Chosen: A Ascensão
20 Passado, passado meu. Há alguém que não o saiba como eu?
Descemos uma escadaria em espiral muito rapidamente. Sebastian tem uma expressão estranha no rosto, algo que não consigo decifrar. Ele me arrasta de um lado para o outro no castelo. Vemos pessoas chorando, reclamando e algumas ainda tentam se adaptar as pedras frias da construção. Em certo ponto, já não faço mais ideia de onde estou. Se tivesse que voltar para a entrada do castelo, eu não saberia como. Rodando, rodando, rodando. A escada não parece ter fim. Meus pulsos estão começando a doer, Sebastian está apertando-os com muita força desde que entramos. Tenho medo do que possa acontecer. Sei que quero ouvir a verdade, mas não compreendo o porquê de estar tão segura de que Sebastian não vai mentir para mim assim como todo mundo.
Quando chegamos ao fim da escadaria, Sebastian adentra um longo corredor. Ninguém parece ter estado aqui nos últimos vinte anos. Poeira e teias de aranha são os enfeites de todos os móveis e candelabros. Os diversos espelhos que cobrem as paredes de pedra cinzenta estão muito sujos, a maioria também está quebrado. Conforme avançamos, a luminosidade das janelas do castelo vai se tornando insuficiente para enxergarmos para onde estamos indo, porém Sebastian parece saber exatamente o que fazer. Ele deve ter um lugar fixo em sua mente. Entretanto, Lana disse que ninguém esteve aqui nos últimos anos, o que me faz pensar em como Sebastian sabe se localizar aqui. Chega um momento em que seu silêncio e a quantidade de força aplicada contra meus pulsos se tornam preocupantes, então eu o paro:
– Sebastian, você está me machucando! – Grito, ao puxar meu braço para longe dele. Somente assim ele pareceu acordar do torpor.
– Desculpe. É só que... Eles me deixam muito irritado. – Diz ele, sem graça.
– Percebi. – Digo, ao massagear meus pulsos dormentes.
– Chegamos. – Fala ele, sorrindo ao indicar uma porta de madeira bem simplória, se comparada ao restante do castelo.
Abro-a devagar, revelando uma pequena sala. Há uma grande janela com uma vista incrível das montanhas que deixa uma boa quantidade de luz entrar. Assim como os corredores, toda e qualquer coisa nesse cômodo apresenta uma quantidade enorme de poeira e teias de aranha. O cheiro de mofo é terrível. A grande maioria dos móveis está coberta por lençóis que um dia já foram brancos, mas hoje apresentam uma coloração amarelada feia. Sentamos em um banco de madeira perto da janela. Sebastian apoia os cotovelos sobre seus joelhos e passa as mãos pelos cabelos repetidas vezes, como se não soubesse como começar. Na situação dele, acho que eu também não saberia. Noto alguns rangidos vindos de algum ponto no andar superior. Sebastian não parece notá-los, mas acho que deve ser alguém organizando suas coisas, então resolvo ignorar.
– Tenho a impressão de que já estive aqui... — Resmungo, não para alguém específico.
– É porque já esteve... Quinn, escute, as coisas que vou falar não serão fáceis de dizer e muito menos de acreditar, mas preciso que você acredite, ok? Não sei o que pode acontecer depois que eu contar essas coisas, mas isso vale a pena. – Diz ele, ainda sem olhar para mim. Um calafrio percorre meu corpo quando Sebastian respira fundo e começa a contar uma história: a minha.
“Antes de começarmos, quero que pegue tudo que acha que sabe sobre a sua vida e esqueça, porque provavelmente não é verdade. Vamos pelo básico: seu nome é Quinn Fabrey, você completa 18 anos daqui a três meses. Desses seus quase 18 anos de vida, nós nos conhecemos por, pelo menos, 12.”
