Chosen: A Ascensão
5 Instruções
Quando acordo, o sol ainda nem nasceu. Tenho uma dor de cabeça infernal e meu corpo todo está lerdo, parecendo pesado. Sinto uma inexplicável vontade de vomitar tudo que comi nas últimas semanas, mas seguro as pontas. Estou deitada na minha cama, ainda usando o mesmo vestido vermelho de ontem. "Como cheguei aqui?" é uma das várias perguntas que transtornam minha mente no momento, já que ainda não assimilei muito bem o que aconteceu nas últimas 7 horas. Se estou de ressaca? Sim, eu estou. Não me orgulho de ter bebido demais, mas Jared conseguiu me tirar do sério. O motivo agora me parece bem fútil, porém ainda espero um pedido de desculpas. Céus, eu devia ter sido menos dramática quanto a isso, mas não consigo evitar, o drama faz parte de mim, e se existe alguém nesse mundo que entende essa parte de mim, é Henning. Só Deus sabe como ele pode ser tão dramático quanto eu.
Levanto e cambaleio até o banheiro. Abro a porta devagar e me recuso a olhar no espelho. Não quero nem ver meu rosto. Minha cara de ressaca é a pior de todas. Depois de praguejar e resmungar, me ocorre que olheiras deveriam ser a menor das minhas preocupações no momento. Tenho uma missão para me preparar, ordens para executar, inimigos para enfrentar. Quem se importa com olheiras numa hora dessas? Eu. Afinal, de quê adianta uma vitória na missão se minha aparência clamar derrota? De nada, eu diria, mas tenho a leve impressão de que o Conselho deve discordar. Tudo bem, é difícil compreender que, na realidade, há apenas uma pequena linha tênue separando o sucesso absoluto do fracasso completo.
Tiro o vestido lentamente, levando em consideração que todo e qualquer movimento aprofunda minha dor de cabeça e traz de volta a vontade de abraçar o vaso sanitário. Entro no chuveiro e espero a água quente escorrer minha ressaca pelo ralo.
Depois de alguns minutos embaixo d'água, lembro que partirei hoje a tarde e ainda nem falei com a tal da Lana para receber orientação e informação, coisa que eu deveria ter feito ontem mesmo. Vou precisar me vestir rapidamente e caminhar até o Laboratório Leste. Eu odeio os Laboratórios, eles estão sempre repletos dos estudantes da Academia de Pesquisas, e eles odeiam todo mundo que possua qualquer talento que não o intelecto. Em particular, eles odeiam a Academia de Combate. Não estão errados. A maioria dos membros é pouco receptiva quanto aos "nerds", e tem a tendência de irritá-los. Eu não tenho nada contra eles, na verdade, aprecio o estudo e pesquisa que fazem. Por vezes, quando estava cansada do treinamento físico, considerei ingressar na Academia de Pesquisas. Jared diz que sou mais esperta que a maioria dos nerds que se consideram gênios. Talvez eu me adaptasse, mas eu sentiria falta da brutalidade e adrenalina do combate. Dos tiros, das corridas e do prestígio — ninguém consegue reconhecimento verdadeiro nas Pesquisas. Projetar os equipamentos parece um tanto mais entediante do que utilizá-los. Adoro as engenhocas da Ordem. Queria poder usá-las mais vezes...
Penso nos últimos eventos de ontem a noite, tentando me lembrar de como cheguei aqui. Sei que briguei com Jared, bebi com... Como era mesmo o nome dele? Jack? Jones...? Não... Era James! Elijay James. Bebi com Elijay e passei mal no estacionamento. Depois disso?... Ah é, ele disse que iria dirigir e... Nada. Devo ter apagado, porque só me lembro disso.
Saio do chuveiro e me visto enquanto tomo o resto de café que achei sobre a minha escrivaninha. O café tem um gosto péssimo, que me obriga a escovar os dentes pela milésima vez nessa manhã. Sinto que minha gengiva pode começar a sangrar a qualquer momento, mas o sabor refrescante da menta vale a pena.
Antes de deixar o quarto, tento melhorar minha cara com um pouco de maquiagem, porém o único objeto capaz de executar tal tarefa é uma varinha mágica. Derrotada, pego meu celular e checo as mensagens em busca de um pedido de desculpa de Jared, mas acabo encontrando uma mensagem de texto da operadora e algumas explicações por parte de Elijay. Por mensagem, descubro que adormeci no banco do carro, então Elijay devolveu a Mercedes à garagem da Ordem sem que ninguém notasse. Ele me arrastou até o Alojamento A, e teve que descobrir qual era o meu quarto (não entendi como ele conseguiu). Bem, moral da história: James é um cara legal. Ele terminou a mensagem dizendo que precisávamos sair mais vezes .
