O baile de formatura era o evento mais esperado de todo adolescente americano. Um verdadeiro rito de passagem que para muitos (e entenda muitos como 90% dos alunos, exceto os 10% do clube de xadrez que preferiam a reprise de Star Wars na TV) significava mais do que deixar a high school e ingressar numa faculdade. Para esses 90%, o baile de formatura era a noite do sexo.

Até mesmo os alunos que já tinham uma vida sexual ativa e intensa, enxergavam que sexo na noite do baile tinha um sentido diferente. Fazia parte do evento: uma roupa de gala, flores, beber ponche com os amigos e sexo.

Não era de se estranhar, portanto, que naquela semana os ânimos estivessem exaltados entre todos os estudantes. O assunto nas mesas durante o almoço, nos intervalos das aulas, nas mensagens de celular e nas páginas pessoais nas redes sociais era o mesmo.

E é óbvio que Scott estava entre os mais animados de sua turma. Ia sair, oficialmente, com a ex-namorada. E com a autorização do pai dela.

Stiles achava engraçado que o amigo realmente havia acreditado que o flagra que dera quando o encontrou aos beijos com Derek era mesmo um sonho. E achava mais engraçado ainda que mesmo todo o bando sabendo da relação entre os dois, o adolescente continuasse ignorando o que se passava.

- Ainda bem que a minha mãe emprestou o carro. – ele dizia empolgado – Graças a nota daquele trabalho de literatura que você fez pra mim.

- Aquele trabalho foi o mais fácil do ano.

- Concordo, principalmente porque não precisei fazer nada. Agora, me fala, e você? Convidou a Lydia de novo?

- Não, cara. Desencanei.

- E vai com quem ao baile?

Stiles achava engraçado o fato de Scott não ter lhe perguntado nada sobre Derek desde o flagra. Allisson tinha um grande poder de persuasão sobre o namorado, para tê-lo feito acreditar que não havia acontecido nada entre o alfa e seu melhor amigo. E por mais que ele achasse errado esconder seu relacionamento de Scott, ainda não tinha encontrado coragem para contar.

- Ah, com uma pessoa que eu to saindo. Não é da escola.

- Como você começa a sair com uma pessoa e eu nem fico sabendo? – Scott parecia uma garotinha birrenta e ciumenta, fazendo bico pro amigo.

- Porque não era grande coisa e eu como você mesmo diz eu sou um "nerd-gay-virgem" cheio de mania e superstição estranha que achava que se contasse antes de ter certeza das coisas elas podiam dar errado.

Scott ficou encarando o amigo, achando que aquela desculpa não colava, mas estava muito bem humorado de poder sair de mãos dadas com Alisson na frente de todo mundo, que resolveu deixar quieto.

Pensava que a menina que Stiles devia estar saindo não fosse muito bonita e o amigo estivesse com vergonha de apresenta-la. De toda forma, iria conhece-la na noite do baile.

- Tudo bem Stiles. Mas é bom você mandar lavar seu jipe. Pode sujar o vestido dela do jeito que está.

O lobisomem deu um tapinha amistoso no ombro do amigo e foi para a aula de economia. E Stiles ficou pensando que lavar o jipe era a última das suas preocupações. Antes dela vinha a ideia de Derek se apresentando para seu pai como seu namorado, os dois chegando juntos ao baile e ele fez um esforço imenso para que seus pensamentos parassem por aí e não seguissem para o que acontece depois do baile.

Todos da escola seguiam para o refeitório. A falação aumentava a medida que as horas que os separavam do baile diminuía. Stiles seguia calado, ouvindo as conversas de todos os lados, sabendo que Isaac e Erica iam junto, Boyd tinha convidado uma garota do segundo ano para ir e Scott não sabia se comprava uma orquídea ou uma rosa para Alisson usar no vestido.

- Posso falar com você um minuto? – uma voz diferente de toda a afetação que tomava conta da escola chamou atenção de Stiles. Danny parecia tranquilo, sem ser dominado pela euforia pré-baile.

- Claro! – Stiles quase disse "por favor, fale comigo sobre qualquer coisa que não seja vestido, flor e carro lavado pra festa de amanhã", mas sabia que as chances disso acontecer eram pequenas.

Eles se afastaram para o vestiário, o único lugar tranquilo na escola. Com as férias escolares se aproximando, a maioria dos estudantes ficava no pátio e nos corredores. E como os treinos de Lacrosse foram encerrados uma semana atrás, eles puderam contar com um ambiente longe de olhos e ouvidos curiosos.

- E então?

- Então o quê?

- Eu juro que não entendo como você consegue ser tão obtuso, Stiles! Você me mandou uma mensagem no celular hoje de manhã dizendo que queria falar comigo. É sobre aquele cara, né? Então me diz, como está o seu namoro?

- Ah, bem... acho que sério. Ele quer conhecer meu pai. Quero dizer, ele já conhece o meu pai, mas agora ele quer conhecer meu pai assim, oficialmente, entende?

- E você está confortável com isso?

- Não muito. Mas é o justo. Eu já fui apresentado pra "família" dele – ele falou pensando na noite em que Peter e o resto do bando os tinha visto juntos – E o tio dele ainda faz questão de que eu o chame de "tio".

- Isso é ótimo, ter a aprovação da família é importante. E quando vai ser?

- Foi justamente por isso que eu te mandei a mensagem. Vai ser amanhã. Antes do baile.

O rapaz respondeu, baixando os olhos, como se estivesse envergonhado. Quando olhou de volta para o amigo, Danny não conseguia disfarçar a cara de surpresa.

- Você vai... digo, vocês vão juntos ao baile?

Stiles só confirmou com um aceno de cabeça.

- Ele vai buscar você na sua casa e falar com seu pai?

Mais um aceno.

- Eu definitivamente quero ser padrinho! – Danny brincou, arrancando um sorriso de Stiles – E você está com medo do seu pai não aceitar a sua sexualidade?

- Não é isso! Acho que meu pai não é preconceituoso a ponto de fazer um escândalo por eu ser gay. O problema é eu sendo gay com a pessoa com quem estou sendo gay. Meu pai não gosta dele.

