Ciberlove

9 Capítulo 9


As mãos postas em forma de concha se enchiam de água pela terceira vez. Stiles lavava compulsivamente o rosto, de forma barulhenta e exagerada. Precisava parar de pensar em moonHalo e como não podia tomar um banho frio na escola, pelo menos não antes do treino de lacrosse, a alternativa era a água gelada no rosto.

Olhava-se no espelho enumerando todos os defeitos físicos que podia encontrar em si: a pele clara demais, as pintinhas escuras no rosto, o corpo frágil. O cara era instrutor de auto-defesa, devia ser no mínimo forte (ele se esforçava para pensar em palavras mais héteros, e gostoso não seria uma delas definitivamente).

Mas nada parecia adiantar. Stiles não se achava feio na verdade. Era atraente a sua maneira. E o que ele achava que sempre afastava as pessoas de si era justamente o que havia o aproximado de moonHalo. Talvez houvesse uma esperança.

O problema é que de ele não podia viver só de esperança, precisava tomar uma atitude. Só não sabia qual atitude tomar. Na verdade ele sabia que queria convidar o cara para sair. Mas como fazer isso? Se fossem só amigos ele podia simplesmente dizer: "e aí, cara, vamos sair, tomar uma cerveja e discutir baseball". Mas em primeiro lugar eles não eram só amigos. Em segundo lugar, ele era menor e não podia sair pra tomar uma cerveja. E em terceiro lugar, ele nunca tinha chamado outro cara para sair.

- Danny... – ele murmurou, olhando para sua imagem no espelho como se tivesse a ideia mais brilhante do século.

E sem se preocupar em secar o rosto, saiu correndo do banheiro, procurando o rapaz que poderia virar seu novo bff pelo menos enquanto ele não contasse para Scott que era gay.

Encontrou o rapaz saindo do refeitório e quase caiu em cima de Jackson que o acompanhava. A mochila de Stiles parecia querer saltar por cima de sua cabeça, seu rosto estava vermelho com a corrida e ele parecia totalmente perdido.

Jackson olhou o estado do rapaz com visível ar de desprezo e já puxava o amigo para longe do filho do xerife, quando Stiles chamou:

- Danny, preciso falar com você. Sobre aquele assunto, do achado.

Danny parou na mesma hora, tentando esconder o ar de curiosa satisfação. Fez Jackson sair de perto, dizendo que o encontraria mais tarde e andou com Stiles até saírem da escola e alcançarem um banco no pátio, longe de ouvidos indiscretos.

- Pode falar. – Danny incentivou o rapaz.

- Ok, você estava certo. Tem um cara. E eu gosto dele.

- Por favor, diga que não é o Scott, ok? Você merece coisa muito melhor.

- Pode ter certeza que o Scott é o último da lista, depois de um apocalipse zumbi e um ataque nuclear.

- Ótimo. Então, esse cara. Como é?

- Oh, ele é... legal.

- Legal, Stiles? Legal é sorvete de baunilha.

- Ok, ele é... isso é muito gay, mas ele é incrível. Ele é engraçado e inteligente. E gosta das mesmas coisas esquisitas que eu. E ele me ouve, sabe?

- Oh céus! Você gosta MESMO dele.

- Foi o que eu te disse antes.

- Ah sim, mas tem diferença entre "eu gosto dele porque ele é gostoso" e o que você está dizendo que é "eu gosto dele porque ele é especial e me faz bem".

- Eu estou ferrado.

Danny riu alto e deu um murrinho amistoso no ombro de Stiles.

- Ele é bonito?

Se Stiles não estava envergonhado antes, agora parecia que o sol havia fritado a pele de seu rosto e ele estava na carne viva. Como explicar a Danny que não sabia se o cara era bonito?

- Ah, isso é relativo.

- Não tem nada de relativo em beleza, Stiles. Veja, Jackson é bonito, o treinador não. Isaac é bonito, Scott não. Então, ele é bonito?

- Eu não sei. – ele respondeu, dando-se por vencido.

- Hum, primeiro cara por quem você se interessa, normal não saber definir seus padrões ainda.

- Não, Danny. Eu... eu realmente não sei se ele é bonito. Eu nunca o vi pessoalmente. Só converso com ele pela internet.

O queixo de Danny caiu. Ele nunca tinha conhecido alguém que se descobriu gay pela internet. Mas por experiência própria sabia que não poderia demonstrar espanto, nem nenhuma outra emoção que fizesse Stiles se sentir envergonhado. Ele acabaria se retraindo e isso não era nada saudável.

- Ah, entendo... E ele gosta de você também?

- Gosta. – o rosto do rapaz se iluminou quando respondeu – Pelo menos disse que gosta.

- Isso é ótimo!

- Não, não é.

