Chosen: A Ascensão

7 Estamos sendo observados...


Despeço-me de Jared o mais rápido que consigo. Já tínhamos colocamos o papo em dia mesmo. Contei tudo que pude sobre a missão, Lana, Alex e tudo mais. Porém as coisas ficaram esquisitas na hora da despedida. Quando disse que precisava ir, ele me abraçou. Sim, isso é bem comum entre nós, só que esses gestos sempre me trouxeram uma sensação boa, uma certa segurança, eu diria. Mas não hoje. Não consegui abraçá-lo de volta, muito menos compreender o porquê de uma interação tão simples ter feito com que eu me sentisse tão estranha. Pelo menos ele não notou nada diferente.

Deixo a cafeteria e me dirijo para a pista de pouso. Ela fica na Ala Oeste. A Ordem em si também se localiza no litoral oeste da Ilha, sendo banhada pelo Mar Mediterrâneo. Já visitei diversas partes do mundo, mas ainda assim, Creta é uma das minhas paisagens preferidas. Caminhando para perto da pista já é possível sentir a brisa marítima aumentando, trazendo consigo o cheiro de areia e água salgada. Quando estava quase alcançando a pista, perto do Alojamento C, vejo Lana dentro de um pequeno almoxarifado em pleno pátio. Ela sorri e acena quando me vê. Admiro sua capacidade de ser sempre assim simpática. Aproximo-me da garota, forçando-me a sorrir de volta e expressar a mesma animação.

Ao entrar, dou de cara com Anthony também. Eles estavam conversando casualmente, e algo sobre isso me faz entender que os dois têm certa intimidade. Porém, acho que nunca fui clara o suficiente quanto a nossa relação. Ele não é somente meu instrutor. Anthony Graymane é como um pai para mim. O homem que praticamente me adotou depois da morte dos meus próprios pais. O Conselheiro me ensinou as coisas mais básicas da vida, as lições. Era ele quem perguntava se eu havia escovado os dentes e me dava um beijo de boa noite quando criança. E ainda é ele que passa no meu quarto vez ou outra para se certificar de que estou bem, que me repreende quando bebo e saio muito. Foi para Anthony que apresentei meus namorados. Não consigo expressar muito bem em palavras tudo que ele já fez e continua a fazer por mim como pai, Conselheiro, instrutor e, acima de tudo, amigo. Anthony Graymane é meu porto seguro, sempre fazendo com que eu me sinta bem, e de um jeito que nem mesmo Jared consegue.

Anthony e Lana estão em volta de uma pequena bancada no centro da sala, organizando vários apetrechos em uma mochila preta. O almoxarifado é mal iluminado e cheira a mofo e poeira. Tem dezenas de prateleiras atulhadas com as mais diversas coisas, desde vassouras a roupas de mergulho e paraquedas. Saúdo os dois ao me juntar a eles na bancada.

–Quinn, graças a Deus! – Exclama Lana, sempre animada. – Eu já estava morrendo de ansiedade para te mostrar os gadgets que criei especialmente para você. Anthony disse que eu deveria esperar para mostrá-los hoje... – Ela faz cara feia para Anthony quando diz isso. Não consigo conter o sorriso.

– Acho que você vai gostar dessas coisas, Quinn. – Fala Anthony, calmamente. Enquanto isso, Lana vasculha a bancada e a mochila em busca do que quer que ela tenha criado.

– Bem, acho que esse foi um dos maiores desafios. – A cientista me mostra um par de luvas retas com aspecto emborrachado. – Estas luvas foram desenvolvidas para que você consiga tocar no fragmento sem, bem... Morrer. Elas aguentam uma quantidade absurda de carga elétrica e são bem discretas. Eu particularmente as achei super fashion, para falar a verdade. – Diz ela, rindo. Lana me entrega as luvas, que coloco automaticamente. Elas parecem ter sido feitas especialmente para as minhas mãos, pois cabem perfeitamente. Sem sobrar nem faltar. As luvas são bem aderentes e não atrapalham os meus movimentos.

– São ótimas, Lana. – Falo. A garota sorri novamente e volta a fuçar na mochila. De dentro dela sai uma pequena caixa transparente.

– Bem, este aqui é para você guardar o fragmento. Nada de mais. – Ela coloca a caixa de volta na mochila.

– Quinn, entendo que você possa precisar disso também. – Diz Anthony, ao me entregar uma maleta preta de tamanho considerável. Abro-a. Dentro dela encontro duas pistolas 9mm, munição suficiente para chacinar toda a população de Creta, um conjunto de facas de arremesso e uma adaga de aço.

