Chosen: A Ascensão
10 Sequestro?
Dirijo por estradas vazias e sem fim. A dor me deixa tonta, e toda vez que resolvo checar como estão as minhas feridas, não enxergo nada além de borrões vermelhos. Minha cabeça pesa e parece prestes a explodir. Uso apenas a mão esquerda para dirigir, já que a direita está posicionada sobre a ferida na minha barriga numa ridícula tentativa de fazer pressão e evitar que todo o sangue do meu corpo saia através daquele buraco. Não aprecio a dor, o que torna cada vez mais forte a minha vontade de simplesmente encostar o carro no hospital mais próximo, porém não posso me dar ao luxo de agir com tamanha imprudência justamente agora que não sei mais quem é amigo ou inimigo. Entretanto, também seria imprudência da minha parte dirigir nessas condições. Seguro as pontas até encontrar um posto de gasolina, que não são os lugares mais glamorosos, mas não posso ser muito exigente. Paro o carro no estacionamento e vou até a loja de conveniência. As pessoas olham torto, não sabendo se deveriam me ignorar, ligar pra polícia ou chamar uma ambulância.
Vasculho as prateleiras à procura de álcool e gazes. Vou tentar remover as balas, o que começa a soar como uma péssima ideia toda vez que penso sobre isso. Pago por tudo e cambaleio lentamente até o imundo banheiro feminino. Paredes com azulejos manchados e quebrados, pisos cobertos por substancias fedidas que eu preferia não identificar e uma imensa quantidade de urina se espalham pelo banheiro. Pedaços de vidro e restos de garrafas cobrem o chão como tapetes. Os espelhos estão todos pela metade, impossibilitando visualizar qualquer coisa por inteiro. As luzes estão piscando, isso quando estão sequer ligadas. Checar as privadas me faz questionar se realmente estou no feminino, já que as mulheres não precisam “mirar” o buraco. Não tem como acertar o chão, mas ainda assim, o piso está quase tão horrendo quanto o cheiro do lugar. Quem dera urina fosse a pior coisa que tivesse passado por esses pisos. Resolvo sentar na beirada das pias, já que esse é o lugar mais limpo que vou encontrar. O esforço de tomar impulso para sentar me faz gemer e arquejar, mas continuo mesmo assim. Levanto a blusa branca manchada de vermelho, abro a garrafa de álcool e passo nas mãos. Respiro fundo antes de esterilizar a ferida, sei que isso vai doer. E muito. Despejo uma quantidade razoável do líquido sobre a pele enquanto contenho um pequeno gritinho e coloco uma gaze em cima do ferimento. Eu teria repetido o processo no meu ombro, mas dois homens entraram no banheiro. Ambos altos e corpulentos, vestidos de preto. Um deles era tão loiro e pálido que se assemelhava a um albino. O outro, no entanto, era o contrário. A pele, os olhos e os cabelos eram tão escuros quanto o céu noturno. Assim que apareceram no banheiro eu soube que eles não tinham entrado na porta errada. Pulo da pia e tento fugir o mais rápido que o meu estado debilitado permite, mas não é suficiente. O loiro me alcança e caímos no chão, deslizando pelo piso sujo. Em cima de mim, ele coloca um pano úmido sobre meu nariz e boca. Sei que o que quer que esteja umedecendo aquele trapo vai, muito provavelmente, fazer com que eu desmaie, por isso tento não inspirar enquanto o homem pressiona o pano e eu me debato em baixo dele, porém em certo ponto respirar se torna inevitável. Em questão de segundos, todo meu corpo começa a adormecer e a entrar em torpor, deixando-me completamente impotente diante da situação complicada em que me encontro. Sinto-me ainda mais tonta e, finalmente, apago completamente, ficando nas mãos de dois homens desconhecidos. Estou caminhando em direção a um destino desconhecido e potencialmente perigoso. Não há como saber o que vai acontecer quando eu acordar. Isso é, se algum dia eu realmente for acordar.
...
Tento me mexer, mas não consigo. Minhas mãos estão atadas com o que parece ser algum tipo de fita. Tento abrir os olhos, mas logo que os abro, a luminosidade excessiva do ambiente me faz fecha-los imediatamente. Não sei onde estou, porém olhando pelo lado positivo sei que não estou em baixo de sete palmos de terra. Meu ombro dói e minha barriga mais ainda. Alguém deve ter acertado a minha cabeça. Tenho quase 100% de certeza de que encontrarei mais meia dúzia de hematomas pelo meu corpo em estado deplorável. Pela textura, devo estar presa a uma cadeira de madeira. Cansada de adivinhar, abro os olhos lentamente, dando-os tempo para assimilar a luminosidade. Numa escala de 1 a 10, meu nível de atordoamento é 12. Nunca me senti tão desnorteada antes.
