Choque Temporal
17 Choque Térmico e Luzes da Cidade
O impacto não foi suave. Foi igual a quando Melissa foi jogada no século XV, o retorno ao século XXI pareceu uma queda livre de uma montanha-russa invisível.
SPLASH!
Os dois corpos que segundos antes estavam nas águas do vilarejo Shanxi,agora estão nas águas escuras e geladas do lago do parque público em Boston — o exato local onde Melissa havia sumido semanas antes. O choque térmico foi imediato. A água mística da Dinastia Ming deu lugar à água poluída, fria e real de uma madrugada de Boston.
Melissa emergiu tossindo, o cabelo castanho com mechas loiras grudado no rosto. Ao seu lado, Jin Woo subiu à superfície bufando como um touro, os cabelos pretos longos ensopados cobrindo seus olhos castanhos amendoados. Sua mão imensa ainda segurava com força absoluta a alça da bolsa de lona rústica e pesada do Velho Zhou, mantendo-a acima da linha d'água por puro instinto.
"Bem-vindo... ao futuro, modelo", Melissa engasgou, nadando com dificuldade em direção à margem de concreto.
Ao tentar puxar o corpo para fora da água, a costela trincada pelo golpe de escudo do guerreiro Khun protestou com uma pontada de dor excruciante. Ela soltou um gemido agudo, agarrando o próprio flanco por cima da túnica masculina rústica ensopada. O disfarce estava destruído, e as faixas de linho que achatavam seu peito agora pesavam como chumbo molhado.
Jin Woo saltou para fora do lago com a agilidade de seu Taekwondo, os pés descalços tocando o asfalto frio da ciclovia. Ao ouvir o gemido dela, ele largou a bolsa misteriosa no chão e se ajoelhou ao lado de Melissa, envolvendo-a com seus braços longos e atléticos.
"Melissa! A ferida da batalha... ela ainda está sangrando por dentro?", ele perguntou em inglês, os olhos transbordando aquela preocupação pura e protetora, o rosto colado ao dela.
"Não está sangrando, grandão. Só... fraturou. A física daqui é mais pesada", ela resmungou, deixando que ele a erguesse no colo no estilo noiva. "Me bota no chão. Eu consigo andar. Se a polícia pegar um cara de Hanfu carregando uma garota vestida de camponês chinês na madrugada, nós vamos direto para o hospício."
Jin Woo não a soltou. Ele apenas a apertou mais contra o peito largo, os músculos das costas definidos desenhando-se sob a túnica azul molhada. "Eu não sei o que é um 'hospício', mas você não vai andar com o osso partido."
O Tribunal dos Cavalos de Metal
A caminhada de três quarteirões até o apartamento de Melissa na área central de Boston foi um festival de absurdos e fofura anacrônica. Era por volta das duas da manhã, e as ruas estavam relativamente vazias, mas para Jin Woo, aquilo era o próprio reino dos deuses — ou dos demônios.
A primeira crise estética aconteceu quando um táxi amarelo passou zunindo pela avenida transversal, os faróis de LED cortando a penumbra.
Jin Woo travou os passos instantaneamente na calçada, os olhos amendoados arregalados de puro terror e fascínio. Ele apertou Melissa contra o peito como se tentasse protegê-la de um dragão.
"Que criatura amarela é aquela, Melissa?!", ele sussurrou dramaticamente, a voz grave tremendo de leve. "Ela não tem pernas, ruge como um monstro das estepes e tem olhos que cospem fogo! É um guardião do seu império?"
Melissa, mesmo prestes a desmaiar de dor na costela, não conseguiu segurar o riso puramente ácido e irônico. "Aquilo é um Hyundai, Jin Woo. É um cavalo de metal que os humanos usam para não precisarem andar a pé. E relaxa, ele só ataca se você não pagar a corrida."
Jin Woo engoliu em seco, observando o carro sumir na esquina. "Os ferreiros do seu tempo possuem uma magia muito obscura..."
