Chosen: A Ascensão

19 O castelo nas montanhas


Ninguém está falando comigo. Elijay está completamente horrorizado e parece ter perdido a habilidade de falar depois que ele e Anthony saíram pela Ordem para uma ronda. Lana está me evitando, ao passo que eu estou evitando Alex. Anthony nem olha para mim. Sebastian evita todo mundo, o tempo todo, o que não mudou com a nossa situação atual. Os outros nesse quarto também me ignoram. Sinto a culpa pesar sobre meus ombros. Muito esforço vai ser requerido para aguentar tudo isso. Assim como a Pedra, eu fui fragmentada em vários pedaços que não sei onde estão. Alguns já foram achados, outros ainda não foram encontrados. O caminho para a felicidade e a verdade vai ser longo e doloroso. Eu queria poder voltar no tempo, voltar para quando tudo era muito simples. Agora sinto que estou a apenas alguns passos de perder a cabeça com a complexidade das coisas. Ninguém me treinou para isso. Ninguém me disse o que fazer quando a morte bater na porta. Não me ensinaram como desvendar essas verdades, e, o mais importante: não me disseram como ser feliz. No fim das contas, era isso que eu sempre quis.

Estou tentando acobertar os estragos do meu egoísmo, apagando as feridas causadas por uma Quinn Fabrey que não se importa com ninguém além dela própria. Não sei por que me culpam, mas eles culpam. Não sei o que eu poderia ter feito para impedir os eventos dessa noite. Para ser sincera, não entendo o que aconteceu e não faço ideia do porquê de eles terem invadido, o que queriam ou o que levaram. Por que sempre é tão difícil para as pessoas me contarem o que está acontecendo? Nada é justo, basta olhar em volta para entender isso. Estou farta de esperar pela boa vontade das pessoas para me tirar do escuro. Eu sou uma bomba relógio contendo minha raiva dentro de mim. É só uma questão de tempo até que eu exploda. Eles querem guardar esses segredos, preferem mentir a contar a verdade, mas ninguém consegue ficar de bico calado para sempre. As mentiras um dia são reveladas, com o tempo elas caem, passam a nos deixar loucos, transformando nossas vidas em verdadeiros infernos. Eu declaro esta uma situação de emergência. Pessoas estão morrendo e a culpa pode ser minha. Estou cansada de ter que filosofar sobre verdades e mentiras...

Levanto-me da cadeira que estava sentada, caminhando em direção a Lana. Ao sentar ao seu lado, antes mesmo que eu pudesse abrir a boca, a cientista já havia levantado, deixando-me sozinha. Em seu rosto uma expressão de desprezo profundo. Não sei como as coisas ficaram tão conturbadas em questão de uma semana. Resolvo tentar falar com Elijay, mas não foi preciso nem chegar perto dele para perceber que não havia condições de conversarmos agora. James está sentado no chão, encolhido contra a parede. Boquiaberto, pasmo e muito, muito pálido. Melhor deixá-lo absorver o choque disso tudo. Ao tentar me aproximar de Anthony, ele grita comigo. Diz que não quer conversar, que tem coisas mais importantes para fazer e que eu deveria parar de incomodá-lo. Cansada de ser ignorada, sento-me ao lado de Alex, o único que provavelmente ainda não me odeia. O ferimento em seu abdômen já foi limpo, mas suas roupas ainda estão horríveis. Agora com o rosto bem menos inchado, posso enxergar seus traços novamente. Os olhos claros, os lábios bem desenhados, o olhar perdido em algum ponto do quarto... Foco, Quinn, foco.

