Chosen: A Ascensão
8 Bem vinda de volta a Heraklion.
O voo foi bem tranquilo, durando aproximadamente 40 minutos. Pousamos em uma pista no meio do nada, há alguns quilômetros da cidade. Pego um táxi para o hotel, enquanto o piloto retorna para a Sede. Tudo aqui está exatamente como me lembro. A cidade é maravilhosa. É bastante comum ver prédios e construções com a arquitetura grega trabalhada. O movimento intenso de turistas facilitará o meu disfarce. A marina cheia de barcos, o mar azul hipnotizante, tudo trazendo as lembranças de Alex, que de certo modo ainda me deprimem.
Meu hotel fica muito bem localizado perto do centro histórico da cidade, e sou obrigada a admitir que Lana caprichou na escolha. O edifício é alto e muito bonito, cheio de janelas e sacadas. A arquitetura grega antiga prevalece. O hotel foi projetado para se parecer com o Parthenon. Há várias lojas e restaurantes ao redor, além de uma vista incrível. Tenho quase certeza de que encontrarei uma piscina na cobertura do hotel. O motorista do táxi me deixa no hall de entrada, graciosamente decorado com uma bela fonte, junto de uma estátua gigante de Atena, que, particularmente, é a minha favorita dos olimpianos. O hotel está lotado e ao analisar os turistas é possível ouvir todos os idiomas e as mais diferentes características, denunciando suas nacionalidades. Acho divertido assistir a estrangeiros tentando falar grego enquanto fazem check-in e planejam seus passeios. Isso me lembra que, como “turista”, também terei de fazer check-in na recepção. O único problema é com que informações vou preencher os formulários. Eu provavelmente serei obrigada a utilizar a criatividade para isso.
Atravesso a entrada principal, adentrando o saguão do hotel. A temática grega continua. Majestosas poltronas e tapetes se espalham pelo ambiente. Os pisos e paredes são feitos de mármore branco, com detalhes dourados. Várias pinturas de deuses e paisagens da ilha são exibidas nas paredes adornadas com castiçais. Grandes pilares brancos e dourados enfeitam o salão. Vasos e esculturas também fazem parte da decoração do lugar. A ornamentação do teto é feita com desenhos e pinturas, gesso esculpido e lustres luxuosos. Abóbadas e arcos influenciados pela arquitetura grega também estão presentes em peso. A recepção é em formato meia lua e ocupa boa parte do saguão. As bancadas de mármore exibem desenhos de grandes momentos da história da Grécia. A recepção se localiza exatamente no meio do salão, logo atrás de outra estátua gigantesca, cuja cabeça da figura só pode ser visualizada propriamente do segundo andar, uma vez que o prédio é tão comprido quanto largo.
Aproximo-me da recepção e sou atendida por um homem bastante sorridente. Ele veste um uniforme elegante azul, branco e dourado com a insígnia do hotel, um desenho do Parthenon. O recepcionista tem a pele clara e os olhos e cabelos escuros.
– Bem vinda ao Parthenon, senhorita. Como posso ajudá-la? — Diz o homem. Ou pelo menos é isso é isso que eu acho que ele disse. Nunca fui boa com o grego.
– Olá, eu tenho uma reserva em nome de... – Lana deve ter reservado com o meu nome, certo? – Quinn Fabrey.
– Só um minuto... Ah, sim. Senhorita Fabrey, suíte máster. – Diz o atendente, pegando alguns formulários. – Por favor, preencha todos os campos.
Sinceramente, não entendo o porquê de tantas informações serem necessárias. Nome, endereço, nacionalidade, tipo sanguíneo, email e muito mais... Minha criatividade tem limites, sabia? Depois de me debater um pouco para preencher as informações, o homem me entrega o cartão de acesso para o meu quarto e pede para que o carregador coloque minhas malas num carrinho e as leve. Acompanho o outro atendente pelo saguão, até entrar em um dos três elevadores do hotel. Subimos até o décimo terceiro andar, onde paramos no quarto 1305. O homem deixa as minhas malas e se retira.
Ao entrar, outra surpresa. Esse é simplesmente um dos quartos mais bonitos em que já estive. A cama tem dossel, uns dez travesseiros, cobertas suficientes para que eu me perca nelas e parece terrivelmente confortável. Tudo é lindo e maravilhoso, porém não me aguento mais em pé. Largo as malas em qualquer canto do quarto e me deito, ignorando tudo ao meu redor. Não poderia ligar menos para a decoração do quarto no momento. Caio no sono rapidamente, sem me preocupar com qualquer outra coisa além do fato de eu nunca mais querer deixar essa cama.
Meu travesseiro estava vibrando não sei porquê. Travesseiros não vibram, certo? Demoro mais alguns segundos até entender que era meu relógio vibrando. O sono me deixa quase tão lerda quanto o álcool. Lana estava me chamando. É, me chamando através de um relógio. Entendo que ele tenha um comunicador exatamente para isso, mas celulares me parecem mais práticos. A galera da BS realmente têm alguma coisa contra eles, para falar a verdade.
– QUINN FABREY! – Grita Lana pelo relógio. – Você não vai acreditar no que aconteceu!
– Quê? – Digo, ainda sonolenta.
– Você estava dormindo? Ah, enfim, agora já te acordei... Mas acredite, vale a pena ser acordada para ouvir isso.
– Fala logo, caramba!
– Anthony e Joseph entraram numa briga, com socos e tudo. Anthony está meio roxo, porém eu ainda não te contei a melhor parte: JOSEPH FOI PARAR NO HOSPITAL!
