Chosen: A Ascensão

6 A Solução Inesperada


Uma caixa de vidro. Essa é a solução. Fico parada por segundos, apenas imaginando como ela poderia resolver qualquer coisa. O sorriso esboçado no rosto de Lana sugere que não é uma caixa qualquer, mas ainda assim, é difícil aceitar que aquela coisa possa ajudar alguém.

Estamos dentro de uma pequena sala ligada ao laboratório. Aqui não há nada além de alguns eletrodos e um computador conectado à caixa. As paredes são brancas e lisas, assim como o chão. Noto que pequenas câmeras de vigilância estão instaladas nos quatro cantos da sala, quase imperceptíveis. O que quer que essa coisa faça, deve ser importante. Lana traz duas banquetas para sentarmos lado a lado em frente ao computador. Ela digita uma senha numérica para acessá-lo e um mapa se abre na tela. Lana vira para mim, pronta para mais uma rodada de explicações.

– Não corresponde as suas expectativas, certo? – Pergunta ela, rindo sozinha.

– É, acho que não – Respondo.

– Isso significa que fiz um bom trabalho. – Diz ela, satisfeita. – Deixe-me explicar. Bem, obviamente você já percebeu que esta não é uma caixa de vidro qualquer... – informa ela, enquanto dá leves tapinhas na parte superior da caixa. Balanço a cabeça em concordância. – A caixa em si não foi assim tão difícil de desenvolver, o problema foi fazê-la parecer-se com uma simples caixa de vidro. A ideia é que ela passe despercebida no caso de alguma invasão ou algo do tipo. Enfim, o jeito mais fácil de te fazer entender o que a minha obra-prima faz é contando uma simples história: Quinn imagine que você tem nove irmãs e vocês planejaram uma viagem ao redor do globo, porém, não deu muito certo. Sequestradores estão atrás das nove, e vocês se perderam numa fuga, entretanto querem se reencontrar. Mas como, certo? Se mandarem um sinal ou recado, os sequestradores podem achar vocês. Então, vocês decodificam e mandam uma mensagem de um jeito que somente suas irmãs poderiam entender. É basicamente isso que a Pedra faz. Ela manda sinais para que todas as “irmãs” possam se reencontrar, mas apenas elas têm como compreender tais sinais. Tendo um fragmento é possível localizar os outros. É isso que eu descobri com minha invenção, pelo menos. Não sei quem já tem conhecimento dessa informação, mas se já souberem, encontrar os fragmentos restantes será incrivelmente mais difícil para nós, mais gente na disputa. Simplificando, a Pedra manda sinais, quase como as ondas eletromagnéticas transmitidas pelos rádios e televisões, por exemplo. Os fragmentos transmitem o “sinal” e essa belezinha aqui os capta. Mas para que isso ocorra, é necessário colocar um fragmento dentro da caixa, assim a parte da Pedra que já temos emitirá sinais para as outras, que enviará um sinal de volta. A oscilação da imensa carga elétrica entre fragmentos gera esse sinal, que quando captado pela caixa, é rastreado automaticamente, permitindo-nos achar o ponto mais forte da transmissão, assim fornecendo uma localização. Genial, não?

– Uau! – Exclamo, boquiaberta. Eu jamais teria capacidade de fazer algo assim. – Lana, isso é incrível.

– Eu sei! Já estava acordada há mais de três dias, só trabalhando na Pedra, quando descobri o que precisava fazer. Não vou te incomodar com os detalhes chatos, relaxe. – Diz ela, sorrindo.

Lana me conduz de volta para a Sala de Pesquisa 5 e ficamos horas conversando. Ela é uma garota incrível. Um gênio, eu diria. Descobri que tem apenas 16 anos, o que quase fez com que eu me sentisse mal por só ter ficado treinando e fazendo besteiras quando tinha essa idade, e digamos que não foi há tanto tempo assim, não é...

