Chosen

1 Primeiro dia em um novo mundo


Notas iniciais
Bom galera, esse é o primeiro capítulo, é a primeira vez que posto algo que escrevi no Nyah! espero de coração que gostem. Deixem seus comentários e/ou criticas construtivas.

Cathe acordou na madrugada fria se revirando na cama, tentando não pensar nas imagens que a muito tentava esquecer, mas parecia haver uma tela diante de seus olhos lhe contando seu próprio passado.

Não conseguia mais suportar aquilo e decidiu levantar-se e começar mais um dia tedioso.

O relógio marcava cinco e vinte da manhã.

-Ótimo — murmurou consigo mesma — estarei pronta para o café da manhã até as seis.

Foi direto para o banheiro livrar-se do suor frio pegajoso que impregnava sua pele, não se deu ao trabalho de olhar-se no espelho, tentava sempre, a todo custo não olhar para as cicatrizes que trazia.

Deixou que a água corresse levianamente até encher a banheira com água borbulhante, enquanto escovava os dentes. Despiu-se preguiçosamente, mas sem descer os olhos para seu próprio corpo, não queria as lembranças que seriam despertadas; mergulhou rapidamente expulsando uma grande quantidade de água e sais de banho, e só ficou alerta quando o calor da água fez seus músculos relaxarem.

O banho não foi uma boa ideia, já que sozinha, na escuridão e silêncio de seu banheiro as imagens se tornavam mais nítidas.

Ela podia ver a garota que era no dia do acidente, sentir seu desespero, sua agonia, seu medo... Podia sentir a adrenalina que fluía por seu corpo, causada pela perseguição e pela velocidade, e que pulsava mais forte a cada curva. E depois a luz. A luz ofuscante que cegou seus olhos. Sentiu o calafrio que percorreu o corpo de seu eu mais jovem, sentiu quando ele segurou sua mão como sempre fizera quando eram crianças. E depois veio a dor, uma dor tão forte que Cathe nem soube como ainda não estava desacordada, sangue percorria seu corpo ensopando sua blusa fina, mas durante todo aquele instante Cathe sentia a mão dele sobre a sua, uma mensagem silenciosa que ela entendia muito bem, aquilo significava que ela estava segura, que poderia fechar os olhos e entregar-se aquela dor que já estava lhe causando tanta sonolência, porque ele estaria ali segurando sua mão, e velando por ela.

Ela sentiu todo o ódio que veio da antiga Cathe ao abrir novamente os olhos poucos minutos depois e encontrar aquele estranho, contando-lhe tudo. Contando-lhe o motivo da dor, o que havia lhe acontecido, e o que havia acontecido a ele, a única luz que lhe havia restado, seu porto seguro, agora estava morto. "-Sinto muito, mas foi escolha dele, e ele foi muito altruísta ao escolher você ao invés de si próprio."

Lágrimas grossas rolaram pela face tanto da Cathe do passado quanto da atual.

-Porque seu idiota?-ela se perguntou num sussurro débil — Você deveria ter sido o escolhido.

Seu despertador soou indicando que já eram seis da manhã, e tirando-a de seus devaneios, saiu da banheira e ao dirigir-se para fora do banheiro resolveu parar diante do enorme espelho e encarar sua imagem refletida ali.

Cathe era uma garota bonita, isso era inegável, mas ela sabia onde deveria procurar os defeitos e imperfeições. Seu cabelo preso num coque frouxo revelava sua pele branca, e descendo por seu pescoço e atingindo parte de seu ombro direito havia a linha fina e pálida, pelo menos três tons mais claros que sua pele, de uma das varias cicatrizes que ela possuía. Aquela era uma das maiores, que descia por toda extensão de suas costas acabando numa curva direta para seu quadril. Ainda diante do espelho soltou os cabelos longos e grossos que lhe serviam com enorme conveniência para esconder a cicatriz. Não pode deixar de sorrir, ela mesma tinha de admitir que era bela, embora fosse um monstro. A pele branca, seu cabelo escuro e a boca grossa e rosada tornavam-lhe um prato cheio. Seus grandes olhos azuis eram só um charme a mais, adquirido junto a seu novo eu. Mas os olhos não faziam nenhuma diferença para ela, era seu fardo, mas olhando para sua própria imagem refletida sentiu orgulho de seus cabelos. Talvez fosse futilidade, mas foi à única coisa que não mudou após o acidente. Eles desciam livremente até o meio de suas costas, eram cheios e de um castanho arruivado muito brilhante, a franja lisa cobria-lhe o olho a bochecha direita. Continuava por seus ombros em ondas leves e naturais para finalizar com pequenos cachos perfeitos.

