Cianeto
3 O Novo Vizinho
— Eu não acredito nisso, velho. Parece coisa de filme. Quem iria tentar matar o Murilo? — Perguntou Ogrão que havia acabado de se jogar no sofá e estava olhando o estrago na cozinha.
Murilo estava sentado num canto. Estava ainda em choque. Não fazia ideia de quem iria querer feri-lo. E ter o apartamento cheio não estava ajudando. Pela madrugada a polícia. Pela manhã e agora pela tarde os amigos. E a noite a família chegaria. O garoto estava surtando, já fazia pelo menos três ou quatro dias que ele não dormia nada.
Ele estava tentando não prestar atenção na conversa dos amigos. Porém não pode deixar de ouvir o sussurro de Tomaz. O namorado acreditava que havia sido Rafael, o ex-namorado maluco que não conseguia superar o término mesmo depois de três anos, ou o Augusto. Que era o amigo que havia armado para os dois terminar umas trezentas vezes só nos últimos três anos. Porém os ataques nunca passaram de coisas bobas. Murilo não acreditava que ele fosse capaz de explodir uma bomba. Capaz de mata-lo.
— Eu realmente não acredito nisso, cara. Porra, Jão. O Augusto é nosso amigo. Ele fez coisas erradas, mas ele não seria capaz de matar ninguém. — Ogrão disse bravo e sentando no sofá como se estivesse querendo comprar briga.
— Fala sério, Ogrão. Nós não conhecemos mais o Augusto. Lembre-se quando ele tentou me atropelar no estacionamento da faculdade. — Caco se meteu. O garoto estava distante antes, porém resolveu falar algo.
— Ele estava apenas brincando! — Ogrão falou sério. Enraivado.
— Então ele poderia deixar o Caco aleijado que ainda seria considerado brincadeira? Eu acho que vocês fizeram certo. Ele tem que ser investigado sim. — Falou Mônica. A Batata do grupo. Os cabelos da garota agora estavam longos. Nos últimos anos ela deixou crescer e tingiu tudo de roxo.
— Ele não seria capaz de fazer isso. E eu coloco a minha mão no fogo por ele. — Falou Ogrão realmente irritado.
Murilo continuou olhando os amigos. Começou a pensar então nos motivos que levariam o amigo a defender tanto o Augusto. “Será que?” Ele pensou, mordeu o lábio. “Não pode ser que eles estejam se pegando.” Ele levantou e ficou de pé olhando para a cozinha. Caminhou até lá. A melhor parte da casa estava destruída, ele mordeu o lábio e sentiu vontade de chorar.
— Vocês não acham melhor saírem do apartamento? Eu recomendo a casa de parentes próximos. Pela segurança de vocês. — Falou um policial que observava o local.
— Não, não vamos sair daqui! — Falou Murilo que estava em prantos. O corpo tremia deliberadamente. O garoto estava assustado, porém não queria sair de sua casa.
— Nós interrogamos o porteiro. Ele realmente não sabe quem entregou o presente. Ele não viu ninguém subir. Não liberou a entrada de ninguém, então acreditamos que foi alguém de dentro do prédio que deixou o presente em sua porta.
— Não pode ser não temos inimigos dentro do prédio! — Tomaz disse estressado. O homem não estava nervoso, porém realmente irritado. — Vocês precisam descobrir quem fez isso. Eu vou contratar detetives particulares e seguranças também!
— Eu ainda acho melhor vocês saíre...
— Não! — Murilo disse chorando, mas mostrando força. — Eu já disse que não vamos sair, mas eu quero que o senhor se retire da minha casa.
— Amor, não...
— Eu quero ele fora da minha casa! — Murilo gritou.
Tomaz olhou sem jeito para o policial. Ele suspirou fundo e balançou a cabeça em direção à porta. Olhou para o homem fardado.
— O senhor poderia me acompanhar? — Ele perguntou sério.
