Ciberlove
8 Capítulo 8
Leve, foi como Stiles acordou no dia seguinte e a sensação que ele manteve durante toda a aula, independente das notas, do desempenho vexatório no treino de lacrosse e de todos os comentários que ouviu de Scott. Tudo o que queria era chegar logo em casa, ligar seu computador e esperar por uma nova conversa, embora tivesse medo do efeito que o final da conversa na noite anterior pudesse ter provocado em seu amigo virtual.
Derek manteve a cara fechada o dia inteiro. Rosnou para Peter quando este ameaçou um comentário sobre o sumiço dele na noite anterior. Saiu da mansão, treinou, judiou de seus pupilos o máximo que pôde. Não podia demonstrar felicidade. Não podia sorrir quando se lembrava das palavras atrapalhadas de Triskalia. Manter sua intimidade longe de seu bando, aquele estava sendo o treinamento mais difícil.
Quando o dia acabou, ambos buscaram um jeito de conectar. Viam-se on line, mas nenhum tinha coragem de puxar conversa. Na noite anterior eles tinham ultrapassado um limite invisível que separava a convivência virtual de um afeto real. Um limite perigoso e sobre o qual nenhum deles conhecia absolutamente nada.
Demoraram quase meia hora para criar coragem para conversar e quando Derek escreveu "oi", recebeu ao mesmo tempo um "oi" vindo de Stiles. Uma simples monossílaba abriu a deque que segurava as horas intermináveis de conversa entre os dois.
E foram dois meses da mais pura, saudável e profunda conversação entre eles. Diariamente. Ás vezes por horas a fio, ás vezes por alguns minutos apenas, antes das aulas de Stiles ou de Derek sair para enfrentar uma de suas batalhas sobrenaturais.
Uma manhã, Stiles acordou mais empolgado que de costume. Fisicamente empolgado. Havia tido um sonho erótico. Mas no lugar das belas coelhinhas da playboy, eram as mãos masculinas que ele sabia serem de moonHalo a passear por seu corpo. O que diabos estava acontecendo com ele? Conversando com um completo estranho pela internet, que pelo que ele já havia visto na TV poderia muito bem ser um psicopata. E agora sonhando com esse possível psicopata. Repensou isso por alguns instantes e deu de ombros, afinal ele estava cercado de psicopatas e deveria haver um limite desse tipo de doido que uma pessoa pode ter em sua vida, certo?
E aquele sonho não significava nada. Era tudo porque na última noite eles conversaram sobre pontos sensíveis, zonas erógenas e fantasias. Como o assunto havia chegado naquele ponto, ele não sabia dizer. Aliás, os assuntos entre os dois variavam entre receita de pipoca de micro-ondas a rituais de fertilidade do império Inca.
Pegou o casaco, a mochila e já saía do quarto quando ouviu o peculiar som que seu computador fazia quando uma mensagem chegava. Voltou para checar e sorriu de um jeito bobo. "Boa aula!" Só isso. Mas o adolescente não precisava de mais nada para pensar que seu dia seria excelente.
Na escola, tudo do mesmo jeito. Aulas chatas com professores insuportáveis, Scott suspirando porque esbarrou em Alisson, Lydia fingindo ser a garota gostosa-burra e Jackson agindo como um perfeito idiota. Como sempre.
Na hora do almoço, ele se viu obrigado a ajudar Scott a se encontrar com Alisson e para isso inventou uma desculpa de ir até a biblioteca estudar alguma coisa com o amigo. Pegou um livro qualquer numa das estantes e se jogou em uma cadeira, enquanto o lobisomem sumia no último corredor com a namorada.
Ele já estava quase cochilando quando ouviu uma voz familiar lhe despertar com uma pergunta:
- Quem é?
- Anh? – ele se endireitou na cadeira, esfregando as mãos no rosto para espantar o sono e encarou um Danny completamente divertido de frente para ele.
- Quem é o cara, Stiles?
- Cara? Qual cara? – ele não estava entendendo nada.
- Olha Stiles, eu sei que não sou seu melhor amigo nem nada. Mas eu sei que você se achou.