- Olha, gostar de quem a gente gosta costuma ser um problema nesses casos. Mas se seu pai respeitar a condição, e perceber que o cara te faz feliz, então ele vai aceitá-lo.

Stiles olhava as próprias mãos cruzadas sobre seus joelhos. Já havia imaginado milhões de reações possíveis de seu pai quando abrisse a porta e visse Derek Hale parado, à espera dele. Danny olhava o amigo quase com ternura. Sabia que a situação de Stiles era delicada, afinal, assumir sua sexualidade para os pais nunca foi fácil para ninguém. Precisa desviar a preocupação do rapaz de algum jeito.

- Olha, não fique assim tão tenso. Tenho certeza que seu pai vai encarar numa boa, mas talvez fosse melhor se seu namorado fosse lá hoje a noite e não amanhã.

- Hoje? Por quê?

- Bom, porque amanhã é a noite do baile.

- Sim, e...?

- Stiles, amanhã é "a noite" do baile. E o que acontece depois do baile? Como acha que seu pai vai lidar com a notícia sabendo exatamente o que vocês vão fazer mais tarde?

A cor sumiu do rosto do jovem como se fosse um personagem de desenho animado. Sua boca se abriu levemente e ele sentiu a garganta secar.

- Vai dizer que não pensou nisso?

- Não pensei. Mentira, eu pensei. Mas estou tentando não pensar. Porque se eu pensar vou ter outra crise de pânico. Porra, o que eu vou fazer? Quer dizer, agora eu tenho que decidir, né?

- Não quero te assustar, mas seria bom já ir pensando no assunto. E se preparando.

- Psicologicamente? Tenho feito isso desde que beijei ele a primeira vez.

- Não, Stiles. Fisicamente mesmo. Comprar camisinha, lubrificante, esse tipo de coisa.

O garoto levantou do banco e começou a andar de um lado para o outro. Ás vezes parava, olhava para Danny abria a boca para falar alguma coisa, fechava e voltava a andar.

- Assim, eu não quero detalhes. Ok? Mas a sua... digo, a sua primeira vez... Você foi... como foi?

- Sem detalhes, certo?

- Sem detalhes.

- Foi como a sua deve ser, confusa, difícil. Eu fui passivo sim. Mas não porque eu quis, mais por não ter escolha. A questão é que se você está apaixonado, Stiles, vai ser bom de qualquer forma.

Stiles fez uma careta engraçada, misto de dúvida, alívio e um pouquinho de tensão. Não sabia se realmente seria bom ter toda a dimensão de Derek dentro de si.

- Ele é grande. – falou num sopro de voz, tímido e constrangido.

Sentia o rosto pegando fogo de vergonha em ter aquela conversa, mas tinha que aproveitar e tirar suas dúvidas com o único gay que ele conhecia. Melhor do que ver esse tipo de coisa na internet. Nunca tinha resposta para suas dúvidas e só o assustava cada vez mais.

- Grande?

- Sim, grande. Consideravelmente.

- Oh. – Danny pensou um pouco e depois falou – Então, como eu disse: camisinha, lubrificante e eu me certificaria de que seu pai não lhe visse andando por uns dois dias.

X.X.X.X.X.X

Erica não era conhecida por ser uma boa garota, bem pelo contrário, aliás. E a mordida só tinha trazido o pior na moça, afinal, agora ela conseguia toda a atenção necessária para mostrar o que havia de pior em si.

Quando ela presenciou a romântica demonstração de afeto entre Stiles e Derek ela só conseguia pensar que, de alguma forma, ela devia ir e fazê-los ser ainda mais desconcertados do que de costume quando perto um do outro e com um público para o show deles.

Aparentemente, o baile de formatura veio bem na hora. Ela não precisou de mais do que cinco minutos para saber que a roupa que Derek havia comprado era para levar o rapaz ao baile. E levou ainda menos para pensar no que iria fazer.

Esgueirou-se para perto do alpha, que mexia sob o capô de seu camaro, verificando pela segunda vez que tudo estava perfeito e nada daria errado na noite de hoje. Porque, obviamente, o carro tinha decidido quebrar no dia anterior e feito o homem quase matar o mecânico que tinha ousado dizer que levaria três dias para consertar.

- Tudo preparando para a grande noite, Derek? — ela perguntou inocente, mordendo uma maçã. Ele grunhiu em resposta.

- Não se preocupe. Vai dar tudo certo. — ela disse ao sorrir para ele — Você já arrumou tudo há dias, não é mesmo? O terno, a gravata, o sapato, a camisa, a flor, o carro.

- Sim, tudo... — ele a olhou com dúvida — Pera aí, que flor?

- Ué, o bracelete de flores que todo cara tem que dar pra quem ele leva ao baile. — ela comentou como se fosse óbvio.

- Eu achei que isso fosse só para as garotas.

- Claro que não! — ela levantou a voz — É a coisa mais importante. Um homem não pode ir até a casa do seu par para ir buscá-lo para o baile mais importante de todos e não levar a flor. É como dizer que ele nem se importa. Muito rude e pouco romântico... A menos — ela mordeu o lábio — que você não considere o que você tem com o Stiles algo sério. Aí, tudo bem! — ela deu de ombros e voltou a comer sua maçã enquanto observava a expressão perdida de Derek Hale.

Derek sentia-se péssimo agora. Como ele teria coragem de aparecer na porta de Stiles e se apresentar ao pai dele como seu namorado se ele nem sequer tinha comprado a flor? Stiles iria achar que ele não se importava e o xerife iria pensar o mesmo, assim ele nunca aceitaria o namoro dos dois e Stiles continuaria com seu complexo de que não merecia ser realmente amado e... Certo, talvez ele estivesse exagerando um pouco. Tudo que ele tinha que fazer era comprar a maldita flor e oferecê-la ao rapaz como se tivesse pensado nisso há um bom tempo.

- Eu tenho que ir. — foi tudo que Derek disse a garota antes de entrar no camaro e acelerar em direção a cidade.

- Tchau, tchau, Derek. — ela acenou enquanto ele ia — Ah! — suspirou — Esta será a melhor noite do ano. — riu divertidamente enquanto molhava os lábios com a língua. "Oh, sim, muito divertido...", ela pensava ao constatar como o alfa era facilmente manipulável quando o assunto era Stiles Stilinski.

