É tarde da noite e eu não dou a mínima. Eu simplesmente não me importo. A essa altura, a Bowden e a BS poderiam bombardear o mundo inteiro e eu não estaria nem aí, desde que me salvassem algumas garrafas de vodka. Uma semana já se passou desde que dei um fora no Alex e ele não falou comigo nem uma vez sequer. Bem, digamos que Elijay foi a única pessoa com quem realmente conversei nesses últimos dias. Fomos a todos os possíveis bares e festas da Ilha, bebemos até cair e ignoramos tudo ao nosso redor. Lana me disse que encontrou a localização do próximo fragmento, mas eu não fiz nada em relação a isso. Anthony tentou falar comigo também, porém agora sou eu que não quer falar com ele. Não há nada que ele possa dizer que não pudesse ter sido dito anos atrás. Um dia a mais, um a menos. Agora tanto faz. Sou incapaz de fazer boas escolhas e só tenho más ideias.

Todos os meus problemas foram provisoriamente resolvidos por uma garrafa de Ciroq, meus amigos Jack Daniels e Johnnie Walker, a companhia de Elijay e uma música repetitiva de algum DJ americano esquisitão. Eu e James estamos numa das mais animadas festas de Creta, cercados de pessoas bonitas, ricas e incrivelmente bêbadas. Estive me empenhando a semana inteira para encontrar uma garota que Elijay aprove, mas não obtive sucesso. O cara é exigente. Estrategicamente localizados perto do bar, James e eu observamos as luzes fluorescentes, as garotas com roupas curtas e os caras me encarando. A música alta, os beat drops e constante troca de luminosidade e cores me deixa um pouco entorpecida. Longos tubos coloridos como pilares dão um toque especial ao clube. Dois andares de gritaria, bebida e cheiro de gelo seco daquela maldita fumaça que os DJs insistem em colocar nas festas. O piso está escorregadio, mas grudento ao mesmo tempo. Graças a Deus ele é preto, então não sei que tipo de substância está denegrindo a maravilhosa textura do meu Jimmy Choo favorito. Elijay, como sempre, veste roupas caras (e absurdamente estranhas). Apesar do péssimo senso de moda, muitas garotas já lhe lançaram olhares interessados, porém ele as ignorou.

– Que tal aquela morena perto da escada? – Pergunto, apontando uma garota com longos cabelos negros e um decote generoso, visível de longe. Elijay balança a cabeça em discordância. Reviro os olhos. – Por que não?

– Ela não é meu tipo... – Diz ele.

– Você prefere as loiras, então? Qual o seu tipo?

– Bem, qual o seu tipo? – Pergunta ele, sorrindo. Penso um pouco antes de responder.

– Sendo bonito, pouco importa se é loiro ou moreno. – Falo, rindo.

– É, esse é o meu tipo também. – Levo certo tempo para raciocinar o que ele acabou de dizer.

– Espera... Você... Ah! – Exclamo. – Você é gay? – Ele apenas me encara com uma expressão como “você não sabia?”. – Sério? – Pergunto, não acreditando. – Por essa eu não esperava...

– Ah, Quinn. Por que você acha que eu fiquei tão interessado no seu amigo Alex? – Depois de pensar um pouco sobre isso, faz muito sentido.

– Céus, você não quer ficar com o Alex... Acredite, não vale a pena. – Elijay ri. – Ah, mas sério? Você não parece gay...

– Quinn, nem todos os gays usam rosa, se vestem como mulheres ou falam de forma afeminada, sabia? A sociedade pode colocar muitos estereótipos nas pessoas. E para ser sincero, eu gosto de mulheres também.

– Como assim? Isso parece confuso...

– Na verdade, não. Eu fico com o que aparecer, mas tenho uma preferência por caras... – Fala ele, rindo.

– Entendi.

Rimos bastante e dançamos e bebemos como se não houvesse amanhã. Ignorei todas as ligações de Anthony, Lana e Alex. Depois que eles começaram a ligar para Elijay, tive a impressão de que alguma coisa importante deve ter acontecido, mas mesmo assim continuei ignorando-os. Eu estava bem mais alterada que James, por isso cabia a ele tomar as decisões sábias, tipo voltar para a Ordem depois das quase 15 ligações de Anthony:

– Quinn, devíamos voltar. Parece importante...

