionamento e não queria parecer uma mocinha desolada na frente de Derek quando este chutasse a sua bunda. Aliás, ele estava até impressionado de o lobisomem ter demorado tanto tempo para tomar essa decisão.
- É complicado. — o lobisomem falou num sussurro sem saber ao certo como começar a conversa que queria ter com o namorado. Ao mesmo tempo em que queria se bater, porque novamente tinha escolhido as palavras erradas para o assunto.
- Nem tanto. Você sempre pode usar os clichês de "não é você, sou eu", ou então o bom e velho "conheci alguém". Tem ainda um "você é a pessoa certa pra mim, mas na hora errada".
- Do que você está falando, Stiles?
- Do que você está falando, oras. Se vai terminar comigo, faz isso de uma vez. Igual esparadrapo, sabe? Arranca logo que dói menos.
Derek sorriu com a confusão que ele mesmo tinha causado e começou a rir. Rir alto e com vontade. Porque esse era Stiles, afinal de contas, a única pessoa tão insegura quanto ele sobre o relacionamento deles. Aproximou-se da cadeira em que o rapaz estava e o puxou para um abraço, talvez um pouco apertado demais, mas queria se assegurar que tal ideia não iria passar pela cabeça de Stiles novamente.
- Não é nada disso, seu idiota! Não quero terminar com você. É bem o contrário disso.
- O contrário? Vai me pedir em casamento? — Stiles ironizou, tentando disfarçar o alívio que sentiu ao saber que Derek ainda queria estar com ele, sem sair do abraço, buscando se aconchegar mais ao namorado.
- Não ainda. — ele sorriu sincero — É que eu acho que a gente já está junto há tempo o suficiente para dar um passo a frente.
- Passo a frente? Tipo, terceira base? — a cor sumiu do rosto do adolescente.
Ele sabia que queria fazer isso. Fazer sexo com seu namorado gostoso — porque agora ele se sentia bem usando essa palavra — era algo com que ele sonhava, literalmente até. E várias vezes, por sinal. Fantasiava diversas vezes por dia como seria quando finalmente criassem coragem e saíssem dos amassos e das passadas de mão por cima das roupas, ou melhor, por cima das roupas íntimas, uma vez que mãos já haviam visitados conteúdos escondidos sob calças jeans várias vezes.
Mas uma coisa era fantasiar, outra coisa bem diferente era discutir isso abertamente e decidir hora, local e posições. Isso parecia estranho e, de certa maneira, constrangedor. Stiles se via sem saber como sequer prosseguir com o assunto sem sentir as bochechas ficando vermelhas. O que era algo bem estúpido se ele parasse para pensar, pois como ele conseguia assistir a filmes tão cheios de gente e com tão poucas roupas de maneira tão casual, mas falar sobre o assunto com o seu próprio namorado o deixava assim?
- Digamos que sim. — Derek respondeu, achando divertida a reação de Stiles. Não era exatamente sobre aquele assunto que ele queria tratar, mas iria levar a conversa adiante e ver até aonde ela chegaria.
- Bom, então... Ok, pode falar.
- Eu só queria que você soubesse que eu quero muito que você aceite isso. Muito mesmo. Mas eu só vou fazer se você deixar. — ele segurou as mãos de Stiles e as apertou nas suas, sentindo-as suar.
PORRA! Stiles começou a entrar em pânico. Derek agora estava sendo mais que claro: ele queria ser o ativo. E Stiles sabia, através de método braile que o que teria que aguentar dentro de si era o suficiente para se assustar.
- Hum. — foi tudo o que conseguiu responder, com medo de que sua voz saísse fina demais por causa do pânico.
- Você sabe que eu também não tenho muita experiência com essas coisas...
- Ah, com certeza tem mais que eu! — ele acabou soltando sem querer em meio ao nervosismo.
- Como pode dizer isso?
- Eu sou virgem, esqueceu? — ele se afastou de Derek e gesticulou como se dissesse "isso é óbvio".
- E...?
- E? Como "e"? Você já pegou várias pessoas...
- Em primeiro lugar, eu não peguei várias pessoas como você acredita. E em segundo lugar tem muito tempo que não pego ninguém, além de você, é claro.