X.X.X.X.X.X

Stiles já havia tomado banho e feito a pseudo-barba (os poucos pelos que insistiam em aparecer no rosto branco). Agora se olhava no espelho do guarda-roupa pensando que nada do que tinha para vestir ia ser o bastante para ficar minimamente atraente para o namorado. Lembrava da roupa que havia ajudado Derek a escolher. Mas sendo Derek Hale, ele podia ir de bermuda, chinelo e camisa regata e estaria bonito do mesmo jeito.

Vestiu uma calça social preta, uma camisa do Homem-de-ferro e um blazer preto também. Calçou seus tênis e olhava desanimado para seu reflexo quando ouviu duas batidinhas na porta e a voz de seu pai:

- Você está todo arrumado e o seu jipe imundo. Como pretende ir ao baile com aquele carro?

- Ah, então pai, sobre isso... Eu não vou com aquele carro.

- Você não vai com aquele carro? E com certeza não vai com o Scott porque eu encontrei a mãe dele hoje no mercado e ela me disse que ele vai com a namorada. E certamente você não quer a viatura da polícia emprestada para chegar em grande estilo.

- Não, certamente não.

- Então, você vai sozinho de táxi?

- Não.

- Ah. Ok. Então esse é um daqueles assuntos que eu prefiro não saber, certo?

- Certo.

O xerife já ia sair do quarto quando o menino continuou a falar.

- Mas pai, hoje você vai ter que saber. – Stiles observou o pai parar no meio do quarto, ainda de costas para ele – Ele vem aqui, me buscar.

- Ok. Quando a hora chegar. Eu penso nisso quando a hora chegar. – ele respondeu sem olhar para o filho e saiu do quarto, pensando o quanto era irônico depois de tantos anos na polícia, tantos casos bizarros, tantos problemas, era justamente o primeiro relacionamento do filho que lhe daria uma úlcera.

Lua crescente no céu. O lobisomem pensou que talvez isso fosse um bom sinal, indicando recomeço e novas possibilidades, o começo de um novo ciclo lunar era escuro, praticamente sem lua, mas sempre trazia a certeza de que tudo ficaria cada vez mais brilhante.

Ele ainda estava na mansão, olhando-se no espelho e tentando não se desesperar, afinal, ele era um lobisomem, um alpha, um homem crescido, não havia razão alguma para temer o xerife. Nenhuma arma que o homem possuísse poderia machucá-lo, ele se dizia. E isso não ajudava a tirar de si o sentimento de que ele seria morto ou pelo menos expulso da casa dos Stilinski naquela noite.

- Venha aqui, rapaz. Isso não é jeito de se amarrar uma gravata. — Peter disse entrando no quarto onde Derek se olhava no espelho com incerteza.

Quando Peter se aproximou e esticou as mãos em direção ao pescoço do sobrinho, os olhos do mesmo piscaram vermelhos enquanto ele fez um som que se parecia muito com um rosnado. Peter apenas rolou os olhos e pôs as mãos sobre a gravata, desfazendo o nó malfeito.

- Rosnando? Como cachorrinho? Nós já não passamos por isso, Derek? — ele dizia enquanto ajeitava o comprimento da gravata e a amarrava com habilidade — O que foi que eu lhe fiz de tão mal... — Derek levantou a sobrancelha — Recentemente? Não me olhe assim, você que não me deixou terminar a frase. Ou eu terei que passar o resto da vida pagando por pecados antigos que ninguém se lembra?

- Você raptou o Stiles há dois meses...

- E você o achou, salvou, beijou e viveram felizes para sempre. Às vezes eu acho que as pessoas só conseguem ver o pior em mim, nunca enxergam o bem que eu tento fazer com as minhas ações. — Derek sentia uma louca vontade de pular no pescoço do homem, mas não parecia sábio sujar o seu terno com sangue àquela hora.

- Pronto. — Peter sorriu e saiu da frente do rapaz, para que ele pudesse se ver no espelho novamente.

Derek olhou-se: terno preto, bem passado, limpo e alinhado; a blusa branca perfeitamente lisa, sem dobras, sujos ou amassados; o sapato novo, preto e bem lustrado; e a gravata perfeitamente posta, complementando o visual tão pouco usual.

- Não me lembro a última vez que te vi tão bonito assim. — Peter comentou — Definitivamente você pegou os genes da minha parte da família, e não os daquela família com péssimos antepassados do seu pai. — ele sorriu quase nostálgico — Bom, é melhor você se apressar, cachorrão. A sua princesa Triskalia te aguarda na torre mais alta com um homem armado a serviço dela. Boa sorte. — ele sorriu travesso e andou para longe antes que Derek pudesse protestar.

Suspirou fundo e tentou ignorar as loucuras de seu parente mais próximo. Suspirou fundo mais uma vez ao se ver no espelho, pensando em todas as implicações das escolhas que tinha feito para aquela noite. Um calafrio de insegurança percorreu seu corpo e uma vontade louca de arrancar aquilo tudo e sair correndo pela escuridão da noite se fez presente, mas lembrou-se de Stiles o esperando ansiosamente para levá-lo ao baile e todos aqueles pensamentos sobre fugir, fugiram de sua mente.

Entrou em seu carro, checando seu cabelo e passando a mão sobre sua barba por fazer, pensando agora se deveria ter feito a barba, ao invés de deixá-la daquele jeito. Mordeu o lábio e disse a si mesmo que era tarde demais para tomar qualquer nova decisão sobre seu visual e ligou o carro, antes dando uma rápida olhada na caixa branca contendo a flor que havia comprado para Stiles.

Era uma réplica de uma forma de wolfsbane, capaz de trazer a tona as maiores fraquezas de alguém, de fazê-lo dizer qualquer coisa, revelar qualquer segredo. Derek a achava bonita, tinha pétalas brancas, curtas e arredondadas, mas ficava feliz em saber que as reais eram bem raras e só podiam ser encontradas bem longe dali. Porém, não a havia comprado pela beleza da planta, e sim por seus poderes e como eles se encaixavam tão bem em seu relacionamento com Stiles: nenhum pudor em serem eles mesmos um com o outro.