– Você é triste. – Diz ele para mim depois de um tempo sentado ao meu lado. Não sei se entendi o contexto. – Não é o seu olhar, poucos sorrisos ou falta de empatia perante o mundo que comprova isso. É só que... Você é triste e esteve sozinha por muito tempo. O pior disso tudo é que você não admite. – Alex se vira para mim. Seus olhos verdes fixos nos meus olhos verdes. – Não admite que está sozinha, que precisa de alguém. Você finge estar bem, mente para todo mundo, mesmo para aqueles que só querem te ajudar. Pior que isso, você mente para si própria, e ainda reclama das mentiras alheias. Você não me engana mais, Quinn. Estou cansado de lidar com isso. E mesmo depois de tomar consciência disso tudo, meus sentimentos por você permanecem inalterados. Eu devo ser muito idiota. – Alex também vai embora. De todas as pessoas que já conheci, eu jamais esperaria por isso. Sempre achei que ele estaria garantido, sempre ao meu lado. Pelo visto estava errada, porque não há ninguém do meu lado agora. No entanto, ele estava certo em alguns pontos. Eu não sou triste, eu estou triste. Estive sozinha por tempo demais. Eu disse que estava tudo bem quando não estava. Agi como se não me importasse com nada e que não precisasse de ninguém. E no final, todo meu eu desmoronou. Estou cansada de ser forte. Agora é o momento em que eu escutaria Mr. Lonely repetidamente durante toda a noite. Tenho uma vontade bem forte de desabar no chão e eliminar toda a água do meu corpo através de lágrimas, mas tem gente demais aqui e eu sou Quinn Fabrey. Quinn Fabrey não chora quando as coisas complicam, ela vence os obstáculos, independente de quais sejam. Anthony me ensinou isso...

Sinto os olhos de Sebastian sobre mim. Ele disse que me contaria o que está acontecendo, mas agora que estamos aqui presos com Anthony, duvido que isso aconteça. Se eu tivesse apenas alguns minutos sozinha com ele, garanto que conseguiria fazê-lo falar. Sebastian me incomoda porque não consigo decifrá-lo. Não consigo perceber o que está sentido ou presumir o que se passa em sua mente. Ele não faz sentido. Suas ações não condizem com sua postura, e eu não faço ideia do que ele esperava que acontecesse quando retornasse de onde quer que estivesse. Novamente, a sensação de conhecê-lo volta. A vontade de ficar observando-o também. Não há um jeito melhor de descrevê-lo: Sebastian é simplesmente hipnotizante. Em certo ponto, nossos olhos se encontram, mas ninguém desvia o olhar. Ambos ficam se encarando de longe, tentando decifrar um ao outro. “Quem é você?”. “O que está pensando?”.

Sem Anthony, sem Ordem, sem Jared, Alex e sem Academia, eu não tenho nada a perder. Estou presa aqui sem propósito, sozinha e me sentindo mal. E o pior disso é que a culpa é toda minha. A parte da Ordem pode não ser, mas ter afastado todo mundo que já gostou de mim, sim. Quero me curar disso tudo. Quero sentir algo real, aquilo que estive procurando desde sempre, porém nunca encontrei. Novamente, vazia, incompleta, e agora sem propósito. Estou exagerando? Talvez. Mas ainda me sinto assim, por mais que não dê o braço a torcer.

Eu não tenho mais nada para dizer.

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Estamos os seis trancados dentro de uma minivan há uma quantidade de tempo razoavelmente grande. Anthony está dirigindo, Sebastian está ao lado com um mapa, dizendo as direções. Eu e Alex sentamos no banco de trás, enquanto Lana e Elijay sentaram nos últimos dois bancos. Não faço ideia de para onde estamos indo, afinal ainda estou sendo ignorada. O clima no carro está tenso e pesado. Ninguém abre a boca para falar absolutamente nada, com exceção de Sebastian, que ocasionalmente diz: “vire a direita” ou “vire a esquerda”.

Observo as árvores passando através da janela. Conforme avançamos, a temperatura cai e o terreno torna-se cada vez mais rochoso. Estamos subindo. Começo a sentir a pressão afetar meus ouvidos. Uma forte dor de cabeça me deixa tonta e sonolenta. Minhas pálpebras pesam mais do que eu consigo aguentar, até que lentamente apoio a cabeça na janela e durmo sem me preocupar com o que virá a seguir.

