Acho que estou sendo observada. Talvez seja somente a paranoia das palavras de Anthony me atingindo, mas eu nunca tive essa sensação tão forte antes. Minha desconfiança fez com que eu não saísse do quarto até que a hora do tour pelo Palácio chegasse. Sinto olhos em mim, não importa o quanto eu me esconda. O quarto parece cada vez menor. Toda vez que quase pego no sono, acordo abruptamente com a impressão de que alguém esteve aqui enquanto a minha mente divagava. Quando realmente adormeço, a paz dura pouco. Sou atormentada por pesadelos que eu não consigo descrever propriamente, por parecerem borrados ou incompletos, sem sentido algum, quase como fragmentos de imagens. Não sei o que está acontecendo comigo, mas posso estar enlouquecendo.

Forço-me a tomar banho e vestir uma roupa para o tour. Não sei o que foi colocado na minha mala, então resolvo abri-la finalmente para descobrir. Ela esteve jogada num canto do quarto desde que cheguei, o que me lembra de que também preciso procurar pelo relógio que Lana me deu. Seja lá quem montou a minha mala, separou exatamente o que eu usaria. Escolho uma calça preta, botas, uma regata branca e, por mais que esteja quente, uma jaqueta. Ela cobrirá a arma que prendi no cós da calça. Escondo uma faca em cada bota e coloco as luvas. Pego a mochila e me preparo psicologicamente para o que quer que venha a seguir. Encontro o relógio jogado no chão perto da porta do banheiro. Eu devia estar com muita raiva ontem, porque isso é tipo do outro lado do quarto. Prendo meu cabelo em um rabo de cavalo e coloco um boné discreto, juntamente com meus óculos de sol favoritos. Mochila nas costas e armas escondidas, saio do quarto para o tour, já levando minhas malas. Não quero ter que voltar nesse quarto.

Os corredores do hotel estão vazios a essa hora do dia. A maioria dos turistas está ocupado fazendo seja lá o que turistas fazem. Vasculhando minha mochila encontro documentos falsos dizem que tenho 21 anos, o que não deve ser assim tão difícil de acreditar. Preciso alugar um carro, já que em caso de uma fuga apressada, táxis podem não ser a melhor opção. Ainda tenho a impressão de estar sendo observada em todo lugar que vou. Volto para o luxuoso saguão do hotel e pergunto a um dos recepcionistas onde posso alugar um carro, logo após do check-out. Ele me indica uma locadora há aproximadamente 100 metros do hotel. Agradeço e deixo o saguão. Desvio dos turistas amontoados batendo fotos ao redor da fonte do hall de entrada e me dirijo para a locadora.

Ao chegar, os atendentes me olham com cara feia, como se eu fosse nova demais para usufruir dos seus serviços. A locadora é grande e ampla, com uma enorme variedade de veículos disponíveis. Imensas janelas de vidro cobrem todas as paredes, deixando os raios de sol iluminarem o ambiente. Uma agradável brisa ventila o lugar, fazendo com que eu não pareça tão estranha por estar usando jaqueta nessa época do ano. Escolho um Jaguar sedan preto, potente o suficiente, tão discreto quanto necessário. O aluguel é um tanto “salgado”, mas não me importo com isso agora. Preencho alguns formulários usando minha falsa documentação e pago em dinheiro e adiantado, o que desperta algumas suspeitas. Ignoro os olhares desconfiados dos atendentes e recebo as chaves. Tenho sorte por Anthony ter me ensinado a dirigir quando tinha 14. Na verdade, eu sou um ótimo piloto. Aviões, barcos, carros, motos e helicópteros. Nada escapa. Os estereótipos dizem que mulheres são péssimas no volante. As pessoas só dizem isso porque nunca me conheceram...

