Chá para dois

1 Chá para dois


Demorei mais de dez minutos para chegar à cozinha. Todos os dias, quando minhas mãos escorregavam pelas paredes fazendo-me perder um pouco do equilíbrio, eu me arrependia um pouco mais pelo dia em que me deixei levar pelo sorriso e pela xícara de café daquele vendedor, saindo da loja com um papel de parede tão liso quanto sabão, o que transformara meu corredor em uma prova de resistência estreita e florida. “Rosas amarelas”, eu resmunguei. Sempre disse que minha casa nunca seria como a da minha avó, tão atulhada de coisas antiquadas que mais parecia um sarcófago, mas acabei comprando algo que teria me feito rir quando eu era mais nova.

Sentei por alguns minutos, tentando respirar e me recuperar do esforço. Ignorei a dor em meu quadril e os estalos de meu joelho quando eu os flexionei. Quando se chega à minha idade, a dor não é mais uma novidade. Ela chega devagar, tomando seu corpo como morada e passa a ser uma velha conhecida, um pequeno e agudo lembrete que, mesmo que você não acredite, ainda está vivo.

Procurei pela chaleira no balcão de baixo, já que eu desistira de utilizar o de cima semanas atrás, quando a dor em meu cotovelo começou a me impedir de erguer o braço além de minha cabeça. Enchi-a de água e a coloquei no fogão, tentando dominar o tremor em minhas mãos que apagava o fogo como uma criança mal educada que se atreve a soprar as velas do bolo antes do aniversariante. Deixei que ela ficasse ali enquanto eu procurava o chá – um sabor diferente hoje – e as xícaras, tomando cuidado para não derrubá-las no chão, já que essa louça fora herança de minha avó. Não que eu tivesse alguém para ficar com elas quando eu partisse, mas algo me dizia que ela não ficaria muito feliz de ver sua preciosa xícara despedaçada por conta de meus dedos trêmulos e bobos.

“Já acordada?”, disse Isabela enquanto entrava pela porta da cozinha, “Que surpresa”. Ah, o sarcasmo típico da juventude. “Não é uma surpresa. Eu sempre estou acordada quando você chega, Alice”, falei. Ou pensei, não sei. Meus lábios estavam cansados depois de anos desperdiçando palavras com quem não queria ouvir, jogando-as ao vento como se fossem infinitas. Meus dedos alcançaram a chaleira, mas o toque frio de Melissa os afastou. “Deixe que eu faço isso, tudo bem?”. Observei por algum tempo a completa falta de rugas em sua mão, em uma diferença gritante em comparação com a minha. A mão de Amelia era lisa como roupa recém passada por um ferro quente ao som de jazz, enquanto a minha era um tecido tirado do fundo da mala depois de uma longa viagem particularmente chata, embalado por uma suave marcha fúnebre. “No jardim, então”, disse Natália, quando eu alcancei a porta, pegando o livro que deixei na mesinha de entrada.

Alcancei a cadeira depois de uma longa jornada de dez passos, respirando devagar e amaldiçoando meus pulmões por sua quase inutilidade e novamente ressentindo minhas amizades com fumantes e minhas longas conversas com a fumaça de seus cigarros. Segurei firme na borda da mesa, enquanto tentava sentar-me com calma, sem largar todo meu pouco peso de uma única vez, sentindo meus braços tremendo com o esforço. Uma vez eu saltei de uma ponte com uma grande corda elástica presa aos meus pés que me trouxe de volta com um puxão. A queda até a cadeira me lembrava daquilo, já que em ambos os casos eu temi alcançar o fundo rápido demais.

Paula trouxe as duas xícaras de chá e as deixou na mesa. Eu não olhei para ela, mas senti seu olhar como um peso a mais em meus ombros. O olhar jovem que se ilude ao se deparar com uma visão velha, tentando dizer para si mesmo que isso nunca aconteceria, não com eles. Nunca com eles. Só com os outros. “Eu também pensava isso, Maria, e olhe para mim agora”, pensei, abrindo o livro na página marcada.

Como todos os dias, li o texto com uma voz contida, tão diminuta que só estendia até a cadeira ao meu lado, palavras sussurradas ao vento que caiam flácidas dentro do chá ao meu lado. Não sei por quanto tempo li aquele livro, ou sequer quantas páginas virei com cuidado e delicadeza. Eu havia chegado naquele ponto da vida em que uma hora dura um minuto, e um segundo dura uma década. Quando Roberta precisou partir, eu me recusei a voltar para o quarto. Estava decidida a terminar aquele capítulo antes de retornar ao meu sarcófago decorado por escorregadias rosas amarelas. Thaís relutou em partir e eu não sabia se ficava agradecida ou irritada com o profissionalismo dela. Eu passei anos aproveitando minhas noites na companhia de vários homens que desapareciam na manhã seguinte, nunca me apegando a nenhum deles, pois nunca precisei de um marido em minha vida. A cirurgia que me impedia de ter filhos fora uma decisão rápida e tranquila e eu nunca me arrependi dela. Depois de passar uma vida inteira sem precisar de ninguém, por que agora eu precisaria de alguém para chegar ao sofá?

