Choose Your Pack
7 Revelations
Notas iniciais
A capela naquela manhã parecia uma nave cheia de capuzes pretos com suas duas fileiras de bancos com tantos convidados usando preto. O padre Jones falava as palavras passadas pela familia de Diogo, um texo dele onde dizia o quanto gostava da escola e dos amigos.
Rafa não tinha pensado que Diogo seria do tipo que parava para se sentar e escrever sobre o que sentia a respeito dos outros. Ele era mais do tipo ativo em suas ameaças quando estava vivo.
Ele não tinha ideia se era certo ou não pensar nas coisas ruins que o morto fez em pleno seu funeral, mas o que ele podia fazer? Não era o único pensando nisso.
Com um olhar para a esquerda ele viu Vick encarar o altar atrás do Padre Jones e seu peito se apertou ao ver seus olhos fundos. Apesar de tudo que Diogo fez com ela nos últimos anos, o pai de Vick tinha praticamente se jogado aos pés dos pais dele e do irmão mais velho, concordando que toda a familia deveria aparecer – sem exceções (sem exceções a Vick).
Mas Rafa também acreditava em seu interior que Vick tinha seus próprios motivos para estar ali. Agora, de alguns outros, ele não fazia ideia.
Rafa olhou por sobre o ombro para encarar Taffara em um vestido preto de decote V com o cabelo castanho preso por uma tiara cinza escura. Taff notou seu olhar, mas desviou rapidamente, o que foi incomum.
Quando Taffara o encontrava, sempre havia aquela encarada arrogante ou alguma piada provocativa. Só que dessa vez parecia cansada ao olhar para frente na direção do caixão. Seu par recente da festa estava morto. Como ela se sentia sobre isso?
Diogo e ela tinham se unido para se vingar de Vick e deles, mas obviamente estava sozinha agora – com exceção da traidora Camila Poli e sua familia sentada ao seu lado. Será que com a morte dele ela daria um tempo com as ameaças?
Um homenzinho entrou tropeçando na porta da capela e passou pelo corredor central para se juntar ao lado do padre e sussurrar. Depois que o Padre Jones escutou o que o homenzinho tinha a dizer, juntou as mãos enrugadas na frente do corpo e pediu a todos para que se levantassem.
Estava na hora da marcha fúnebre.
Enquanto Rafa se levantava para seguir a procissão, vários ombros escuros se projetavam em sua frente, alguns em silêncio e outros falando ou chorando. Ele conseguiu ver Rita e Marco assentirem, mas sem se aproximar. Estavam ali para apoiá-lo, mas ele achou mais do que certo que não ficassem muito perto para o Capuz perceber o quanto eram próximos e decidir fazer uma visitinha à casa dos irmãos. Rafa não queria mais sangue em suas mãos.
Viu ali também Roberto, Henrique e o irritante Neemias. Mesmo com a decisão de contar tudo ao mais velho dos três, Rafa ficou com um pé atrás em convidá-lo, mas como Roberto estava ali não viu problema. O namoro dos dois ainda estava firme e forte mesmo depois da confissão sobre a “droga” que Henrique estava supostamente usando. Rafa sabia que era errado mentir e sabia também que cedo ou tarde a verdade o alcançaria.
Mas antes que ela chegasse ele pegaria o Capuz.
Olhou em volta para todos os convidados, para todos os alunos do time de natação e alguns de seus amigos que estavam ali, Rael e um garoto de cabelo escovinha que ele nunca tinha visto antes. Qualquer um deles podia ser a pessoa que estava dificultando sua vida e a ameaçando seu Pack. Um deles estava no enterro da pessoa que eles mesmos mataram.
E ao sair pelas portas duplas grandes da Capela, Rafa prometeu a si mesmo: pegaria ele hoje à noite.
As pernas de Vick se moviam, mas seu cérebro mal acompanhava os movimentos. Não era seu corpo que fazia os comandos e ela sabia disso. Tudo não passava de um borrão enquanto pessoas que ela não conhecia se juntavam a ela na procissão e ela tinha preguiça de olhar seus rostos para associar seus nomes. Sabia que Camila Alves não pôde vir por conta de outro compromisso também familiar, mas Rafa estava ali em algum lugar com sua familia.
A lápide de Diogo seria colocada não muito longe da Capela, um privilégio para os que queriam cuspir nela antes de entrar no lugar. Mas apesar da ideia, Vick não conseguia sequer ter tal pensamento sem tremer. Não conseguia acreditar desde ontem e certamente não conseguia acreditar agora. Como Diogo podia estar morto dentro daquele caixão? O garoto estava ameaçando ela menos de 48 horas atrás e prometendo miséria eterna cada vez que respirava perto dela?
Que mundo era aquele onde seu melhor amigo não voltava e seu pior inimigo estava morto?
Ela não podia acreditar, simplesmente não podia.
— Filha?
Vick olhou para cima e viu seu pai, a barba por fazer que suas amigas achavam atraente e os olhos escuros como os dela a encarando cela com atenção. Ele parecia duvidar de sua capacidade mental ao cruzar os olhos com os pais de Diogo. Ela seguiu seu olhar e encarou a mãe e o irmão que pareciam tristes e um pouco ressentidos.
Em qualquer lugar onde estivesse Diogo estaria vendo aquilo? Ele iria gostar? O que acharia de Vick pisando perto de seu túmulo.
— Eu vou ficar bem – ela fungou, traga de volta à realidade por algo que não soube compreender.
Podia sentir o olhar de preocupação dos funcionários carregando o caixão e do resto dos convidados enquanto ela se agachava no chão e erguia um punhado de terra em cada uma delas.
De repente ela se lembra de estar em casa, apenas babando na frente do celular há dois anos até seu celular, um Samsung mal usado na época vibrando. Ela o pega e vê o número e o nome DIOGO na tela. A mensagem diz que ela deve a ele um encontro. Até parece.
Ela não pensa duas vezes em gemer e atirá-lo longe.
Meses depois, perto do Natal, ela e Lucas estão no quarto de Rafa, apavorados com sua confissão e ele está chorando no chão se sentindo culpado pelo que tinha acabado de ter feito com Henrique. O mesmo samgung que ela atirou é usado para fazer uma ligação a Diogo e pedir que ele a chame para sair.
A linha do tempo vai se extendendo há um primeiro mês suportável e então a um segundo não tão ruim. Mas então um terceiro onde eles brigam, um quarto onde ele a força a fazer coisas e tudo pula para um ano de infelicidade com alguém que ela nunca sequer sentiu nada.
E agora ali no cemitério, Vick o olha de cima enquanto seu caixão desce e desce. Ela nota as mãos da mãe de Diogo tremer e ela sabe que ela só quer se atirar e tirar o filho dali de dentro. Mas ela não pode fazer nada disso, porque seria inútil.
Só há uma coisa a se fazer.
Devagar, ela estica as mãos tremulas para frente e as abre. A terra não é muita, mas cai em cima da caixa onde o rosto de Diogo por baixo do vidro parece estar em um sono profundo.
— Vá em paz, Diogo – diz ela e o silêncio profundo no enterro quase a assusta. – Nós sentiremos sua falta.
Uma salva de palmas meio incerta começou e uns bandos de pessoas começaram a murmurar coisas boas que Vick bloqueou na mesma hora em que disseram.
Olhou para o lado e viu que o pai a olhava de um jeito orgulhoso e também aplaudia apesar do choro. Ele sempre tinha achado Diogo o cara para ela. Se soubesse da metade das coisas que ela podia jogar na cara dele.
Mas ele não sabia e ninguém ali também deveria saber, porque o enterro não era dela. Era de Diogo. E não era tarefa dela dizer algo não só por respeito.
Mas porque não faria diferença alguma se ele estava morto.
Uma pessoa fungou alto no meio de tantas ali e Vick olhou, mais por reflexo do que por qualquer outra coisa e viu Taffara do outro lado do caixão. A Rainha da escola não chorava e muito menos ria. Seu olhar para a cova era vazio e intenso.
Ela tinha sido a última pessoa a falar com Diogo, Vick pensou isso e algo em sua mente se acendeu. Os dois estavam armando juntos antes de algo interromper sua noite e ele sumir. Ela pensou também em como Taffara parecia assustada naquela noite.
Estaria ela parecendo assustada ou... Culpada?
— Por que temos que ir até lá?