- Me achei? – ele repetiu ainda sem entender. Aquela conversa estava mais esquisita do que todas as outras que ele já tivera com Danny antes. E aquilo começava a lhe deixar nervoso. Balançava as pernas enquanto falava e equilibrava a cadeira apenas nas pernas de trás.
- É. Se achou. Se assumiu. Saiu do armário. Não sei qual a expressão você prefere.
- Danny, eu não sei do que você está falando.
- Oh, uau. Então você mesmo ainda não percebeu que é gay?
Um baque surdo chamou a atenção dos poucos alunos que estavam ali e todos riram ao ver Stiles caído no chão. Ele saltou, embaraçado, voltou a se sentar na cadeira e encarou o colega de classe.
- Que história é essa de eu não saber que sou gay? Eu sei. Quer dizer, eu sei bem que não sou.
- Stiles, tudo bem você não querer ser abrir para mim...
- Oh, realmente, não vai ter nenhuma abertura aqui em mim. Especialmente com você.
Danny revirou os olhos, colocou uma das mãos no ombro do colega e o olhou firmemente nos olhos:
- Olha, cara, eu sei que alguma coisa em você está diferente. Não significa que você está rebolando, falando engraçado ou desmunhecando. Mas tem uma aura especial. E não sei te explicar, mas a gente sabe o que é. Nos reconhecemos na multidão. Pense nisso, tá? E se precisar conversar, me procure.
Pronto, o dia que ia ser perfeito foi destruído pelas minhocas que Danny colocou na cabeça de Stiles. Agora ele se pegava reparando em outros caras, tentando perceber se os achava gostosos ou se seu corpo se manifestava por algum deles.
Voltou para casa completamente frustrado. Não porque descobrira que era gay. Pelo contrário, ele não conseguiu descobrir nada. Parecia que ninguém na escola era interessante o suficiente, nem os garotos e nem as garotas.
Se jogou na cama de qualquer jeito e adormeceu. Acordou quase 11 da noite assustado. Tinha combinado um chat com "moonHalo" e quase perdeu a hora.
Ao sentar em frente ao computador, uma mensagem já lhe esperava: "Algum problema?".
Stiles arregalou os olhos. Aquele dia ele realmente não estava entendendo bem o que as pessoas queriam dizer. Olhou para a janela de bate-papo e viu que seu amigo estava on line. Clicou sobre o nome dele e disse:
Triskalia: Oi, recebi sua mensagem agora. Pq me pergunta se tem algum problema?
moonHalo: Oi. Você me manda mensagem todo dia assim que chega da escola e hoje não mandou. Pensei que estivesse em perigo.
O rapaz sorriu verdadeiramente contente com aquilo. Era a primeira vez que alguém, além de seu pai, se preocupava de ele estar em perigo. Ultimamente, seus amigos o colocavam em perigo sem ao menos se lembrar de que ele era apenas humano.
Triskalia: Não, nada perigoso além de cair da cadeira...rs... Só fiquei meio chateado, bem chateado não é exatamente a palavra, fiquei confuso, isso, confuso com uma conversa que tive hoje e deitei um pouco pra pensar e acabei dormindo. Acordei agora pra falar com vc.
Stiles sequer se preocupava em escolher as palavras para conversar com o amigo virtual. Era como se tivesse mais confiança e liberdade com ele do que com Scott. Tudo bem que moonHalo ás vezes era meio ríspido, mas isso não importava, pois na maioria das vezes ele se mostrava "encantador", apesar do adjetivo soar gay demais.
moonHalo: O que seu amigo disse para te chatear?
Ele tinha mesmo o dom de resumir as coisas, Stiles pensou enquanto respondia:
Triskalia: Ah, bobagem, veio com uma conversa de que agora tem certeza que eu sou gay.
moonHalo: você também tem essa certeza? Você é gay?
Triskalia: Não.
moonHalo: Também não sou gay.
O rapaz leu a última mensagem e sem entender o motivo ficou totalmente desapontado.
moonHalo: Mas eu gosto de você.