Entro no carro. Ele cheira a couro e desinfetante. Ligo o ar-condicionado e dou partida. Uso o GPS para chegar até o Palácio e estaciono o carro na rua mesmo, no lugar mais próximo que consigo. Depois de pagar a entrada, junto-me a um guia que formou um pequeno grupo para a excursão. A entrada principal do palácio é através de um monumental portão com colunas, decorado com uma réplica do Portador da Taça, um afresco que fazia parte do conjunto chamado de Corredor da Procissão. O Palácio de Knossos é simplesmente... Um monte de pedras e restos do que um dia foram estruturas, mas nem isso direito. Grande parte do Palácio se perdeu por causa de catástrofes naturais, o que levou a uma “reconstrução imaginativa” do que ele um dia foi. Ou seja, grande parte do que estou vendo aqui não é de fato parte do Palácio, apenas o ideal de algum babaca de como ele era de verdade. O legal é que o isso aqui costumava ter 1.000 cômodos. Vou achar o fragmento bem rapidinho, com certeza...

Vagávamos por entre as ruínas e pedras já há algum tempo, cercados por grandes escadarias e pilares. A maior parte da construção havia sido restaurada. Logo atrás do meu grupo, vejo alguns homens me encarando. Normalmente eu não daria muita importância a isso, porém tenho quase 100% de certeza de que eles não estão me olhando porque sou bonita. Tento ignorar e manter o foco. Aperto o botão direito do relógio, que começa a fazer alguns barulhos estranhos. Ele analisa o lugar. As horas dão lugar a uma tela que se assemelha àqueles sonares de grandes navios, onde um pequeno ponto pisca, indicando aonde devo ir.

Sigo por entre grandes pilares vermelhos e restos de paredes. O chão é, na maioria das vezes, feito de pedra ou coberto com areia, o que está deixando as minhas botas pretas imundas. Os homens suspeitos continuam a acompanhar de longe. Cordões de acesso delimitam até onde os turistas podem ir, isso dificulta chegar perto dos lugares para procurar o fragmento. Sou obrigada a admitir, para um monte de restos de paredes de pedras e ruínas, até que esse Palácio é bem bonito. Continuamos caminhando por um longo tempo. O guia explica a história de cada cômodo e o que cada pintura, vaso e grão de poeira significa. Ele conta a lenda por trás do Labirinto do Minotauro, que acredita-se ter sido criada a partir da complexidade da planta do Palácio. O Labirinto teria sido construído para guardar esse ser mitológico. Coisas sem importância no momento, que eu ignoro completamente. Quando finalmente chegamos à sala do trono, fico um pouco decepcionada. Ela não tem nem 1/3 da grandiosidade que achei que teria. É apenas uma pequena sala com paredes vermelhas adornadas de desenhos. Um desses desenhos, segundo o guia, é um grifo, um animal alado mitológico com cabeça de águia e corpo de leão. Na Grécia, era muitas vezes considerado um guardião. Acredita-se que a Sala era usada, na verdade, pelas sacerdotisas, e não pelo rei. Ela possuía também uma notável cadeira no meio, o trono muito provavelmente.

Passo um bom tempo analisando a Sala, porém o relógio indica que o fragmento não está aqui. Ainda assim, demoro mais um pouco nessa parte do Palácio. Quando me dou conta, meu grupo já havia avançado e eu os perdi de vista. Longe do guia e das perguntas irritantes de uma senhorinha intrometida, resolvo seguir o rastreador. Viro aqui e ali, ignorando a lógica do Palácio. Subo e desço escadarias, entro em corredores e, depois de algum tempo procurando, estou totalmente perdida. Não faço ideia de onde estou ou de como volto para a entrada, mas darei um jeito nisso depois. Tudo que importa no momento é que o sinal está ficando cada vez mais forte no relógio. Os homens continuam a me seguir, o que está me deixando totalmente apreensiva.

Chega um momento em que eu admito para mim mesma que não conseguirei chegar mais perto do sinal. O rastreador indica que devo encontrá-lo na sala que estou agora. Ouvi um outro pessoal comentando que este é o Corredor da Procissão, o que me faz analisar a situação. Aqui foi um dos primeiros lugares que visitei... Esfrego a mão no rosto tentando não demonstrar o quão brava estou no momento. Se eu tivesse ligado a porcaria do rastreador logo que cheguei, eu já teria achado o fragmento. Que raiva! Ignoro a minha burrada e vasculho o lugar. Os cordões de acesso continuam a ser um problema para mim, afinal essa pedra pode estar em qualquer lugar. Olhei dentro de vasos, analisei as pedras das paredes e observei os grandes pilares. Nada do fragmento. Cheio de pinturas com significados religiosos e restos de paredes parecendo prestes a desmoronar, o Corredor da Procissão é bem vasto. Lembro da dica de Lana: Grandiosidade. O que me leva a analisar com mais cuidado um dos afrescos mais famosos desse lugar, o chamado Príncipe dos Lírios, localizado no fim do Corredor. É um desenho em relevo que foi interpretado como um rei-sacerdote vestindo uma coroa de pavão e um colar de lírios. Francamente? Curto visitar museus e ver obras de arte, mas isso não é o que eu classificaria como belo. Cores quentes se sobressaem na pintura, especialmente o fundo vermelho.