Carla passou a fechadura na porta do loft com suas garras e forçou o cadeado a entrar no buraco antes de se virar para Erick com o rosto franzido. Avaliou a tentativa dele de se vestir para o luto: uma camiseta preta arregata e jeans escuros, assim como ela.
— Nós nem conheciamos o tal do Diogo – prosseguiu o Lobo. – Sabia que isso é falta de educação?
— Falta de educação seria não cuspir no túmulo dele – ela andou até ele na trilha. – E é por isso que não vamos sequer passar pelas portas da igreja.
O lobo franziu a testa.
— Fernando acha que se formos até lá, podemos pegar o rastro do que você sentiu na noite da festa.
— O Capuz está no funeral? – questionou Erick com uma voz estridente.
— É uma probabilidade – Carla juntou suas mãos e desviou seu olhar para o tronco para uma àrvore onde Érika estava recostada apenas seguindo eles dois com o olhar, esperando.
Usava um vestido roxo curto e mesmo com a cara fechada, sua pele de cor neve estava linda em um contraste com seu cabelo loiro longe e rebelde.
— Você está bem? – perguntou de mansinho.
Érika mal piscou em sua direção e ela sentiu o esforço em se dirigir a ela apertar sua garganta.
— Você se importa? – contra-atacou a outra.
Erick se inclinou para olha-la.
— O que houve com seu rosto?
A loira jogou o cabelo por sobre o ombro, sem reagir à pergunta de imediato. Apesar de já curado, a visão licantropa fornecia mais detalhes se você se concentrasse um pouco mais. O que significava que Erick podia ver Érika sem roupas em qualquer hora e em qualquer lugar.
— Eu caí.
Carla sabia que era mentira, mas não fez menção em dizer nada, o que pareceu incomodar a Beta quando ela a olhou de volta para checar sua reação.
Erick balançava a cabeça.
— Você parece que foi atropelado por um carro! Não esperar que a gente acredite...
— Erick – Carla o interrompeu. – Não vamos perder tempo com isso. Fernando disse para nos apressarmos antes que um deles vá embora.
Apesar de confuso, o Lobo concordou. Érika se juntou a eles na trilha com a franja loira cobrindo metade do rosto.
— Por que não estou surpresa?
Ela a ignorou e começou a andar na frente, tomando as rédeas daquela situação estranha. Érika tinha reclamado tanto nos últimos tempos que queria um tratamente diferente no bando, certo? Então tudo bem, ela o teria.
Não passaria de uma aliada para Carla e nada mais que isso.
Era só nisso que ela pensava quando já estavam na metade da trilha para a cidade e Erick parou de andar de repente.
— Qual o problema? – Não precisou olhar por sobre o ombro para ver que ele estava enrijecido ao seu lado.
— Estou sentindo um cheiro...
— Eu também – Érika avisou arfante.
Carla encarou as àrvores ao redor da trilha, prestando atenção no silêncio. Muito silêncio. Tanto silêncio que nenhum animal ali ousava fazer um barulho. Havia outro predador ali.
No cascalho do chão, ela conseguiu ouvir passos cautelosos.
— São três –anunciou Erick.
— É outro bando? – Érika questionou.
— Sim – Carla assentiu quando o cheiro a atingiu. – Mas de um tipo diferente.
A flecha veio na direção de uma bala, mas quando a Alfa percebeu que não estava direcionada a eles, não moveu um músculo para se desviar. Apenas a observou se enterrar no chão aos seus pés.
Um brilho irradiou nos olhos de Erick e ele começou a xingar baixinho.
— Apareçam covardes! – Érika grunhiu, parecendo frustrada com a espera.
— Somos nós os covardes? Tem certeza? – respondeu uma voz de garoto bem-humorada.
O garoto loiro saiu do meio da mata sem se preocupar em fazer barulho ou não. Carla reconheceu os olhos castanhos e o sorriso levado.
— Você? – ela foi para trás com um susto. – O que você faz aqui?
Felipe parou na frente deles na trilha, um sorriso malicioso direcionado aos três lobos reunidos ali. Com um choque, outro borrão loiro caiu de cima carregando um arco nas mãos.
— Giulia – Érika se assustou.
Atrás dos dois, outra garota de um loiro mais forte se aproximou com as pernas longas afundando na terra. Lizz parecia completamente séria ao se colocar do lado dos parceiros.
— Vocês três – Carla olhou de um para o outro. – Não que eu não sinta muita falta, mas... O que vocês estão fazendo aqui?
Giulia armou o arco em resposta.
— Nossa missão hoje é apenas capturar, loba.
— A mim? – Carla apontou para o próprio peito.
— A nós? – Erick questionou também no mesmo tom. – Vocês não podem fazer isso, nós não fizemos nada.
— Ouvimos sobre isso – Lizz assentiu. – E também ouvimos sobre uma morte.
— Não foi nossa culpa – Carla respondeu. – Estamos tentando pegar o responsável juntos.
— Estamos? — Felipe criticou. – Estão querendo dizer vocês e o bando do Fernando, certo?
Erick semicerrou os olhos. Já não gostava daquele cara.
— Foram eles que pediram nossa ajuda.
— Eu não vejo nada de especial... – Felipe se inclinou para frente.
— E depois dessa nada mais você vai ver – Erick deixou as garras crescerem.
— Erick pare – Carla o pegou pelo braço e olhou o Pack estranho. – Não podem nos levar de volta... Não fizemos nada de errado.
— Não viemos atrás de todos vocês – Giulia apontou o arco para o lado. – Viemos atrás dela.
Érika arfou e Carla a olhou.
— O quê? – ela voltou a encarar a Arqueira. – Por que fariam isso? Ela não fez nada de errado.
Lizz pigarreou.
— Vocês tem certeza disso? – ela olhou a Beta. – Vai contar a eles ou eu faço as honras?
Carla trocou um olhar com Érika, mas a loira apenas a olhou assustada.
— Do que eles estão falando, Cáh? – pressionou Erick. – O que você fez?
Os dois trios se olharam até o momento em que Felipe bufou e sacou sua espada banhada em bronze. O brilho do sol batia no reflexo e devolvia listras brilhantes por toda a floresta.
— Eu cansei – ele bufou. – A Beta de vocês explodiu o escritório de Anna em La Iglesia... Junto com Layane lá dentro.
— Isso não é possível – Erick olhava sem acreditar. – Ela esteve aqui o tempo todo com a gente.
— Isso não foi recente, Lobo – Lizz retrucou. – Foi no mesmo dia em que o teste do Rafa. Ao que parece a Beta de vocês achou que a explosão faria algum mal a Layane...
— Ela está viva? – arfou a loira.
— Não graças a você – Giulia não havia abaixado o arco. – Ela acordou depois de algumas horas... Você tem muita sorte de Anna e ela serem tão próximas. Se não fosse pelos dons dela, Layane estaria morta.
— E você também – ameaçou Felipe com o tom carregado de ácido para Érika.
— Eu não posso acreditar nisso – Erick olhou para Carla. – Você não vai deixar que eles a levem, vai?
A Alfa apenas o olhou de volta.
— Carla?!
— Com todo o respeito, Lobo, não queremos uma luta, só viemos buscar a loira.
— Vocês vão matá-la?
— Nós vamos puní-la – respondeu Felipe. – E o que acontecer depois disso vai ser um efeito colateral.
— Por cima do meu cadáver – Erick rugiu, mas de repente sentiu uma mão o segurando pelo ombro. – Carla?
— Deixem que a levem – ela disse.
— Você não pode estar acreditando que ela fez tudo isso!
— Eu posso – ela se virou para encarar a loira. – E eu acredito – olhou para Lizz e Felipe. – Podem levar!
Lizz passou por Erick e o Lobo grunhiu.
— Minha flecha está mirada no seu cérebro – ameaçou Giulia. – Recomendo que não se mexa.
Ele engoliu em seco enquanto Felipe também se aproximava com a espada em punho. Érika ergueu os olhos dourados assustada e encarou Carla.
— Por favor – implorou com a voz rouca. – Você não pode os deixar fazer isso comigo, Car... Eu amo vo...
— Pare de mentir – A Alfa bufou e olhou para os outros dois. – Façam isso logo.
Os dois começaram a prender os braços dela atrás das costas e enlaçaram algo parecido com uma corda ao redor dos punhos. Quando Felipe a empurrou para que ela começasse a andar, ela olhou Carla com desespero.