- Muito tempo? Sei... — ele deu de ombros e tentou não olhar para o namorado, para que ele não notasse a pontinha de ciúmes contidas nas palavras seguintes — Aposto que você pegou a Erica.
- O que?
- É, a Erica. Você se pegaram um tempo, certo? Deram um amassos? Tiraram o atraso? — ironizou.
- Não.
- Mas... Mas o Scott disse, o Isaac também falou... -
- Nós trocamos alguns beijos sim, se é a isso que você se refere. Mas eu não "peguei" ela, ok? — Derek parecia ofendido de Stiles ter sequer pensado nisso.
- E por que não pegou ela? — Stiles retrucou, querendo se estapear em seguida. Qual a utilidade daquela pergunta? Queria que Derek começasse a enxergar Erica de outro jeito?
- Eu já te disse. Ela não faz meu tipo, é barulhenta demais. — deu de ombros, tentando fugir do assunto, pois não era sobre isso que ele tinha vindo falar com Stiles.
- Eu sou barulhento demais. — retrucou.
- É, mas do seu barulho eu gosto.
Ele sorriu para Stiles novamente, esperando pela reação dele. E o rapaz já estava prestes a responder, mas parou com a boca aberta. Aquela definitivamente era uma resposta que ele não esperava ou ainda não tivesse se acostumado a ouvir. Ao que Derek continuou:
- E afinal, você pode me explicar o que o fato de eu ter ou não ter pegado a Erica ou qualquer outra pessoa tem a ver com eu querer levar você ao seu baile de formatura?
- Oh, era sobre isso que você estava falando? — Stiles sentia meio bobo agora, mas só um pouquinho. Não era como se ele estivesse com vontade de abrir um buraco no chão e se enterrar, não mesmo.
- Sobre o que você achou que estava falando? — Derek se fez de inocente.
- Ufa, menos mal. Achei que ia conversar sobre sexo e... — ele arregalou os olhos percebendo que mais uma vez sua boca grande lhe traíra.
- Você quer falar sobre sexo?
- Não!
- Então, posso continuar a falar sobre o baile? Vai aceitar o meu convite e me deixar te levar?
- Claro! — Stiles respondeu ganhando um beijo de Derek em seguida. E teriam continuado caso a audição lupina de Hale não tivesse lhe dito que o xerife havia acabado de estacionar diante da casa.
Stiles ficou na cozinha, entretido com seu sanduíche de manteiga de amendoim e pensando que seria legal chegar ao baile no carrão de Derek em vez de seu velho jipe azul quando se deu conta de que Derek não havia lhe oferecido um carona.
Ele queria levá-lo ao baile. "Um passo a frente", ele podia ouvir a voz de Hale dentro de sua cabeça ecoando sem parar. Ele iria levá-lo como seu namorado.
E ele já havia aceitado. Ótimo, agora ele seria assumidamente gay.
Stiles deu uma mordida no sanduíche e mastigou sem sentir o gosto. Pensava que já que era pra ser gay que fosse com um cara feito o seu namorado. Ia deixar a escola inteira com inveja. Afinal, Derek Hale era o cara mais gostoso da cidade. Alto, forte, com aquele sorriso que consegue a senha da conta do banco do Bill Gates. E o olhar de alfa que faz qualquer um obedecê-lo.
Só então ele se deu conta do que estava prestes a acontecer: a escola inteira ia saber que Stiles era gay. E a escola inteira também ia pensar que ele era o passivo. Derek Hale jamais seria outra coisa além de ativo numa relação. E isso era o tipo de coisa a qual o adolescente deveria se convencer. Precisava estar preparado psicologicamente quando a hora chegasse.
Stiles subiu para seu quarto, abriu o guarda roupa e tirou uma caixa grande de papelão. Ali dentro, todas as flores que havia comprado durante anos na esperança de que um dia Lydia aceitasse seu convite para o baile. Sorriu, satisfeito, por ter criado coragem de jogar tudo aquilo fora de uma vez, quando seu celular tocou.
A voz de Beyonce soou alto no quarto, indicando que Derek era quem ligava.
- Fala! — Stiles atendeu com seu jeito prático.
