Chosen: A Ascensão

4 Quem Procura, Acha


Teoricamente, eu não posso sair do alojamento sem a autorização do Conselho. Teoricamente, eu não posso utilizar nenhum veículo da Ordem. Teoricamente, eu não poderia entrar em bares ou beber antes dos 18 em nenhuma parte do território grego. Na teoria, essas regras funcionam. Na prática, eu acabei de quebrar todas elas.

Depois de literalmente roubar uma linda Mercedes preta da garagem da Ordem, dirigi até a cidade costeira mais próxima e entrei no primeiro bar que não pediu para verificar minha identidade. Qual é, eu tenho 17 anos e oito meses! Não é como se faltasse muito tempo para eu completar 18 anos...

O lugar que escolhi é grande, mas acolhedor. O estabelecimento é à beira do mar. Há um lindo deque de madeira em cima da praia. A arquitetura do lugar lembra os bares do Hawaii que visitei quando estive lá com Jared ano passado. Foi uma ótima viagem, porém sou obrigada a afastar todo e qualquer pensamento sobre ele, antes que fique com mais raiva do que já estou. Foco no bar, que tem totens e tochas espalhadas pelo salão, flores coloridas e garçons sorridentes. Sento no balcão e peço por algo forte. Meu grego nunca foi muito bom, mas o garçom entendeu o pedido.

Gosto de analisar coisas e pessoas quando não tenho nada para fazer. Sinto como se passasse a conhece-las, entende-las. Leio as pessoas para saber como agem e como funcionam. Procuro por pontos fracos nos lugares e histórias nas paredes. É interessante a quantidade absurda de pequenos detalhes que a maioria das pessoas não percebe. Coisas esquecidas que ninguém mais provavelmente nota. Esses detalhes podem revelar muita coisa. Gosto deles, sinto como se eles me aproximassem de tudo.

Aqui, por exemplo, as paredes são adornadas com outras flores exóticas, que misturam seu aroma ao cheiro da água salgada, e pinturas e fotografias das praias havaianas, tudo em perfeita harmonia. A madeira das paredes está desgastada e falta pintura aqui e ali, o que sugere que este não é um bar novo. As mesas são feitas de uma madeira um tanto avermelhada, e cada uma delas possui um mini toten com um colar de flores. Os garçons e garçonetes vestem saias de folhas verdes, cocos e aqueles colares e pulseiras de flores havaianos. É estranho, se pensarmos bem sobre isso. Por que alguém faria um bar de temática havaiana em plena Ilha de Creta? A maioria dos estabelecimentos da Ilha tem a temática grega, é decorado com desenhos de deuses, seres mitológicos e coisas desse tipo. Os mais inusitados usam até mesmo a mitologia romana para serem diferenciados, mas Hawaii? Esse é novidade...

Do outro lado do salão, um homem faz uma apresentação com tochas. Viro-me para observá-lo, bem a tempo de ver um cara vindo em minha direção. “Ótimo”, penso. “Tudo que eu precisava agora era de um idiota que viesse me cantar”. O Idiota se senta ao meu lado e faz questão de pedir exatamente a mesma coisa que eu, seja lá o que eu tenha pedido — ainda não identifiquei qual a bebida que a minha taça com guarda chuva rosa contém. O Idiota veste jeans azul, sapato social e um blazer acinzentado de gosto duvidoso, juntamente com uma camisa vermelha mais aberta do que o necessário, deixando a mostra uma pequena quantidade de fios negros em seu peito branquelo. Ele tem cabelos cor de mel cortados num estilo a la Justin Bieber, tornando-o duplamente idiota, já que eu tenho bastante certeza de que ele é velho demais para esse corte.

O Idiota dá um giro no seu banquinho de bar, parando de frente para onde estou sentada. Seus olhos castanhos cravados em mim. Ele pula os banquinhos que nos separam, sentando ao meu lado. Seu semblante transmite certa calma e confiança, mesmo que suas roupas gritem o claro mal gosto que tem. O Idiota tem uma cara amigável.