Quando finalmente consigo abrir meus olhos por completo, deparo-me numa sala pequena e muito mais iluminada do que o necessário. Tanto as paredes quanto o chão são feitos de um cimento sem qualquer tipo de cobertura, tornando o ambiente inteiro cinzento e sem vida. Além da minha cadeira, há apenas uma pequena mesa prateada na sala. Ela se assemelha àquelas mesas cirúrgicas. Sobre ela se encontram alguns objetos, no mínimo, perturbadores. Bem, são instrumentos de tortura, que eu espero encarecidamente que ainda não tenham sido usados em mim. Um calafrio percorre meu corpo. Ao olhar em volta percebo pequenas câmeras nos quatro cantos da sala e alguns (vários) respingos de sangue no chão. Como se não bastasse que alguém estivesse torturando pessoas nessa sala, esse mesmo alguém está registrando... Não sou nenhuma “senhorita sanidade”, mas isso é doentio demais.
Simplesmente não sei o que fazer, não sei o que pensar. Fui sequestrada, possivelmente torturada e Deus sabe o que mais. Não faço a mínima ideia de onde estou e a cada minuto que passa, lembro de mais um possível sequestrador. Anthony e Lana devem notar que demorei tempo demais para voltar para Ordem. Eles vão me procurar, certo? Só espero viver até que esse momento chegue. Mas se não me mataram ainda, acho que não o farão. Eu só queria voltar para Ordem. Isso é pedir muito? Ok, eu queria voltar para questionar Anthony sobre as loucuras e meias verdades que ele me disse. Quero entender o porquê de estar me sentindo tão estranha com Jared e várias outras coisas. Já estou sentindo falta da minha cama, para ser sincera. Devo admitir também que eu deveria estar apavorada agora, mas não estou. Tenho uma mistura de emoções dançando balé dentro de mim nesse momento, mas o medo faltou a essa aula. Nem toda bizarrice presente na sala e na situação conseguiram me intimidar. Não quero bancar a durona, apenas... Não sei explicar.
Numa ridícula tentativa de fuga, levanto-me. Presa, bato com a cadeira na parede, arriscando quebrar um osso, não a cadeira em si. Faço a mesma coisa de novo e de novo, mas tudo que consigo é quebrar duas das pernas. Continuo forçando a cadeira contra a parede até que apenas o assento e o encosto sobraram. Passo minhas mãos amarradas por debaixo do assento e depois pelas minhas pernas. Com as mãos para frente, procuro por um jeito de cortar a fita isolante que as amarra. Seleciono uma lâmina de bisturi que estava sobre a “mesa da diversão” e tento não pensar muito no assunto. Seguro uma das pontas enquanto esfrego a lâmina repetidamente sobre a fita. Minhas mãos doem pra caramba agora, estavam muito coladas e fui obrigada a enfiar a lâmina por entre elas para cortar a parte de cima da fita. Por mais que faça tudo isso com muita calma e destreza, chega um momento em que o sangramento se torna inevitável. Depois de me debater, conter gritinhos de dor e quase cortar minhas mãos fora, finalmente me liberto. Uma pequena brecha na fita foi suficiente para que eu conseguisse me soltar. Não sei onde estou, como sair ou o que vou encontrar, mas ficar aqui esperando é pior. Pego uma das facas sobre a mesa cirúrgica e deixo a minha prisão. Seja lá quem tenha me sequestrado não é muito cuidadoso (ou inteligente) para deixar todos aqueles objetos cortantes na sala ou a porta aberta. Tudo bem que eu estava inconsciente e tudo isso demorou uns dez minutos, mas eu não deixaria a minha vítima sozinha. Eu não me deixaria sozinha por nem um minuto sequer. Só Deus sabe como posso ser imprevisível.
Minhas mãos continuam sangrando, meu ombro dói e eu diria que a ferida na minha barriga está começando a infeccionar, mas agora não tenho tempo para choramingar. Dou de cara com um grande galpão totalmente deserto, de dois andares. Caminho um pouco pelo segundo andar e me aproximo da grade de proteção. Olhando para baixo vejo um carro ainda ligado parado no meio do galpão. Todas as luzes estão acesas, mas não há ninguém aqui. Eu não podia estar mais confusa. As paredes estão incrivelmente sujas, enquanto o chão está muito limpo. Todas as salas estão vazias, sem pessoas ou mobília. Desço uma pequena escada em espiral que me conduz para o primeiro andar. O chão está coberto de areia. Uma porta de madeira gigantesca está aberta, deixando entrar a luz do luar. O motor do carro ligado, as luzes acesas, tudo aberto... Isso é muito estranho. É quase como se quem quer que tenha me sequestrado quisesse que eu escapasse.