- Preciso de um favor.
- Todos que quiser.
- Não prometa o que não vai cumprir. — Derek sorria mesmo quando falava com Stiles apenas pelo telefone. Era involuntária essa reação.
- Diz o que você precisa. To me livrando de uma tranqueira aqui, mas depois posso te ajudar. E por favor, que não seja nada envolvendo explosivos, vampiros, rakshasas nem nada mais complicado que configurar seu note novamente para roubar a senha do Starbucks.
- Preciso que venha aqui em casa pra me ajudar a escolher umas coisas. Nada complicado.
- Sua casa? Você diz a mansão meio detonada onde o seu tio psicopata que já tentou me matar pelo menos umas 3 vezes mora?
- Stiles, eu nunca ia te colocar em perigo. Não mais. Pelo menos não consciente.
- Quase me convenceu.
- Peter está viajando. Quer dizer, acho que viajou porque não aparece em casa há quase um mês.
- Ok, chego aí em uma hora, pode ser?
A mansão dos Hale estava escura apesar de ainda não serem nem seis da tarde. Stiles estacionou o jipe, saltou e foi pra varanda, já chamando pelo namorado.
- Aqui em cima!
Ouviu Derek dizer e subiu as escadas de dois em dois degraus, não só pela pressa, mas porque sabia que algumas tábuas estavam comprometidas.
Abriu a porta do quarto sem bater e estancou, surpreso com a cena. Derek Hale, parado de costas para a porta, sem camisa.
- Pode respirar, Stiles.
Derek zombou, sem precisar se virar para sentir que o namorado havia segurado a respiração.
- Vamos ao que interessa: você precisa de mim pra que? — o adolescente falou de uma vez, recuperando o folego.
- Para que você acha? — Hale sorriu "daquele' jeito, fazendo seu melhor olhar sensual e depois gargalhou vendo que os ombros de Stiles se enrijeciam de tensão. Ainda bem que lobisomens não tem visão de raio x para ver que outra parte do rapaz também se enrijeceu ali. – Não é óbvio?
- Na-não. Nada óbvio. E mesmo que fosse óbvio, seria bom você dizer. Isso evita falhas no processo de comunicação.
Derek sorriu dando dois passos na direção de Stiles, puxando-o para perto de si e percebendo a pulsação do rapaz aumentar.
- Preciso que me ajude a escolher uma roupa para o baile.
- Isso foi assumidamente gay! — Stiles riu.
Derek não se irritou. Aliás, ele dificilmente se irritava com Stiles desde que se acertaram.
- Que seja, não vou levar você ao baile usando qualquer porcaria.
Foi a vez de Stiles sorrir abertamente e ir até a cama onde algumas camisetas e calças estavam dispostas.
Ele sabia que Derek não era o tipo de terno e gravata, mas para camisetas ele tinha bom gosto. Ficou no quarto, indicando as que mais gostava e vendo o lobisomem experimentá-las.
Assistir Derek Hale se despindo, mesmo que parcialmente, repetidas vezes era o que se podia chamar de sessão de tortura. Mas graças a muito esforço e força de vontade, Stiles escolheu uma camiseta manchada de branco e azul, calças pretas e ficou pensando porque Derek não havia pedido ajuda para escolher também as roupas íntimas. Derek separou as roupas escolhidas, guardou o resto na sacola e puxou Stiles pela mão para que fossem até a loja devolver o restante.
Eles já estavam na sala, quando Derek pegou a jaqueta de couro deixada sobre uma cadeira velha, vestiu-a e falou para o namorado:
- Não se preocupe, ok? Nada de jaqueta de couro para o seu pai não encrencar comigo quando eu for te buscar no sábado.
- Oi? – Stiles que estava distraído ainda pensando nos músculos definidos embaixo da camiseta preta do namorado voltou sua atenção imediatamente para o rosto do lobisomem, pensando o que raios seu pai tinha a ver com tudo aquilo.
- Stiles, eu vou buscar você em casa. Do jeito mais tradicional possível. E vou falar com seu pai. Um passo a frente, lembra?