- Não é? – Danny agora não entendia nada.

- Não! – ele respondeu como se fosse óbvio – Olha, eu nunca gostei de ninguém que gostasse de mim. Eu não sei o que fazer, não sei como agir. Eu quero me encontrar com ele, mas não sei como convidar, porque eu sei que ele vai aceitar e aí eu não vou saber o que fazer. E quando eu descobrir onde a gente pode ir eu vou ficar sem saber se ele vai me beijar e o que mais pode acontecer. E... Oh Deus, eu vou ter que dar pra ele?

O garoto falava sem parar, andando de um lado para o outro. Rindo da situação, Danny se levantou, parou diante dele e o segurou pelos ombros, dizendo:

- Stiles, você não precisa decidir se é ativo ou passivo agora.

- Não? – ele tinha os olhos arregalados, o pânico quase tomando conta.

- Não. Você primeiro precisa se sentir a vontade com a companhia da pessoa. Precisa se envolver, depois, muito depois, é que vocês dois vão decidir quem vai fazer o que.

- Ah, ok, assim parece mais fácil.

- E vocês podem trocar as vezes. Não precisa ser uma regra: tipo um é SEMPRE passivo e o outro SEMPRE ativo.

- Não me conte os detalhes. Pelo menos por enquanto. Preciso me acostumar com a ideia de beijar alguém com barba.

- Não precisa exagerar. Faça assim: um passo de cada vez. Primeiro, chame o cara pra sair. Sem pretensões. Escolha um lugar legal, que você e ele gostem de ir.

- Hum, tenho um lugar em mente. – ele comentou, pensando que seu amigo devia adorar o Starbucks já que estava lá todos os dias para usar a internet.

- Então, no meio da conversa, pergunte o que ele vai fazer, por exemplo, amanhã a noite. Ele vai te responder e com certeza perguntar por que, e você sugere de saírem da internet e conversarem pessoalmente.

- Assim não parece tão difícil.

- E não é.

- Ok. Eu vou fazer isso. Eu consigo fazer isso. Hoje a noite vou chamar ele para sair. E depois eu te conto.

- Com certeza você me conta. É o preço pela consultoria em assuntos gays, ok? – Danny piscou, deu um sorriso, pegou sua mochila e voltou para a escola.

Stiles também voltou para aula e encontrou um Scott aparentemente chateado.

- Onde você esteve esse tempo todo?

- Tava conversando com o Danny, por quê?

- Com o Danny? Por meia hora? E o que você tanto falava com o Danny?

- Scott, você tá parecendo uma adolescente ciumenta. E eu tenho alguns assuntos com o Danny. Coisa de adolescente normal não afetado pela lua cheia.

- Ok. Tudo bem. Eu só tinha que te avisar, sexta tem uma festinha pra gente ir. Você vive reclamado que eu nunca vou com você a festa nenhuma.

- Festa?

- Sim, parece que é aniversário do Derek. O Peter mandou avisar, vai rolar uma espécie de lual lá na mansão. Ele disse que vai ser bem tranquilo.

- Scott, você acha confiável ir a uma festa na mansão dos Hale organizada pelo Peter?

- Ué, por que não seria?

- Ok. Então eu vou. Não posso te deixar se meter em problemas sozinho, não é?

Agora Stiles tinha planos pra semana inteira: conversar com moonHalo, chama-lo pra sair na quinta e ir à festa na sexta. Quem sabe até levasse seu novo amigo para conhecer o bando. Ia ser divertido ter alguém no grupo capaz de peitar Derek Hale.

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Coragem e força de vontade eram coisas que não faltavam em seu sangue, parte por ser um lobisomem praticamente imortal, parte porque esse era o seu instinto mais básico. Sua mãe costumava dizer que não importava o desafio ele sempre fazia questão de vencê-lo e superá-lo. Ela gostava de contar sobre como ele aprendeu a contar até cem, bem antes do tempo, porque Laura o desafiou dizendo que ele não conseguiria e quando um de seus primos menores se perdeu na mata à noite, durante uma brincadeira com os outros lobos mais jovens, ele foi o primeiro a se propor a procurá-lo, com apenas oito anos.

E ele tinha certeza que já havia enfrentado coisas muito mais difíceis e muito mais perigosas em sua vida, mas confessar seus sentimentos para Triskalia parecia a coisa mais difícil que já tinha feito. Ele tinha escrito, escrito de novo, apagado. Ele pensou em não dizer nada mais uma vez, em não confessar os seus sentimentos patéticos e impossíveis de serem ignorados.

Infelizmente ele não conseguia mais guardar para si, ele precisava desesperadamente saber o que o rapaz sentia e quando a palavra "gay" casualmente apareceu na conversa aquela noite, ele viu ali a sua chance, afinal, ele não era o mais criativo dos homens e aquilo pareceu uma deixa decente para o momento.