Saio do quarto. Como nunca estive no laboratório Leste, demoro algum tempo para encontrá-lo. Para ser sincera, eu nunca estive em nenhum dos quatro laboratórios dessa Sede da Ordem, e ao finalmente encontrar o que eu procurava, nenhuma surpresa: Ele é simplesmente gigantesco. Literalmente um grande bloco quadrado de concreto e vidro, com aproximadamente quinze andares e, muito provavelmente, alguns andares no subsolo. A entrada principal é grande e majestosa, apesar de um tanto simples. É apenas uma porta de vidro de duas folhas, mas algo sobre a sua arquitetura transmite certa grandiosidade. Paro em frente a ela e observo por um instante. Melancolicamente respiro fundo. Hora de trabalhar.
Não são nem seis horas quando entro no laboratório. Sei que é um estereótipo, mas quase todas as pessoas que encontro por aqui são asiáticas e usam óculos. Todos têm cara de espertos e exalam inteligência e arrogância. Sou observada e julgada, provavelmente tachada de burra. Todos me olham como se eu fosse uma forasteira, uma intrusa ou algo do tipo. Aqui é o lar da Academia de Pesquisas e Tecnologia. Basicamente o lugar daqueles cujas habilidades não são correr, lutar, atirar e afins. Essas pessoas normalmente desprezam as que fazem parte da Academia de Combate, pessoas como eu, na verdade. Seus olhares gritam que aqui não é o meu lugar, mas não sou do tipo que se intimida facilmente, principalmente por um bando de nerds.
Caminho pelo pisos de mármore branco até chegar à recepção. As recepcionistas não me cumprimentam e respondem a todas as minhas perguntas de forma curta e grossa, utilizando palavras difíceis propositalmente, como se eu não tivesse capacidade de compreendê-las e fosse exatamente isso que elas quisessem. Pouco me importa o que essas mulheres pensam de mim.
– Com licença... Estou procurando por Lana. – Falo.
– Ela não está atendendo ninguém sem hora marcada. – responde uma delas, sem tirar os olhos da tela luminosa do computador atrás do balcão.
– Acho que eu não fui clara, eu preciso vê-la. O Conselho me enviou. – Digo, carregando na arrogância.
– E você é..? – pergunta uma outra recepcionista, sem demonstrar muito interesse.
– Quinn. Quinn Fabrey.
A expressão no rosto de todas mudou. As caras esnobes e mal humoradas desapareceram, dando lugar a rostos admirados, como se eu fosse alguém que valesse o tempo delas. Meu nome sempre teve peso por aqui, e a maioria das pessoas me trata diferente quando sabe quem sou. Muitas vezes não é necessário nem apresentação formal para que isso aconteça. Afinal, quantas ruivas você conhece?
– Ah, sim. Lana está na sala de pesquisa 5, no subsolo. Permita que eu lhe acompanhe, é necessário um cartão de acesso para chegar até lá. – Responde uma delas, de forma simpática. Seus olhos castanhos cravados em mim, analisando cada pequeno detalhe do meu rosto.
A recepcionista se levanta, sai de trás do balcão e faz um gesto para que eu a acompanhe. Seus saltos de bico fino fazem um barulho muito irritante quando ela caminha. A moça que me guia deve ter no máximo uns 30 anos. Ela tem cabelos negros cortados no estilo chanel. A recepcionista veste uma saia executiva preta, um blazer combinando com a saia e uma camisa branca por baixo, juntamente com um óculos Vogue de formato quadrado. Ela me guia pelos corredores brancos até chegarmos num elevador, que requer senha e um cartão de acesso para ser liberado. A moça digita um código de oito dígitos e passa seu cartão, assim abrindo as portas do elevador . Ela aperta o botão do subsolo e relembra que Lana está na sala de pesquisa de número 5. A recepcionista continua sorrindo para mim enquanto as portas se fecham.
Demora aproximadamente um minuto para que o elevador pare completamente. Quando isso acontece, deparo-me em um corredor comprido e bem iluminado. Não há janelas, tapetes, ou qualquer tipo de adorno, apenas várias portas de vidro, que formavam uma galeria de portas. Caminho por ela enquanto observo os números gravados no vidro. Percebo que as do lado direito têm números pares e as do lado esquerdo têm números ímpares. Percorro o corredor até encontrar a sala de número cinco, e entro sem bater. Não é como se o que quer que eu encontre ali precise de privacidade.