O rapaz arregalou os olhos e engoliu em seco. Aquilo não era exatamente o que ele chamava de um passo a frente. Aquilo era percorrer a maratona de São Silvestre inteira e ainda chegar em primeiro lugar.
O alfa sorriu, lendo na expressão do rapaz todo o desconforto da situação. Aproximou-se do garoto segurando seu rosto entre as mãos, encostou sua testa na dele e sussurrou:
- Eu só quero fazer o que é certo, porque acho que é isso o que você merece.
E sem deixar Stiles retrucar, rebater, questionar qualquer coisa, beijou-o com todo o carinho e paixão que sentia. O rapaz ficou atordoado, tanto com a ideia de seu pai descobrindo "oficialmente" seu caso gay com o marginal do Hale, quanto com as palavras do alfa que a cada dia se mostravam mais sensíveis.
Deixou-se então levar pela situação, abraçando-o de volta e passando suas mãos para baixo da camiseta dele. Ouviu Derek suspirar com as carícias e teriam intensificado o momento se o barulho de alguém pigarreando ao fundo não os tivesse assustado.
Peter Hale olhava a cena, uma sobrancelha erguida e uma expressão indecifrável. Atrás dele, Erica, Isaac e Boyd pareciam ter sido eletrocutados, no rosto a mesma cara que Scott fez semanas atrás, na clínica de Deaton.
- Eu não me incomodaria se nas próximas vezes os dois pombinhos arrumassem um quarto. – a voz de Peter quebrou o silêncio.
Derek rosnou, os músculos ficando tensos e as garras aparecendo imediatamente. Stiles engoliu em seco. A última vez que vira o alfa mais velho, ele quase o matara numa brincadeira de mau gosto. Ainda sentia medo, e muitas vezes pesadelos envolvendo as garras de Peter Hale rasgando mais que seu ombro atormentavam suas noites. Mas a última coisa que ele queria naquele momento, era assistir uma luta de lobisomens estragar seu baile de formatura. Apertou, discretamente, a pele de Derek, fazendo o lobisomem olhar para ele e entender que era melhor não dar a Peter o gostinho de perturbá-los.
- Sem problemas – foi o adolescente quem respondeu, unindo todas as forças que tinha para não deixar sua voz afinar com o medo – Nós já estávamos de saída.
Todos, sem exceção, ficaram de boca aberta quando Stiles deu a mão para Derek, o puxou em direção à saída e o lobisomem obedeceu. Eles já estavam quase na porta quando o garoto teve a infeliz ideia de dizer:
- Boa noite, pessoal. Boa noite, Peter.
Em menos de um minuto, ele já não sentia mais a mão de Derek na sua. Sentiu a parede dura contra suas costas, fazendo suas costelas recém-consertadas rangerem, a mão de Peter pressionando seu pescoço e o olhar feroz do alfa diante de seu rosto. Era o tipo de cena que lhe atormentava a noite, mas diferente de seus pesadelos, naquele momento os olhos de Peter não estavam vermelhos e nem suas garras a mostra.
- É "Tio Peter" pra você, mocinho.
O alfa mais velho falou, com total ironia na voz. Soltou o rapaz e deu risada, saindo da sala antes mesmo que Derek conseguisse reagir. Stiles estava quase rindo, quando ouviu Derek ficando bravo com os pupilos:
- E vocês? Estão olhando o quê? – a voz dele era o típico tom de voz de autoridade de alfa, tentando intimidar o inimigo. Mas ali não havia nenhum inimigo e os adolescentes não se sentiram intimidados. Pelo contrário, estavam se divertindo com a situação. Mas o bom senso os avisou a não provocarem muito.
- Nada não! – respondeu Boyd, com um sorriso de lado.
- Olhar o que? Não tem nada aí que eu queira ver. – disse Isaac rindo mais abertamente ao perceber que Derek começava a relaxar.
- Por mim, tudo bem! Pelo menos você não escolheu o Scott. – Erica respondeu, e os três caíram na gargalhada, indo para dentro da mansão.
Derek e Stiles ficaram na sala por mais um tempo, até o rapaz começar a reunir as sacolas e puxar o namorado para fora, pensando mais uma vez que Scott tinha muita sorte de Alisson ter se mudado para Beacon Hills.
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