Ouviu batidas na porta e foi para o quarto atender. Ao abrir a porta deparou-se com sua governanta que entrou no quarto sem hesitação.

-Eu não acredito menina, ainda de roupão? –Ralhou. — Vá se vestir seu café já esta pronta há minutos.

-Eu já estou indo Ana, não venha me dando sermões! — A garota falou brincalhona. — Nós duas sabemos que você seria incapaz de ficar realmente brava comigo.

-Ora Cathe, você é impossível! Não precisa deixar tão evidente que ninguém resiste a essa sua cara de anjo!

-Anjo? -A garota perguntou indignada. — Não diga bobagens Ana. E pare de agir como uma senhora resmungona, alguém pode achar que você tem mais de vinte anos!

-Talvez você tenha razão Cathe!

-É claro que eu tenho! Você só ocupa um cargo de gente velha, mas isso não significa nada! Agora pode ir, juro que vou me vestir e desço em dez minutos!

-Dez minutos? Não me faça rir garota! Se eu bem te conheço vai levar no mínimo meia hora, nunca vi alguém tão obcecada como você!

-Rá, rá! Você está tão engraçadinha hoje! E só para você saber, eu escolhi minha roupa ontem à noite.

-Tudo bem, mas dessa logo, Fred quer falar com você antes que você saia para...

-Por favor, não termine a frase! Não me lembre do meu inferno particular matutino.

-Tudo bem.

Ana saiu e Cathe logo se dirigiu ao closet, se vestiu rapidamente e pegou sua mochila, antes de sair do quarto olhou-se no espelho e gostou da combinação que escolheu. Desceu rapidamente as escadas e dirigiu-se a cozinha.

-Olha só Ana, quem resolveu dar o ar de sua graça!

-Tem algo de errado com vocês hoje? Ou só tiraram o dia para me atormentar?

-Então Cathe, — Perguntou Fred. — animada para seu primeiro dia de aula?

-Deixe-me pensar... É claro, que não Fred! — Ela respondeu convicta. – Não vejo um motivo bom o suficiente para isso.

-Tudo bem, isso não faz diferença, você vai assim mesmo. -Ele disse fazendo Cathe bufar. — Mas lembre-se, aqui você e sua família são muito conhecidos, para não dizer famosos e importantes.

-Eu sei... Meu bisavô era o fundador e blá, blá, blá, isso não importa para mim.

-Não importa para você, mas para as pessoas dessa cidade é uma coisa e tanto.

-Tudo bem! Posso ir agora o querido tutor?

-Pode minha querida Cathe, mas me chame de tutor de novo e eu sou capaz de perder o controle, faz com que eu me sinta velho e parece que nós não temos nenhuma intimidade!

-Sim, claro.

-Mas Cathe, você não vai comer?-Perguntou Ana.

-Estou sem fome, eu como na escola.

-Tudo bem garota, boa sorte!

-Obrigada, vou tentar não morrer de tedio!

-Não seja exagerada Cathe, é só o colegial!

-Ok, ok Fred. Tchau!

-Tchau....e Cathe?

-Sim?

-Vá de Ferrari.

-Mas...

-Mas nada, uma Ferrari chama mais atenção que sua moto! -Ele disse sorridente

-Tudo bem, e obrigada Fred, é por isso que eu te amo!

-Eu sei que sou irresistível!

- E convencido também!

-Vamos parando com isso vocês dois! -Disse Ana. — Suma logo daqui menina, vai se atrasar para a escola, e logo no primeiro dia.

Cathe saiu correndo empolgada, eram poucas às vezes em que podia usar os carros, geralmente Frederico e Ana tinham receio de deixa-la dirigir, tanto pelo acidente quanto por seu passado.

Entrou na garagem e não hesitou em assumir a direção do belo carro vermelho, colocou seus óculos escuros saiu da garagem cantando pneu, e quase bateu no portão, já que o mesmo abria em uma velocidade inferior a sua velocidade de pilotagem. Acelerou pela estrada deserta e dirigiu-se ao Colegial de New Lighshine. Abriu um sorriso ao sentir o vento tocando seu rosto.