Ao entrar na sala deparo-me em frente a uma garota adolescente mexendo em computadores espalhados por diversos balcões metálicos. Ela estava muito concentrada, e assim que ouviu o barulho da porta se abrindo, levantou da sua cadeira, preparada para expulsar quem quer que tenha vindo incomodá-la. Quando a garota se dá conta de quem perturbou seu sossego, a cara feia se esvai e um grande sorriso se forma em seus pequenos lábios. Ela tem um rosto fino e é um tanto pálida. Tudo, desde a sua postura até as suas roupas, indica que ela deve ser dotada de uma inteligência extraordinária. A menina é um tanto mais nova do que eu. Ela é pequena em todos os aspectos físicos, mas tenho a impressão de que sua personalidade exala grandeza. Seus olhos puxados indicam nacionalidade asiática. Aproximo-me dela, tentando ler o nome no crachá preso ao seu jaleco branco, porém isso não se faz necessário. A garota se aproxima sorrindo.
– Quinn Fabrey! – Exclama ela. – Que honra! Lana, a seu dispor. – Diz ela, sacudindo minha mão de forma animada. – Achei que você não vinha mais. Anthony tinha me dito que deveria esperá-la ontem a noite e...
– Ah, sobre isso... – Interrompo.
– Não se preocupe, ele jamais saberá por mim. – Diz ela, cheia de convicção.
– Ótimo. – Digo.
Lana aponta para uma cadeira ao lado do computador que ela estava usando. Sento. Ela prepara alguns papéis e parte para as explicações.
– Bem, sei que Anthony já lhe disse alguma coisa, mas agora eu explicarei como tudo vai funcionar, passo a passo. Enfim, vamos estar procurando pelos lendários nove fragmentos da Pedra Vermelha. O real motivo que a torna tão única, especial e extremamente perigosa é o seu poder. Não, ela não te faz voar ou nada do gênero. O que a Pedra faz é muito melhor: Ela é uma fonte de energia. Ninguém nunca conseguiu desvendar como esses fragmentos conseguem ser tão potentes ou de onde vieram e como se formaram, mas digamos que apenas um dos nove fragmentos tem energia suficiente para, por exemplo, iluminar a cidade de Nova York por um longo, entretanto ainda indefinido, período de tempo. O mundo precisa desse tipo de tecnologia, Quinn. Carvão, petróleo e afins, além de altamente poluentes, são recursos muito limitados. É só uma questão de tempo até que essas fontes comecem a se esgotar e você já faz ideia do que pode ocorrer se isso acontecer. Estudando a energia presente nessa pedra, poderíamos solucionar nossos problemas. Diminuir a poluição, o desgaste da natureza, evitar possíveis guerras, e isso se a única função da Pedra for essa. Além de gerar energia, minhas pesquisas indicam que ela pode ter outras propriedades, mas isso é uma história para outra hora. Está acompanhando?
– Sim, claro.
– Ótimo. — Diz Lana, e continua a explicação. — Para solucionar alguns problemas, foi preciso causar mais vários. Como batalha silenciosa que vem sido travada entre a BS e a Bowden por décadas. Ambas as organizações procurando pela coisa que os fará ricos, que os tornará heróis até. Muita gente já morreu em função dessa busca, mas a briga BSxBowden não foi a única causa. A Pedra em si tem um tipo de “defesa”. Não é possível tocá-la diretamente sem ser eletrocutado por conta da energia. Basta a mais leve esbarrada para o legista precisar te identificar pela sua arcada dentária. Então, regra número um: Nunca, sob nenhuma circunstância, toque na Pedra. Você obviamente entende porquê. Regra número dois: Chegar perto o suficiente da Pedra para ser obrigada a lembrar da primeira regra não vai ser fácil, então você vai ter que estar pronta para fazer o que for preciso. E acredite, você vai precisar fazer muita coisa. Regra número três: Você não pode desistir a assim que a regra dois for aplicada. Regra número quatro: Quando você sair à procura dos fragmentos, vai ser caçar ou ser caçado. Muita gente está procurando por eles ultimamente, não só a Bowden. Dizem que a Rússia, os Estados Unidos e a China já sabem da existência da Pedra e entraram na briga também. Lembrando dessas quatro regras você terá uma boa chance de ficar viva, afinal achar a Pedra, uma vez que já foi localizada no globo, é bem simples. O problema é conseguir trazê-la pra casa. Foi dito que você é muito boa no que faz, e é melhor que seja mesmo. E Quinn, não subestime inimigo. Alguma pergunta?