De qualquer jeito, ela é brilhante. Seu verdadeiro nome é Sayuri Yamazaki. Ela nasceu no Japão e morou lá até completar sete anos, quando atingiu a idade de começar o treinamento da Ordem. Seus pais eram membros, o que a torna uma Herdeira, como eu. Se seus pais são membros, não há escolha quanto a entrar ou não, você simplesmente completa sete anos e começa a treinar, herdando o lugar dos seus progenitores, daí o nome. Todos automaticamente te tratam melhor quando sabem que você é um Herdeiro. Inicialmente nós treinamos, dormimos e tudo mais, separados dos Selecionados, que são aqueles sem ligação alguma com a Ordem, apenas crianças e adolescentes com certas habilidades. Sempre houve bastante... Preconceito, digamos, entre os Herdeiros e os Selecionados, mas eu não poderia me importar menos com essa disputa estúpida. Jared já se envolveu várias vezes em brigas com os Selecionados, que gostam bastante de implicar com ele, não sei por quê.

A Ordem tem sedes espalhadas por todo o mundo, sendo a de Los Angeles a maior. Foi lá que comecei a treinar. Lana fez os dois primeiros estágios do treinamento da Ordem no Japão, mas não passou. Segundo ela, foi horrível. Lana não tinha aptidão alguma para o combate. Porém não demorou muito até descobrirem no que ela era boa. Com doze anos, Lana se mudou de Tóquio para Creta, onde ficam os maiores laboratórios. Ela largou a Academia de Combate e ingressou na Academia de Pesquisas e Tecnologia, o que raramente acontece com os Herdeiros. A cientista contou que seus pais ficaram muito decepcionados quando descobriram a mudança, dizendo que era uma vergonha tê-la na família. Isso a levou a criar o apelido “Lana” e fazer de tudo para se desvencilhar da sua antiga vida. Ela treinou o inglês por anos, até o sotaque japonês desaparecer quase por completo. Afastou-se das crenças Xintoístas, das quais seus pais eram adeptos, e fazia coisas que iam contra os seus princípios. A garota nunca mais ouviu falar deles desde então.

Lana terminou a Academia esse ano, ou seja, dois anos antes. Eu, por outro lado, termino esse ano também, mas com 18, assim como todo mundo. A Academia de Combate e a de Pesquisa não se dão bem. Na verdade, essa rixa é mais ridícula que a Herdeiros VS. Selecionados. As duas precisam estar trabalhando em sincronia para que as coisas funcionem. Porém não podemos culpá-los, é uma coisa que sempre acontece, inclusive nas escolas tradicionais. O grupinho dos nerds e o dos atletas, populares, seja lá como chamem, sempre brigam.

Achei incrível ela estar assim envolvida nos assuntos da Ordem tão nova, mesmo já tendo terminado a Academia. O que me faz pensar no motivo de ter sido chamada para participar. Exatamente por eu não ter terminado a Academia. Poucas pessoas conseguem realizar sua primeira missão antes de terem terminado.

Era inevitável que voltaríamos a falar sobre Jared e Alex, assunto que eu realmente preferia evitar no momento. Lana mencionou novamente que eu e Jared éramos o que ela chamaria de “populares”, mas ele era o acessível. Acho engraçado como todo mundo parece conhecê-lo e gostar dele. Bem, quase todo mundo. Lana disse que o odeia e nem sabe explicar o motivo. E eu também não perguntei. Jared Henning não é meu assunto preferido no momento. Até Lana abrir um email de um loiro alto, charmoso e convenientemente desaparecido, que me fez querer voltar ao assunto "Jared". Quando o nome Alexander Blackthorne surgiu na conversa, senti um calafrio percorrendo meu corpo, aquela sensação de agonia e desespero voltando, como acontece toda vez que escuto o nome dele. Isso tem que parar, mas não nesse exato segundo.