Assim que virou a esquina da casa dos Stilinski suas mãos começaram a suar, sua garganta secou, seu coração batia mais rápido do que o normal e a esquecida ideia de que ele seria assassinado ou preso pelo xerife voltou a rondar sua mente.

Derek estacionou. Inspirou fundo. Tirou a chave da ignição. Expirou tudo. Olhou para o espelho mais uma vez. Inspirou fundo. Abriu a porta do carro. Expirou tudo. Saiu do carro. Inspirou fundo. Sentou-se na poltrona novamente. Expirou tudo. "Merda", pensou. Inspirou fundo.

Pisou incerto sobre o solo, não tinha certeza se a Terra estava se movendo mais rápido que o normal ou se eram sua pernas que tremiam. E isso era ridículo, não? Ele havia lutado contra tantas coisas verdadeiramente mortais e perigosas, mas a adrenalina daqueles momentos o tinha feito nem sequer reconhecer o perigo delas. Agora o efeito da adrenalina e o excesso de pensamentos o tinham deixado lesado, atordoado e genuinamente assustado. Expirou tudo.

Subiu os poucos degraus e respirou algumas vezes antes de finalmente ter coragem de bater à porta. E só depois que a campainha soou, ele se deu conta de que ainda não tinha decidido o que ele iria dizer ao pai de Stiles... E seu coração voltou a bater, seus olhos se arregalaram e um sorriso nervoso tomou conta de seu rosto.

Stiles olhava as horas no celular, praguejando mentalmente por não ter uma audição lupina capaz de saber quando o carro de Derek virasse a esquina. Checou pela 15ª vez o conteúdo no bolso interno do blazer: chaves de casa, documento de identidade, um pacote com três camisinhas e cinco saquinhos de lubrificante (o último item cortesia de Danny, como "presente de formatura").

Não conseguia achar lugar para ficar. Na janela pareceria ansiedade demais. Se sentasse no computador poderia amassar a roupa. E se fosse fazer companhia para seu pai deixaria o xerife ainda mais desconfortável com a situação que teria de lidar em instantes. Ficou parado, no meio do quarto, respirando fundo e tentando acalmar seus nervos.

Já havia trocado de camiseta pelo menos quatro vezes, achando que estava suando, e agora usava uma do Batman. Sentia seu queixo tremer e seus dentes baterem uns contra os outros como se estivesse com frio, mas as mãos permaneciam úmidas do suor que brotava em seus poros.

E quando a campainha soou, ele saltou porta a fora do quarto, estancando no alto da escada, ao ver seu pai calmamente se levantar do sofá e ir atender. Sem levar nenhuma arma consigo.

Para o completo pânico e descontentamento de Derek Hale, quando a porta se abriu foi a silhueta do xerife que apareceu, com uma expressão cansada e de poucos amigos. Ele tentou dar o seu melhor sorriso, mas tinha certeza que isso só o fazia parecer mais nervoso.

- Alguém morreu, Hale? — ele perguntou ao rapaz na porta — Você parece nervoso.

Stiles queria descer as escadas, correndo de preferência para saírem daquela situação tensa para os três. Mas sabia que se tentasse usar uma agilidade que não possuía ia passar a noite do baile no pronto-socorro engessando um braço.

Desceu devagar, um degrau de cada vez parecendo uma noiva entrando na igreja. Não conseguia ver Derek, apenas ouviu a voz de seu pai falando "Hale" e seus ossos pareceram que viraram gelatina.

Derek ia responder (ou pelo menos tentar) um "boa noite, Sr. Stilinski", mas quando começou a dizer captou o cheiro de Stiles, mascarado por algum perfume, e olhou em direção ao aroma vendo o rapaz descer lento e incerto os degraus da escada. Automaticamente ele sorriu, incapaz de esconder o brilho em seus olhos ao vê-lo.

O xerife então respirou fundo, reconhecendo a expressão do homem, sabendo exatamente o que todos aqueles sinais significavam. Olhou para trás para confirmar que era seu filho que descia a escadaria, mas não precisava tê-lo feito, os olhos e o sorriso quase abobalhado de Derek já tinham garantido a ele quem estava descendo.

- Você quer entrar, Derek? — ele convidou sem saber mais o que fazer.

O lobisomem deu um passo a frente, atravessando a soleira da porta, sem tirar o sorriso do rosto. Achava que em todo mundo não havia ninguém com mais sorte que ele. Stiles, na época Triskalia, tinha razão quando disse que tudo na vida dos dois havia dado errado para que eles pudessem dar certo.

Stiles já estava quase no pé da escada quando viu Derek entrar. Sem calça preta, sem camisa azul, sem tênis. No lugar da roupa que eles haviam escolhido dias atrás, Derek usava terno preto, camisa branca, cabelo impecável e ele não precisava ter um faro apurado para notar o perfume amadeirado que ele exalava.

Seu queixo caiu sem que ele pudesse controlar e sentiu sua respiração sumir e seu coração falhar uma batida com a imagem de seu namorado tão bem vestido, tão arrumado, para ele.

Sorriu de volta e pisou em falso no penúltimo degrau, indo praticamente de cara no chão. E o tombo seria feio se Derek não tivesse esquecido a presença do xerife e erguido Stiles antes que ele chegasse de fato a cair. E os dois ficaram ali, parcialmente abraçados, sem conseguir tirar os olhos um do outro até que o xerife os chamou:

- Vocês dois, algumas coisas eu não precisava saber, mas vocês fizeram questão de me contar. Agora tem coisas que eu não quero ver, e isso nada no mundo vai me fazer mudar de opinião. Estamos entendidos?

As bochechas de Derek tomaram um tom avermelhado além do normal ao ouvir as palavras do xerife. Ele tentou levantar a ajeitar Stiles sem olhar na direção do pai do rapaz, ele ainda não estava preparado para conversar com ele como tinha se prometido (e prometido a Stiles) que iria fazer, porque agora que eles estavam ali cara-a-cara as coisas pareciam reais demais e um pouco mais assustadoras do que deviam.