O primeiro andar está tão vazio quanto o segundo. Algumas mesas de madeira se espalham pelo galpão, mas não há nada sobre elas. E é aí que me dou conta: O fragmento sumiu. Não faço ideia de onde colocaram o Jaguar que eu dirigia, mas algo me diz que meus sequestradores possuem a mochila. Ou seja, tudo o que eu passei nos últimos dias foi em vão. As paranoias, os momentos psicopatas, os tiros e sequestros, nada adiantou. Estamos de volta à estaca zero, com a diferença de que o inimigo está em vantagem. Uma raiva absurda invade meu corpo novamente, o que me faz sair destruindo as mesas e gritar sozinha. Não há nada nesse galpão que possa trazer o fragmento de volta. Não entendo o que está acontecendo ainda. Por que alguém simplesmente me largaria aqui? Isso não faz sentido algum. Nada nos últimos dias fez sentido, na verdade. Se escapar é o que querem que eu faça, não posso decepcionar.
Entro no carro e saio do galpão de ré. Noto que meu relógio também sumiu, o que impede minha comunicação com Lana. Mas que diabos aconteceu comigo? Não sei o modelo ou a marca do carro, e para ser sincera eu não me importo. Ele anda e tem gasolina suficiente para que eu dirija por aí até me situar. Sei que a Ordem fica na parte Oeste da Ilha, então devo conseguir chegar até lá seguindo a Lua, que nasce a Leste e se põe a Oeste, assim como o Sol. Partindo desse princípio, uso as dicas de Anthony para dirigir em direção à Sede. Sempre preferi usar o GPS de qualquer jeito...
Sentada totalmente desconfortável no banco do carro, sinto minhas mãos sujando o couro do volante. Sempre fui bastante resistente à dor, mas não lembro a última vez que me machuquei assim tão feio. A tontura vai e volta toda hora, deixando minha mente num caos completo. Não consigo parar de pensar nas palavras de Anthony e na estranha briga que ele e Joseph tiveram. Quero saber quem me roubou/sequestrou e, mais que isso: quero saber como me encontraram. Sinto um certo desgosto, uma sensação de derrota e humilhação por ter falhado. Recursos e tempo foram desperdiçados comigo. Coisas grandes estão para acontecer e eu tenho um pressentimento de que elas já começaram. Como a reação em cadeia de derrubar uma peça da imensa fila de dominós, uma vez iniciadas, essas coisas não pararão até que a última peça tenha caído. Eu só espero não ser uma das peças caídas pelo caminho.
O sol estava quase nascendo quando finalmente encontrei uma das rodovias principais de Creta e pude fazer maiores progressos. A dor, o atordoamento e a confusão já haviam tomado conta do meu corpo e mente novamente no momento que cheguei à Sede. Estacionei o carro quase dentro do edifício da BS e fui cambaleando até a entrada principal. Todos os atendentes, recepcionistas e seguranças ficaram abismados com o meu estado. Na verdade, nem eu sabia direito qual era o meu estado. Caio de joelhos em pleno saguão, exausta. O piso de mármore gelado aliviou minhas dores por um instante. Fico jogada lá no chão até a chegada de Jared, Lana e parte do Conselho. Como era de se esperar, Joseph e Anthony não estavam lá. Todos me faziam perguntas, gritavam, chamavam pessoas e tentavam me levantar. Eu já não sabia mais diferenciar o real do imaginário. Não entendia nada do que estavam dizendo para mim. Tudo estava borrado. Jared e Lana tentavam falar comigo. Ambos estavam boquiabertos, suas expressões quase gritavam: “Quinn, você está péssima”. Já não sei mais quem são meus amigos ou não, as palavras de Anthony me deixaram apreensiva. Sei que cuidarão de mim aqui, só não sei por quanto tempo. Alguém me carrega para a Ala Hospitalar enquanto começo a ficar desesperada com o fato de precisar explicar o que aconteceu nos últimos dias. Como se explica o que eu fiz? Como se explica o que aconteceu?
Colocam-me numa das macas da Ala Hospitalar da Ordem. Pessoas estão por todos os lados, elas fazem perguntas, eu sei que fazem. Mas não consigo diferir as palavras, em parte porque não quero. Não sei como vou contar o que aconteceu ou para quem vou contar, porém não vai ser aqui nem agora. Quando enxergo Jared conversando com o Conselho de longe, sei o que preciso fazer. Nesse momento tudo é questionável, mas uma certeza prevalece: Algumas coisas simplesmente não foram feitas para serem explicadas.
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