Cianeto
4 Casa de Praia
— Você está tentando me tirar de casa só porque o Daniel é o nosso novo vizinho, eu estou certo disso? — Murilo perguntou enquanto jogava uma bolsa de viagens no porta malas do carro.
Tomaz ficou em silêncio por um tempo, o homem guardou o resto das malas e pareceu relutante em responder enquanto batia a porta do malas sem muita força. Ele se virou para o namorado e respirou fundo, então falou sério.
— Sim, isso mesmo! Eu estou tentando tirar você da zona de perigo. — O homem então deu as costas e entrou no carro. Ele girou a chave do carro dando partida e ficou esperando o namorado entrar. Estava mesmo irritado só de imaginar que o perigo estava morando ao lado.
Murilo fechou os olhos e segurou o nariz com as pontas dos dedos tentando controlar a respiração. O jovem ficou irritado com o namorado, já tinha tido aquela conversa no dia anterior.
— Eu já te disse e vou repetir, eu tenho certeza que o Daniel não colocou aquela bomba lá em casa. — Murilo falou irritado e entrando no carro e batendo a porta com bastante força.
— Jura que não? Ninguém entrou no prédio. Então nós temos certeza que a pessoa que lhe mandou aquele maldito presente mora lá dentro. E sinceramente quem além dele iria querer vingança? — Tomaz perguntou bravo, o garoto pisou no acelerador esquecendo que estavam no estacionamento e quase bateu em uma pilastra.
— Nossa senhora, será que tem como você manter a calma? Eu não pretendo causar a morte de toda a população do nosso prédio porque meu namorado acertou uma das vigas que segura o prédio. — Murilo falou sério e tocou a coxa de Tomaz. O jovem fez um leve carinho. — Eu sei que você está tentando me proteger, mas existem outras pessoas que me odeiam, para ser sincero nem acredito que o Dani... El me odeie. Já o seu ex-namorado, é... Ele tem motivos de sobra.
— Então se foi ele eu vou descobrir. Eu mesmo vou ter uma conversa séria com ele e vou levar a policia junto. — Tomaz disse irritado saindo com o carro do prédio.
— Você acha mesmo que isso é necessário? Então faça isso. — Murilo disse e ligou o rádio do carro. O garoto queria indicar que aquela conversa estava encerrada ali mesmo.
Então nenhum dos dois voltou a falar. A viagem não foi longa, apenas uma hora e meia até o litoral. Murilo estava muito apertado com vontade de ir ao banheiro, mas se recusou a pedir a Tomaz para que parasse.
Tomaz estava relutante em falar ou não com Murilo, odiava ficar assim com o namorado, porém ele que tinha começado a ficar mudo. Não iria dar o braço a torcer.
Pouco tempo depois o carro parou na garagem da casa de praia e uma mulher baixinha veio atender Murilo quando o mesmo desceu do carro.
— Olá senhor Murilo. — Ela disse toda contente e prestativa.
— Eu odeio quando você me chama de senhor, Neide. Eu me sinto super desconfortável, eu não sou seu dono, não sou seu senhor. — Murilo respondeu meio sem jeito e então abraçou a empregada com um pouco de força.
A mulher pareceu sem jeito em estar abraçando o patrão, mas ainda assim retribuiu. Eles se soltaram pouco tempo depois e Neide olhou para Tomaz.
— Eu vou tirar as malas do carro, seu Tomaz. Eu vou chamar o Zé agora mesmo. — Ela disse sorrindo e então deu as costas aos dois indo chamar o Zé para recolher a bagagem.
— Eu vou à praia. — Murilo falou seco. — Garanto que o Daniel não vai estar aqui. — A ironia foi forte e bateu com força em Tomaz que apenas sorriu de forma irônica também.
Murilo deu as costas e saiu em direção aos fundos da casa, onde tinham sua própria praia particular. Murilo ainda estava acostumando com aquilo, com toda aquela riqueza da família de Tomaz. O garoto caminhou de tênis pela areia quente e sentou no chão, mesmo que estivesse sol e com a areia muito quente. Vários pensamentos e lembranças ganharam vida.
“MURILO BEIJA GAROTOS.”
Ele escreveu sorrindo. Aquele apelido sempre o incomodou, e ele nunca soube o real motivo. Hoje em dia talvez tivesse uma ideia, sabia que o que incomodava era ele ter medo de quem ele mesmo era. Esteve sempre num namoro à distância, esteve sempre sendo quem ele realmente era dentro de casa. Saber que estava vulnerável lá fora, o assustava, antes, não mais. Hoje ele sabia o que queria, sabia que realmente beijava garotos.
— Então quer dizer que o mocinho beija vários garotos? — Tomaz perguntou sacana, e Murilo riu, adorava as brincadeiras do namorado.
Ele apagou e reescreveu.
“MURILO BEIJA UM GAROTO!”
Então apagou de novo. E escreveu outra vez.
“MURILO BEIJA TOMAZ!”
— Agora sim! — Falou Tomaz rindo e derrubou Murilo na areia e passou o corpo por cima do corpo magro. Encarou o outro. — Meu bebezinho...
Murilo sorriu e os dois se beijaram.
“Eu sei agora...” Ele pensou. Sorriu quando o beijo acabou.
— Tomaz...
— Oi amor!
