Chosen: A Ascensão

11 Henning, Joseph Henning.


Sou acordada no meio da madrugada por sussurros quase inaudíveis. Não sei exatamente há quanto tempo estou internada na Ala Hospitalar, mas consigo sentir os pontos nas feridas. Minhas mãos estão enfaixadas e minha cabeça dói de um jeito que me faz pensar que estava deitada num travesseiro de pregos. O ambiente está iluminado pela luz de um dos leitos mais distantes, perto da entrada. Tento me mexer, porém mesmo o mais sutil dos movimentos é suficiente para proporcionar uma dor imensa. Respiro fundo e levanto. Seja lá quem esteja conversando assim tão baixo, assim tão tarde, não quer ser ouvido. Motivo suficiente para ignorar minhas dores. Caminho sorrateiramente pela escuridão da noite, deixando o recinto no mesmo silêncio e calmaria que possuía antes de eu acordar. Aproximo-me calmamente, leito por leito, até chegar perto o suficiente para distinguir rostos e palavras. Há dois leitos de distância, observei meu melhor amigo tendo uma conversa bem suspeita com a pessoa mais odiosa desse mundo. O estado de Joseph era deplorável, quem sabe até pior que o meu. Seu braço direito estava apoiado numa tipoia e seu rosto muito inchado. Ele estava em pé com o auxílio de muletas. Lana disse que Joseph havia desaparecido depois da briga com Anthony, o que me faz questionar o porquê de ter retornado e, mais ainda, de ter vindo falar diretamente com Jared, em plena madrugada e de forma tão sigilosa. Eu mal me aguento em pé, mas preciso entender o que está acontecendo aqui. Jared odeia Joseph tanto quanto eu. Mais confusão, que legal...

Ambos vestem roupas escuras e parecem muito irritados. Não consigo descrever o quão estranha é a cena que estou presenciando. Eles parecem discutir algo sério e extremamente importante.

– ... não saiu como planejado. – Diz Joseph. Não compreendi a primeira metade da frase. Jared o encara sério. Não há nenhum resquício de malícia ou ironia em seu semblante. Ele, na verdade, está ereto e muito rígido, disciplinado.

– Eu não sei por quanto tempo vou conseguir manter tudo isso. As coisas estão começando a desmoronar. Quando é a próxima sessão, falando nisso? Ela está suspeitando.

– Mantenha a calma, Jared. Estamos trabalhando nisso. Anthony não está facilitando as coisas. Ele quer contar tudo, não só para Quinn. O Conselho está conosco, mas ainda temos outro problema. Sabe que dia é amanhã?

– 21 de agosto...

– Sebastian sempre foi um problema que teríamos de lidar, cedo ou tarde. E ele vai voltar, mas será a sua tarefa mantê-lo longe, entendeu? Por ora vamos mandar a garota procurar o restante dos fragmentos. Luke está ficando impaciente.

– Sim, senhor. Farei o meu melhor.

Joseph dá um tapinha nas costas de Jared e deixa a Ala Hospitalar. Estranho... Por que mentir para mim? Ele é meu amigo, certo? Passamos por tanta coisa juntos. Ah, tantas perguntas... Que sessão eles estão falando? Sei que Anthony quis me contar alguma coisa, mas não pôde. Agora sei o motivo. Mais importante que isso: Quem é Sebastian e por que 21 de agosto é uma data tão importante? O que não deu certo? Não sei o que pensar. Não sei o que fazer. A cada hora que passa, mais dúvidas e perguntas surgem. Porém nenhuma resposta. Preciso encontrar Anthony antes que eu perca a cabeça de vez.

Volto de forma furtiva para o meu leito. Deito na cama e finjo dormir quando Jared se senta na cadeira ao lado da maca. Tento manter a respiração regular e sou obrigada a fazer um grande esforço para manter os olhos fechados enquanto ele começa a falar com o meu eu inconsciente. Sinto-o apoiar as mãos na beirada do colchão.

– Eu estraguei tudo, Quinn. Não posso mudar o que eu fiz e também não mudaria se pudesse. Sinto muito. – Diz ele, triste. Na minha mente, vejo-o sentado à beirada da cama, uma lágrima escorrendo pelo seu rosto. A causa ainda desconhecida. O que ele estragou? Do que sente muito? Fale comigo, caramba! Explique o que estragou! Vire homem e crie coragem de se desculpar na minha frente enquanto estiver verdadeiramente consciente, não quando acha que estou dormindo! Você é um verdadeiro idiota, Henning. Queria poder dizer isso na sua cara agora.

