Chosen: A Ascensão
21 Delírios - Parte 2
Mentiras, um montão delas. Esse é o único jeito de descrever a história absurda que Sebastian contou. Ele acha que isso é algum tipo de jogo? Não. Eu me recuso a acreditar que as coisas que acabei de ouvir são verdades. Essas palavras são surreais, sem sentido. O cabelo de menininhas não muda de cor e laboratórios não pegam fogo a partir do nada. Ordens não conspiram contra mim. Eu não sou nenhuma aberração. Ou será que sou? Quem sabe eu comece a me transformar num monstro vermelho...
Sebastian continua com os cotovelos apoiados nos joelhos, sem coragem de me encarar. Seu olhar parece distante. Em seu semblante, noto uma expressão nostálgica, como se ele relembrasse uma boa lembrança da infância. Queria que ele olhasse para mim. Queria que dissesse que tudo isso não passou de uma brincadeira de péssimo gosto. Queria que, por pelo menos um dia, as coisas não girassem ao meu redor. Para ser sincera, queria que Anthony estivesse aqui. Ele saberia o que fazer. Ele sempre sabe o que fazer. Queria que ninguém me odiasse. Queria que Alex não tivesse me traído, queria que Lana me abraçasse e dissesse que tudo vai ficar bem. Queria que tudo voltasse ao normal, mas, no meu caso, na minha vida, o que é normal? Pela primeira vez desde que consigo me lembrar, as coisas não estão acontecendo do jeito que eu quero que elas aconteçam, e essa sensação de impotência perante os problemas que virão só consegue piorar a minha situação. Eu queria tanto ouvir a verdade que nunca parei para pensar que ela poderia não satisfazer as minhas expectativas e curiosidades. Quando não há nenhuma informação ou fonte para verificar, o que me impede de duvidar? Eu duvido de Sebastian. Duvido da sua história louca de conspiração. Duvido que eu tenha causado tudo isso, duvido que tenha matado minha mãe e feito meu pai enlouquecer. Duvido de tudo, duvido dele. Eu não o conheço, apesar do que ele próprio disse. Eu não me lembro dele. Não sei quem é ou quem foi. Não somos amigos, namorados ou parentes. Ele é um completo estranho. Por que devo acreditar em Sebastian? Eu não o conheço! Não lembro dele e não possuo muitas informações a seu respeito, mas ainda assim, por que tenho a sensação de que sei quem ele é e sei dos motivos pelos quais eu deveria acreditar em toda e qualquer palavra que sua voz grossa e tranquilizante pronuncie?
Minha dor de cabeça aumenta rapidamente conforme penso sobre esses assuntos (ou sobre qualquer assunto, para falar a verdade). Sinto-me nauseada, atordoada. Não sei o que fazer e muito menos o que pensar. O que é real nessa sala? Sei que está suja. Posso ouvir os barulhos provenientes do andar superior. Posso sentir o sol esquentar a minha pele. Porém, vejo e ouço coisas que tenho certeza de que não estão realmente aqui. Tento me levantar, mas a situação só piora. Caio no chão e me contorço de dor. Minha cabeça parece prestes a explodir. A dor estonteante me faz gritar e gemer como uma criança. Sinto o sangue pulsar pelas minhas veias e artérias, percorrendo meu corpo mais rápido. Meu coração bate forte, a adrenalina subindo. O que está acontecendo comigo? Minha pele arde, queima como fogo. Sebastian está ajoelhado ao meu lado. Vejo sua boca se mexer, ouço-o falar, porém não sou capaz de diferir as palavras.
Flashes de cores e imagens aleatórias invadem minha cabeça como o mar invade a areia nos dias de maré alta. Não importa o que eu faça, eles são controlados por uma força maior que eu. Deito e rolo no chão, gritando e observando a expressão de pavor nos olhos de Sebastian. Em certo ponto, a dor se torna mais forte do que eu consigo aguentar. Vou perdendo controle do meu próprio corpo, me deixando levar por só Deus sabe o que. Sinto Sebastian me pegar no colo. Sou carregada pelos corredores de pedra empoeirados, meus braços e pernas pendurados no ar. Quando chegamos à alguma sala cheia de gente, eu já não sei mais onde estou. A pouca sanidade que havia me restado parecia ter desaparecido. Pessoas correm de um lado para o outro, gritam e me sacodem. Minha garganta arde de tanto gritar. Sinto alguém agarrar minhas mãos e as amarrar sobre a superfície em que fui largada. Minhas pernas são presas também. Continuo a me debater. Antes, eu só gritava coisas sem sentido algum porque estava com dor, mas agora meus lábios se movem contra a minha vontade. Eles formam palavras que não consigo diferir, mas que os outros com certeza conseguem. Estão todos pasmos, encarando-me como se eu fosse alguma espécie de psicopata, o que muito provavelmente é o que eu estou parecendo no momento. Droga, é o que sinto que sou no momento.