“Sua mãe foi Eliza Nathalie Fabrey, Liz. Ela morreu num incêndio na Sede de Los Angeles há seis anos atrás, logo depois de ter retornado de uma missão. Seu pai é Robert Weston, e está desaparecido há anos. Ele é a pessoa mais brilhante que já conheci e trabalhava como cientista na Ordem. Você é californiana, e nos conhecemos na Sede de LA, através de nossos pais. Jared, eu e você éramos muito próximos. Meu pai conheceu sua mãe muito antes, e minha mãe conheceu seu pai primeiro. Anthony encontrou com Liz durante uma cerimônia do exército. Ela era uma soldada muito talentosa, segundo ele. Minha mãe conheceu Robert na Academia de Pesquisas. Os quatro eram amigos há séculos, então foi natural que essa afinidade fosse passada para os filhos, no caso, eu e você. Nenhum de nós conheceu os pais biológicos de Jared, e ele esteve vivendo com Joseph desde... Bem, sempre.”
“Certa vez, quando você tinha 12 anos e eu e Jared 13, resolvemos fazer algo arriscado. Costumávamos aprontar muito, mas muito mesmo. O Conselho já não nos aguentava mais, e era Jared quem sempre causava as maiores confusões, geralmente com o objetivo de ser pego. Ele sempre gostou de atenção, fosse ela positiva ou negativa. Robert, como eu tinha dito, era um prestigiado cientista, e ele havia sido designado para estudar os fragmentos da Pedra, aqueles que você e Lana tinham começado a caçar. Foi ele o responsável pela maioria das informações que temos hoje sobre a Pedra, o cara era um verdadeiro gênio. De qualquer jeito, os fragmentos ficavam guardados numa sala do laboratório que ninguém além de Robert, Joseph e Anthony tinha acesso. E esse algo arriscado que decidimos fazer foi ir atrás da sala quando tivemos a chance. O trajeto até ela foi estranho. Você sabia todas as senhas requeridas, as câmeras estavam desligadas e a segurança estava enfraquecida pela festa que ocorria na Sede. Absolutamente tudo foi esquisito, mas nada se compara ao que aconteceu quando chegamos à sala em que a Pedra estava sendo guardada. Você tocou nela, Quinn. Tocou nela e sobreviveu. Eu e Jared observamos a energia da Pedra sob as suas veias, irradiando luz vermelha. Seu cabelo era loiro, sabia? A Pedra transformou-o. Suas sardas também são consequência daquele toque, porém grande parte delas desapareceu com o tempo.”
“A sala toda começou a estremecer, caindo aos pedaços. O fogo que causou o incêndio simplesmente surgiu ali. Não tem explicação, ele apareceu do nada. E foi quando sua mãe nos viu e tentou falar com você, te salvar, mas nada funcionava. Depois de um tempo tentando, ela tocou em você. A energia a jogou para longe. Liz bateu com a cabeça na parede e desmaiou. Um pedaço de concreto caiu sobre ela, matando-a. Foi quando Jared saiu correndo da sala, apavorado. Ele foi direto contar a Joseph o que havia acontecido, porém, na versão dele. Henning mentiu para todo o Conselho. Fingiu ter tentado nos impedir e deu a entender que ele era o mocinho da história. Ele nos traiu, Quinn. Preferiu salvar a própria pele a nos ajudar. Resultado: Eu ganhei uma pena de seis anos em exílio. Nada aconteceu com Jared. Você, bem... Estava desacordada. Desmaiou depois de tocar na Pedra. Tudo que sei depois disso é que Robert estava pirando. Toda a sua pesquisa estava acabando com ele, e quando Liz morreu e o incidente aconteceu, tudo piorou. As coisas só ficaram críticas mesmo quando ele começou a estudar você em conjunto com a Pedra, observando as reações dela no seu corpo. Suas descobertas fizeram com que ele perdesse a cabeça de vez, então o Conselho desapareceu com ele e todos os vestígios da pesquisa que Robert tinha feito. O principal motivo dele ter ficado como ficou foi o jeito que a Pedra te afetou. Até onde eu sei, os efeitos colaterais eram catastróficos. Não posso afirmar