Ele respirou fundo e sorriu.
— Eu te amo...
O garoto sorriu sozinho lembrando-se da primeira vez em que disse eu te amo para o namorado. Havia sido ali, naquela mesma praia. No mesmo ponto em que se encontrava agora. Murilo sorriu todo bobo. Mas então seu sorriso sumiu depressa.
— Você vai precisar perdoar meu anjo. Terá que aprender a perdoar para que a felicidade não lhe feche as portas. Muitas coisas estão para acontecer, Murilo. A primeira decepção que eu previ você superou. Era isso que o destino queria que você ganhasse forças para superar as outras piores que virão. — Ela disse e completou com algumas tosses.
— E o que está por vir, vovó?
— Eu não sei meu neto. Mas não são coisas boas. Você está em perigo. Está correndo um sério perigo. Porém coisas boas também acontecerão. Alguém do passado vai voltar você só tem que estar disposto a aceitar. O mundo vai lhe proporcionar dificuldades e alegrias. E eu sei que você vai conseguir. — Ela sorriu e apertou a mão de Murilo com mais força. — Cuidado... — Ela passou a tossir. — Cuidado com quem você chama de amigo. E ela vai voltar.
Murilo passou a mão pela cabeça tentando entender o que sua avó queria dizer, o que ele precisaria perdoar? Quem ele iria precisar perdoar? Talvez Daniel? Ou seria sua mãe que sumiu há tanto tempo? Murilo sentiu as lágrimas rolarem por sua face, sentia tanta saudade de sua avó. Poderia ter aproveitado mais tempo ao lado dela, mas tinha sido egoísta e agora tinha ficado com indagações sem resposta, ele era mesmo um idiota. “Você está em perigo” tinha dito sua avó. Ela tinha razão. Murilo estava em grande perigo.
Murilo baixou a cabeça e continuou chorando quando sentiu uma mão tocar seu ombro. O garoto impulsionou o corpo para frente e gritou, logo virou assustado e deu de cara com Tomaz que o estava olhando assustado também.
— Ei calma meu amor. Sou apenas eu. — Tomaz disse sério e estendeu a mão para Murilo. — Eu só vim o buscar está quente e muito sol para ficar aqui. Vamos para casa.
Murilo segurou a mão de Tomaz e sentiu o namorado o puxar e pegar nos braços. Murilo fechou os olhos e deixou ser levado.
O dia passou rápido para Murilo, ele mal viu a hora passar e a noite já tinha caído. A noite fresca ali naquela casa tão lindo com aquela vista maravilhosa para o mar e para as estrelas. Ele estava sentado ao lado de Tomaz em uma espreguiçadeira na varanda do quarto principal da casa. Os dois ainda estavam em silêncio, não tinha se falado muito o dia inteiro. Tomaz nem chegou a perguntar por que Murilo estava chorando na praia. Os dois estavam abraçados, porém calados quando ouviram as batidas da porta.
— Entra! — Gritou Tomaz.
Neide entrou com uma caixa na mão e olhou para os patrões abraçados. Ela se sentiu incomodada.
— É para o senhor Murilo. — Ela disse sem graça.
Tomaz soltou-se do abraço de Murilo e caminhou até a caixa. Ele estava nervoso e balançou a caixa com força. Não tinha nenhum bipe dessa vez. O homem olhou para Murilo que estava sentado e parecia nervoso. Tomaz pareceu bravo e saiu do quarto.
Ele desceu bravo e pisando duro até a cozinha. Colocou a caixa na pia e pegou uma das vassouras para abrir a mesma com certa distância.
Murilo chegou correndo.
— O que está fazendo amor? — Ele perguntou apreensivo. — Não abre essa caixa.
— Murilo fica longe! — Tomaz respondeu bravo.
— Por favor, amor... — Murilo pediu.
— Porra, Murilo só fica longe dessa droga! — Tomaz gritou e Murilo pulou sem sair do lugar.
Os dois se olharam e Murilo afastou um pouco. Tomaz respirou fundo e desfez o laço da caixa, depois ficou longe da pia e da caixa e retirou a tampa com a vassoura. Algo forte pulou da caixa e bateu o cabo da vassoura.
Murilo gritou e Tomaz estremeceu assustando-se com o grito do namorado. Ele olhou a coisa. Era o rabo de um escorpião que tinha acabado de ferroar o cabo da vassoura.
— Jesus. — Falou Neide totalmente assustada.
— Quem entregou essa porcaria, Neide? — Tomaz perguntou sério.
— Eu não sei, foi um homem de moto. — A mulher disse nervosa.
— E você aceita algo assim? Você assinou alguma coisa? Ele te deu algum recibo? — Tomaz perguntou bravo.
— Não... — Neide começou.
— Eu deveria demitir você agora mesmo. — Tomaz falou bravo tentando fechar a caixa à distância.
— Amor não fala assim. Por favor... Ela não... — Murilo começou.
— Só cala a boca Murilo. — Tomaz falou bravo conseguindo fechar a caixa. Ele se virou. — Eu vou ligar para a policia e pro investigador.
Tomaz saiu bravo deixando Murilo sozinho. Esse abraçou o próprio corpo e ficou quietinho olhando para a empregada. Nunca tinha visto Tomaz dessa forma, não tinha ideia do que estava acontecendo com o namorado.
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