– Jamie, não. Eu tô nem aí se eles precisam de mim.

– Nós vamos embora.

Não importou o quanto eu gritei, esperneei e declarei meu ódio profundo por James, ele ainda me arrastou até um táxi. Elijay pediu ao taxista para fazer uma parada no posto, onde ele comprou água, salgadinhos de máquina e mais umas coisinhas para tentar cortar uma parte do efeito do álcool. A corrida deve ter levado uns 40 minutos no total.

Assim que o táxi parou em frente à Sede, eu soube que algo estava errado. Eu deveria ter estado aqui. Eu deveria ter voltado, ter ficado, ter me importado. No momento que pisei no terreno da Ordem, eu soube que eu não teria mais uma casa. Que o mundo como eu conhecia havia acabado. Ninguém pode me destruir, mas podem destruir quem sou, quem fui e quem serei. Elijay e eu nos entreolhamos, decidimos entrar e entender o que estava acontecendo. Tentamos ligar para alguém, mas os telefones estavam fora de área.

O vidro da fachada estava estilhaçado. O mármore branco do hall de entrada estava sujo e ensanguentado. As luzes piscavam e corpos de conhecidos e desconhecidos estavam jogados aqui e ali, contorcidos e sem vida. O sangue jorrando de seus ferimentos recentes. Mortos, todos eles. Pegamos as armas de alguém jogado num canto. Não sei o que está acontecendo, mas nada de bom, com certeza.

Caminhamos pelo saguão vazio e mal iluminado, tentando analisar os rostos pálidos e torcendo para que não fossem de alguém conhecido. A bagunça na Ordem era indescritível. Pessoas corriam, gritavam e atiravam uma nas outras. Eu não conseguia diferir os amigos dos inimigos. Quem é quem? Sorrateiramente subimos os andares do Alojamento A, porém o caos foi a única coisa que encontramos. Troquei os saltos pela minha roupa de combate preta. Elijay não quis se trocar. Conforme avançávamos pela Ordem, víamos mais corpos, agora de guardas. Reconheci um ou outro colega da Academia de Combate. Havia também alguns corpos vestidos de preto com uma braçadeira vermelha. Bowden. Claro que eles têm alguma coisa a ver com isso. Ouvimos passos apressados, então nos escondemos atrás de alguns arbustos. James e eu obervamos um garoto, de no máximo 16 anos, executar uma garota da BS. Ele usava a braçadeira da Bowden. A adrenalina corria pelas minhas veias, o que me fez agarrar um caco de vidro do chão e partir para cima do garoto, cortando sua jugular. Elijay ficou surpreso com a minha frieza, mas não me impediu de acabar com aquele maldito invasor. Assisti seu sangue lentamente manchar o chão de escarlate, a vida deixando seu corpo.

Encarando o que fiz como o ato doentio que foi, devo admitir que tirar a vida daquele menino fez com que eu me sentisse um pouco melhor em relação a todos os membros que morreram hoje tentando defender sua casa, sua Ordem. E pensar que eu estava fazendo besteiras enquanto isso tudo acontecia... Pude sentir a culpa invadir meu corpo e me deixar para baixo, completamente tensa. Onde estão os outros? Limpo as mãos sujas de sangue e continuo caminhando como se nada tivesse acontecido. Às vezes eu me assusto comigo mesma. Quem faz isso? Digo, Deus, eu matei alguém e me senti bem com isso. A raiva e a desejo por destruição apenas aumentavam conforme eu via os estragos causados pela Bowden.

Avançamos pela Ordem, já acostumados ao cenário pós-guerra. Vez ou outra, encontrávamos alguém vivo, mas não demos muita importância a isso. A Bowden nos ignorava, então nós ignoramos a Bowden. A guerra começou. Ao nos aproximarmos do Alojamento dos Conselheiros, vemos uma cena bizarra. Uma fileira de quatro corpos alinhados, como se tivessem sido executados há pouco tempo atrás. Helena e Raphael jaziam mortos, lado a lado. Uma bala no crânio de cada um. Elijay expressava todo o pânico e horror que a situação exigia. Eu, por outro lado, não sentia nenhuma dessas duas coisas.