— Carla, por favor!
— Vá em paz – a Alfa se virou de volta para a trilha que levava a cidade.
— Assumiremos daqui – Giulia se afastou, mas continuava mirando a flecha para Erick. – Sugiro que siga sua Líder.
— Ela não é minha Líder – Erick se virou e a seguiu para pega-la pelo ombro. – O que tem de errado com você?
— Comigo? – Carla riu fracamente. – Foi ela quem explodiu o escritório de Anna e quase matou uma pessoa!
— O que rolou entre vocês duas? – ele cruzou os braços. – O que vem rolando pra você não acreditar em nada do que ela diz?!
Os olhos de Carla escureceram.
— Eu só não sei mais quem é ela – lançou um olhar para o Pack que se afastava. – Isso foi um erro.
— Transforma-lá?
— Também – ela balançou a cabeça. – Ela não devia ter ficado.
Erick balançou a cabeça.
— Eu conheço Érika... Ela não faria mal a ninguém.
Carla o olhou como se estivesse prestes a vomitar.
— Não sabe do que está falando.
— O que eu sei – o Alfa deixou os olhos vermelhos aparecerem. – É que sua namorada pode ser executada e você ao invés de fazer algo a respeito vai deixar que ela sofra por pura teimosia!
— Não estou sendo teimosa, estou sendo sensata – retrucou.
— Ha-ha. E com quem?
— Comigo mesma.
— Você é tão egoista e filha da...
— Erick – ela o segurou no braço e seus olhos brilhavam. – Ela me traiu.
O Lobo se afastou dela como se tivesse sido queimado no peito.
— O quê?
— Eu descobri no dia da festa – ela abaixou os olhos. – Não quis te dizer nada porque sabia que não acreditaria. Mas é verdade.
— O quê? – Erick fungou. – Por quê? Foi você quem a criou, por que ela te trairia?
— Porque ela não me vê como sua criadora – murmurou ela secamente. – Acho que você percebeu isso, certo?
A Alfa voltou a andar e ele ficou parado sem saber como deveria se mexer.
— Espera – ele a chamou. – Com quem foi?
Carla não se virou, mas parou de andar.
— Com Eduardo – e continuou andando.
Na casa de Diogo, havia sons de conversas, choros e música punk (a favorita dele) enquanto os convidados se juntavam na sala conversando com os pais do garoto ou com o irmão mais velho.
Taffara e Camila Poli estavam juntas na escada olhando toda a cena com evidente tristeza. E um poquinho com olhar critico.
— Quem imaginaria que alguém gostasse daquele filho da mãe – desabafou Camila e Taffara seguiu seu olhar para uma garota morena com cachos loiros enormes.
Ela tocava uma foto de Diogo fazendo o sinal de joinha e chorava litros. Taff focou seu olhar na foto, olhando o sorriso de seu parceiro falecido e seus olhos maliciosos. Quem teria feito algo com ele?
A policia havia declarado suicidio para justificar sua morte, mas Taffara estava com seu celular e ainda tinha o recado onde ele era ameaçado por uma voz que ela achava estar distorcida por algum aplicativo.
Não ela não achava apenas, ela tinha certeza. Ninguém poderia ter uma voz grossa como aquela teria?
— Existe gosto para tudo – respondeu ela ao comentário da amiga. Camila havia oferecido uma carona no carro de seus pais para ir até o enterro e desde então não desgrudava dela.
Ela também havia escutado a gravação, mas até agora não havia comentado nada sobre, o que era estranho. A gravação era de uma ligação feita na noite da festa, à noite em que suspostamente ele foi morto. Então era claro como cristal que ele havia sido avisado antes.
A questão era: Quem poderia ter feito isso?
— Com licença, querida?
Taff levantou os olhos e viu uma mulher muito parecida com a mãe de Diogo, o cabelo cacheado caindo nos ombros enquanto ela a olhava seriamente.
— Você é Taffara? – perguntou em um tom gentil.
— Sim.
— Posso falar com você um minuto?
— Claro – ela se levantou da escada e olhou Camila. – Nos vemos na minha casa depois?
— Claro – a amiga ruiva sorriu e saiu dali.
— Eu sou a tia de Diogo, Helena – a mulher se apresentou. – Ouvi dizer que vocês eram próximos. Era verdade?
Era.
— Ele foi meu par em uma festa – Taffara assentiu.
— A mesma em que ele sumiu? – questionou Helena com um olhar preocupado.
— Como eu disse a policia – ela engoliu em seco. Ele tinha que morrer justamente na noite em que os dois estavam juntos? – Teve um apagão na casa e quando olhei para o lado ele já havia sumido.
Helena pousou a mão no peito.
— E não tem ideia de onde ele possa ter ido depois de lá?
— Como eu disse a policia – ela repetiu. – Eu e Diogo não tivemos contato depois naquela noite. E aí eu ouvi sobre o corpo...
— Eu não consigo acreditar – a voz de Helena era rouca ao comentar. – Por que alguém faria mal ao meu sobrinho? O que ele poderia fazer de mal?
Eram perguntas dificeis, mas por mais má que Taffara fosse, ela não teria coragem de dizê-las. A morte dele se tornava mais horrível ainda com o fato de muita gente quere-lo onde ele estava agora.
— Existem pessoas ruins nessa vida – Taff respondeu com a bile na garganta.
— A policia achou o corpo – comentou Helena com calma. – Mas não achou o celular dele. Você faz ideia de onde ele possa estar?
Taffara poderia dizer que ele o esqueceu na sua casa com ela, mas ai seria estranho. E se eles achassem a gravação? Ou se alguma autópsia doida revelasse que ela pôs as mãos no celular um dia depois de sua morte? Ela não sabia se isso era possível, mas tinha um medo enorme de ir parar atrás das grades.
— Não mesmo – ela balançou a cabeça. – Eu vi ele usando muito na festa, mas não tenho ideia.
— Se puder ajudar, por favor, verifique na sua bolsa – insistiu Helena. – Os policiais estão achando que pode ajudar muito na investigação.
— O celular? – ela questionou. – Por quê?
Helena a encarou fundo nos olhos.
— Não te falaram? – ela perguntou e Taffara não respondeu. – Eles não acham mais que foi um suicidio.
O mundo todo parou.
— O que? – ela sussurrou. – Mas eu achava que haviam ditos que ele sufocou a si mesmo.
— Sim – prosseguiu Helena. – Com uma corda. Mas também investigaram mais a fundo e é possível que ele tenha sido agredido e asfixiado... E encontraram marcas no pescoço, como garras.
A espinha de Taffara se arrepiou.
— Isso é horrível – ela olhou para a mãe e o irmão de Diogo. Os dois pareciam ter chorado muito, mas seus ombros pareciam bem posicionados.
Como se tivessem tomado à decisão de não desistir.
— E é mesmo – Helena tocou Taffara no braço. – Minha querida, se souber de alguma informação que possa ajudar...
— Eu com certeza vou entrar em contato – Taffara afagou a mão dela.
Helena sorriu.
— Você não é uma má pessoa, Taffara.
Ela franziu a testa.
— E quando foi que eu disse que era?
— Não disse, mas pensa que é – contestou Helena. – Eu sou meio medíum, criança. E posso ser meio burra às vezes. Mas não se preocupe. Se você for a certa nisso tudo, não há o que temer.
E então saiu andando, o vestido preto se ajustando a cintura enquanto ela parava para conversar com mais um convidado irrequieto.
— Isso foi divertido.
Henrique se aproximou dela e encarou Helena de um jeito meio divertido.
— Divertido? – Taffara bufou. – Não foi o que me pareceu, ela quer a cabeça do cara que matou o sobrinho dela.
Henrique a olhou torto.
— Como sabe que é um cara? – questionou.
— Do mesmo jeito que você sabe que não foi uma mulher – retrucou ela.
— Pode ter sido a Vick – os olhos do moreno brilhavam. – Ou o Rafa, né?
— Vick Melo é muito mole pra conseguir se defender de alguém. E quanto ao Capoci, nós dois sabemos que ele anda ocupado com aquele grupinho.
— Anda mesmo – respondeu Henrique distante.
— E quanto a você?
Ele a olhou e apontou para o próprio peito, confuso.
— O que? Acha que fui eu?