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– Quinn? – Diz calmamente uma voz masculina. Sinto uma mão no meu ombro esquerdo. Por um momento, achei que fosse Alex, mas assim que meus olhos se adaptaram a luminosidade do amanhecer, percebo que é Sebastian quem me acorda. – Chegamos.

Saio do carro ainda sonolenta, tentando assimilar onde estou. Grandes montanhas cobertas por árvores me cercam. Estamos alto, muito alto. Aqui a temperatura está um tanto mais baixa, o que faz calafrios percorrerem meu corpo. A vista é incrível. Pássaros sobrevoam nossas cabeças, cantarolando. Lentamente, a natureza começa a ganhar vida conforme o sol surge no horizonte. Um enorme castelo antigo ergue-se junto às montanhas. As pedras com as quais ele foi construído indicam que este esteve ali por muito, muito tempo, mas mesmo assim, os anos não o desfavorecerem. O castelo é maravilhoso. Composto por três grandes torres e arquitetura antiga, a construção me traz a sensação de que já estive aqui. Minha dor de cabeça aumenta drasticamente conforme me aproximo do castelo, causando alucinações. Consigo me imaginar dentro dele, sorrindo e correndo quando menor, o que é impossível. Nunca estive aqui, e mesmo depois de repetir isso para mim mesma pelo menos mais dez vezes, a sensação continua.

Todos os membros restantes da Sede de Creta se reuniram em frente ao castelo. Anthony tomou a dianteira com um discurso já na ponta da língua, apropriado para acolher e animar as pessoas que acabaram de perder não só sua casa, como muito provavelmente seus amigos, colegas e familiares também. Sem nenhum esforço, o Conselheiro chama a atenção de todos e começa seu discurso.

– Hoje, nossa casa foi destruída. Tudo aquilo pelo que lutamos tão arduamente para construir foi tirado de nós por aqueles que não têm nada além da ganância em seus corações. A Bowden tirou nosso poder, tirou nossos recursos e acabou com nossa força de vontade. Nós desistiremos? Não. Acima de uma Ordem, somos uma família. Nossos aliados no restante do mundo vão precisar de toda a força que conseguirem encontrar para acabar com essa organização que pretende semear nada além da desgraça pelo mundo. Então, se precisarem de um propósito, eu lhes darei um: A BS. Se precisarem de motivação, encontrem-na onde conseguirem. A essa altura, pouco me importa se é desejo por vingança ou justiça. Eles podem destruir tudo que temos, mas jamais poderão destruir quem somos. E nós vamos nos reerguer, independente dos obstáculos em nosso caminho. — Ao ouvir essa frase, esboço um pequeno e quase imperceptível sorriso. — Somos uma família, e uma família se ajuda quando coisas ruins acontecem, tanto que já aconteceram antes e agora aconteceram de novo. Tivemos perdas que nunca poderemos reparar. Nosso dia chegará. Por ora, devemos nos focar em ajudar os feridos e nos planejar. Se alguém quiser desistir, por favor, vá em frente. Não há lugar para covardes aqui. – Ninguém mexe um músculo. Todos prestam muita atenção nas palavras de Anthony. – A guerra começou. Preparem-se. – O Conselheiro passa a palavra para Lana.

– Então, como a maioria de vocês já deve ter percebido, estamos em Lefká Óri, também conhecida como Montanhas Brancas. Esta construção que vocês veem atrás de mim foi um dos refúgios utilizados por nossos ancestrais durante as revoltas do período otomano. A Ordem vem utilizando esse castelo isolado por muito tempo, porém ninguém esteve aqui há milhares de anos. Estaremos seguros. Pode demorar um pouco até darmos uma limpada e nos acomodarmos, mas essa será a nossa nova casa. Cuidem bem dela. Tudo vai ficar bem. – Diz Lana com um pequeno sorriso.