– Meu Deus... – Sussurrou James, não para alguém específico. Ele estava apavorado. – Como podem fazer uma atrocidade dessas, Quinn?

Não respondo. Depois de analisar os outros dois corpos, reconheço-os. Eram apenas guardas comuns, muito provavelmente fazendo seus trabalhos. Nenhum deles merecia morrer. A vida é justa? Não. Mas isso não está certo. A Bowden e a BS não tiveram nenhum tipo de conflito direto nos últimos 150 anos. O que os levou a atacar desse jeito nada sutil, no meio da noite, quando ninguém os viu chegando? O que eles queriam?

James sugere que olhemos os quartos dos Conselheiros, para nos certificar de que não estão mortos, presos ou algo do tipo. Quando entramos no quarto de Anthony, um alívio coletivo percorre meu corpo. Eles estão bem. Ao me ver, nenhuma das pessoas presentes esboça um sorriso, apenas uma expressão de desgosto profundo. Anthony está sentado ao lado de Lana e Alex. Seu braço está numa tipoia. Olho em volta. Devem haver umas 10 pessoas reunidas no quarto, todas tristes, sujas e machucadas. Dominik, por exemplo, está atirada num canto, chorando rios de lágrimas. Lana está um pouco suja, seu joelho esquerdo está ralado, mas tirando isso, parece intacta. Alex, por outro lado, parece que acabou de voltar da guerra. Sua roupa está em farrapos, o rosto inchado e as mãos pressionando uma ferida no abdômen.

– QUINN FABREY! – Grita Anthony, claramente irritado. – Onde você esteve? Como pôde ignorar nossas ligações?

– O que aconteceu? Vocês estão bem? – Pergunto, preocupada. Ninguém responde.

– Você entende o quão egoísta suas ações foram? Pessoas morreram por sua causa! DE NOVO! – Como assim “de novo”? – Fomos massacrados!

– O que houve? A Bowden nos atacou? Ainda vamos conseguir reparar a Ordem, certo?

– Não há mais Ordem. – Diz Anthony, calma e lentamente. – Somos tudo o que restou. Os que não eram membros da Bowden disfarçados, ou trocaram de lado ou morreram. Nós somos os únicos que sobraram. – Ao ouvir isso, Lana começa a chorar. Lágrimas e mais lágrimas escorriam pelo seu pequeno rosto, misturando-se aos lamentos das outras pessoas espalhadas pelo quarto.

– Isso não está certo, Anthony. Eles não podem simplesmente entrar aqui e acabar conosco. – Diz Elijay.

– Senhor James, eles não podem, mas fizeram.

– Mas por quê? O que eles queriam?

– A Bowden usou Joseph como porta-voz. Disseram que se não entregássemos Quinn Fabrey e mais alguns objetos relacionados as nossas pesquisas, eles invadiriam a Sede. Tentamos negociar, mas nada funcionou. Agora não temos para onde ir. Não conseguimos contato com as outras Sedes, não temos como sair da Ilha e nossos membros se resumem a esta sala.

– O que está acontecendo, Anthony? – Pergunto

– Quinn, agora não. Temos problemas maiores do que a sua curiosidade.

– Anthony. – Diz uma voz masculina no fundo do ambiente, isolada. Era Sebastian. – Ela tem o direito de saber. Só assim vai poder nos ajudar.

– Quinn Fabrey já fez suficiente. – Responde Anthony, rispidamente. – Precisamos sair daqui. — Sento-me ao lado de Lana, tentando acalmá-la.

– Lana, vai ficar tudo bem... Vamos nos recuperar, você sabe disso. — Minto.

– Isso é tudo culpa sua! — Diz ela, entre soluços

– Eu sei um lugar onde podemos ir... — Fala Sebastian, repentinamente.