O policial balançou a cabeça em afirmativa e passou a caminhar em direção a porta. Os dois saíram até o corredor.
— Eu queria me desculpar pelo meu namorado. Porém ele está em choque, nós acabamos de chegar do velório da avó dele, e agora... Agora aconteceu isso. Ele está muito nervoso! — Tomaz falou realmente sincero. Estava mesmo pedindo desculpas pela atitude do namorado. Aquele homem só estava fazendo seu trabalho.
— Eu sinto muito, meus pêsames. — Falou o policial. — Eu acho que podemos deixar a investigação para amanhã. Ele precisa descansar. Mas ainda acredito que seria melhor que vocês saíssem da casa.
— Eu sei, eu vou conversar com ele. — Tomaz deu sua palavra. E estendeu a mão para o homem indicando que seria melhor se ele saísse.
— E amanhã vocês terão que se apresentar na delegacia para recolhimento dos depoimentos. — O homem fardado falou se desculpando. E apertou a mão de Tomaz.
Tomaz se virou para entrar e viu que Murilo estava na porta ouvindo tudo que ele conversava com o policial.
— Eu não vou sair de casa. — Murilo falou baixo e entrou.
Murilo estremeceu quando sentiu o toque da amiga em suas costas. Então virou rapidamente. Era Mônica. Murilo nunca se deu conta, mas nos últimos três anos eles haviam se tornando tão próximos. Ele poderia considerar que ela era sua melhor amiga. A menina o abraçou.
— Eu sinto tanto por tudo isso que está acontecendo de uma só vez. Mas eu sei que vai passar. As coisas vão melhorar e a nossa vida vai voltar ao normal. Vamos sair festejar, entrar em parques fechados e fazer a nossa festa. As coisas não mudaram. — Mônica disse baixinho e beijou o amigo. — Eu sei que a sua avó morreu, e eu sinto tanto por não ter ido contigo ao velório e ao enterro. E meu anjo, ela se foi. Mas nós estamos vivos e eu sei, eu tenho certeza que ela não iria querer você triste.
— Eu sei, mas é que...
— Não é nada. Você vai superar. Você tem um namorado que o ama, e tem amigos que te ama para caralho. Então você vai ficar bem, mas agora acho que você precisa ir pro quarto e descansar essa cabecinha um pouquinho. O que você acha? — Ele perguntou sorrindo e passou a levar o amigo para o quarto.
Eles estraram juntos no quarto. Era um lugar todo claro. O quarto que Murilo sempre imaginou. As paredes brancas com um leve tom de bege dava uma sensação de limpeza e claridade. As cortinas eram cinza.
A cama grande em madeira do jeito que ele sempre sonhou. Queria uma cama grande para não ter que brigar por espaço com ninguém. O tapete no chão de pele de urso polar dava um ar mais refinado. “Não deve ser de urso de verdade, né?” Murilo perguntou quando estavam escolhendo o tapete.
Murilo deitou na cama, deitou-se no lado de Tomaz. Estava ali o cheiro do amor da sua vida e isso o acalmava. Ele fechou os olhos e sentiu a cama afundar um pouco, quando a amiga sentou ao seu lado e lhe passou a fazer um leve cafuné.
— Veio de manhã molhar os pés na primeira onda, abriu os braços devagar e se entregou ao vento. O sol veio avisar que de noite ele seria a lua, pra poder iluminar... Ana, o céu e o mar. — Mônica cantou em voz baixa e Murilo riu baixinho, a menina retribuiu a risada e voltou a cantar. — Sol e vento, dia de casamento, vento e sol, luz apagada num farol, sol e chuva, casamento de viúva, chuva e sol, casamento de espanhol. Ana aproveitava os carinhos do mundo os quatro elementos de tudo deitada diante do mar que apaixonado entregava as conchas mais belas, tesouros de barcos e velas que o tempo não deixou voltar.