— E por que não? – ela cruzou os braços. – Você estava muito estranho naquela noite e no dia seguinte nem quis me explicar porque estava fugindo do Rafa. Faltam motivos para ser você?
— Falta razão— ele respondeu acidamente. – Por que eu mataria o Diogo se tudo o que ele fez foi só me ver sendo “assassinado”?
— Talvez seja exatamente por isso – ela deduziu, olhando o ex-namorado nos olhos enquanto dissertava. – Talvez ele tenha visto demais e o único jeito de você conseguir o fazer calar a boca sobre sua “morte” tenha sido sumir com ele de vista.
— Isso é loucura.
— Ou não – ela se aproximou, sentindo o cheiro do perfume dele. – Pense bem. Você volta pra cidade e Diogo morre. Você some depois do apagão e ele também. Você foge no dia seguinte e acham o corpo dele na casa do Rafa. Logo do Rafa. Dois mais um é três.
— Três dedos para a sua loucura, só se for – bufou Henrique. – Eu não matei aquele imbecil do Diogo Barros, mas se quer saber de uma coisa – ele sorriu para a namorada. – Fico feliz que tenham feito. Ele estava sendo um pé no saco, assim como você.
Taffara foi um pouco para trás.
— Isso foi uma comparação ou uma ameaça?
O moreno apenas sorriu com a provocação.
— Considere os dois.
Quando ele saiu da casa, Taffara tocou o próprio braço e sentiu a própria pele fria. Não se preocupe. Se você for a certa nisso tudo, não há o que temer, Helena disse.
Mas ela estava temendo muito.
— E o que ela estava fazendo de mais?— perguntou Camila Alves do celular de Vick pousado no criado mudo. — Ela cuspiu no caixão?
— Não, Camis, não cuspiu – Vick gemeu para a amiga. – Ela só ficou encarando de um jeito estranho.
— Jeito estranho — a amiga pareceu refletir. – Do tipo eu deveria sentir muito ou não?
Era só um comentário besta da amiga, mas aquilo a deixou pensativa. Taffara estava muito estranha no funeral. Não tinha provocado ninguém e respeitado toda a cerimônia ao lado da traidora da Camila Poli. Sim, aquilo era um funeral e fazia sentido que ela se calasse. Mas ela era Taffara Kauane, conhecida por seus barracos e escândalos. Se ela beijasse um cara, a escola chiava e se ela não beijasse um cara, a escola chiava.
Por que justamente agora que seu último par da festa morreu ela estava fazendo tanto trabalho para parecer discreta?
— Ela parecia pensativa – respondeu ela e Camila ficou em silêncio do outro lado da linha. – Você acredita que eles acham que ele morreu na noite da festa?
— Acredito — respondeu a outra com sinceridade. – Parece bem o tipo de serial killer que apaga as luzes da festa só para distrair todo mundo e matar alguém.
Quando Camila mencionou o blecaute na casa de Marta, ela pensou inexplicavelmente em Henrique. Alguma coisa a fazia acreditar que ele havia se esgueirado até a cozinha e mexido no interruptor. Ela podia não ter certeza que ele era um assassino, mas acreditava fielmente que um dedo nisso ele poderia ter.
— Eu acho tudo isso muito estranho – desabafou ela. – Por que na justa noite em que Diogo promete infernizar minha vida, alguém o mata? Por que logo depois disso?
— Alguém pode ter feito isso só para te incriminar.
Vick não se moveu na cama.
— Como é?
— Pensa bem – Camila começou a explicar. – Ele ameaçou a você diretamente, e só a você. Alguns minutos depois ele some e no dia seguinte ele é encontrado morto. Se eu não te conhecesse e soubesse que você não mata nem cachorro, eu suspeitaria de você.
— Por que alguém faria isso comigo? – Vick parecia estarrecida com a hipótese. – O que alguém teria a ganhar me colocando atrás das grades?
— Supostamente, se o objetivo da pessoa era te incriminar, existe uma possibilidade de a mesma ter matado Diogo. E para ficar livre de qualquer suspeita, quer te usar como bode espiatório.
— Meu Deus – Vick arfou, mas então parou. – Você está vendo muito CSI!
— Eu amo Horatio, mas só estou maratonando How to Get Away With Murder demais — ela riu, mas então parou. – Seja quem for que fez isso Vick, te quer como pessoa de interesse.
— Não faço ideia de quem seria tão capaz.
— Eu faço.
Vick estava prestes a questionar quem quando uma batidinha timida soou na porta. Ela olhou e seu pai ainda usava o terno charmoso que havia usado no enterro. Os olhos escuros dele pareciam apreenssivos para a filha.
— Er... Camis, eu posso te ligar depois?
— Claro migs, eu te mando mensagem depois.
— Ok, tchau – ela encerrou a ligação e se virou para olhar para o pai. – Pai. Está tudo bem?
— Está tudo sim Vick – ele entrou em seu quarto com cautela. – Eu só queria checar como você está.
Vick assentiu entendendo a preocupação. Não era bem uma preocupação verdadeira, ela sabia, ele só queria se certificar de que ela não ficaria louca ou problemática.
— Eu estou bem.
— Mesmo? – ele semicerrou os olhos. – Tem algo que eu possa fazer por você?
Ela balançou a cabeça.
— Se quiser algo – o pai deu de ombros. – É que eu sei que isso tudo deve estar sendo uma barra para você filha. Sei que Diogo não era um dos melhores namorados. Desculpe-me te arrastar até lá hoje.
Você sabia?, Ela quis questionar, mas não disse nada.
— Mas como você sabe, aquela familia precisa de descanso, assim como a nossa. E eu preciso ter certeza que minha filha não vai entrar em depressão ou algo do tipo com a morte do filho deles.
Estava demorando.
— Eu não vou – ela respondeu duramente. – Sei me controlar, pai.
Ele assentiu emocionado.
— Eu sei que recentemente tenho te decepcionado.
Vick ouviu o pai e se perguntou até que ponto de leitura mental ele estava estudando na internet.
— Seus problemas entre você e a Madrasta no passado. E toda aquela coisa de ela não te deixar chegar muito perto do pequeno Alex. Eu sinto muito que tenha sido assim e sinto mais ainda por ter deixado isso chegar tão longe. Espero que me perdoe Vick.
— Tudo bem pai – ela se mexeu desconfortável. – Não precisa me pedir desculpas.
— É claro que preciso – o pai balançou a cabeça. – Você é minha filha e minha familia e eu te amo Vick. Não quero que tenha mais nenhum tipo de ressentimento com isso.
Emocionada ela apenas assentiu outra vez. Não se lembrou de ouvir aquelas mesmas palavras sairem da boca do pai antes, mas ficou feliz ao ouvir.
— Está tudo bem, pai.
Ele sorriu.
— Você me lembra muito sua mãe.
Então volta com ela e larga aquela Bruxa.
— Posso te levar para comer em algum lugar? Talvez pudessemos ir até aquela cafeteria que você sempre tenta me levar ou...
— Não, pai, está tudo bem – ela sorriu. – E eu meio que já marquei com a Camis de encontrar ela depois.
O pai assentiu. Era mentira, mas ele não precisava saber disso, certo?
— Você precisa mesmo de seus amigos depois de hoje. Precisa de algo... Leve para te distrair de toda aquela atenção.
Ela sabia que ele estava se referindo ao momento em que ela pegou terra do chão e jogou no túmulo antes que começassem a enterrar o caixão.
Vick não se sentiu especial por nada daquilo. Na verdade se sentia péssima pela morte de Diogo e ainda não havia chorado o suficiente por ele ter partido. Sim, ele era um idiota, mas não mereceu o fim que teve.
— Eu espero que fique bem – o pai disse já se retirando do quarto. Mas então se virou. – E tem uma coisa que eu estava querendo te falar.
— Sim? – ela esperou. – Pode falar.
— A policia não revelou exatamente a todos o resultado da autópsia – ele começou. – Então quero que saiba por mim antes de todos.
Diogo está vivo. Já pensou que louco seria?
— Ele não matou a si mesmo. Alguém o sufocou antes de usar a corda para parecer que ele cometeu suicidio. O que significa que quem quer que tenha matado ele pode estar por aí.
Como se tivesse dito uma frase de efeito e não uma bomba, ele bateu no batente, sorriu e saiu do quarto da filha. Vick apenas encarou o corredor enquanto a sombra do pai ia se afastando.