– Quinn Fabrey, que coincidência! – Diz O Idiota. – Segunda pessoa da BS que encontro aqui hoje... – Posso sentir o cheiro do seu perfume Dolce & Gabbana, mesma fragrância que Jared usa. Pelo menos o perfume ele acerta. – Posso te pagar uma bebida?

Acho intrigante a quantidade de produtos de luxo que a Ordem e seus membros consomem. Não estou reclamando, afinal, céus, como eu amo meus Jimmy Choos. Mas mesmo assim, dirigimos os melhores carros, vestimos as roupas mais caras, treinamos com os mais novos equipamentos tecnológicos. Nosso orçamento é bem grande...

– Depende. A sua companhia vem junto com a bebida? – Digo num tom sarcástico. Ele ri.

– É, você é exatamente como Jared me disse...

– E o que Jared disse?

– Disse que você era tão doce quanto a água do mar.

– Jared nunca usaria essa expressão...

– De fato. Eu acabei de inventa-la. Temo que não consiga reproduzir seu tom sarcástico ao dizer: "ela é tão doce quanto é bonita. " Ele claramente estava sendo sarcástico, devido a... Bem... — Sinto os olhos de Elijay sobre mim, analisando meu corpo. Ele sorri e eu tento mudar de assunto.

– Como você conhece Jared? – Pergunto.

– Sou da BS, conheço-o há bastante tempo. E eu te conheço também, mas tenho a leve impressão de que você não faz a mínima ideia de quem eu sou...

Balanço a cabeça em concordância. O Idiota ri novamente.

– Vamos consertar isso. Elijay James.

Ele segura minha mão e a beija. O Idiota é educado, quem diria...

– Ah, mas não se preocupe. Não me sinto ofendido por você não lembrar quem sou. Não é sua culpa, a festa em que nos conhecemos era Open Bar e acho que nós dois sabemos o que o álcool pode fazer com as pessoas... – Diz ele – E agora eu me pergunto: O que uma garota tão bonita quanto você faz sozinha num sábado à noite? – Pergunta, sorrindo.

– Jared me esqueceu. Íamos sair e ele não teve a capacidade de deixar nem um bilhete avisando que tinha outros planos. Eu podia ter escolhido um melhor amigo menos babaca... – Sussurro para mim mesma enquanto tomo um gole enorme do líquido colorido no meu copo. A bebida desce queimando pela minha garganta.

– Jared pode ser um completo idiota quando quer. Mas é de se esperar, ele não se apega a garotas. — Diz Elijay.

Paro para analisar as palavras de Elijay. Céus, ele entendeu tudo errado.

– Ah, não. Não, não, não. Não é isso que você está pensando. Somos amigos, sempre fomos, sempre seremos.

James parece duvidar disso, mas acabamos rindo dessa possibilidade. Depois de alguns drinks e aperitivos, Elijay acaba dizendo calmamente:

– Ah... Que estranho... Bem, sinto que devo te informar: Jared está aqui.

– O QUÊ?! – Pergunto, furiosa.

– Sim, ele está aqui. Com outra garota. Bem ali...

Elijay aponta para uma mesa no canto esquerdo, perto do maluco com as tochas. E lá está ele. Jared Henning sentado de mãos dadas com uma garota loira que eu mataria se não estivesse num local com tantas testemunhas.

– Ah, mas você não vai até lá, vai? Quinn?

Num acesso de raiva e ciúme, levanto subitamente do banquinho, deixando Elijay falando sozinho. Caminho em direção à mesa, mas antes mesmo de eu chegar lá, Jared percebe minha aproximação nada sutil. O sorriso em seus lábios se desfaz e ele fica tão branco quanto um fantasma.

Hoje, Jared veste as malditas “roupas de Alex”. A sua “acompanhante” está usando um vestido azul-escuro incrivelmente apertado. Ela não parece entender o porquê de Jared estar desse jeito. Quando chego perto o suficiente, ele se levanta, mas não diz nada. A garota continua sem entender o que está acontecendo. Percebo que Elijay veio logo atrás, sabendo o que estou prestes a fazer, e querendo um assento na primeira fileira.