Seu corpo todo se aliviou da tensão que vinha guardando quando finalmente conseguiu admitir que gostava do rapaz. Ele tinha estado em crise por dias a fio, pensando se o rapaz não se ofenderia, se ele não contaria para o xerife e o mandaria para a cadeia por ser um pedófilo (pelos próximos oito meses apenas), se ele não diria que já tinha encontrado alguém ou que ele simplesmente não queria nada desse tipo com ele.

Tantas coisas passaram pela mente do jovem lobisomem e cada um desses pensamentos fez com que ele aguardasse mais um dia para revelar e por isso o alívio imediato quando contou...

... E o pânico total quando não recebeu nenhuma resposta, apesar do site afirmar que o rapaz já havia lido o que Derek tinha escrito.

Ele realmente não era gay, realmente não estava interessado em homens, realmente o achava um pedófilo e estava ligando para a polícia naquele momento, realmente não queria nada com ele além de uma amizade cibernética (e talvez nem isso ele quisesse mais agora!), realmente Derek tinha fodido tudo mais uma vez.

Porque Derek sabia muito bem como escolher as pessoas em quem confiar e era melhor ainda em escolher os momentos para revelar seus sentimentos. Ele não havia apenas se deixado apaixonar por Kate, não. Ele havia escolhido o dia em que a vadia planejou queimar sua casa para dizer que a amava. Ele havia comentado que eles poderiam fugir para se casar e como ela ficaria linda num vestido de noiva.

Três horas depois e tudo o que sobrou dos seus planos de amor eterno foram cinzas e ódio. Logo após, a culpa veio também amarga e afiada, como se um veneno e um punhal o atingissem ao mesmo tempo, na insana competição para ver o que o mataria primeiro, o que o faria sangrar mais rápido.

Mesmo que durante esses dois meses Triskalia não tivesse feito nada além de provar que ele nada tinha a ver com ela, Derek não conseguia parar as comparações em sua mente traumatizada. Ele mesmo tinha problemas em acreditar que alguém poderia ser tão incrível quanto o rapaz e que alguém assim se interessaria por ele, um lobisomem guardando na alma todas as cicatrizes que não era capaz de ter no corpo.

Não iria admitir, mas sentiu seu coração bater com a mesma frequência das asas de um beija-flor quando recebeu a resposta de Triskalia. Não parecia real o fato de que ele não apenas não tinha se assustado com o que Derek disse, como ele também parecia sentir o mesmo por ele.

Um suspiro aliviado vindo de um ar que ele nem sequer notou ter guardado em sua caixa torácica foi ouvido também, tentando ser mais alto que o ritmo de seu coração. Ele respirou fundo e continuou a conversa, casualmente, tentando manter o nervosismo ao seu mínimo.

Foi inútil. Saber que o rapaz trocou uma noite de diversão com seu melhor amigo para ficar ali conversando com ele, especialmente depois do que ele tinha revelado, fez o sorriso de Derek se tornar algo imutável, uma expressão constante até o fim da noite. E ele só o desfez enquanto dormia, apesar de que em seus sonhos um rapaz sem rosto caminhava pela mata com ele.

Nervosismo foi, nervosismo voltou.

As conversas entre eles continuavam e a cada conversa, a cada palavra que trocavam, cada comentário sem importância que dividiam um com o outro, Derek tinha certeza que isso não era o suficiente.

Derek queria, pela primeira vez em muitos anos, dar um voto de confiança a alguém. Ele queria conhecer o rapaz pessoalmente, olhar nos olhos dele enquanto ele dizia algo totalmente aleatório e inapropriado, ouvir o som da risada dele e dividir o som da sua própria — algo que era reservado apenas para ele ouvir porque só ele conseguia fazer o lobisomem sentir-se a vontade para tal.

No entanto o rapaz só tinha 17 anos e Derek estava próximo de ficar um ano mais velho, como se o destino estivesse planejando que isso causaria mais pavor e insegurança nele. Ele não poderia convidar um rapaz prestes a ser dez anos mais novo para sair com ele.

Aliás, como ele faria isso? Ele não se lembrava como fazer isso, chamar as pessoas para encontros com tom de casualidade. Ele só tinha feito isso uma vez, não possuía nenhuma experiência no assunto.

Como um lobisomem, um alpha, com quase trinta anos conseguia ficar tão inseguro pela mera probabilidade de o rapaz dizer não ou pela sua falta de conhecimento em como desenvolver um relacionamento estável com outros seres vivos? Como Triskalia conseguiria suportar a grande esfera de problemas que é a sua vida? Seria mais seguro nunca conhecê-lo, então? Porque ele não queria expor o rapaz aos perigos que ele corria diariamente.