Automaticamente, suas mãos voaram para o celular. Camila Alves atendeu ao primeiro toque:
— Vick? E ai, pai na area ainda?
— Não, mas precisamos nos encontrar – ela pegou a chave de casa debaixo do travesseiro. – Diogo não se matou e eu acho que a sua teoria pode estar certa. E acho que sei quem poderia fazer algo assim comigo.
Eles chegaram à casa dos avós de Roberto por volta das onze e meia. Em todo o caminho, Rafa não conseguiu deixar de olhar a bela vista do campo arido do lado de fora. Sabia que aquele era o mesmo em que ele tinha presenciado seu Pack matando Sabrina, mas não conseguia deixar de suspirar ao ter aquela visão e sua mão entrelaçada com a de Roberto.
Os dois sairam afobados do carro com pressa, tropeçando e rindo nos pés um do outro. Rafa estava tão feliz que eles teriam a casa só para eles e desconfiava que Roberto já estivesse planejando aquilo fazia um tempo.
A entrada da casa brilhava com o sol da manhã enquanto Roberto pegava a chave escondida dentro de um vaso. Rafa olhou para dentro da casa pela janela, com um pouco de medo que algum fantasma de sua primeira vez o seguisse lá.
Ao menos um dos irmãos não era mais um problema.
— Finalmente! – Roberto suspirou quando conseguiu abrir o trinco. – Sr. Capoci – ele sorriu e acenou para dentro da casa. – Eu lhe apresento ao paráiso!
Rafa riu e seguiu ele para dentro do véstibulo. Roberto entrou em seguida enquanto ele ia estudando o silêncio da casa, admirando as paredes de madeira e a pintura rebocada.
— E então – Rafa se virou para ele antecipadamente. – Quais são os planos?
Roberto guardou a chave no bolso do jeans e semicerrou os olhos de um jeito divertido.
— Huuum, que tal um café da manhã apetitoso e depois um banho?
Rafa enrubesceu.
— Que tal o banho primeiro? – ele o pegou pelas mãos.
— Fico feliz que esteja tão ansioso – Roberto riu. – Mas acho que precisamos conversar primeiro – os olhos dele se perderam na casa. – Quer ir até a cozinha?
— Claro.
Rafa olhou para ele enquanto ele o arrastava até a ilha da cozinha. Roberto se movia com destreza e tranquilidade ao redor da mesa para pegar o que precisava para fazer o café. Em todo o tempo, Rafa não desgrudou seus olhos dele.
— Amor – ele se virou de repente, parando sua tarefa.
— Sim? – Rafa se ajeitou no banquinho.
— Se eu te fizer uma pergunta – Roberto recostou as costas na pia de um jeito metódico. – Promete me responder sinceramente?
Rafa assentiu.
— Prometo.
Roberto sorriu, mas então se virou novamente para a tarefa.
— Nosso namoro... Ele está bom para você?
Rafa demorou um pouco para responder por que a pergunta pareceu muito errada. Como eles mudaram de fofos para sérios em menos de dez minutos?
— Sim, está – ele respondeu.
— Quer dizer, não tem nada te aborrecendo? Nada fazendo com que você fique entediado?
— É claro que não, Rob – Rafa riu. – Se algo estivesse rolando eu já teria dito, não acha?
— Claro – a voz de Roberto quase não pode ser ouvida.
— Se houvesse algo acontecendo você também me diria né?
O namorado relaxou os ombros e o olhou nos olhos.
— Eu só queria saber o que você pensa sobre nós— o tom dele era intenso. – O que acha do nosso namoro no geral.
Rafa deu de ombros, deixando o cheiro do café inspirá-lo.
— Bem eu acho que estou apaixonado. E eu te acho muito gentil, Rob, de verdade. Você é educado e esforçado e faz as coisas por mim de um jeito que ninguém nunca fez. No ano passado, quando você se assumiu para os seus pais eu fiquei muito feliz por você ter o feito.
— Você ficou feliz? – Roberto umedeceu os lábios. – Ficou feliz por eu ter feito ou ficou feliz por mim?
Rafa franziu a testa.
— Eu não sei os dois? – ele deu de ombros (de novo). – Olha Rob, se você não tivesse feito o que fez eu não sei como estaríamos tão felizes hoje e nem estaríamos aqui novamente – ele gesticulou para a casa. – Acho que se assumir foi a melhor coisa que você fez. Fico feliz que tenha feito isso.
— De novo – Roberto cruzou os braços. – Você está feliz pela causa e não por mim.
Rafa olhou sem acreditar.
— Não é isso – ele respirou fundo. – É claro que estou feliz por você e pela causa também.
— Mas você não pode ficar comigo só por amar uma causa — Roberto o olhou com perspicácia. – Você tem que me amar também.
— E eu amo – Rafa riu com desconforto. – Eu te amo Roberto.
Roberto olhou para o chão e depois para a janela, parecendo confuso e perdido. Rafa suspirou e cruzou a distância entre eles na cozinha.
— Escute – ele colocou a mão na parte de trás da nuca do namorado. – Eu amo mesmo você. Não é só pelas coisas que faz, mas também por eu saber quem você é. O resto... É só um bonus. Só um acréscimo dessa felicidade que você me dá. E isso de longe significa que eu possa te amar menos, entendeu?
Roberto inchou as bochechas, pensativo.
— Eu não sei. É que às vezes parece que somos mais como bons amigos.
— Isso é bobagem – Rafa balançou a cabeça. – Não sou tão intimo com meus amigos como sou com você. Na verdade eu não sou intimo com ninguém há tempos! – ele pensou em Lucas e sua voz falhou no final.
— Fico feliz em ouvir isso – Roberto assentiu e o olhou nos olhos novamente. – Promete pra mim... Se um dia não me quiser mais, você pode me dizer?
— Eu prometo – Rafa o beijou nos lábios. – Agora, por favor, não vamos desperdiçar todo o tempo que temos.
— Tudo bem – Roberto tocou sua cintura. – Vamos aproveitar.
Rafa chegou mais perto e o beijou com incentivo. Roberto o puxou para si e estudou todo o seu corpo com as mãos. Rafa ia se sentindo cada vez mais quente a cada beijo que eles davam.
Mas então Roberto se afastou arfante.
— Mas antes – ele riu com os lábios em sua orelha. – Quero que termine seu café enquanto vou terminar uma coisa lá em cima.
— Tudo bem – Rafa murmurou meio encabulado e o namorado riu. – O que você vai fazer?
— Eu já volto – respondeu o loiro ao invés. – Não se divirta sem mim.
Rafa se concentrou no café enquanto ouvia os sons do outro se afastando na casa. Mas então sentiu algo estranho, uma espécie de aviso e ergueu os olhos para as portas de vidro que levavam ao fundo.
Quando olhou não viu nada, mas foi estranho. Era como se alguém o estivesse observando ali.
Aquelas eram as mesmas portas de onde Adnressa havia surgido naquela noite e as mesmas que Eduardo havia deixado ele antes de voltar para Fernando e Andressa.
Fora eles, apenas os que moravam na casa sabiam que ela existia. Então... Será que Roberto tinha passado ali?
Ele olhou por sobre o ombro e notou o silêncio evidente.
Pensou em chamar o nome do namorado, mas a sensação voltou. Olhou de novo para as portas e levou um choque.
Elas estavam abertas. O ar frio entrando na ilha da cozinha de um jeito ricocheteador. Rafa correu até as portas e as fechou com força.
Olhou do lado de fora, esperando ver algo ou alguém, mas fosse quem fosse já tinha ido.
— Rafa?
Ele se virou e Roberto segurava o que parecia ser seu celular.
— Está tudo bem?
— Claro – ele deu uma última olhada para as portas. – Não foi nada.
E nem ninguém.
— Você e a Érika?!
Eduardo mandou Fernando abaixar a voz e olhou em volta. Os dois estavam no centro da cidade, o lugar onde seu colega de trabalho havia decidido contar a ele sobre o que estava acontecendo entre ele e Andressa.
— Por favor, não me julgue – pediu o moreno hesitante. – Já não basta aquele Lobo ter me batido, você não me ajuda em nada reagindo assim.
— O que você esperava? – Fernando ria sem acreditar. – Você praticamente separou o bando dele inteiro. Até eu te bateria depois disso.
— Obrigado, Fê, obrigado – ele sorriu forçadamente. – Devia ter pensado duas vezes em te contar.