— Eu amo essa música. — Murilo sussurrou sonolento, sentindo o peso do corpo o deixar. Estava realmente cansado, e só agora viu isso. Ele estava caindo no sono.
— Eu sei que sim. — A amiga falou fazendo um carinho de leve. A garota voltou a cantar com uma voz doce. — Onde já se viu o mar apaixonado por uma menina? Quem já conseguiu dominar o amor? Por que é que o mar não se apaixona por uma lagoa? Porque a gente nunca sabe de quem vai gostar...
Ela viu que o garoto parou de se mexer, e sorriu. Ele havia dormido. Ele se levantou da cama devagar para não acorda-lo e beijou o menino no rosto. Saiu do quarto. E voltou para a sala.
— Ele dormiu. — Mônica falou e sentou-se no sofá ao lado da namorada. Olhou para Tomaz.
— Nossa Batata eu nem sei como lhe agradecer por esse milagre. Eu não conseguia o fazer dormir de forma alguma e ele não queria tomar remédio. Obrigado de verdade! Eu te acho o máximo agora — Tomaz respondeu sorrindo.
— Ele vai dormir por um bom tempo agora. — A garota falou olhando para o amigo e respirou fundo. — E agora precisamos conversar sério. Acho que vocês devem ir para casa dos seus pais, Tomaz!
— Ele não quer ir. Eu já falei que seria melhor. Pelo menos por enquanto. Porém você sabe como o Murilo é. Quando ele coloca uma coisa na cabeça nada muda. Ele não parece mais aquele garotinho que eu conheci na rodoviária. Está um homem feito. E tem sua própria opinião sobre tudo. Acredito até que se fosse hoje, ele nunca teria topado fingir ser outra pessoa. — Tomaz diz sério, mas então sorri. Ele adora o fato do namorado ter mudado tanto, e para melhor.
— Você acha mesmo que foi o Augusto? — Mônica perguntou, e olhou de Tomaz para os outros amigos na sala.
— Eu já disse que... — Ogrão começou a gritar.
— Cara, ou você baixa a bola ou eu te coloco para fora. O meu namorado passou quatro dias sem dormir, e sinceramente se você o acordar por causa de uma baboseira eu vou partir a sua cara ao meio. E sim, eu acredito que foi o Augusto ou Rafael, sim! E eu vou investigar isso. — Tomaz disse olhando sério para o amigo.
— Você já parou para pensar que pode ser o Daniel. Ex do Murilo? — Ogrão perguntou bravo e de má vontade.
— Cara, nós não vemos o Daniel há muito tempo. Ele sequer se interessa pela vida do Murilo, não tem por que fazer a mal ao Murilo. — Tomaz respondeu bravo.
— Pô, Pudim! Eu acho que devemos desconfiar de qualquer um. E sinceramente o Ogrão tem razão. O Daniel pode estar envolvido nisso. — Caco fala sério.
— Eu vou precisar repetir que o Daniel não da às caras há muito tempo? — Tomaz perguntou bravo e olhou para os amigos quando ouviu a campainha da casa tocar. — Devem ser os meus sogros.
Tomaz levantou e foi atender a porta. Abriu a porta marrom e deu de cara com ninguém menos que Daniel. Eles ficaram se encarando.
— Eu soube do Murilo. E eu quero vê-lo! Como ele está? — Daniel perguntou sério. Parecia até nervoso enquanto falava.
— O que você está fazendo aqui, porra? — Tomaz perguntou sério já querendo partir para a briga. — Como o porteiro o deixou subir?
— Eu não precisei. Eu estou morando aqui. Sou o novo vizinho. — Ele falou sério encarou Tomaz.
“O que? Será que eles tinham razão? Daniel pode ser uma ameaça para Murilo?” Tomaz olhou de Daniel para os amigos sentados no seu grande sofá preto. “Ninguém fará mal a ele. E muito menos você seu otário!” Ele pensou bravo e fulminou Daniel com o olhar.
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