– JARED HENNING! É bom mesmo que você esteja com essa cara de idiota apavorado! – Digo aos berros, sem me importar que todas as outras pessoas no bar estejam olhando. Ainda bem que a maioria delas só entenda grego.

– Quinn, eu...

– Não me venha com desculpas, Henning. Eu esperei duas horas por você, que estava aqui de mãos dadas com essa “seja lá quem”! – Grito.

A acompanhante parece abismada. Ela deve achar que sou a namorada dele ou algo do tipo. A atenção de todos agora se voltou para a garota ruiva fazendo escândalo no meio do salão.

– Podemos falar sobre isso mais tarde? Por favor? – Implora ele, fazendo um gesto com a cabeça indicando a garota loira.

– Não. Podemos falar sobre isso agora ou podemos não falar!

Estou com muita raiva. Não só por ter sido trocada, mas esquecida. Falta de consideração...

– JayJay, quem é essa? – Diz a garota. Sua voz é fina e irritante. Uma versão mais nova de Dominik, porém com peitos menores e possivelmente não siliconados. Ela tem longos cabelos loiros platinados e sua pele é a perfeita definição de "pálida".

– Quinn, você está exagerando... – Diz ele. Claramente, Jared achou que eu não me importaria de ter levado bolo.

– Estou exagerando, JayJay? – Falo, em deboche. — Ah Jared, quer saber? Foda-se. Foda-se você, foda-se a sua namorada, foda-se todo mundo! – Grito. Jared parece surpreso. – Vamos, James.

Seguro a manga do blazer horroroso de Elijay e vou para longe de Jared, que nem se dá ao trabalho de ir atrás de mim.

Volto para onde estava sentada antes, agarro minha bebida não identificada e bebo tudo de uma vez. O líquido misterioso desce queimando pela minha garganta, trazendo novamente aquela sensação boa de quando tudo que você mais precisava no mundo era uma generosa dose de álcool. Peço um refil e bebo tudo num gole só.

– Uou, você talvez queira pegar leve nisso ai... – Diz Elijay. Apenas lanço um olhar hostil de “não atrapalhe a minha bebida”. – Ou não...

Ignoro completamente a presença de duas personas non gratas do outro lado do salão e passo a beber com Elijay. Ele é uma pessoa bem sociável, para ser sincera.

"Antallaktikó parakaló" é a expressão que mais usei na noite. Ela significa "Refil, por favor" (pelo menos eu acho que é isso que significa. Na hora pareceu certo). Os intervalos de tempo entre uma dose e outra são terrivelmente curtos, e chega um ponto onde eu já nem sei se estou pedindo refil, um abraço ou as direções para o zoológico mais próximo, porém o garçom sabe que quero mais bebida. Eu já perdi a conta da quantidade de álcool que ingeri. Sinto-me tonta e possivelmente me arrependerei disso tudo pela manhã. Tudo que quero no momento é a minha cama.

Cambaleio até a saída mais próxima e tento achar a chave da Mercedes dentro da minha bolsa, mas só encontro uma vontade imensa de vomitar, que acaba se tornando inevitável. Coloco tudo para fora num vaso de planta no estacionamento. A essa altura, estou ajoelhada no chão, agarrando o vaso, e Elijay apareceu do meu lado sem que eu percebesse. Ele pega a chave da Mercedes que misteriosamente apareceu na minha mão.

– Você não está em condições para dirigir. Eu te levo de volta para o Alojamento. E é melhor que você reze para todos estarem dormindo, porque Anthony não vai gostar de te ver nesse estado. – Diz ele.

– Olha só para você, James... – Digo, enquanto me levanto. – Se preocupando comigo, que legal... – Falo, ainda meio tonta. – Vamos embora, Jamie...

Elijay me ajuda a levantar e sentar no banco do carona. Tiro os sapatos e me aconchego no banco, ignorando totalmente o fato de que um cara que eu mal conheço está dirigindo um carro que eu praticamente roubei. Sinto-me tonta e desnorteada. Um sono absurdo invade meu corpo. Deixo de lado todos os instintos que tentam me forçar a permanecer acordada e pego no sono, lenta e calmamente.