Espero alguns turistas ingleses que estavam batendo fotos perto da pintura saírem e chego mais perto. Meu relógio apita desesperadamente. Noto um pequeno ponto brilhante na coroa do rei. Um ponto vermelho. Ele irradia brilho, o que me leva a crer que aquilo cravado na pintura é o fragmento. Um vidro de proteção protege o afresco. Uso a parte de trás da pistola para quebrá-lo. Ninguém está por perto, graças a Deus. Os homens que me seguiam desapareceram misteriosamente também. O afresco é mais alto que eu, então sou obrigada a apoiar meus pés na moldura de madeira que tinha o vidro. Seguro a parte de cima da moldura, cuidado para não acabar cortando as mãos com um caco ou algo do tipo. Fico pendurada bem a frente da pintura enquanto pego uma das facas que tinha guardado nas botas. Uso-a para tentar desprender a pedra, passando a lâmina em movimento circulares ao redor do fragmento. Tento fazer isso o mais rápido que posso, já que a tarefa que estou realizando deve ser, no mínimo, ilegal. Depois de certo sufoco, finalmente consigo arrancar o fragmento da pintura, que fica com um pequeno buraco. Largo a moldura e coloco a Pedra na caixinha que Lana havia fornecido. O único problema é que aqueles homens que estavam me seguindo voltaram, e suas caras sugerem que eles não estão com vontade de me pagar uma bebida. Ou isso, ou suas caras sexys são péssimas.

Coloco a caixa de volta na mochila, caminhando rapidamente de volta para a entrada. Uma vez fora do Palácio, noto que os homens continuam a me seguir, agora com o passo apressado. Eles devem ser da Bowden. Quatro homens adultos, possivelmente armados, começam a correr atrás de mim no meio da rua, gritando para que eu parasse. Disparo pela calçada, desviando de turistas confusos. Sou rápida, mas eles também. Volto para o Jaguar, e eles entram numa BMW preta logo atrás do meu carro. Jogo a mochila no banco de trás, já acelerando como uma louca. Consigo sentir a potência do motor quando piso no acelerador, iniciando uma perseguição em alta velocidade. Desobedecendo todas as leis de trânsito do universo, piso fundo. Desvio de motos e dirijo uma boa parte do percurso na contramão. Apertada entre os carros, passo no meio de dois grandes ônibus turísticos, deixando para trás os retrovisores do carro, que agora também tem as laterais arranhadas. Quando acho que os despistei, ouço tiros. É, eles estão tentando me matar. Continuo dirigindo. Uma fila se formou no meu lado da pista, então me forço a passar para a contramão novamente. Seja lá quem esteja dirigindo o outro carro, não é tão bom quanto eu, porque tem bastante dificuldade para me seguir nessa pista. Avanço no sinal vermelho novamente, desviando dos tiros. Porém, minha roda traseira direita é atingida. Perco o controle do carro por um instante, mas recupero-o facilmente. Os homens continuam a atirar em mim, tornando o trajeto mais difícil. Cavalheirismo morreu, não é mesmo?

Cansada de ser perseguida e apostando que o cara da BMW não é um exímio motorista, consigo mantê-los afastados por alguns quilômetros, até uma parte mais afastada da cidade, perto de onde havia aterrissado ontem. Sem nada nem ninguém para atrapalhar minhas manobras, acelero mais ainda e giro o volante, virando o carro totalmente e correndo o risco de capotar. O Jaguar derrapa na pista, levantando a poeira da estrada de chão num giro de 180°. Agora estou de frente para os homens. Desço do carro rapidamente e abro a porta antes que me alcancem. As pessoas no carro continuam a atirar em mim, porém quando percebem o que vou fazer, já é tarde demais. Tomei cobertura na porta do carro e mirei nos pneus dianteiros da BMW, acertando os dois. O motorista nem tão habilidoso perde controle do carro, batendo numa árvore próxima da pista.