Stiles tinha um riso nervoso e ajeitou o blazer, agradecendo mentalmente por ter fechado o botão do bolso interno. Se seu conteúdo tivesse se espalhado pelo chão quando ele quase caiu, passaria a noite do baile no pronto-socorro. Mas acudindo seu pai que certamente teria um infarto.

Derek olhou para Stiles. Stiles olhava para ele. O xerife olhava os dois e pensava em tempos remotos aonde a sua maior preocupação sobre seu filho era se ele iria comer ou não seus vegetais no jantar. Parecia tão longínquo e ele sentiu seus cabelos embranquecendo um por um ao pensar em tudo que ele já tinha enfrentado e toda a preocupação a qual ele já tinha sido exposto.

Juntas vieram memórias guardadas a sete chaves, que incluíam as lágrimas de seu filho no funeral de sua esposa, o primeiro olho roxo causado por um dos valentões na pré-escola, o olhar perdido do filho no começo daquele ano, tão silencioso em comparação ao que ele costumava ser. Razões que o fizeram sorrir levemente, de maneira disfarçada e contida, a visão dos dois jovens tão inegavelmente apaixonados e contentes. Ele sentia que devia a seu garoto a chance de deixá-lo ser feliz, mesmo que para isso fosse necessário o envolvimento dele com alguém como Derek Hale.

- Hm... — Derek pigarreou — Sr. Stilinski. — ele disse tentando parecer normal, com um tom sóbrio na voz.

- Derek? — o xerife chamou o rapaz pelo nome. Afinal, se ele ia mesmo sair com seu filho, melhor deixar a formalidade um pouco de lado.

- Eu- Eu vou levar seu filho para o baile. — ele falou sério, por fim, sem saber mais o que dizer. Despertando uma risada de Stiles e um sorriso muito mal disfarçado por parte do xerife. — Se- Se o senhor não... Sabe? Estiver bem com isso... — ele ajeitou a gola de sua camisa, achando que talvez ela tivesse encolhido, pois sua garganta estava seca e sufocada.

- Eu não estou confortável com isso.

O Xerife respondeu, sério, olhando para o alfa diretamente nos olhos. Derek perdeu o que ia dizer em seguida. Arregalou os olhos, sem saber o que fazer. Sentiu o suor escorrer em sua palma e pela sua coluna. Stiles olhou indignado para o pai, mas sem dizer uma única palavra. O silêncio que se seguiu foi mais constrangedor que todo o resto da noite até então. Até que o xerife deu um meio sorriso, balançou a cabeça e continuou:

- Pai nenhum no mundo fica confortável quando alguém aparece na sua porta para levar seu filho ao baile. Mas eu vou deixar você levá-lo mesmo assim. Ou, pelo que eu conheço do meu filho, ele iria sair pela janela e ir de qualquer jeito, não é Stiles? — o homem olhou acusatoriamente para o filho que sorriu culpado. – Então, acho melhor irem logo e, Stiles, por favor, uma vez na vida, tente se comportar como um adolescente razoavelmente normal, ok?

O xerife se aproximou do filho com um olhar de genuína preocupação e pôs seu braço sobre o ombro do filho, puxando para perto e beijando sua têmpora, querendo assegurar a ele que mesmo que ele não quisesse saber sobre certas coisas, ele estava ali dando sua benção para que ele fizesse aquilo que o fazia feliz.

- E você — ele virou-se para Derek e apontou o indicador para ele, falando sério, da mesma forma que falava com os vários delinquentes que frequentavam sua delegacia — tome conta dele. E mantenha suas mãos acima da cintura. — ele virou-se para os dois, envergonhados e nervosos — E fiquem longe de problemas por pelo menos essa noite.

Stiles queria sair correndo dali. Feliz, leve, emocionado até com a reação de seu pai, tudo o que ele precisava agora era encarar o resto da escola e ter pelo menos meia noite de tranquilidade com seu agora namorado oficial.

Saíram da casa e Stiles já estava ao lado da porta do carona quando Derek o segurou pelo ombro:

- Opa, eu faço isso. – e abriu a porta do carro para o rapaz entrar.

Da janela, o xerife balançou a cabeça, pensando que já havia visto demais para uma noite. Quem sabe dali a 10 anos ele admitisse ver aqueles dois de mãos dadas.

Derek virou-se se abaixou para pegar a caixa que havia deixado sobre o banco do carona, dando a Stiles uma visão além do necessário para o horário, porque se ele continuassem naquela posição por muito mais tempo, Stiles não sobreviveria até o fim da noite. O corpo de Derek não deveria parecer ainda mais atraente escondido e delineado por toda aquela camada de tecidos.

Derek entregou a caixa para Stiles com um sorriso, nem sequer notando olhar pouco inocente que o rapaz lançava em sua direção.

- O que é isso? Bolo? Vai ter comida na festa, Derek. Eu não sei como faziam na sua época, mas hoje em dia não é preciso levar a comida para a festa. — Stiles, um minuto antes apreensivo, agora estava totalmente esquecido do fato, falando normalmente.

- Não é um bolo. — Derek disse quase ofendido — Abre.

- Ok! – Stiles desfez o laço de cetim azul e abriu a caixa. Ali a pequena réplica de wolfsbane parecia frágil, como se pudesse despetalar com um único sopro. O rapaz retirou-a da caixa e ficou olhando, com a expressão confusa, da flor para o namorado. Ótimo, além de ser o mais novo, o mais baixo, o menos encorpado, o cara usando a infantil camisa do Batman agora ele também seria o cara usando uma maldita flor? Como todas as outras garotas da festa? Ele precisava ser tão óbvio ao anunciar quem seria o macho alpha naquela noite? Derek só podia estar de brincadeira com ele.

- O que é isso, Derek? Uma flor?

- É. — ele sorriu esperançoso, ao que Stiles não interpretou corretamente.

- Você só pode estar de brincadeira comigo! Uma flor? O que você acha que eu sou, Derek? Uma dama em perigo? Olha, eu sei que você tem todos os seus motivos pra se achar o macho alpha, mas eu não vou simplesmente aceitar ser tratado como uma garota, okay? Não vou. — ele ralhou com o lobisomem que parecia confuso e com um olhar quase... ferido. — E não adianta me olhar assim.