À medida que avançavam, a arquitetura moderna de Boston começou a esmagar a mente do jovem do século XV. Jin Woo olhava para cima, quase deixando Melissa cair, hipnotizado pelos arranha-céus de vidro que refletiam as luzes da cidade. Ele parou diante da vitrine de uma loja de eletrônicos que exibia uma TV de 85 polegadas ligada em um documentário sobre o fundo do mar.
Jin Woo soltou uma exclamação fofa, aproximando-se do vidro. Ele estendeu o dedo indicador calejado e tocou na vitrine, tentando tocar nas baleias que nadavam na tela.
"Melissa... o oceano está preso dentro desta parede de gelo", ele sussurrou, o carisma fofo brilhando em seu rosto esculpido. "Como os seus magos conseguiram capturar os monstros marinhos sem que a água derramasse?"
"Isso se chama tecnologia Samsung, grandão. Depois eu te compro um curso", ela respondeu, puxando de leve o colarinho dele. "Anda. Minha costela está cobrando o aluguel."
O Santuário de Concreto
Eles finalmente pegaram o elevador do prédio de Melissa — outra experiência que fez Jin Woo se agarrar às paredes de metal, jurando que a caixa estava sendo içada por seres invisíveis em direção ao céu. Quando a porta do apartamento no sétimo andar se abriu, Melissa desabou no sofá de couro cinza de sua sala minimalista.
O apartamento era o oposto da fazenda de Shanxi: paredes brancas, piso de madeira escura, uma cozinha americana com eletrodomésticos de aço escovado e uma vista panorâmica para o skyline iluminado de Boston.
Jin Woo entrou devagar, pisando como se o chão pudesse quebrar. Ele colocou a bolsa de lona rústica e pesada do Velho Zhou no centro do tapete geométrico, sem nunca soltar a alça.
Ele olhou ao redor, completamente atordoado pelo minimalismo tecnológico. Ele caminhou até a cozinha americana, tocou na bancada de quartzo e, por puro acidente, sua mão roçou no sensor da torneira gourmet com luz de LED embutida. A água começou a correr instantaneamente, iluminada por um feixe azul.
Jin Woo saltou para trás, caindo na base clássica do Taekwondo, a mão direita tateando a cintura em busca de sua espada Jian — que havia ficado na Dinastia Ming.
"A fonte... ela brota da rocha de metal!", ele exclamou, olhando para a torneira como se fosse um artefato sagrado. "E ela brilha com a mesma luz do portal!"
Melissa, deitada no sofá com a mão na costela, soltou um suspiro exausto, mas seus olhos castanhos acompanhavam cada movimento dele com uma ternura que ela raramente demonstrava. O choque cultural de Jin Woo era a coisa mais fofa e genuína que ela já vira em toda a sua vida cínica do século XXI.
"É só uma torneira com sensor, modelo", Melissa explicou, a voz linear voltando ao normal. "Vem aqui. Esquece a água por um minuto."
Jin Woo desfez a pose de combate, limpou as mãos molhadas na túnica escura ensopada e caminhou até o sofá. Ele se ajoelhou no tapete diante dela, pegando sua mão menor com extrema delicadeza. A conexão entre os dois, que havia sido selada com sangue e um primeiro beijo à beira do lago místico, parecia ainda mais forte sob as luzes artificiais de Boston.
"Você precisa de um médico do seu tempo?", ele perguntou, o romantismo maduro e protetor assumindo o controle de seus olhos amendoados.
"Eu preciso tirar essa túnica molhada e essa faixa que está esmagando os meus pulmões", ela respondeu, fitando-o com intensidade. "E depois... você vai me mostrar o que tem dentro dessa bolsa que você resgatou dos escombros. O que o seu pai queria tanto que você trouxesse para o futuro, Jin Woo?"
Jin Woo olhou para a bolsa de lona rústica no meio da sala moderna. O mistério do século XV estava prestes a ser aberto no coração do século XXI.
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