Pelo que entendi, Lana e Alex são amigos bem próximos. Ele está numa missão à paisana na Califórnia e voltará para Creta em alguns dias. Informação que quase me fez começar a chorar desesperadamente. Alexander Blackthorne é meu ex-namorado idiota. Até aí tudo bem. O problema é que ele me traiu. Eu o peguei no flagra. E isso... Ahm... Como se diz mesmo? Quebrou meu coração... Normalmente eu não me apego a ninguém, muito menos garotos, mas Alex era diferente. Ele era doce e gentil, sempre animado e sorridente, porém sem nunca ser aqueles caras idiotas que parecem serviçais de suas namoradas. Não, ele não era assim. Alex estava terminando o último ano da Academia quando aconteceu. Ele era o tipo contrário de Jared, sempre arrumado e bem vestido. Sem nunca utilizar da ironia, do sarcasmo muito menos. Um dos motivos que me levou a gostar tanto dele. Alex não era como eu ou Jared. Ele se importava com os sentimentos alheios, nunca falou algo com a intenção de ser rude. Um cavalheiro, eu diria. Por isso foi difícil aceitar a traição. Se eu namorasse um cara tipo Jared, não seria uma surpresa. Sim, eu estava apaixonada, o que torna essa história ainda mais ridícula. Alex passou muito tempo tentando se explicar e dizendo o quanto me amava, porém eu não sou nenhuma idiota. Agora quero mais é que ele se foda...

Quando Lana leu o email, comentou que ele era bonito e perguntou se eu o conhecia, o que me fez contar a história toda para ela. Disse tudo, não poupei detalhes. Falei que o odiava no momento e seu retorno provavelmente implicaria num constante mau humor da minha parte. Lana me confortou e voltamos a conversar sobre garotos, coisa que levou mais tempo do que o esperado. Quando nos demos conta, já eram mais de duas da tarde. Ela disse que eu partiria as cinco, então deveria encontrá-la na pista de pouso por volta das quatro.

Levantei, agradeci as explicações e voltei para o Alojamento A, exausta e, graças a Deus, com a ressaca praticamente curada. Desejando nada além de um copo de café e meus travesseiros fofinhos. Mas quem se importa com o que eu quero, certo? Meus planos foram estragados por um Jared Henning cafeínado. Hoje está vestido normalmente, com um jeans escuro e uma camiseta verde completamente amassada. Seus cabelos bagunçados e expressões estranhas sugerem que ele acabou de acordar e também está experimentando uma bela ressaca. Capricho na cara de brava e me aproximo. Jared estava jogado às traças no carpete em frente à porta, bebendo um copo de café. Quando estamos perto o suficiente, ele me encara com uma expressão de “desculpe”, nem se dando ao trabalho de levantar.

– Quinn Fabrey. Sou um idiota que não merece uma amiga tão maravilhosa como você, que me perdoa mesmo depois do que aconteceu ontem. – Diz ele, sorrindo do chão.

– Você é bem convencido, não acha? – Digo, tentando não rir. O que acaba se tornando inevitável. Sento-me ao lado de Jared no chão, as costas apoiadas na parede. – Você é um idiota, sabia?

– Sim. – Noto que um dos lados de seu rosto está ligeiramente avermelhado, o que sugere que a garota loira de ontem a noite fez o que eu queria ter feito.

– Ela te deu um tapa? – Pergunto, rindo.

– Sim, mas não foi só isso que ela me deu, se é que você me entende... – Responde ele, com uma expressão maliciosa.

– Seu pervertido! – Digo, enquanto dou-lhe um soquinho, brincando.

– Qual é, Quinn. Nós dois sabemos quem é o pervertido aqui. – Diz ele, olhando para mim. Nós dois caímos na gargalhada. Eu momentaneamente esqueço toda a raiva que tinha dele. Só quero ficar aqui sentada com ele, rindo, conversando.

– Eu te odeio. – Falo, num tom de brincadeira. Ele sorri e levanta, me puxando para levantar também.

– Odeia nada, você me ama! – Grita ele. Jared agarra minha cintura e me levanta, carregando-me pelos ombros enquanto me debato. Ele me carrega até minha cama e me joga lá. – Escute, realmente sinto muito por ontem. – Fala ele, agora sério, encarando meus olhos de longe. Balanço a cabeça em concordância. Jared checa o relógio na minha cabeceira. – Quer almoçar?

– Às três da tarde?

– Às três da tarde. – Diz ele, rindo.

Jared me força a sair da cama e ir comer alguma coisa com ele. Toda a raiva se esvai, juntamente com o cíume. Ele é meu melhor amigo, não conseguiria ficar brava por muito tempo. Vamos para a cafeteria lotada do Alojamento A e ficamos lá até eu me tocar que precisava me encontrar com Lana as quatro.