Sem controle total do meu próprio corpo, uma força gerada pela raiva e conflito dentro de mim faz com que eu acabe arrancando soltando as amarras que prendiam meus braços. Não faço ideia de como fui capaz disso, e ninguém mais pareceu entender isso também. Antes que eu causasse mais algum estrago, alguém tenta me anestesiar com uma seringa e uns remédios, porém eu prevejo a aproximação da pessoa, e acabo torcendo seu braço e fazendo com que ela injetasse o conteúdo da seringa em si própria. Subitamente, o controle do meu corpo parece retornar para mim. Paro de me debater, mas respiro com dificuldade, arquejando sobre a mesa, as pernas ainda presas. Sinto meu estômago queimar e... Pronto. Coloco tudo para fora. Vomito até não haver mais nada que pudesse ser “posto para fora”, e o contrário do que senti há vinte segundos me invade: uma fraqueza absurda. Juro que quase pude enxergar meu rosto empalidecer. A tontura retorna e me atinge com força. Minha cabeça gira como um catavento numa tempestade. Meu estômago está debilitado, fazendo-me pensar que não vou poder comer nada pelos próximos cinco dias. Meus olhos ardem, meu corpo dói, frio e contraído. Meus pulsos estão vermelhos e marcados pelas amarras que eu arranquei. Não há mais ninguém perto de mim, todos me observam de longe. Seja medo ou nojo, nem o mais corajoso ousa se aproximar. Ao olhar para o chão, mais uma surpresa: aparentemente, o que eu vomitei era sangue (ou qualquer outra substância vermelha e viscosa que pudesse estar percorrendo meu corpo naquele momento). O piso de pedra está manchado de escarlate, assim como minha boca e as costas de mão esquerda que havia usado para limpar. Sinto-me mais fraca do que jamais estive. Sem voz e sem forças para nada, eu apenas me deito na superfície dura e fria em que havia sido amarrada e, sem condições de continuar acordada, apago com a imagem de seis cabeças preocupadas me encarando e discutindo. Discutindo sobre mim, de novo...
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Acordo tensa e suando frio depois de um estranho pesadelo. Na verdade, ele foi mais complexo e vivo que um simples pesadelo. Além disso, pesadelos deveriam acabar quando o indivíduo que os está tendo acorda. No meu caso, eles continuam todo dia, toda hora, sem nunca cessar. Eu vivo num pesadelo sem jamais poder acordar. Vivo num pesadelo sem nunca poder descansar. Eu abro os olhos para encontrar meus piores medos e maiores fraquezas me encarando. Meus pesadelos não terminam quando eu abro os olhos. O único jeito de fazê-los terminar seria enfrentando-os. Porém, como se enfrenta aquilo que não se sabe o que é?
Minha dor de cabeça não diminuiu nem um pouco. Sei que devo estar completamente dopada com analgésicos, calmantes e mais uma dúzia de outros medicamentos. No entanto, não sinto o efeito de nenhuma dessas drogas. O que eu sinto é uma dor tremenda, isso sim. Minhas dores envolvem até os mais sutis movimentos. Tento me levantar. Ah, péssima ideia. Conforme me mexo na cama, percebo que meu estômago volta a se revirar, fazendo voltar a vontade de vomitar, porém, eu me contenho. Não tenho forças nem para isso no momento. Incapaz de me mexer, sou obrigada a continuar deitada na cama dura e desconfortável na qual fui colocada. Não sei em que parte do castelo estou nem por quanto tempo estive dormindo. Estou perdida no tempo e espaço. Admito que estava torcendo para encontrar Anthony e Sebastian a minha espera quando acordasse, e ver que isso não aconteceu me deixou, de certa forma, decepcionada.