— Okay, foi mal – ele balançou a cabeça. – É que você me pegou de surpresa. Achei que fosse dizer que você e Andressa fizeram algo de “importante” e que você não gostou.
— Não foi nada disso – Edu bufou, mas então se retraiu. – E isso já aconteceu.
Fernando ergueu as sobrancelhas.
— Já?
— Já.
— Uau – ele olhou para a cidade. – E a Érika?
— Não me julgue – repetiu o moreno.
— Eu quis dizer a quanto tempo vocês começaram com isso – disse isso da mesma forma que diria “traição” ou “caso”.
— Três meses.
Fernando foi para trás no banco.
— Isso é quase o tempo em que saímos dessa cidade no ano passado – ele disse sem acreditar. – Isso já estava acontecendo quando lutamos com os Atiradores?
— Não – Eduardo parou. – Não tão explicitamente. Mas trocamos algumas encaradas durante aquele tempo sim. E quando voltamos todos nós para La Iglesia, algo rolou e eu me senti próximo dela.
— Você disfarçou tão bem esse tempo todo – disse Fernando com um toque de admiração. – Agindo com frieza e se referindo a todos eles apenas como Lobos.
— Isso tudo fazia parte do disfarçe – ele revirou os olhos. – A qualquer sinal de suspeita de alguém ou um erro meu, ela cobrava depois.
— Que chata! Você gostava dela?
— Sim.
— E a Andressa? – questionou o loiro. – Gostava da Érika mais do que ela?
— De jeito nenhum – Eduardo tinha o rosto inexpressivo. – Eu só não sei explicar como me sentia em relação a Érika... Mas com certeza não a amava.
Fernando não disse mais nada.
— Isso é enrolado – ele desabafou. – Eu sinto muito que tenham levado ela, sei que queriam conversar.
— Talvez – Edu engoliu em seco, mas então piscou. – E quanto a você? Como está com o fato de Felipe ter passado aqui?
Fernando o encarou com incomodo.
— Não sei. Eu o vi, mas não por muito tempo. Não se preocupe... Ele é o menor dos nossos problemas agora.
— Eu sei, mas ele já foi um dos maiores – Eduardo pressionou. – Quer conversar sobre isso?
Fernando não respondeu e o moreno teve sua resposta. Aquilo também era enrolado de se conversar. Os dois ficaram encarando a movimentação na cidade e as pessoas andando para lá e para cá com pressa. Um bando de garotas riu alto perto do Dropcoff e Fernando fez um som de reprovação com a boca.
E então um garoto surgiu de uma esquina vestindo roupas escuras e bota. Parecia apressado, mas um pouco distraido. Enquanto olhava a tela de seu celular, ficou esperando o sinal atravessar.
— Olha só quem está ali – Eduardo cutucou o amigo.
Fernando seguiu seu olhar e retorceu o rosto quando percebeu que era Henrique. O agora amigo de Rafa que sabia de tudo sobre eles parecia um pacato adolescente que sabia demais e não o acusador da noite passada.
— Parece ocupado – ele avaliou. – Espero que ele não poste em alguma rede social sobre nós.
— Quem acreditaria se postasse? – Eduardo bufou. – E eu chutaria as bolas dele se descobrisse que ele fez isso.
O loiro sorriu meio travesso.
— O que acha de chutarmos ele agora?
Eduardo riu.
— Você ainda acha que ele é o Capuz não é mesmo?
Fernando negou com a cabeça.
— Eu tenho certeza – ele cerrou os dentes.
O moreno avaliou a postura do amigo e tentou entender o porquê de tanto ódio por alguém que ele não conhecia. Lembrou-se de que ele defendeu a hipótese ainda mais quando Rafa se recusou e achou aquilo estranho. Por que ele batia tanto naquela tecla?
— Vamos...
— Seguir ele? – Eduardo arriscou e Fernando sorriu. – Eu normalmente não diria sim, mas eu sou seu amigo. E você quer saber se ele é o Capuz.
— E você não tem mais a Andressa ou a Érika para se distrair – acrescentou ele.
Ai.
— Sim – Eduardo riu. – E então... Vamos?
Fernando observou enquanto o moreno atravessava a rua e sumia dentro de uma loja.
— Só se for agora.
— Marco? – Rita afundou a cabeça no quarto do irmão mais novo e olhou o quarto todo enfeitado com CD’s e fotos dele mesmo colada nas paredes.
O quarto estava com a luz apagada e ela tocou a porta com o aviso SEM GAROTAS ao adentrar o ambiente. A cama parecia arrumada e a mochila estava jogada de um jeito decente no canto do quarto limpo. O irmão mais novo estava fora há quase duas noites e ainda não tinha voltado para casa mesmo depois de ela ligar zilhões de vezes.
Quanto mais ele se comportava daquela maneira, mais Rita tinha motivos para acreditar que ele tinha alguém novo em sua vida, assim como Rafa tinha dito. E talvez fosse possível, mas Rita não conseguia acreditar em como alguém podia se interessar por seu irmão.
Minunciosamente, ela andou até a escrivaninha de Marco e tirou um dos post-its jogados dentro da xícara de café do Mario Bros toda vermelha.
Ela escreveu na nota que sairia com Brenda, com quem tinha acertado as contas a respeito da confissão sobre o pai dela, e que não tinha hora para voltar, e depois a colou na gaveta de cuecas, onde ele provavelmente iria mexer primeiro.
Depois disso, ela desceu as escadas da casa enorme pensando nos pais viajando para a Filadélfia e suspirou com cansaço. Por mais que estivesse com saudades, era bom saber que eles confiavam bastante nela e no irmão para saber que eram ambos irresponsáveis e que não seriam atacados por uma Bruxa na escola ou por um Capuz em uma festa.
Ela passou pela sala para pegar sua bolsa e a enlaçou pelo pescoço, sentindo o cheiro do próprio Gloss. Estava prestes a passar pela porta da frente quando ouviu um estalo na sala.
Virou-se e encarou a lareira acesa. Estava prestes a ir apaga-la, quando percebeu o quão familiar àquela sensação era.
Devagar, ela olhou para a porta da frente e a abriu.
— Monamour – Leticia estava recostada no batente, o cabelo castanho cacheado ao redor dos ombros caindo como serpentes. – Vejo que está aprendendo.
— Você de novo Bruxa! – Rita se afastou da entrada e sacou o celular. – O que você quer?
— Eu recomendo que não faça isso – avisou a outra se ajeitando na entrada. – Eu só vim conversar.
— Eu não quero conversar com você, Puta – Rita grunhiu.
Leticia ergueu o queixo e tocou o batente com a ponta do dedo. Uma luz roxa se arrastou pela porta e contornou toda a madeira. Ela deu um passo enquanto olhava Rita nos olhos.
— Creio que sobre isso você não terá escolhas – e depois adentrou mais na casa.
— Quem é o gato?
Rael seguiu o olhar de sua irmã, Karina, para Vicente sentado no sofá assistindo TV. Assim que o amigo chegou em sua casa, ele ordenou que ele fosse até o quarto dele se trocar. Em toda a entrada dos dois, Karina tinha um olhar malicioso para o alagador do garoto.
Ele a beliscou na barriga e puxou pela mão até o sofá.
— Este é Vicente – ele apresentou os dois.
— Olá – a irmã mais velha balançou os cachos ruivos na cabeça e sorriu.
— Tudo bem? – Vicente sorriu divertido, com um olhar malicioso para ela e outro bravo para Rael.
— Eu vou pedir para a mamãe o deixar passar alguns dias aqui em casa – explicou.
— Perfeito – Karina mal piscou. – Eu me chamo Karina – ela ergueu a mão para um comprimento.
Rael a olhou de um jeito impaciente, mas Vicente se levantou do sofá e apertou sua mão, animado. Com um revirar de olhos, ele sacou o celular do bolso e saiu até a sacada do apartamento, deixando os dois pombinhos a sós.
A vista da cidade de Vallywood ficava apenas de fundo enquanto ele fazia a ligação. Gabriel atendeu no terceiro toque com uma voz abafada e distante:
— Rael — ele chiou. — Está tudo bem?
— Está sim. Eu só queria saber se está tudo confirmado para hoje à noite.
— Do que está falando? — questionou o outro e o som do motor do carro conseguia ser ouvido.
— O jantar – Rael o lembrou. – Que combinamos antes de você sair apressado hoje do funeral, lembra?