-Essa é a melhor parte de se dirigir um conversível! — Disse a si mesma.

A velocidade dos carros, sentir o vento em seu rosto, a adrenalina que percorria suas veias sempre que colocava o pé no acelerador, era isso que a fazia sentir viva, para Cathe era a melhor sensação que existia, era a única coisa capaz de fazer seu coração frio voltar a bater.

Não demorou a chegar à rua da escola, e quanto se aproximava do prédio via algumas pessoas se virando para vê-la chegar, a curiosidade era evidente em cada um dos rostos, mas alguns metros antes do portão do estacionamento viu uma garota sentada no meio fio olhando para os sapatos, os carros a sua frente pareciam levar anos para manobrar, por isso Cathe encostou próxima ao meio fio e decidiu perguntar o que houve.

-Ei garota!

-Quem, eu?

-Tem mais alguém sentado na calçada? -Ela perguntou sarcástica. — O que houve?

-Nada.

-Não é o que parece!

-Quem é você novata?

-Está tão na cara assim? -Cathe perguntou derrotada.

-Está sim. E quanto ao que houve, eu simplesmente briguei com meu irmão, ele teve a coragem de pegar o meu carro e sair sem mim, tive que vir andando. –Ela disse com uma voz triste, como se uma tragédia tivesse acontecido.

-Olha, tenho certeza que seu irmão não sabe o que faz. Ele provavelmente queria te deixar pra baixo. Então não de ouvidos a ele. Alias essa roupa caiu muito bem em você! — E Cathe estava certa, a garota era muito bonita. Alta e esguia. Seus cabelos negros e completamente lisos faziam uma ótima combinação com sua pele bronzeada.

-Acha mesmo? -Perguntou hesitante.

-Claro! Alias qual seu nome?

-Meu nome é Aghata Janks. Muito prazer!

-Vamos fazer o seguinte Aghata, entra ai, eu te dou uma carona, você chega bem vestida e com a novata, além de tudo vai estar num carrão conversível!

-Ótima ideia novata! — Aghata levantou-se e olhou para novata analisando-a depois entrou no carro enquanto Cathe dava a partida.

-A proposito meu nome é Cathe... – disse olhando para Aghata e analisando-a — E Dior também é uma das minhas marcas favoritas.

A garota abriu um enorme sorriso para Cathe que a essa altura já arrancava com o carro.

Cathe entrou no estacionamento e teve de andar até encontrar uma vaga, e enquanto percorria o local, todos olhavam para ela, para o carro ou para Agatha que não tirava o sorriso do rosto.

Ela encontrou uma vaga ao lado de uma Lamborghini Gallardo preta, e pensou que talvez não fosse à única ali a gostar de carros.

Imediatamente Aghata saltou da Ferrari e dirigiu-se a Lamborghini.

-Pelo menos Tom não fez nenhum estrago nele!

-Não me surpreende que seu irmão tenha pegado seu carro, eu também pegaria se já não tivesse uma Gallardo.

Aghata olhou para Cathe de olhos cerrados e mostrou-lhe a língua fazendo Cathe rir.

-Fique longe do meu carro! — ela disse tentando soar ameaçadora.

-Quando é que toca o sinal?

-Daqui a pouco — Aghata disse olhando o relógio. — Se você quiser posso te mostrar o caminho para a secretaria, mas vai ter que se apressar.

-Tudo bem. — Cathe virou-se de costas e pegou sua mochila no banco de trás e aproveitou para tirar os óculos. Quando se virou para Aghata, a mesma ficou parada fitando Cathe com a boca entreaberta.

As garotas olharam-se nos olhos, por apenas um minuto, mas foi o bastante para atordoar Cathe, Aghata tinha algo em si, algo que permitiu uma conexão muito rápida e fácil, mas também muito intrigante.

-Você tem belos olhos novata.

-Obrigada. -Ela respondeu guardando os óculos. Teria de tomar mais cuidado, não sabia como funcionavam seus dons, nem como controla-los, mas sabia das consequências caso perdesse o controle.

As duas garotas dirigiram-se para o prédio a sua frente em silêncio e assim permaneceram até chegarem a uma sala quase no final do corredor do primeiro andar, a qual Aghata apontou como sendo a secretaria.