Todos caminham em direção ao castelo, ansiosos para explorá-lo. Lana está certa quanto a estarmos seguros aqui. Duvido que alguém se lembre desse lugar, sem contar que a cor da pedra utilizada na construção é quase idêntica a cor da montanha, o que já fornece certa camuflagem. Escondidos por diversas árvores e rochas, vamos ficar bem nesse lugar, pelo menos por enquanto. Volto para minivan e pego uma bolsa com alguns pertences que tinha separado na Sede. Ao passar por Anthony no arco de entrada, ele pede que eu espere aqui fora até que o restante das pessoas entrem. Quando um pequeno grupo se reúne em frente a entrada, Lana se pronuncia.

– Estamos muito ferrados.

– Alguém pode me explicar o que aconteceu? Sinceramente, estou cansada de ser culpada por algo que eu não sei o que é! – Falo.

– Não temos tempo para explicações agora, Quinn. – E com essa ríspida resposta, Anthony e os outros ficam imersos em uma discussão.

– O que eles levaram? – Pergunta Alex.

– Além dos fragmentos que tínhamos, A Caixa, todas as informações em nossos computadores e só Deus sabe o que mais... – Responde Anthony.

– Não faz sentido terem nos invadido. Pelo menos não agora. – Diz Sebastian.

– O esquema deles foi revelado. Joseph e Jared foram descobertos. – Fala Dominik com sua voz estridente. Nem tinha visto que ela estava aqui também. Na verdade, tinha esquecido ela faz parte do Conselho, ou o que sobrou dele.

– Ainda assim, eles não tentaram contornar a situação. Tudo isso está muito estranho. – Reforça Sebastian.

– Foi por causa da Solução. Só pode ter sido. Quando ela acabou, ninguém soube o que fazer. Tanto a Bowden quanto a BS se sentiram ameaçados com a possibilidade de Quinn se lembrar. – Diz Anthony.

– Me lembra do quê?! – Toda essa falta de informação é realmente muito irritante. Sou ignorada.

– Tudo tem que ser sobre ela? – Grita Lana, perdendo a cabeça. – O MUNDO NÃO GIRA EM TORNO DE QUINN FABREY!

– Nesse momento, gira. – Fala Dominik. – Tudo isso está acontecendo por causa dela.

– Por que ela não morre logo?! Devíamos matá-la, isso nos pouparia muito esforço. Ah, Quinn Fabrey explodiu um laboratório. Quinn Fabrey matou uma pessoa. Quinn Fabrey causou uma guerra. Quinn isso, Quinn aquilo. Por que vocês não conseguem enxergar que ela só nos atrasa?! – Grita Lana, ainda exaltada. Não acredito que ela está falando essas coisas.

– Lana, acalma-se imediatamente. Percebe as loucuras que está dizendo? – Fala Anthony.

– Eu estou cansada de viver em função de Quinn Fabrey! Isso é tudo culpa dela! – Diz Lana, apontando para mim. Irritada, ela abandona a discussão e entra no castelo. Alex a segue. O silêncio que acompanha sua saída apenas piora o clima entre os membros. Se já me sentia horrível antes, as palavras de Lana conseguiram piorar o meu estado.

– Quais seriam os efeitos colaterais causados pela falta da Solução? – Pergunta Sebastian, com cautela.

– Eu não faço ideia. – Responde Anthony.

– Robert poderia responder... – Fala Dominik

– De jeito nenhum. Nós dois sabemos que Robert não pode nada. – Diz Anthony, claramente irritado pela menção a Robert. – Vamos ficar de olho. Algumas partes da memória dela devem voltar, mas com sorte será só isso.

– Anthony, nós precisamos falar o que está acontecendo. Não podemos continuar a deixar Quinn no escuro. Ela precisa saber. A sorte não está a nosso favor agora. – Alega Sebastian.

– Sebastian, não se atreva a contar! – Grita Anthony.

– Tente me impedir.

Sebastian sai de perto de Anthony e Dominik, indo em direção a entrada do castelo. Porém, ao invés de entrar, ele se aproxima de mim e agarra meu braço, arrastando-me para dentro.