Ouço-o fungando ao meu lado, e por um instante quis ignorar todas as mentiras e confusões e abraçá-lo como ele fez comigo diversas vezes quando estava triste. Entretanto, essa vontade não dura muito. A pena vai se transformando em raiva lentamente, aumentando minha vontade de socá-lo. Tenho que sair daqui, não aguento ficar deitada por nem mais um minuto sequer. Jared logo vai embora, então levanto novamente. Troco as roupas do hospital por um par de tênis e calça jeans. Abro a cortina branca do leito e caminho rapidamente pelo corredor vazio. Todas as cortinas estavam fechadas. As imensas janelas deixavam entrar um feixe de luz branca, proveniente da grande lua minguante que brilhava no céu noturno, criando sombras estranhas nos pisos. Deixo a Ala Hospitalar e vou direto para o Laboratório Leste. Lana pode me fornecer algumas respostas.

...

Entrei na Sala de Pesquisa número cinco e encontrei uma adolescente dormindo em cima do computador. Lana parecia exausta e quase me senti culpada por acordá-la. Ela tem fortes olheiras e seus cabelos negros estão completamente bagunçados. Os óculos um pouco embaçados e tortos em seu rosto. Ajeito-os sorrindo. Ela demora alguns segundos para se situar e entender o que está acontecendo, ainda bem sonolenta. Lana dispensa formalidades e me abraça forte, fazendo mil perguntas. Uma dor aguda invade meu corpo, mas ignoro. Sou obrigada a admitir que desenvolvi um bom nível de confiança com essa garota que conheci há apenas alguns dias atrás. Lana veste uma saia florida rosa com uma blusa branca por baixo do jaleco. Às vezes é difícil acreditar que ela tem apenas 16 anos. Bem, às vezes eu também esqueço que não tenho nem 18 ainda.

– Conte-me tudo, não poupe detalhes! – Exclama Lana. Sentamos em volta do computador que ela estava usando como travesseiros e conto tudo, desde a minha chegada à Heraklion a mais suspeita conversa que já escutei.

– Lana, não sei o que fazer. Anthony sumiu e agora tem tanta coisa que eu não entendo acontecendo... Ainda estou meio chocada com aquele “sequestro”. Por que alguém faria aquilo?

– Ah, acho que Joseph não contava com isso, não é... – Diz ela, rindo. Quase que instantaneamente, seu sorriso se desfaz. Lana coloca as mãos sobre a boca, como se tivesse dito algo que não devia.

– O que você quer dizer com isso? – Pergunto, irritada. Ela claramente sabe alguma coisa, mas não quer contar.

– Eu não posso falar, Quinn.

– Claro que pode! – Grito, exaltada.

– Você não entende! Eles farão coisas horríveis acontecer se eu contar! – Diz ela. Lágrimas escorreram pelo seu rosto. – Eu quero falar, Quinn. Mas não posso. Por favor, não me peça para contar. Você não vai gostar do que pode acontecer se eles descobrirem! Eles têm olhos e ouvidos em todos os lugares...

– Quem, Lana? Quem pode descobrir? – Pergunto. Lana recusa-se a falar. Lágrimas continuam a escorrer pelo seu pequeno resto. Levanto abruptamente e seguro-a pelo pulso. Saímos da Sala de Pesquisa e vamos para o único lugar totalmente sem vigilância da Ordem. O buraco da organização: O Covil.

O Covil é o doentio divertimento da Academia de Combate. Literalmente um buraco no chão localizado sob o Alojamento B, algum tipo de caverna subterrânea. Um grande salão rochoso descoberto anos atrás por um grupo de adolescentes bisbilhoteiros. Foi chamado desse jeito porque as definições de “covil” sugerem um lugar escuro, sujo e sombrio. Habitado por feras e, no sentido figurativo, estar em um covil pode indicar estar entre pessoas de índole duvidosa. Essa é a definição exata do lugar. Um buraco sujo, uma terra onde a única lei é aquela definida por Joe. O Covil é um centro de apostas. O local para beber, apostar em jogos de azar, nos duelos do Pentágono e fazer qualquer coisa ilegal, imoral ou que vá contra as regras da BS. O Pentágono é a arena onde ocorrem as lutas. Há varias arquibancadas em volta para que todos possam assistir as brutalidades ocorrendo no ringue. Perto do Pentágono há uma grande bancada chamada de Apostômetro. É onde as pessoas se reúnem para fazer as apostas e definir os prêmios. Todo tipo de coisa pode ser barganhada. Dinheiro, carros, bebidas, favores... Todas as lutas, apostas e qualquer atividade realizada nas dependências d'O Covil é coordenada por um cara chamado Joe. Ele é um quarentão gordo e carrancudo. Não é a mais simpáticas das pessoas, mas consegue ser divertido quando quer. Lá não existem câmeras, e os seguranças brutamontes só estão lá para impedir que as pessoas se matem ali dentro. E é para esse lugar repugnante que arrasto a pequena e delicada Lana. Membros da Academia de Pesquisas não são bem vindos, mas estando comigo, eu gostaria de ver alguém tentar impedi-la de entrar.