- Mas eu... Eu achei que você queria isso.

- Você já é todo alto, largo e com cara de quarterback de liga profissional. Você realmente acha que eu ainda preciso andar por aí com uma flor pra anunciar que você é o verdadeiro macho man por aqui? As pessoas já vão achar que sou eu que fico por baixo, qualquer detalhe pra reafirmar isso é completamente desnecessário! — ele praticamente gritava.

- Não foi isso que comprei, Stiles. Eu só — ele se odiava profundamente agora — não queria que você achasse que eu não me importo o suficiente. Erica disse que era preciso trazer uma flor, mesmo que você fosse um homem, não uma garota. — ele se explicou de maneira mais alta que o necessário.

- É, mas não é. Ela devia estar drogada quando disse isso e- Espere aí, Erica falou que você devia me trazer uma flor? — Derek acenou — Aquela filha da mãe! Ela está sacaneado a nós dois.

- Então, ela mentiu pra mim? Não é normal dar flores se o seu par é outro cara?

- Não, não é normal. Não é legal. E tira o pouco de masculinidade que eu ainda tenho em mim.

- Desculpa.

- Tudo bem, eu sei que você teve boas intenções. — ele sorriu para o namorado — Eu só estou nervoso com hoje a noite, sabe? Eu não devia ter descontado isso em você. Desculpe por eu ter gritado, eu sou um idiota.

- É. — Derek sorriu de volta — Você realmente acha que eu te traria algo pra fazer você ficar parecendo uma garotinha?

- Bem, você me trouxe uma flor no dia do baile que é uma tradição antiga praticada por homens que levam garotas aos bailes. O que você queria que eu pensasse quando visse isso?

- É wolfsbane, bem, uma cópia pelo menos. Um tipo raro.

- Wolfsbane? Sério que você me deu wolfsbane para o baile? Essas plantas já quase mataram você umas mil vezes, que tipo de mensagem isso deveria me trazer? "Eu quase morri mil vezes, ma hey, olha como ela é rara e bonita"? — sarcasmo pingando de seus lábios rosados.

- A poção dessa espécie é capaz de fazer você revelar qualquer coisa. Eram usadas na antiguidade para fazer humanos e lobisomens revelarem seus segredos e esconderijo de seus bandos. E você é assim pra mim.

- Uma arma usada pra te torturar?

- Alguém que me faz perder o medo da verdade. Disposto a ouvir tudo que eu tenho a dizer. — ele olhava diretamente para os olhos amendoados do rapaz.

Stiles agora se sentia bem estúpido por ter gritado com ele. Estava tão nervoso com as possibilidades da noite e a possível e extraordinária perda da sua virgindade que esqueceu o quão maravilhoso Derek era. E ouvir aquelas palavras ditas com um olhar tão sincero e tão intenso faziam com que Stiles sentisse vontade de desistir do baile e agarrá-lo ali mesmo, na frente de sua casa, esquecendo-se até do fato de que seu pai poderia estar assistindo aos dois.

- Eu acho que eu sou mesmo um idiota, afinal de contas. — ele tirou a flor com o bracelete da caixa — Põe em mim?

- Você não precisa usar, Stiles. Eu já entendi que eu fui enganado pela Erica, não precisa tentar me fazer sentir menos estúpido.

- Mas eu quero usar. Eu quero que todo mundo saiba que eu sou seu par e que você está comigo. Vamos, coloque isso logo e vamos, senão iremos chegar tarde e todo o ponche batizado do Jackson já terá acabado.

Derek pôs o bracelete no pulso de Stiles, os dois sorriam tão abertamente um para o outro que nem sequer prestavam atenção ao xerife assistindo a cena da janela, suspirando e pensando quando e como as coisas tinham chegado a esse ponto em sua vida.

O alfa jamais, mesmo na noite mais romântica de sua vida até então, conseguiria dirigir o carro de maneira segura e dentro dos limites de velocidade. O camaro praticamente cantou pneu diante do ginásio, que estava todo enfeitado com balões prateados.

A maioria da escola já havia chegado e quando Derek finalmente desligou o carro e desceu, circulando o veículo para abrir a porta para seu acompanhante, todos os olhares do lado de fora do ginásio já estavam voltados para eles.

Alguns ali pensavam que se Lydia não tivesse chegado com Jackson minutos antes numa limusine chique e exagerada, ela desceria daquele carro esporte. Mas o queixo de todos caiu quando quem desceu do camaro preto foi "Bilinski", o rapaz hiperativo do time de lacrosse.

Stiles hesitou um minuto, mas o olhar de Derek em seu rosto, a apreensão dele, e a necessidade que o jovem sempre sentia de fazer o alfa se sentir feliz e seguro, tiraram-no do torpor e ele tomou a mão do namorado e foram para o ginásio, deixando um rastro de silêncio e espanto para trás.

E se no estacionamento a reação dos presentes já foi exagerada, na opinião de Derek que se controlava para não rosnar para quem olhasse torto para Stiles, no ginásio ele teve a sensação de que havia chegado na porta com um microfone e anunciado o início de um apocalipse zumbi.

Dos primeiros alunos na porta até os que estavam na fila do banheiro, todos foram ficando em silêncio e olhando para os dois, de mãos dadas, andando rumo ao centro do salão.

Não era possível definir exatamente a causa do espanto. Mas Stiles apostaria na soma nerd virgem assumindo ser gay + nerd virgem assumindo ser gay com uma flor no pulso + namorado do nerd gay ser um cara gostoso, de terno e com cara de mau.

Derek sugeriu que eles pegassem um ponche e Stiles concordou com um sorriso, vendo que algumas pessoas já saíam do estado catatônico e voltavam a dançar. Eles passaram por um grupo de rapazes que pertenciam ao time de Lacrosse e que, juntamente com o treinador, estavam de boca aberta vendo o casal.

Stiles cumprimentou o treinador que logo sorriu de um jeito afetado e deu um tapa na nuca do primeiro que estava a seu lado e vendo de quem se tratava, ralhou:

- Fecha essa boca, Greenberg! Não tem nada de mais aqui.