– Agora isso é realmente divertido. – Pego uma das pistolas e miro numa garrafa vazia do outro lado da sala. Acerto-a em cheio. A garrafa estilhaça em uma pequena explosão de cacos de vidro.

– PELO AMOR DE DEUS, AQUI NÃO! – Exclama Lana.

– Estas são para situações de risco, Quinn... – Fala Anthony, sorrindo enquanto abaixa a arma.

– Tá, luvas, proteção, caixa... Ah, já ia me esquecendo. – Diz Lana. Ela vasculha o bolso do seu jaleco branco, tirando um relógio escuro, quase como se feito de carbono. – Este não é um relógio qualquer. Bem, além de comunicador, ele tem o mesmo princípio daquela caixa de vidro que te mostrei, só que em menor escala. Uma vez no palácio, você pode usar o relógio para te ajudar a encontrar o fragmento. Ele tem um pedacinho minúsculo da Pedra dentro dele, o que possibilita o rastreamento. Apertando o botão lateral esquerdo, você vai encontrar uma linha direta com o meu computador. Tentarei ficar disponível o máximo que conseguir. O botão lateral direito inicia o rastreamento. Fora isso, é um relógio comum. – Lana coloca o apetrecho no meu pulso.

– Quinn, você encontrará roupas e afins já separados em malas para você dentro do avião. Cuidamos de tudo. – Diz Anthony. – Lana, você se importaria de nos dar um minuto a sós? – Pergunta ele.

– Claro, Senhor Graymane. – Responde ela, já se retirando do almoxarifado. Nesse exato momento, a expressão calma e tranquila de Anthony desaparece, dando lugar a feições preocupadas.

– Preste muita atenção no que eu vou lhe dizer agora, Quinn. Recuperar esses fragmentos vai ser uma tarefa dificílima. Pelo amor de Deus, tenha cuidado. Há tanta coisa acontecendo no momento, tanto que você não entende e tanto que eu gostaria de contar, mas agora não é a hora. Não confie em ninguém além de mim e Lana, entendeu? NINGUÉM! – Fala Anthony, soando quase desesperado. – Grandes coisas estão para acontecer, coisas que não temos como impedir. Eu queria poder lhe falar mais, porém não posso. Estamos sendo observados... — Anthony quase sussurra essa última frase, um tanto paranoico. Ele se aproxima de mim e beija minha testa, se despedindo. — Boa sorte, Quinn Fabrey. Você vai precisar. – Anthony deixa a bancada, indo em direção a saída.

– Do que você está falando? Anthony! – Quando viro-me para questioná-lo, vejo que o Conselheiro já se foi. Mas que diabos ele quis dizer com isso?

Lana volta para a sala, sorrindo. Resolvo não mencionar nada sobre minha conversa com Anthony. Ela diz que está na hora de ir. Pego a mochila e a maleta assassina e saio do almoxarifado. Essa parte da Ordem é um tanto mais feia, fisicamente. Os prédios aqui são mais velhos e o ambiente em si parece mais sem graça. O Alojamento A fica perto da Sede e do Alojamento dos Conselheiros, o que torna aquela parte a mais arrumada. Aqui é só um monte de concreto cinza para todo lado.

Vamos para a pista de pouso, onde um pequeno avião me aguarda. O piloto já estava preparado para decolar. O dia está claro e ensolarado, perfeito para voar. Por mais que tente, não consigo tirar as palavras de Anthony da minha mente. Nunca estive tão confusa.

– Tudo bem. Lembre-se das nossas quatro regras e mantenha o disfarce. Agendei um tour pelo Palácio de Knossos para a tarde de amanhã. Reservei um hotel nas redondezas também. Caso sinta-se sozinha, pode conversar comigo pelo relógio. – Diz ela, sorrindo. – Eu desejaria boa sorte, mas sei que você não vai precisar. Volte inteira, ok? – Lana me abraça forte, passando seus braços ao redor da minha cintura. Abraço-a de volta. Ela é provavelmente uns dez centímetros mais baixa que eu, mesmo agora nas pontas dos pés. Realmente gosto dessa garota.

– Pode deixar. – Falo, ao entrar no avião. A porta se fecha.

Sento-me numa poltrona e vejo a Sede se tornar cada vez menor sob os meus pés, com nada além da terra do mar no horizonte. O sol batendo no meu rosto, fazendo com que eu me pergunte o que virá a seguir.