Lana me encara, esperando uma reação. Entendi as regras perfeitamente. Sei que tenho poucas horas antes de sair, então resolvo ser rápida com as milhares de perguntas que me incomodam no momento.
– Não terminei a Academia ainda. Como vou concluí-la? — Pergunto.
– Anthony atestará que você está pronta e eliminará suas faltas. Você não precisa se preocupar com isso. — Assegura ela.
– Tudo bem... Pra onde vou?
– Para nossa sorte, localizei um fragmento aqui na Ilha. Parece que você fará um tour histórico. Conte-me, Quinn: Você já esteve na capital de Creta?
– Heráklion, certo? – Pergunto, enquanto tento recordar se já estive lá. – Ah, claro. Visitei a cidade com... Com... – Visitei a cidade com Alex, mas ainda não estou preparada para falar sobre ele. – um amigo... – Minto.
Lana estreita os olhos e continua a me encarar com uma expressão estranha, querendo extrair mais informações sobre o meu “amigo”. Depois de uma longa disputa de “encaradas”, Lana percebe que não quero conversar sobre quem quer que tenha me levado à Heráklion e desiste.
– Enfim, você vai para lá. Fará o tour pelo Palácio de Knossos como uma turista. Seja convincente no seu disfarce. Fale com os guias, sorria para as pessoas e pareça animada com a sua viagem à Grécia. Sinto que deve ser difícil para você não chamar atenção, mas você vai ter que se esforçar. Não fale grego, não chame atenção e também não faça nada ilegal ou que estrague seu disfarce. Mais importante, fique totalmente sóbria... – Ela ri quando fala essa parte, olhando diretamente para mim.
– Pelo que sei, o Palácio é gigante. Como espera que eu encontre um pedaço de pedra por lá? – Pergunto.
– Bem, você vai ter que procurar. Digamos que as chances de você encontrá-la em lugares grandes e majestosos é maior, então preste mais atenção na Sala do Trono ou qualquer coisa relacionada ao poder e aos soberanos que viveram ali. A Pedra tem um ego maior que o do Jared... – Diz ela.
– Espera aí, você conhece o Jared?
– Todo mundo conhece o Jared, mas só sabe quem você é. Dá pra entender a diferença? Você não é tão... Acessível.
– O que está querendo dizer com isso, hein? – Chego mais perto e encaro seus pequenos olhos castanhos.
– Exatamente... isso! – Diz ela, apontando para mim. – As pessoas têm medo de você, Quinn.
– Qual é, ninguém tem medo de mim!
Lana me olha de um jeito engraçado, como se zombando de mim. Sei que sou conhecida, as pessoas cochicham e encaram quando ando por aí, mas nunca parei para pensar por quê. Posso ser meio imprevisível, às vezes agressiva, porém isso é meio exagerado. Reviro os olhos e mudo de assunto.
– Como se rastreia uma pedra? Não é como se houvesse um banco de dados para procurar por esse tipo de informação e até onde eu sei, os pedaços da coisa podem estar literalmente em qualquer lugar. – Estava realmente curiosa para descobrir como Lana encontrou um fragmento.
– Não uma tarefa realizar. Existem poucos jeitos para procurar pelos fragmentos. Um deles é observando fatores e seguindo padrões. A Pedra é antiga e está escondida há muito, muito tempo, ou seja: não a encontraremos em lugares novos, apenas em locais com certa história. Como eu havia dito, ela também tem um certo “ego”. Isso quer dizer que devemos procurar em lugares muito antigos e que exalem grandiosidade. E eu não estou falando de locais como... Sei lá, o Big Ben ou o Palácio de Versalhes. Eles são relativamente novos. Eu me refiro a lugares muito mais antigos, com aproximadamente mil anos ou mais. Então temos: Lugares muito antigos e grandiosos. Isso já elimina uma parte considerável de localizações. Outra coisa que observei nos meus estudos foi a preferência pela Europa. Os quatro fragmentos já encontrados foram achados nesse continente, o que sugere uma grande possibilidade de nos depararmos com mais deles por aqui. A partir disso era só contar com a sorte. Porém, nem todo mundo tem uma Lana na equipe. – Ela dá uma piscadela para mim e se levanta. Lana vai em direção uma pequena porta de vidro do outro lado da sala. Eu a acompanho.
– Eis aqui a solução para os nossos problemas! – Diz ela, sorridente e orgulhosa.
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