-É aqui. Olha novata, posso ir com você até o refeitório. Mas só para que você saiba, o ginásio fica logo ali, no fim do corredor, são aquelas portas duplas. O refeitório é no segundo andar, assim como as aulas de artes, literatura e línguas, então não se perca... – Disse recomeçando a andar. – Me encontre no fim do terceiro tempo e almoçaremos juntas.

-Obrigada Aghata!

-De nada, a proposito tenho que ir daqui a pouco o sinal ira tocar e não se chega atrasada para a primeira aula do primeiro dia de aula. E só para que saiba, tenho certeza de que seremos ótimas amigas! –Aghata deu as costas para a novata e simplesmente saiu andando deixando a garota com um sorriso bobo.

Cathe entrou na secretaria e dirigiu-se ao balcão onde estava uma senhora de quarenta e poucos anos magricela que estava totalmente absorta em sua leitura. Cathe aproximou-se e pigarreou fazendo que a mulher olhasse para ela e ajeitasse os óculos na ponta do nariz.

-Em que posso ajuda-la?

-Olá meu nome é Catherine Donavan Valenty Bower, meu tutor esteve aqui ontem, mas eu quis verificar se estava tudo em ordem.

- Oh, sim Srt. Bower, não precisa se preocupar — Ela disse sorrindo. — Seu tutor já providenciou tudo, posso assegurar-lhe. Eu sou a Sra. Marty, e caso haja qualquer problema é só vir me preocupar. Este é seu horário, o numero e a senha do seu armário!

-Obrigada Sra. Marty!

-Então está tudo pronto. Boa sorte! -Disse sorridente.

-Obrigada.

Ela conferiu seu horário e viu que sua primeira aula era de biologia, enquanto andava percebeu como as pessoas a encaravam e como alguns caras sorriam para ela. Passou direto pela sala e seguiu até o armário.

-Até quando isso vai durar? — Perguntou-se encostando a testa na porta do armário.

-Bom isso vai durar até que chegue outro novato, e de preferencia uma garota que seja mais bonita que você. -Respondeu uma voz masculina que vinha do seu lado esquerdo.

Cathe levantou os olhos e deparou-se com um rapaz muito bonito, seus olhos eram azuis, mas não como os dela e sua pele era de uma cor bronzeada muito bonita, mas não tão forte quanto a de Aghata.

-Olá, meu nome é Christopher, mas pode me chamar de Chris, é assim que todo mundo me chama. — Ele disse simpático.

Cathe gostou dele logo que o viu, ele era simpático e talvez pudesse se tornar seu amigo, ela não viu nada além da simpatia e da vontade de fazer amigos.

-Oi Chris! Eu sou Cathe, muito prazer!

O garoto estendeu-lhe a mão e ao aperta-la Cathe viu muita coisa, não de proposito, mas simplesmente porque ainda não conseguia controlar o poder dentro de si. E algumas coisas ajudaram a conhecê-lo melhor. Mas nesse instante o sinal tocou, ela se despediu e rumou para a sala indicada como sendo a de biologia e surpreendeu-se ao ver que Chris vinha atrás dela. Cathe entrou e viu que as mesas eram para duplas, sentou-se próxima a janela na primeira mesa, e ele sentou-se numa mesa atrás dela.

-Parece que temos o primeiro tempo juntos. — Ele disse divertido e Cathe sorriu para ele enquanto o professor entrava na sala.

Alguém arrastou a cadeira ao seu lado e se sentou, mas Cathe não deu nenhuma importância, só percebeu que era um garoto. A placa em cima da mesa do professor o indicava como sendo "Sr. Marty", o que para Cathe significava que ele era casado com a mulher que lhe atendeu na secretaria, era igualmente magricela e sorridente.

-Alunos novos dirijam-se a minha mesa, por favor.

Ao levantar-se Cathe percebeu que era a única novata por ali, e não pode deixar de notar o rapaz sentado a seu lado que a encarava de maneira indiscreta, mas ela o ignorou e seguiu até a mesa do professor. Entregou-lhe sua ficha e aguardou enquanto ele a lia. O Sr. Marty pegou a ficha de sua nova aluna sem nenhum entusiasmo, mas ao ler o nome na ficha levantou os olhos para garota a sua frente. Então aquela era a tão aguardada Bower, a parenta do fundador, imediatamente ele se levantou e estendeu-lhe a mão que Cathe apertou de bom grado. Mas quando ia pronunciar-se para o restante da classe foi interrompido pelo sussurro melodioso da voz de Cathe.