A dúvida volta a me incomodar. Será que Sebastian me contou a verdade ou mentiu para mim assim como todo mundo? Ele não teria motivo para mentir, no entanto, não sei se acredito que ele teria motivo para me contar a verdade. Talvez ele o tenha feito apenas para chatear Anthony. Talvez ele apenas inventou uma história porque estava entediado. Eu não saberia dizer, já que não o conheço, nem aprendi a decifrá-lo ainda. Sebastian é misterioso. Misterioso até demais. Não gosto de não poder ler as pessoas. A sensação de não compreendê-las é irritante e assustadora, por isso não sei até que ponto esse mistério todo é um charme ou medo de que as pessoas o conheçam. Ultimamente, meus pensamentos e dúvidas sempre acabam se resumindo em Sebastian, e não sei se gosto disso. Para ser bem sincera, sinto falta de Jared. Sinto falta de fazer besteiras com ele, de beber café e conversar pelas madrugadas. Sinto falta de um ombro amigo, presente independente de onde e quando eu precisasse. É difícil para mim acreditar que ele tenha realmente feito tudo aquilo que Sebastian o acusou de ter feito. Ele é um traidor, sei disso, mas era meu amigo (eu acho). É só que... Ele esteve lá, sabe? Por mim. Eu o conheço há anos. Lembro dele, sei quem é, quem foi e posso presumir quem será. Posso lê-lo, prever seus movimentos e pensamentos. Eu entendo como Jared Henning funciona, e o problema é que eu tenho bastante certeza de que ele também sabe como eu funciono, apesar de eu mesma não saber. Queria me compreender como Henning compreende.
O tempo não parece passar. Ainda me sinto entorpecida pelas palavras de Sebastian, sejam elas verdades ou não. Céus, isso soa exatamente como o tipo de coisa que aconteceria comigo. De repente, a culpa me atinge. Se Sebastian estiver certo, minha mãe está morta por minha culpa. Meu pai enlouqueceu. Toda aquelas pessoas na Ordem perderam suas casas e até suas vidas por minha culpa. Porque eu não estava lá, porque eu sobrevivi. Se eu realmente toquei naquela maldita Pedra, como eu ainda estou aqui respirando? Não faz sentido. Nada faz, para ser sincera. Conforme penso nas consequências de tudo que fiz, vou fazer ou posso ter feito, uma tristeza absurda toma conta de mim, tornando-se quase tão forte quanto as dores e dúvidas que atormentam meu ser no momento. Eu nunca vou conhecer meus pais, e nunca vou lembrar deles. Eu nunca vou receber um beijo de boa noite ou um abraço de consolo. Eu nunca vou saber como foi meu primeiro dia de escola. Nunca vou saber quem foi minha melhor amiga quando pequena. Jamais descobrirei quando foi meu primeiro beijo. Eu não vou poder me desculpar pelos estragos causados pela minha imprudência naquele suposto incêndio. Nunca vou poder compensar as perdas dos últimos dias. Eu valho tudo isso? Meu valor é maior que o de todo mundo que já morreu em função do incêndio e da invasão? Eu queria a verdade, mas jamais parei para pensar no que ela faria comigo. Ela me transformou. Pela primeira vez na vida, eu me sinto culpada. Sinto que todos me odeiam. Penso que só estão me mantendo aqui por causa da Pedra. Posso ter destruído tudo pelo que zelei – e pelo que os outros zelaram. Pela primeira vez, eu sento na cama e penso nos meus atos. Foram eles certos?
Sinto vontade de chorar. Cansei de ser forte, de fingir ser. Cansei das mentiras, mas não sei se a verdade vale a pena, agora que posso tê-la conseguido. Meus olhos começam a lacrimejar. Quero lembranças. Quero pais, família, amigos. Quero me formar na Academia. Quero frequentar a escola. Cansei de conter minha tristeza. Só... Me permito ser o que tiver de ser. Deixo as lágrimas escorrerem pelo meu rosto quente. Deixo a culpa pesar no meu eu. Deixo meus pensamentos subirem a cabeça e lentamente me enlouquecerem. Quem sou eu é uma pergunta bem ampla. Só espero um dia poder respondê-la. Ainda tenho muito de mim para descobrir. Chega de sentir pena. Enxugo as lágrimas, respiro fundo e tento me preparar para o que quer que venha a seguir. Seja guerra ou paz, vitória ou derrota, eu estarei lá, firme e forte. Quinn Fabrey não desiste. Hora de lutar pelo que eu achar certo. Hora de consertar as mancadas que eu possa ter cometido. Se essa verdade não me satisfez, é melhor que eu ache uma que me satisfaça.
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