porque não estava aqui, tudo que sei foi meu pai que contou. Por causa dos efeitos, ele, em parceria com os laboratórios da BS, desenvolveu o que o Conselho apelidou de A Solução. A Solução era uma espécie de tratamento com eletrodos, genes e coisas do tipo, que era capaz de alterar as memórias de um indivíduo. Um centro de pesquisas na França estava desenvolvendo um tratamento similar, porém era destinado a cura de doenças mentais relacionadas as memórias, como Alzaimer. No entanto, os cientistas ainda estavam testando essa cura em ratos. Desesperado, seu pai a modificou e aplicou em você, e com a ajuda da BS, alterou as suas memórias de um jeito que você não se lembrasse do que aconteceu antes dos seus 12 anos. Porém, eles precisaram criar memórias falsas para suprir a sua infância. Então, criaram tudo que você achava que sabia. Criar uma infância falsa foi difícil, requiriu não somente habilidade, mas criatividade, afinal, eles estavam inventando uma história. Anthony concordou em ser seu mestre protetor para observar, garantir que tudo estava bem e assegurar as mentiras que te contaram. Você tinha sido programada para não se importar, não perguntar e não querer saber suas origens. Conforme você esquecia da Pedra, os efeitos colaterais dela diminuíam, mas nunca desapareceram completamente. A Solução precisava ser reaplicada a cada dois anos, ou seu cérebro se regenerava do tratamento e fazia você se lembrar, só tem um porém: Robert era o único capaz de fazer o tratamento funcionar. A primeira aplicação foi feita por ele, e funcionou perfeitamente. A segunda foi feita por seu aprendiz, porém o resultado não foi o mesmo. Você se importava, tinha sede por descobrir seu passado e era capaz de ver flashes dele. Se entrasse em contato com elementos que você conheceu antes, seria capaz de lembrar deles, como é o caso desta sala. Agora chegou a hora de realizar o tratamento novamente, porém, o aprendiz também enlouqueceu quando se aprofundou nos estudos da Pedra, ou seja: não há ninguém apto a aplicar o tratamento. Eles não podem te impedir de lembrar, para o desespero da Ordem, A Solução acabou.”
“Agora sei que a Bowden precisa de você para continuar seus estudos da Pedra, já que eles têm quase todos os fragmentos. Jared, Joseph, e mais um monte de gente, eram traidores. Estavam infiltrados na Ordem, fornecendo informações e esperando pelo momento certo. Jared nos traiu, Quinn, de novo. Mais que isso, depois da primeira aplicação d’A Solução, ele continuou a fingir ser seu amigo. Fingiu que nada tinha acontecido e que as coisas feitas por ele eram as certas. Ele mentiu para todo mundo. Quando meus anos em exílio acabaram, percebi que a Ordem pretendia me manter lá, isolado, evitando que eu entrasse em contato com você e fizesse exatamente o que estou fazendo agora.”
“Queria poder te contar mais, Quinn, mas isso é tudo que sei. Anthony é um dos únicos com todas as informações, porém ele não está disposto a falar. Sinto muito. Sua vida foi arruinada, achei que você tinha o direito de saber como e por quê. Não queria falar tudo de uma vez, isso deve ter sido um choque e tanto. Na verdade, entendo se você precisar de um tempo sozinha, é só que... Há seis anos atrás, nessa mesma sala, você me fez prometer que jamais te abandonaria. Eu não podia te largar aqui com essa gente, então voltei, Quinn. Não só porque não aguentava mais ficar naquela maldita ilha, mas porque eu prometi. Eu nunca quebrei uma promessa com você, não queria que houvesse uma primeira vez. Sei que você pode estar pensando que ninguém mais se importa, que todos estão bravos, achando que a culpa de tudo que tem acontecido é sua, mas eu não desisti de você, Quinn Fabrey. Nunca desisti, nunca desistirei."
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