A mensagem veio logo em seguida e Stiles sentiu um nó se formar em sua garganta.
moonHalo: E acho que não me incomodo com o fato de você também ser um homem.
Ok, agora a vontade do rapaz era pular no quarto, gritar na janela, fazer uma dessas dancinhas idiotas que jogadores fazem em campo quando marcam um ponto na final do campeonato, quando a porta de seu quarto se abriu e Scott entrou animado:
- Tira a bunda branca daí e troca de roupa. Tenho uma coisa pra te animar: vamos jogar boliche com a Alisson e a Julie, uma prima distante dela que veio passar a semana na cidade.
- Sem chances!
- Como é? Você vive reclamando que eu nunca te ajudo a conseguir uma namorada e agora que tem uma moça bem bonita querendo sair com você, está dispensando? Cara, você é gay afinal?
Aquela pergunta começava a dar no saco já.
- Não Scott, tá maluco? Só não to a fim hoje. Não to me sentindo bem – ele mentiu – E não vou sair com uma pessoa que pode querer te matar ou me matar.
- Do que você tá falando? Ela é prima da Alisson, cara! Ela nunca fez nada para você.
- Exatamente, mas a sua namorada já quis matar você, o Isaac, o Jackson e só não me matou porque eu sou normal. Mas o avô dela teria matado você, o Isaac, o Jackson, o Derek, a Lydia, a própria Alisson, eu e o presidente da Namíbia se ele aparecesse por aqui. Não, obrigado. Dispenso esses genes problemáticos.
- Stiles, você está com estresse pós-traumático.
- Expressão difícil essa, hein?
- Ouvi minha mãe falando disso hoje – Scott sorriu pro amigo e continuou – Se mudar de ideia, me ligue que a gente busca você, ok?
- Pode deixar!
Quando ouviu Scott bater a porta do carro e dar a partida, ele voltou pro computador preocupado que seu amigo já tivesse cansado de esperar uma resposta. Mas ele continuava on line e parecia que não falaria nada até que Stiles se manifestasse. Ele retomou a conversa:
Triskalia: Agora eu entendo.
moonHalo: Entende o que?
Triskalia: Entendo porque Danny disse que estou diferente e pq não me interesso por ninguém na escola.
moonHalo: Continue.
Triskalia: É porque estou interessado em você.
moonHalo: Gosto dessa resposta. Mas...
Triskalia: Mas o que?
moonHalo: Fiquei apreensivo de ter me compreendido mal. Você demorou a responder.
Triskalia: Um amigo esteve aqui, me convidando para um jogo de boliche com a namorada dele e a prima dela.
moonHalo: Ah, então, ok. Bom jogo para você e depois me conte quantos strikes fez.
Triskalia: Eu não disse que iria.
moonHalo: Você não vai sair com eles?
Triskalia: Prefiro ficar aqui. E conversar com você.
moonHalo: :)
Triskalia: Ei! Você aprendeu a fazer carinhas...rs...
moonHalo: Tive um bom professor...rs...
E eles continuaram conversando noite adentro, lembrando da dificuldade que o mais velho tinha em desenhar smiles no chat e o quanto ele demorou para apender.
Na mansão decrépita dos Hale, Peter ouvia as risadas do sobrinho, sabia que ele conversava com o "amiguinho virtual" e pensava que talvez ele fosse o primeiro lobisomem-gay-quase-pedófilo da família. Não importava, a questão era que Derek estava rindo. De verdade. E Peter gostava daquela mudança, não só por pensar que a rigidez e a raiva de Derek eram pontos muito fracos para aquele bando. Ele podia ser um macho alfa ex-psicopata zumbi, mas ainda gostava de sua família, e saber que Derek estava feliz era muito bom.
Derek podia não mais usar o computador de Peter, mas ele não teve o cuidado de trocar a senha de seu perfil. O que deu ao tio todas as chances de acessar seus históricos de conversa no matchmaker. E agora que Peter já tinha quase certeza absoluta de quem era o namoradinho virtual de Derek, tinha que fazer alguma coisa para que os dois se encontrassem e se acasalassem de uma vez.
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