— Ah sim, o jantar, claro — Gabriel riu de leve.
— Meu Deus – Rael balançou a cabeça. – Você não se lembra.
— É claro que me lembro – ele irrompeu do outro lado da linha. – Eu só fiquei ocupado com algumas coisas aqui.
— Aqui onde? – questionou Rael.
— Er, escola – ele desbafou. – Tive que entregar um trabalho.
— Ah sim – aquilo era estranho. Ele não tinha mencionado nada sobre um trabalho. – Mas você vai poder vir hoje, né?
Gabriel não respondeu de imediato e um som abrupto cortou a ligação. Rael olhou sem acreditar a tela e piscou para as pessoas minimas lá embaixo na rua.
Assustando ele um pouco, o celular vibrou de novo e ele o atendeu.
— Alô? O que houve?
— Foi sem querer – Gabriel respondeu arfante. Houve mais sons dessa vez, uma espécie de murmurios e reclamações.
— Porque não foca no que temos que fazer ao invés de ficar de conversinha com essa garota, Gabriel? — ele conseguiu ouvir a voz de uma garota chiar.
— O que foi isso?
— Só uma colega minha — Gabriel pigarreou. – Então, estamos combinados para hoje à noite?
— Perguntei primeiro – Rael retrucou friamente.
— Não fique estressado ok – ele pediu. – Eu juro que tudo vai acontecer hoje à noite.
— Tá.
Gabriel se despediu e a ligação se encerrou.
— Onde você o achou?
Ele se virou e Karina parecia em extase ao encarar o irmão.
— Quem? – ele olhou por sobre o ombro dela. – Vicente? Ah, ele é da minha escola.
— Abençoado seja você – ela o pegou pelas mãos. – Por favor, me diz que ele não namora.
— Eu não sei – ele gemeu e afastou as mãos. – Ele é meio misterioso. Não conversamos tanto.
Karina murchou um pouco, mas então sorriu.
— Adoro um mistério.
— Por favor – ele bufou. – Você gosta de Pretty Little Liars, ele não é tão misterioso assim.
A irmã murchou novamente.
— Ele me disse que é bi.
A esperança não estava perdida.
— Está tudo bem com você? – ela avaliou o irmão. – Parecia sério no telefone.
— Eu estava ligando para o Gabriel.
— O cara do Shopping?! – ela bateu palmas. – Eu sabia que ele fazia seu tipo!
— Mentirosa você disse que ele não parecia ser!
— O que vocês vão fazer?
— Eu vou chamá-lo pra jantar aqui hoje à noite – Rael sorriu. – Quero apresentar ele.
— Mas já? Uau – ela riu e girou o anel nos dedos ao olhar Vicente de novo. – Parece que nós dois vamos nos dar bem hoje à noite.
Rael revirou os olhos e entrou na sala para ficar de frente para Vicente, que sorriu assim que ele se aproximou.
— Sua irmã é divertida – comentou.
— É, e ela está na sua – ele disse. – Só pega leve, ok. Não dê esperanças a ela.
— Relaxa – ele riu. – Eu posso entreter ela se quiser – ele baixou o olhar para o celular na mão dele. – Está tudo bem aí?
Por que todos perguntavam isso a ele? Parecia que ele tinha problemas, humpf.
— Claro que está – ele olhou a tela. – Só estou esperando uma mensagem de alguém.
— É aquele carinha que te abandonou na festa com uma garota?
Rael o olhou com incodomo.
— Sim, mas ele terminou com ela.
Vicente assentiu.
— Que sorte a dele.
— Ok, chega de conversa fiada – ele apontou para o banheiro. – Eu quero que você tome um banho antes que minha mãe chegue. Se for para eu convencer você a ficar, se arrume.
— Sim senhor! – Vicente bateu continência.
— E tire esse alagador – murmurou enquanto se afastava. – De gay já basta eu aqui.
Marco bateu uma vez na porta da casa dos Capoci.
Quando isso não funcionou, ele bateu outra vez. E como a segunda não deu em nada, ele ergueu a mão para bater a terceira vez.
— CHEGA! – gritou a voz de Roger de dentro da casa. – EU JÁ TO INDO!
Enquanto ele não aparecia, Marco olhou o celular e procurou a mensagem que havia recebido quando estava no apartamento de Gabriella. Achou um número estranho e as letras confusas do contato e nada mais.
EU SEI DE VOCÊ E GABI E EU VOU CONTAR.
— Ah é você – Roger gemeu numa voz seca ao abrir a porta. Seu nariz estava vermelho e a pele ao redor de seus olhos parecia afundar. – O que quer?
— Eu preciso de ajuda – Marco já foi entrando enquanto o amigo reclamava.
— Por que todo mundo entra assim nessa casa?!
— Isso é sério – ele engoliu em seco. – Alguém me mandou uma mensagem.
Roger deu de ombros.
— É o jeito mais tradicional de se comunicar nesse século – ele semicerrou os olhos. – Estou zoando. Qual o problema?
— Eu recebi uma mensagem de um número muito estranho mais cedo.
— E? – incentivou o utro.
— E que eu não sei quem foi e a mensagem era... Era algo pessoal.
Roger assentiu.
— E como estava a mensagem?
— Eu não posso falar – Marco se apressou em explicar. – É pessoal.
— É pessoal? – Roger riu. – Você quer que eu te ajude e não pode me falar?
— Eu não pedi sua ajuda, tecnicamente.
— Ah não? – o loiro deu de ombros. – Então o que veio fazer aqui?
Marco olhou para os lados, incomodado.
— Ok, eu vim pedir ajuda – ele bufou. – Mas eu não posso falar como é a mensagem. É perigoso e não é só sobre mim. Pode me entender?
Roger olhou para um canto distante da casa por quase um minuto, mas então fez que sim.
— É eu entendo essas merdas. Tudo bem eu te ajudo.
— Valeu cara – Marco suspirou. – Eu juro que te pago depois.
Roger deu um sorrisinho.
— Eu posso escolher a forma?
— Não seja idiota!
— Ok vou tentar, mas vou logo avisando. Se for com mensagens o seu problema, eu recomendo que chamemos um cara que seja especializado nisso.
— Quem?
***
— Rodolfo? – Marco olhou para o garoto já sentado de frente para o computador de Roger e deitado em sua cama. – Ele é o cara que entende de mensagens?
— Ele entende tudo – retrucou Roger. – E além do mais, não reclame! Ele está fazendo de graça o que alguém como eu cobraria duzentas pratas.
Marco balançou a cabeça, mas sabia que teria que aceitar. Não tinha escolhas e precisava rastrear o dono do celular logo. Rodolfo estalou os dedos e ergueu as sobrancelhas para os dois.
— Já posso começar?
Marco olhou Roger e este lhe atirou um sorriso amarelo.
— Ele é um gênio, confie em mim.
Suspirando, ele tirou o celular do bolso e o entregou a Rodolfo, que pegou um cabo USB e começou a digitar. Quando ele começou a abrir um prompt de comando, Roger balançou a cabeça e saiu do quarto.
— Ei, aonde vai?
Roger colocou a cabeça para dentro.
— Assar alguns cookies.
— Por quê?
— Por quê? — Roger o imitou ficando vesgo. – Esse lunático vai ficar digitando sem parar e eu provavelmente vou ficar com muito sono, então...
Marco olhou enquanto Rodolfo trabalhava minunciosamente. Será que se ele lisse a mensagem seria o tipo de pessoa que espalharia para alguém? Ele precisava mesmo descobrir quem tinha mandado a mensagem e colocar a carreira de Gabriella em risco?
— Pode ir – Rodolfo disse sem olhar enquanto tirava os óculos. – Eu vou achar o endereço de IP antes que vocês voltem.
Marco mordeu o lábio inferior.
— Você vem? – chamou Roger.
Marco o seguiu para as escadas, confiando a segurança de seu novo amor nas mãos de Rodolfo.
Carla e Andressa adentraram ainda mais no depósito em que haviam enfrentado uma descontrolada Érika e uma Leticia maligna e misteriosa. O lugar estava vazio, mas por algum motivo elas não conseguiam ver outro lugar mais cheio de energia do que aquele.
E apesar Loba, Carla não conseguia rastrear ninguém que não conhecesse. Então o único jeito era apenas ir pelo instinto. O problema era que entre uma Caçadora e uma Licantropa não havia muitas semelhanças no estilo de caça.