Centro das atenções. Definitivamente aquela era a sensação que Stiles tinha enquanto andava não só ao lado de Derek, mas de mão dada com ele o tempo todo. Agora sabia como Lydia se sentia todos os dias da escola, e pensava que ele devia mesmo ter uma alma de garota por conseguir roubar o brilho da ruiva naquela noite em que ela exibia mais um vestido brilhante, curto e caríssimo. Além do choque no rosto de Erica que não conseguia acreditar que não só Stiles estava usando a flor como parecia que ninguém fazia caso disso.

Não foi tão constrangedor quanto pensou que seria. E não ouviu nenhuma piadinha grosseira. Óbvio que isso mudaria quando Derek não estivesse ao seu lado exibindo todo seu porte de macho alfa ameaçador.

Mas o encontro com Danny foi o mais embaraçoso possível, pois Stiles havia se esquecido que o colega de escola já tivera a oportunidade de conhecer seu namorado antes.

- Stiles? – o rapaz chamou, confuso, olhando seu acompanhante.

- Ah, oi Danny! Bem este é o cara que te falei. – ele começou a apresentar, mas Derek logo parou de sorrir e assumiu uma expressão fechada, ao que Stiles consertou – Este é o meu namorado, Derek.

Era estranho falar aquilo em voz alta. Ele sabia disso, já havia usado esta expressão algumas vezes enquanto falava sozinho durante o banho. Mas falar para uma outra pessoa, numa apresentação formal, era ainda mais esquisito.

- Derek? Não era Miguel? E ele não era seu primo? Stiles, você não me disse que estava namorando seu primo! Por isso o tio dele quer que você o chame de tio também?

Derek ameaçou um sorriso ouvindo toda a conversa entre os rapazes. Sentia-se mais seguro quando percebia que Stiles não se envergonhava de estar com ele. E saber que ele contava para os amigos sobre eles lhe dava ainda mais certeza de que o que eles tinham era real e sério.

- Nossa! – Stiles parecia perdido, lembrando a vez que usou o corpo definido de Derek para persuadir Danny a lhe fazer um favor. – Acho que lhe devo desculpas, Danny. Ele não é meu primo, o nome dele não é Miguel, e sim eu sou um idiota que te deve um milhão de explicações ok?

- E eu vou cobrar todas elas, Stiles! – Danny parecia aborrecido, mas logo sacudiu a cabeça e tornou a falar, agora mais perto do ouvido de Stiles – Mas não hoje. Espero para que me dê essas explicações amanhã, junto com outras informações. Por agora pode apenas me dizer que negócio é esse no seu braço?

- Ah, é uma wolfsbane. Uma flor. Importante para nós dois. – ele ajeitou o arranjo no braço, que toda hora esbarrava na manga do blazer e sorriu.

Derek sorriu de volta e Danny suspirou. Stiles podia ter muita coisa a lhe explicar, mas o que ele sentia pelo namorado era mais que visível. Despediu-se dos dois e puxou seu acompanhante para pista de dança, mas Derek ainda ouviu o rapaz dizendo magoado para o outro "viu só? Eles estão juntos há menos tempo que a gente e o Stiles aceita usar a flor..."

Derek tinha ido a apenas um baile em sua vida, há tanto tempo que ele não conseguia se lembrar com precisão, mas era o baile de dia dos namorados, isso ele lembrava. Naquela semana ele teve a coragem de oficializar o relacionamento dele com Kate e convidá-la para o baile.

No fulgor dos seus 16 anos aquilo tinha sido um dos melhores dias de sua vida. Mas todos os olhares se concentravam em Kate, a mais bonita da festa aos seus olhos. Ele havia dado um anel, nada muito caro, que ela fingiu amar e que ele agora associava bem com o relacionamento deles.

Era folheado a ouro. Lindo e brilhante por fora, motivo de inveja para aqueles que pusessem os olhos sobre, mas barato por dentro. Provando que todo o brilho que reluzia por fora era apenas um ouro para tolos, algo que valia ainda menos do que o que estava por dentro.

Ele ficou receoso a ideia de ir a um baile após tanto tempo sem nenhuma experiência com esse tipo de atividade social que quase não convidou Stiles. Sentia-se estranho ao "repetir a história", pois estaria levando ele ao baile para provar a todos — inclusive ele mesmo — de que eles realmente estavam juntos, assim como havia feito com ela.

Contudo, as coisas eram tão diferentes com Stiles, ele sentia o mesmo frio estranho e bem-vindo na barriga, um dos efeitos colaterais de se estar tão cegamente apaixonado. Com Stiles ele sabia que as coisas não terminariam com cacos de vidro, desejos de vingança e fogo. Se possível, elas nem sequer teriam de chegar a um fim.

Era estranho estar entre todos aqueles adolescentes e professores, usando um terno. O último que ele havia usado não foi num dia muito feliz e ele o tinha jogado fora, porque o cheiro de cemitério e lágrimas parecia eternamente grudado nele.

Também parecia irreal a ideia de terem se tornado o centro das atenções, como se as pessoas não conseguissem entender o que os unia, mas ao mesmo tempo não conseguissem achar argumentos para negar que eles faziam sentido. Eles pertenciam um ao outro. E agora ele ouvia a falação de Stiles sobre os mais variados assuntos e sorria do jeito dele implicar com uma ou outra coisa.

Stiles insistia para que fossem para a pista de dança, embora admitisse que dançar não era seu passatempo favorito e Derek listava todos os pontos negativos em acatar aquela ideia, pois apesar de agilidade, se ele desse uma cotovelada em alguém ia acabar quebrando a pessoa.

- Você é um exagerado, sabia?

- Eu? Não sou nada exagerado. Só estou prevendo as possibilidades. E seu pai disse que era para ficarmos longes de problemas.

- Derek, você fala como se fosse o Homem de Ferro ou o Incrível Hulk. Você esbarra em mim toda hora e não me machuca.

- Mas é porque eu estou atento para cuidar de você e...

- Stiles? Derek? – a voz de Scott soou atrás dos dois.

Eles se viraram para encarar o rapaz que trajava um terno bem tradicional e segurava numa mão um copo de qualquer bebida e na outra a mão de Alisson. A moça estava linda, com um vestido bege, bordado com pequenas pérolas e uma orquídea lilás pendente em seu pulso contrastava com todo o visual.