Corro em direção ao carro parado. O homem que dirigia está todo machucado e inconsciente, desmaiado em cima do airbag. O que estava sentado no banco da frente rastejava para fora do carro, tentando sacar sua arma. Os outros dois caras ainda estão dentro do carro também. Não sei o que deu em mim, mas me aproximo do homem jogado no chão. Revisto seu corpo à procura da arma e, com a pistola que encontro, atiro na cabeça dele, criando buraco bem no meio da sua testa. Uma poça escarlate começa a se formar ao seu redor. Sinto respingos de sangue no meu rosto, que eu limpo com a manga da jaqueta. Deixo o homem sangrando no chão e me apresso até o carro. Muita fumaça está saindo do capô, o que me leva a crer que possa pegar fogo daqui a pouco. Abro a porta do motorista e, a sangue frio, atiro nele também. Para ser sincera, matei o terceiro cara sem nenhuma razão aparente. Atirei nesses homens sem nem saber quem eram. Sem ligar que estavam inconscientes. Eu simplesmente os matei, só porque eu podia.

O quarto homem, entretanto, sai correndo do carro. Persigo-o pelo terreno arenoso. Vez ou outra ele se vira e tenta atirar em mim. Ele só conseguiu acertar o chão por enquanto. Quando finalmente o alcanço, pulo para cima dele. Nós dois caímos, rolando no chão. O cara consegue ficar em cima de mim, suas mãos apertando meu pescoço, me estrangulando. Ele deve pesar uns 80kgs, sendo a maior parte músculos definidos. Sinto meus pulmões ardendo, clamando por ar. Por um instante, me desesperei. Não sabia o que fazer enquanto aquele estranho estava acabando comigo. Debatendo-me no chão, minhas mãos encontram uma pedra, que bato com toda força na cabeça do homem.

– Sua vadia psicopata! — grita o homem, colocando as mãos na ferida que causei.

Levanto-me rapidamente, mas ele já tinha conseguido se recuperar. Ambos com armas em punhos, ele atira em mim e eu nele. Por sorte, minha mira era melhor. A bala atinge meu ombro esquerdo. Mais alguns centímetros e eu seria uma garota morta. Minhas balas, no entendo, atingiram seu peito. O homem cai de joelhos, com as mãos nas feridas. O sangue jorrando. Assisti a vida deixando seu corpo. Observei-o de forma doentia até que não havia nada além de um corpo pálido e ensanguentado para ser observado.

Enquanto isso, o capô havia começado a pegar fogo, e como numa cena de filme de ação, afasto-me lentamente do carro, até que ele finalmente explode. Mesmo de costas consigo enxergar a luz irradiada das chamas, o cheiro de fumaça invadindo meus pulmões. Não me importo que acabei de causar uma explosão, e muito menos que matei três pessoas a sangue frio e mais uma por questão de sobrevivência. Agora que a adrenalina baixou, noto que também fui atingida na barriga, muito provavelmente durante o tiroteio. A terra sujou minha jaqueta, se misturando aos respingos do sangue dos estranhos que acabei de tirar a vida. A dor finalmente me atinge, quase como um terceiro tiro silencioso. Minha garganta provavelmente está marcada com as mãos daquele estranho. Minha blusa está pesada e pegajosa por conta do sangue. Deixo a BMW queimando enquanto volto para o meu Jaguar arranhado e dirijo em direção à Ordem. A bala dentro do meu abdômen fazendo com que eu sente de um jeito estranho. Duas turbulentas horas se seguirão. Aperto o botão esquerdo do relógio e chamo por Lana.

– Quinn? Deu certo? Você está com o fragmento?

– Na minha mochila.

– Está tudo bem?

– Sim, Lana. Está tudo bem...

Por fim, acho que eu realmente estava sendo observada. Quem sabe eu não sou assim tão louca... Mas alguma coisa está muito errada comigo, eu só não sei o que é ainda.