Permaneci ali, sentindo a brisa suave que balançava meus cabelos ralos, segurando as páginas deste livro mais velho do que eu e que ameaçavam libertar-se e voar para longe. Quando cheguei ao final do capítulo, peguei uma das folhas amareladas que a árvore ao meu lado soprara sobre a mesa e a usei para marcar a página. Respirei fundo e me preparei para a longa subida pela frente, agradecendo a sugestão do arquiteto de prender a mesa tão firmemente ao chão. Uma medida contra os adolescentes insensatos que roubavam qualquer coisa que conseguissem carregar, mas que acabara se transformando em meu apoio. Depois de um tempo você finalmente entende que levantar é como sua mãe arrancando seus dentes de leite quando você é criança: ela vai tentar fazer isso devagar, com cuidado e até carinho, mas no final é melhor puxar de uma vez. Tentei manter o equilíbrio e endireitei minha coluna até onde ela permitia, o que não era muito, devo admitir. Eu costumava ter uma postura de bailarina, é o que diziam quando eu era jovem, mas hoje em dia eu mais parecia uma mulher que refazia seus passos constantemente olhando para o chão à procura do brinco que perdera.

Abri a porta e deixei o livro na mesinha, olhando para o sofá como meu próximo objetivo. Anos atrás eu costumava imaginar o que eu conquistaria em dois, três anos depois. Hoje, eu vivia meu dia com pequenas metas, dividindo meus esforços em pequenas parcelas, pequenas vitórias. Quando me virei para fechar a porta, percebi que havia esquecido as xícaras de louça decorada que minha avó me proibia de usar. Suspirei com aquele pequeno desafio à minha frente e dei o primeiro passo para refazer meu caminho.

Quando eu cheguei à varanda, meus olhos piscaram involuntariamente, flashes iluminando minha visão como uma chuva de estrelas. Rapidamente, pontos pretos se intrometeram na pequena constelação que se fez presente, engolindo a luz dos meus olhos, até que eu já não via mais as xícaras que esqueci na mesa do jardim. A escuridão se espalhou até minha mente, engolindo também meus pensamentos, como um buraco negro faminto que tentava me devorar de dentro para fora. E então não sobrou nada mais ali, nem decisões e nem vontades, só um corpo vazio que desabou na grama.

Julia me ajudou a chegar ao jardim, depois de muita insistência de minha parte. Eu me lembro de quando minha avó estava doente e vivendo seus últimos meses de vida e como minha mãe costumava dizer que gente velha era teimosa como uma criança. Eu costumava pensar que, na idade da minha avó, ela já deveria ter aprendido a se desapegar das coisas, o que me fazia pensar que sua insistência em não abandonar sua casa não passava de um último e inútil ato de rebeldia. Mas hoje eu entendo que é impossível se desapegar das coisas mais simples, como o prazer de se sentar no jardim e sentir o sol em seu rosto, já que existem boas chances de ser sua última oportunidade.

“Não tire os óculos”, disse Eliza, deixando as duas xícaras de chá na mesa do jardim, “ordens do médico”. Ah, os médicos e suas ordens. Não fazia sentido desobedecê-lo, mas eu o fiz mesmo assim. Talvez minha mãe estivesse certa, afinal de contas, e todo velho realmente voltasse a ser como uma criança. Se o médico soubesse que eu deixei os óculos na mesa, poderia me deixar de castigo por alguns dias. Eu voltei meu rosto para o céu, sentindo o sol enquanto prestava atenção nos sons e cheiros que me cercavam. Então, subitamente, o vento parou e um silêncio confortável tomou conta do jardim e um cheiro tão antigo e reconfortante me tomou de assalto.

Bolo de laranja. Chá de menta. Roupa limpa. Rosas brancas. Livros velhos. O cheiro de uma calma manhã de domingo na pequena casa em que eu cresci. Ainda estava procurando a origem daquele cheiro quando ouvi a xícara sendo retirada da mesa, o chá sendo sorvido com uma mistura de prazer e uma leve alegria, e eu relaxei, voltando a olhar para o céu.

“Obrigada pelo chá”, ela disse. Sua voz era como pequenos sinos dançando com a brisa suave de uma tarde de verão, melódica e tranquila, quase um sussurro ao pé do ouvido. “Está muito bom, como sempre”.

“Eu não sei de qual você gosta, então preparei um diferente a cada dia”, expliquei, oferecendo uma voz desgastada e pequena como desculpa.