-Por favor, não diga meu nome para a classe! Não quero causar tumulto.

-Como quiser Srt. Bower.

-Pode me chamar de Cathe, ou de Donavan, mas não de Bower, como já lhe disse, não quero causar tumulto.

-Como preferir Srt. Donavan, agora pode se sentar.

Cathe virou-se para a classe e enquanto dirigia-se para seu lugar via a curiosidade agora aguçada brilhar nos olhos de seus colegas, sentou-se em seu lugar e sentiu Chris apertando seu ombro num sinal de apoio, sorriu para ele e abriu seu livro. O professor começou com sua aula e pediu para que o restante de seus alunos abrissem seus livros, e enquanto ele falava e todos os outros ouviam o que ele dizia o garoto sentado a seu lado continuou a encara-la, tirando a concentração de Cathe, até o momento em que ele virou-se para o professor e levantou a mão.

-Pois não Sr. Janks?

Ao ouvir aquilo Cathe olhou para o garoto ao seu lado. –Janks, esse é o sobrenome da Aghata! Catherine analisou as feições do garoto e viu o quão parecido ele era com Aghata, o mesmo tom bronzeado de pele, o mesmo cabelo escuro e os olhos que pareciam chocolate e o mesmo sorriso de canto. –Ótimo, eles são irmãos! Melhor ainda, gêmeos!

-Se eu não me engano professor, o senhor não nós apresentou nossa nova colega de classe.

-Não seja por isso Thomas, Está é Catherine, a nova colega de vocês.

-Catherine de que Sr. Marty? — perguntou uma garota com cabelo cor de areia algumas carteiras atrás de Cathe.

-Ela é Catherine Donavan e é a nova colega de vocês, e é só isso que importa. Agora vamos prosseguir com nossa aula.

-Sem ofensas Sr. Marty, mas porque ela não se apresenta como todos os alunos novos fazem? -perguntou o garoto ao seu lado com um enorme sorriso.

O professor olhou para o garoto por alguns instantes e depois se postou diante de Cathe murmurando para ela.

-Sinto muito Srt. Donavan, mas terá de se apresentar, eu tentei, mas não vão deixa-la em paz e nem vão deixar que eu prossiga com minha aula.

-Tudo bem Sr. Marty, e obrigada.

-Prepare-se, eles vão fazer algumas perguntas.

Catherine levantou-se e seguiu até a frente da classe, encostando-se á mesa do professor, suspirou enquanto todos a olhavam e começou a falar.

-Meu nome é Catherine Bower, mas prefiro ser chamada de Cathe, e...

-Você disse Bower? — Perguntou uma garota com um cabelo totalmente despenteado e desalinhado que parecia uma mancha de petróleo que estava sentada na sua frente.

-Sim, mas me chame de Cathe, eu tenho 16 anos, e acho que é só.

-De onde você é? -perguntou Chris.

-Eu sou italiana, nasci numa comuna chamada Smerillo.

-Porque seus pais te mandaram para cá? — perguntou o garoto que ela sabia se chamar Thomas e era irmão gêmeo de Aghata que não desviou seus olhos um minuto se quer Cathe não havia gostado dele, não conseguia desvendar o turbilhão de coisas que passava por ele, além de sua curiosidade que a havia feito falar sobre seu passado.

-Eles não me mandaram para cá. — Cathe respondeu seca.

-Então você é uma garota rebelde fugindo dos pais? — ele tornou a perguntar com a voz carregada de sarcasmo.

Cathe não respondeu, simplesmente abaixou a cabeça e deixou que seus cabelos formassem uma cortina ao seu redor, seus olhos estavam quentes e ela sabia que poderia chorar a qualquer momento, mas não faria isso ali, na frente de todos. Uma coisa que seu pai lhe ensinou ainda quando era pequena era que jamais deveria demonstrar fraqueza, pois aquilo poderia ser usado contra ela depois.

E estava pensando nele quando ouviu Chris falar.

-Os pais dela morreram seu idiota, há alguns anos atrás, se prestasse mais atenção ao mundo ao seu redor saberia disso e não diria tanta besteira.

-Pode se sentar Catherine — Disse o Sr. Marty tocando seu ombro. Naquele toque ela sentiu tudo que se passava com o Sr. Marty naquele momento. Ele tinha muito mais a dizer do que deixava transparecer.