– O QUÊ?? Você não pode estar falando sério, Lana.
– Nunca falei tão sério na minha vida, juro. Ouvi por aí que Anthony o empurrou da escadaria do Laboratório Sul. Joseph simplesmente desapareceu, para ser sincera. Ninguém faz ideia de onde ele foi hospitalizado, mas todos têm certeza de que ele precisaria de um hospital. Anthony, por outro lado, se recusa a falar com qualquer um.
– Meu Deus, tudo anda tão estranho. Primeiro aquele papo esquisito que tive com Anthony e agora isso...
– Espera, que papo esquisito?
– Ahm... – Não queria mencionar minha conversa com Anthony, mas ele disse que podia confiar nela... – Basicamente, Anthony disse umas coisas estranhas para mim antes de sair. Coisas do tipo “estamos sendo observados” e “queria poder te falar mais, porém não posso”. Você não saberia algo sobre isso, saberia?
– Ah, claro que não. – Diz Lana. Noto hesitação em sua voz.
– Não minta para mim.
– Quinn, acredite, agora não é a hora de falarmos sobre isso. Principalmente por aqui... Na verdade, vamos mudar de assunto.
– Lana, eu preciso saber...
– MAS EU NÃO POSSO CONTAR! – Grita ela. É a primeira vez que a escuto irritada.
– E eu estou cansada de ser deixada de fora! Aparentemente todo mundo está guardando segredos de mim agora! Não aguento essas meias verdades, pedaços de informações. Coisas grandes estão vindo, e aí? Eu vou ficar aqui parada esperando elas acontecerem? Quer saber, Lana? Achei que você era diferente, mas é só mais uma marionete do Conselho. Para mim chega!
Tiro o relógio e jogo-o na parede, nem ligando se ele quebrasse. Na verdade, eu torcia para que ele explodisse e se transformasse em mil pedaços. Estou irritada agora. Ninguém me conta nada. O Conselho mantém segredos de mim, Lana mantém segredos, Anthony e Jared também. Isso é horrível. Contem-me a verdade por inteiro ou não me contem nada, porra. São todos malditas marionetes. Façam isso, façam aquilo! Estou cansada disso. Anthony tem sorte de eu estar quase do outro lado da ilha, senão eu juro que iria caçá-lo até o inferno se fosse necessário para que ele me contasse o que está acontecendo. Em circunstâncias normais, Anthony Graymane jamais entraria numa briga, especialmente com Joseph. Alguma coisa está errada, e vou descobrir o que é, nem que seja a última coisa que eu faça.
Quando me dou conta, já são mais de nove da noite. Eu voltaria a dormir, porém minha mente está atulhada de pensamentos aleatórios e potencialmente raivosos. Sinto-me agitada e impotente, sem saber o que fazer. Passei o dia todo sem comer e ainda não tenho fome. Eu só queria uma bela dose de alguma vodka cara, para ser sincera. Porém isso não vai rolar, não agora pelo menos. Preciso estar 100% sóbria amanhã, já que ainda tenho que procurar pelo fragmento naquele resto de palácio que chamam de atração turística. Juro que pegaria as duas pistolas e toda a munição na maleta que Anthony me deu e sairia por ai atirando, mas tenho bastante certeza de que isso não terminaria bem. Imprudência, Quinn. Evite-a. Respiro fundo e tento acalmar meus pensamentos. Lembro a mim mesma que, se tudo der certo, estaria retornando à Sede amanhã nesse horário.
Continuo deitada e deixo minha mente vagar. Pendurado no meu pescoço está o colar de identificação militar da minha mãe, a dogtag. Pensar sobre meus pais sempre faz com que eu me sinta estranha. Minhas lembranças paternais são confusas ou inexistentes, quase como se eu não os tivesse conhecido. Fui a diversos médicos e todos eles disseram a mesma coisa: A perda relativa de memória foi causada pelo estresse pós-traumático de perder ambos os pais. Besteira, se você me perguntar. Meus pais morreram num acidente de carro, e eu estava junto no momento, mas era a única usando cinto de segurança, o que me deteve de sair voando janela afora. Segundo especialistas, reviver essa história deveria fazer com que eu me sentisse mal, estranha talvez, mas nada acontece. Relato o acidente como quem reporta as notícias do tempo. Não sei se isso diz algo sobre mim, sobre o quão fria o treinamento da Ordem me tornou, porém de uma coisa eu tenho certeza: Há mais nessa história do que Anthony me conta. Eu não tenho flashbacks ou pesadelos relacionados a esse evento, mas ainda assim, o estresse pós-traumático bloqueou minha memória. Meus pais eram considerados alguns dos maiores membros da BS, entretanto esqueceram-se de fazer algo simples como colocar o cinto, mesmo tendo colocado-o em mim. Os eventos recentes me fazem questionar o quanto do que eu sei é realmente verdade, e o quanto foi escondido de mim. Outra coisa interessante: Eu não tenho nenhuma foto dos meus pais ou com eles. Não tenho muita noção de como se pareciam. Analisando bem, eu não faço ideia de como eram de verdade. Tudo isso soa muito, mas muito estranho...
Depois de um tempo considerável pensando besteiras e diversas teorias conspiratórias, acabo pegando no sono novamente, mas dessa vez pra valer. O dia amanhã vai ser cheio, e nunca tive tanta certeza quanto ao meu êxito nessa missão. Que venham os russos, os americanos ou a própria Bowden. Eles não podem me derrotar, embora eu gostaria de vê-los tentar...
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