Ao chegar n’O Covil, somos recebidas por Joe. O lugar fica aberto 24 horas por dia, porém o agito só acontece à noite. Seus cabelos negros estão grudados na sua cabeça suada. A barba por fazer já tomou conta do seu rosto rechonchudo. Ele sorri quando me vê. Faz algum tempo que não venho aqui. Joe já queria me arranjar uma luta, mas recuso. Não estou em condições para lutar, sem contar que não poderia largar Lana aqui sozinha. Ela não aguentaria a selvageria do lugar por nem 10 segundos sequer. Não que eu a ache fraca, é só que ela não está acostumada com esse tipo de coisa. A vida nos laboratórios pode ser bem solitária e calma.

Descemos a grande escadaria de pedra que liga o Alojamento à caverna. O Covil está mais cheio do que o comum, e ao passar pelo Pentágono entendo o motivo. Hoje é dia das Clássicas. As Clássicas são as lutas envolvendo os mais velhos, aqueles cujo nome já fez a maioria das pessoas estremecer. Lutadores com habilidades desenvolvidas e muita experiência. Todos adoram assistir as Clássicas. Essas geralmente são as lutas que duram mais tempo e ambas as partes saem totalmente destruídas. A regra do ringue é simples. Uma vez no Pentágono, há apenas duas saídas: Lutar até não poder mais ou desistir. A luta só termina até que uma dessas coisas aconteça, mas ninguém nunca desiste porque isso implica em receber uma punição. E, vá por mim, você não quer receber uma punição. Joe pode ser bem criativo quanto a isso. O que nos leva a uma coisa intrigante que acontece no Apostômetro. Quando você se inscreve para uma luta, não sabe quem será seu adversário até estar dentro do Pentágono, onde vocês já conhecem a regra. Joe faz isso para que as pessoas não desistam da luta antes de entrarem no ringue. Seria muito fácil largar tudo caso você descobrisse que ia brigar com alguém barra pesada. Desse modo, você nunca sabe quem vai encarar até que seja a hora, o que causa certa adrenalina. As apostas são sempre feitas a favor de um lutador. Os prêmios podem ser bem interessantes. Lana fica horrorizada com o lugar. Ela não acredita que as pessoas venham aqui por diversão.

Andamos pelo chão úmido e sujo d’O Covil, misturando-nos ao povão. Sentamos num canto mais distante para que possamos conversar. Os gritos empolgados da multidão sugerem uma boa luta e abafam nossas palavras. Lana continua apreensiva quanto a me falar qualquer coisa, mas como eu mesma já certifiquei a ela, não seremos ouvidas aqui. Sem contar que, seja lá o que tenham dito que farão caso fale algo, é mentira. Lana é uma das mais importantes cientistas da BS, eles não fariam algo para prejudicá-la.

– Então... – Tento fazê-la falar.

– Por onde começar... Bem, até onde Anthony me contou, o motivo da briga dele com Joseph foi um suposto encontro. Anthony estava suspeitando das atividades de Joseph. Ele simplesmente desaparecia com bastante frequência ultimamente, então numa noite ele resolveu segui-lo. Acontece que Joseph foi se encontrar com um homem chamado Luke, que seria um dos cabeças da Bowden. Anthony ficou abismado com isso, mas não interrompeu o encontro. Voltou para a Ordem e esperou por Joseph, que não gostou nadinha de ter sido seguido. Quando confrontado sobre o assunto, ele iniciou uma discussão e as coisas esquentaram. Joseph acertou Anthony, que o empurrou escada abaixo na entrada do Alojamento dos Conselheiros.

– Uau. – Falo, boquiaberta e ainda sem acreditar que Joseph é um traidor. Sempre soube que ele era desprezível, só não sabia o quanto. – Mas o que isso tem a ver com aquela confusão do sequestro?

– Bem, seja lá quem está trabalhando com Joseph na Bowden, sequestrou você para pegar o fragmento. Eles pretendiam te matar, mas ele achou que ainda não era a hora. Por isso te largaram lá com todos os meios para que você escapasse. Ele tem fornecido informações privilegiadas para eles há anos, Quinn.

– Mas como eles me encontraram? – Pergunto.

– Joseph me obrigou a colocar um rastreador no seu relógio, para que ele pudesse ficar de olho em você. Sinto muito, eles colocaram uma arma na minha cabeça, eu não soube o que fazer. Desculpe-me, Quinn. – Diz ela, as lágrimas escorrendo novamente. — Nem Anthony sabia disso, mas Joseph tem me obrigado a fazer relatórios semanais para ele e vários outros serviços secretos. Tudo contra minha vontade!

– Está tudo bem, Lana.

– Eu só imagino ser filho daquele monstro! – Exclama ela, entre soluços. Espera um pouco, Joseph não tem filhos... – Não sei como Jared aguenta!

– Quê? – Pergunto. Os pais de Jared desapareceram há muitos anos.

– Jared é filho adotivo de Joseph, Quinn! Onde você acha que ele conseguiu o Henning? Joseph Henning! – Diz ela, chorando. Como nunca percebi isso antes? Estive tão ocupada odiando Joseph que nunca parei para pensar no sobrenome dele. Henning, Joseph Henning.

Merda.