“Ah, sim. Eu aprecio muito sua consideração”, ouvi o som agradável e familiar da xícara sendo devolvida ao seu pires. “E por mais que eu saiba reconhecer as vantagens do chá de camomila, o de menta parece combinar mais comigo”. Por alguma razão, eu sabia que essa seria sua resposta e apenas sorri um pouco, entrelaçando meus dedos sobre minhas pernas.

“Acho que nunca vamos saber o final da história, não é?”, falei, um tanto pesarosa, massageando os nós dos dedos onde eles costumavam doer e percebendo a falta da dor que havia ali.

“Ele vai perceber que o amor que sente por ela é mais forte do que o preconceito de sua família, então vai abandonar tudo para poder encontrá-la em Paris e recomeçar sua vida ao lado dela”, ela disse, um sorriso se fazendo ouvir.

“Será bonito?”

“Não tão bonito quanto o jantar em Barcelona, mas essa é só a minha opinião”, ela disse, buscando o chá novamente, “Alexander estava apressado quando escreveu o final e temo que minha presença possa tê-lo atrapalhado um pouco”.

“Eu adoraria ler novamente”, lamentei pela primeira vez.

“O que os médicos disseram sobre seus olhos?”, ela questionou, mas eu suspeitava que já soubesse da resposta.

“Tentaram explicar, com muitos termos médicos e palavras roubadas de algum dicionário antiquado, que eu já estou muito velha e meu corpo está começando a morrer aos poucos. Os meus olhos foram os primeiros”.

“Algumas pessoas dizem que isso acontece quando os olhos já viram tudo o que há para ser visto, por isso eles, simplesmente, se fecham”, o chá foi sorvido e eu decidi buscar minha xícara que ela, carinhosamente, arrastou para perto da minha mão. “Você pode acreditar nisso, se lhe confortar”.

“Um pouco, obrigada.”, respondi, aproveitando o chá. “Você tem o mesmo cheiro da minha mãe”.

“Bem, se você pudesse me ver, eu provavelmente me pareceria muito com ela”. Eu prestava atenção a cada nota de sua voz, desejando lembrar-me daquele som para sempre.

“Como você se parece?”

“Eu não sei... Sou diferente para cada pessoa e já venho evitando espelhos por um longo tempo.”, respondeu, folhas caindo sobre nós. “Na verdade, eu os evito desde antes do tempo nascer”.

“Tens medo do que vai ver?”

“E também do que não verei”.

“Então como as pessoas te veem?”, eu perguntei, deixando minha curiosidade sentar-se ao nosso lado.

“Elas me veem como alguém que amam, algo que as acalma e conforta. Alguém em quem confiariam suas vidas”, disse, baixinho. “Um filho pode ver sua mãe, assim como um pai pode ver seu filho”.

“Isso vale para todos?”.

“Sim, para todos”, um riso baixo ressoando no ar, “Vocês, humanos, tem uma visão tão tétrica de mim, imaginando-me como um monstro de capuz e uma longa foice, pronta para ceifar suas vidas, quando tudo o que eu faço é acalentá-los. E até o mais vil dos vilões merece conforto quando me encontra”.

“Realmente, sua visita é uma benção, às vezes.”, eu disse, respirando profundamente, sentindo o ar entrar e sair sem ser interrompido por tosses violentas. “Já pensei em procurá-la algumas vezes”.

“Eu não estava lá.”, disse com voz séria, “Não me procure onde não estou, por favor. Espere por mim. Nada me entristece mais...”

“Mas você não pode estar em todos os lugares”, intriguei-me, “Então o que acontece quando você não está onde deveria estar?”

“Eles esperam por mim... Alguns me procuram por aí, outros se perdem. Alguns eu procuro até hoje”, admitiu, partindo meu coração, “Consegue imaginar como é não ter ninguém ao seu lado em seu último momento?”

“É claro”, respondi, ciente de tal sentimento, “Você foi a única que esteve ao meu lado por muito tempo. Minha única amiga... Então, me diga, por que só agora?”

“Você lia ótimas histórias”, respondeu, um sorriso flutuando pelo ar até mim, “Existo desde que tudo mais existe, vi tudo o que há para ser visto, mas sempre soube apreciar uma boa história”.

“Você deve estar cheias de histórias”.

“Sou feita de todas elas. Sou preenchida por palavras.”

“Então eu serei apenas mais uma de suas histórias?”

“Vocês sempre serão a mais bonita, a mais complexa e a mais triste. Vocês são histórias e eu sou leitora.”

“Temo ter chegado à minha última página”.

“Temo estar lhe trazendo o seu ponto final”.

Notas finais
"É que a morte também é leitora, por isso recomendo ter sempre algum livro na mão, porque assim quando a morte chega e vê o livro, se espicha toda para ver o que você está lendo, como eu faço no ônibus, e então se distrai." - Rosa Montero, em A louca da casa.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!