Catherine viu imagens do filho que ele tinha, da noticia de sua morte, de seu funeral. Cathe viu a solidariedade que ele possuía por ela e a compensação por seus sentimentos, viu que ele sabia o que era perder todos os motivos para continuar vivo, e o mais importante, viu que ele não sentia pena dela, e entendeu seu relacionamento com a Sra. Marty.

-Obrigada Sr. Marty.

Ele só balançou a cabeça sem demonstrar nada.

Cathe seguiu até sua carteira de cabeça erguida e sentou-se sem olhar para o garoto ao seu lado, mas sentiu Chris se aproximando e cochichando em seu ouvido.

-Você está bem Cathe?

-Estou sim Chris.

-Não ligue para o Tom, ele não é do tipo que sabe o que diz.

-Tudo bem, e muito obrigada Chris.

-Sempre que precisar Srt. Bower. -ele disse irônico

-Muito engraçado.

A aula correu normalmente, sem mais interferências, mas quando o sinal bateu Cathe ouviu o sussurro de uma voz rouca ao seu lado.

-Desculpe-me, eu realmente não sabia.

Aquilo fez com que Cathe decidisse dar mais uma chance ao garoto, tentar lê-lo mais uma vez, tentar entende-lo era uma opção.

-Qual sua próxima aula Cathe?

-Eu não sei, espere um pouco. — Cathe tirou seu horário da mochila, e começou a andar para fora da sala junto a Chris — É espanhol, e a sua?

- Literatura, o que significa que vamos para o mesmo andar, então posso te levar até sua sala, e no terceiro tempo?

-Literatura, e você?

-Artes, mas se você me encontrar quando sair da sala posso te levar até o refeitório.

-Obrigada Chris, mas uma garota chamada Aghata já vai me acompanhar até o refeitório. -Ela respondeu sem graça.

-Quer dizer que vai almoçar com Aghata? Cathe, você não perde uma! Mas se você vai estar com ela nós nos encontramos lá — Deu um beijo estalado na bochecha esquerda de Cathe e saiu andando sem que ela pudesse se despedir.

Ela entrou em sua sala e sentou-se no fundo, onde ninguém pudesse incomoda-la, mas como na aula anterior foi chamada a frente, apresentações foram dispensadas, a noticia de que ela estava na escola correu em questão de minutos.

A aula correu naturalmente, muitos dos que estavam naquela classe estavam com ela na aula de biologia, mas as que não estavam pareciam encontrar uma maneira muito inconveniente de manter os olhos sobre ela. Ao ouvir o sinal levantou-se rapidamente sendo uma das primeiras a sair da sala, e de tão apressada não viu o movimento de pessoas a sua frente e acabou por esbarrar em alguém, mas antes que caísse no chão, braços fortes envolveram sua cintura segurando-a.

Levou alguns segundos para recuperar-se do susto, mas quando se deu conta estava encarando um par de olhos castanhos, que mais pareciam rios de chocolate, ela conhecia aquele rosto, mas não havia reparado em como era bonito. Aquele era Thomas, sua pele era morena, e seu cabelo negro cobria-lhe a nuca. Ele era pelo menos um meio palmo mais alto que Cathe, mas nada que a impedisse de lhe encarar fundo nos olhos.

-Seus olhos são lindos Bower! -ele disse soltando-a

-Obrigada Thomas.

-Eu poderia me perder neles, nessa imensidão azul. — Ele disse debilmente.

Naquele instante Catherine compreendeu o que estava acontecendo, eles estavam preso um ao outro, e Cathe agora estava com a vida dele em suas mãos, ao menor vislumbre do futuro, ela teria de leva-lo, sem piedade, sem hesitação, ela era o que era e nada poderia mudar aquilo, e aquele simples fato fez com que ela quisesse chorar pela segunda vez naquele dia.

Ela quebrou o contato visual fazendo com que o garoto despertasse, mas antes que ele dissesse qualquer coisa ela lhe deu as costas e rumou para a aula de literatura.

Notas finais
Demorei muito para "criar coragem" e postar essa história. Cathe é uma personagem muito forte e muito significativa na minha vida, talvez vocês achem a história chata no início, mas garanto que ela é cheia de ação, de suspense e mistério. Não esperem um romance meloso em nenhum momento, muito menos um final feliz para a maioria dos personagens.
Espero realmente que vocês gostem e acompanhem essa história.