- Oi, Scott. – o rapaz falou, sentindo Derek abraça-lo por trás e apoiar a cabeça em seu ombro, ao mesmo tempo que via as expressões de choque e dúvida correrem os olhos de seu melhor amigo.

- Isso é... Eu não... O que vocês... Não foi um pesadelo, eu vi mesmo!

Ele não sabia se sua indignação era com o amigo por não ter lhe contado a verdade ou se com a namorada por tê-lo feito de bobo.

- Eu preciso beber alguma coisa. – Alisson falou, notando o clima tenso.

- Vou buscar com você. – Derek falou, dando um beijo no rosto de Stiles, indo para perto da moça.

Imediatamente Scott ficou na frente dela, os olhos ganhando um brilho amarelado. Derek cruzou os braços na altura do peito e olhou para o outro lobisomem com puro desdém.

- Não vou mordê-la, Scott. Pode ficar sossegado. Alisson e eu temos um excelente pacto: ela não me ameaça mais e eu não a ameaço também. Estaremos a cinco metros de vocês, mas você e Stiles precisam conversar.

O alfa e a garota saíram de perto não completamente a vontade com a situação. Mas sabiam que seus namorados precisavam de um tempo a sós.

Scott e Stiles agora se encaravam, o primeiro indignado e o segundo constrangido. O lupino passava as mãos pelo cabelo, num gesto claro de irritação enquanto Stiles apenas encarava os próprios pés e mexia em uma das pétalas de sua flor.

- Você ao menos pensava em me contar algum dia? – Scott disse, a raiva latejando em sua têmpora.

- Claro que eu ia. Você é meu melhor amigo.

- E ainda assim precisei encontrar vocês no baile, na frente de todo mundo, para saber que você é mesmo gay?

- Scott, você foi o primeiro a saber. E qual foi a sua reação? Surtar. Completamente. Ficar com cara de idiota e preferir acreditar que tudo foi um pesadelo do que encarar isso normalmente.

- Normalmente? Não tem nada de normal nisso, cara! E nem pense que é pelo lado gay da coisa. Quer ser gay, fique a vontade. Isso não vai mudar o que a gente tem. Não é normal você ficar com o cara que quase te matou umas, sei lá, mil vezes?

- Eu não sei explicar, Scott. E nem vou me esforçar para tentar. Eu só queria que você pensasse no quanto está feliz com a Alisson do seu lado. E soubesse que é isso que eu sinto agora, com o Derek do meu lado. Não faz sentido, eu sou humano, ele um lobisomem. Você lobisomem, ela caçadora. E daí? Eu queria que você se importasse mais com o fato de que eu estou feliz do que com o fato de quem me faz feliz ser o Derek.

Scott suspirou, resignado. Os argumentos de Stiles faziam sentido e ele começava a se sentir mal por ter sido tão estúpido com o amigo. Isso não significava que ia aturar Derek Hale e começar a fazer programa de casal com eles e Alisson. Mas ao menos poderiam curtir o baile de formatura e pensar como seria quando fosses juntos para a faculdade.

Alisson voltou com um copo de ponche batizado demais na opinião dela, mas Derek não veio junto.

- Onde ele está? – Stiles perguntou, apreensivo. Sumiços de Derek em geral significavam criaturas monstruosas causando problemas.

- Ah, ele disse que tinha uma coisinha rápida a fazer e já voltava. – a moça disse, disfarçando um tom divertido na voz.

Stiles estava já na ponta dos pés, tentando enxergar por todo o salão onde Derek poderia estar, quando o viu se aproximando com a expressão mais feliz do mundo. Ergueu uma sobrancelha para ele e perguntou:

- Onde você esteve?

- Resolvendo uma coisinha. Vem comigo?

Alisson murmurava alguma coisa no ouvido de Scott que sorria, incrédulo e balançava a cabeça, saindo de perto com ela e pegando no bolso do casaco uma câmera digital.

- Para onde? – Stiles perguntou, perdido no sorriso do namorado e sem se dar conta do sumiço dos amigos.

- Para a pista de dança, ué. Agora há pouco era o que você queria fazer.

- Sem neuras sobre quebrar outras pessoas? – indagou enquanto seguia com ele para o meio da pista.

- Sem neuras. Eu garanti que a música não fosse tão rápida assim?

E antes que o rapaz perguntasse o que o alfa havia feito, os primeiros acordes de Halo ecoaram no ginásio, ganhando gritos e assovios de aprovação. Derek sorria ainda mais, fazendo seus olhos ficarem pequenos e covinhas marcarem suas bochechas.

- Você não fez isso! – Stiles o encarou completamente encantado.

- Dança comigo, Triskalia? – o alfa perguntou, puxando o rapaz para perto de si e encostando as testas.

Stiles não respondeu. Passou seus braços pelo pescoço de Derek, que envolveu a cintura dele com um abraço apertado. A voz de Beyonce embalando os dois, diante da escola inteira que não fazia ideia do sentido e da importância que aquela música tinha para eles. Nem mesmo Scott e Alisson que fotografavam a cena sabiam a culpa que Beyonce tinha no relacionamento dos dois.

- Você existe mesmo? – Stiles murmurou no ouvido do namorado e não precisou olhar em seus olhos para saber que ele estava sorrindo.

- "It's like I've been awakened, Every rule I had you breaking, It's the risk that I'm taking, I ain't never gonna shut you out" – Derek cantarolou em resposta, roubando-lhe um beijo em seguida.

Stiles afundou o rosto no pescoço de Derek, escondendo um sorriso imenso. Estava feliz. Absurdamente feliz. Tudo bem que a tensão do que poderia acontecer após o baile ainda teimava em fazer seu estômago dar voltas. Mas não iria pensar nisso naquele momento. O que aconteceria depois do baile, bem, isso seria uma outra história.

Notas finais
Ai amadinhos... acabou... Espero que a fic não tenha deixado a desejar. Aguardo seus comentários e pra quem quer saber o que acontece depois do baile, não deixem de ler Ciberlove II - How to be a gay boy que começo a postar hoje ainda.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!