— Ok, estamos aqui – Dessa se virou para o lugar vazio. – Vamos usar esse lugar como primeiro ponto.
— Primeiro ponto do quê? – Carla perguntou. – Nós nem sabemos se ele esteve aqui esse tempo todo.
— Sabemos sim – insistiu Andressa. – Erick nos confessou no ano passado que havia um garoto negociando com Carolina no ano passado. E ele definitivamente só pode ser o Capuz – ela olhou para as caixas velhas jogadas em um canto. – Nós só precisamos de inspiração.
— Não sei como isso pode ajudar – Carla chutou as caixas e olhou para a janela quebrada no alto. – Foi aqui que vocês seguiram Érika.
— É – ela olhou para o chão. – E foi aqui que Giulia e Felipe me salvaram de Leticia. Ela estava prestes a vencer.
— Bem – Carla parecia pensativa. – Já que a Bruxa tem algo a ver com o Capuz mesmo, então significa que estamos chegando perto.
Andressa começou a andar pelo lugar, estudando seu teto e a ferrugem acabada. Aquele lugar também tinha alguma ligação com os Atiradores antes de eles serem extintos, Eduardo até tinha encontrado balas jogadas no chão. Balas especiais.
— É tão estranho isso desse Capuz – Carla comentou enquanto cortava as caixas com suas garras. – Se é tão poderoso por que se esconder de todos nós?
Andressa deu de ombros.
— Talvez ele tenha um plano grande para nós – continou a Loba. – Se ele tinha tanto poder como vocês disseram que ele tinha na clareira ele poderia ter acabado com todos na festa mesmo.
— Eu acho que ele é um viadinho e está com medo – Dessa retorceu o rosto. – Droga, acabei de descrever o Rafa! Será que ele é suspeito?
— Vocês fizeram alguma lista de suspeitos?
— Não.
— Nem juntaram as pistas nem nada?
— Não – ela deu de ombros. – Eu não vou perder meu tempo tentando descobrir como o rosto dele é quando eu posso enfiar minha Agulha por dentro da goela... – ela parou. – Quer dizer, vou atirar.
Carla franziu a testa.
— Está tudo bem?
— Claro – ela se focou nas caixas atrás dela. – Você esperava achar o que ai? O Capuz vestindo uma roupa de mendigo?
— Não seja má – Carla brincou. – E se for ela?
— Bom, se for – Dessa estalou a lingua. – Já sabemos quem é a garota que está agindo como doida entre nós.
Os olhos de Carla escureceram.
— Sinto muito – ela mordeu a própria lingua. – Eu ás vezes não presto atenção no que digo.
— Está tudo bem – a Loba deu de ombros. – Ao menos você não senta no colo dos outros só por não prestar atenção.
Ela engoliu em seco.
— Eu os odeio – se referiu a seu ex-namorado e Érika.
Carla estava prestes a dizer algo, quando de repente virou a cabeça com tudo para a entrada do depósito.
— Qual o problema?
— Pensei ter sentido – ela fungou confusa. – O cheiro de algo familiar.
Andressa sacou a adaga do peito. Uau.
— Capuz? – ela sussurrou.
A Alfa a olhou de lado.
— Se for ele mesmo, Andressa, não vai ajudar nada ficar sussurrando.
As duas chiaram quando as caixas voaram pelo ar. Andressa se jogou para frente e chutou o ar na mesma hora. Seus pés acertaram alguma coisa que caiu no chão com um baque.
— Oh – Carla se afastou. – O que você está fazendo aqui?
Andressa olhou também.
— Erick?! – ela guinchou. – Você é louco de nos assustar, garoto?! Eu podia te matar!
— E matou – o Lobo se levantou com a mão no saco. – Papi no estas available – e caiu no chão com um gemido.
— Você é louco, por que estava nos seguindo? – questionou Carla. – Estamos em uma investigação!
— Claro que estão – ele revirou os olhos. – Acontece que eu também. Estava refazendo os passos de todas as vezes que segui Rafa!
— Devia ter avisado babaca – Andressa cruzou os braços. – Eu não estou nos meus melhores dias, como você já sabe.
— Eu sei – ele a encarou. – E eu já cruzei com aquele babaca hoje. Se não fosse por ele Érika estaria aqui e já teriamos achado o Capuz.
— Ou não – Andressa provocou.
— Escuta aqui...
— Espera – Carla o olhou atentamente. – Não se mexa.
Erick congelou no ar como ela pediu e olhou confuso para as duas.
— Por...?
A Alfa ignorou a pergunta e passou por ele para se agachar no chão. De repente ela começou a jogar as caixas rasgadas para longe.
— Não é hora de fazer montagem, Carla – Andressa grunhiu. – Nós temos que achar o Capuz.
— Andressa — A Loba disse sem se virar. – Vocês disseram que o Capuz é jovem, certo?
— Sim... Por que a pergunta?
— Porque – Carla se levantou e parecia ter uma forma retangular nas mãos. – Eu acho que ele já não é mais tão novo assim.
Ela se virou e eles olharam para um album de uma tal de Selena Gomez todo branco com ela fitando a camera de um jeito metódico. Erick olhou Andressa e Dessa olhou para Carla.
— Que porra isso deveria significar?
— Eu não sei – ela aproximou o objeto do rosto. – Mas tem um cheiro horrível.
— E o que te lembra?
— Eu senti esse cheiro antes – Erick pegou o album dela. – Eu tenho sentindo ele muito recentemente.
— Onde?
— Do namorado do Rafa – respondeu o Lobo. – Ele tem esse cheiro.
Rafa afundou cada vez mais no sofá com Roberto, as mãos passando por suas costas nuas enquanto ele as arranhava na volta. Roberto, com o corpo magro de nadador em cima dele, dava pequenas mordidas na base de seu pescoço, deixando ele louco.
— Eu ainda não entendi – ele disse por entre as arfadas. – Porque não fazemos isso no seu quarto... Ou no quarto dos seus pais – ele riu ousadamente.
— Porque, meu amor – Roberto o beijo no rosto. – Eu quero fazer em todos os lugares.
Rafa sorriu e Roberto voltou a abaixar a cabeça. Aquilo não era bem a conversa sobre tudo o que eles precisavam resolver, mas ele não se importava. A casa estava vazia exceto pelos dois e eles aproveitariam a cada boa hora sem desperdiçar um minuto sequer.
Roberto começou a tirar a camisa dele e Rafa não cobriu o peito com vergonha, como teria feito em qualquer outra situação. Queria que ele visse. Queria que ele visse tudo e gostasse daquilo.
O loiro o beijou e ele se sentou para tocar no cinto dele. Ele o abriu com um pouco de dificuldade, mas quando conseguiu o atirou no carpete sem dó. Quando abriu os olhos, Roberto sorria de um jeito sacana.
— Quer mesmo fazer isso?
Em resposta, Rafa abaixou o zíper da calça dele e em seguida as calças, junto com a cueca Box preta. E trouxe a cintura do namorado para mais perto.
Enquanto fazia, Roberto respirava fundo, aproveitando cada minuto do oral que ele fazia (gente eu sei que tá muito dirty isso aqui, me perdoem Kkk) com vontade. Roberto tinha uma pele bonita vista de cima e de baixo e Rafa nunca teve certeza de que estava fazendo algo mais certo do que aquilo.
— Okay – ele tirou as calças e ficou em pé nu na frente dele. – Isso foi muito, muito bom, mas não posso permitir que você continue por mais...
— Cala boca – Rafa ordenou e se jogou nele.
Jogados no carpete, ele se levantou e se equilibrou em pé para tirar cada perna do jeans. Quando deixou a cueca escorregar até os dedos dos pés, Roberto arfou.
— Você... — ele balançou a cabeça com os olhos brilhantes. – Você é lindo, Rafa.
Ele não disse nada em resposta e deitou em cima dele. O beijo deles foi ficando mais descontrolado enquanto seus corpos se tocavam. Rafa sentiu um pouco de cosquinha quando sua batata roçou naquela coisa quente, mas ele não ligou.
— Você tem proteção? – murmurou contra a boca do outro.
Roberto semicerrou os olhos pela sala.
— Serve se eu usar um creme?
Rafa assentiu e o loiro saiu saltidando todo pelado pela sala de estar dos avós. Ele esperou ele voltar e ajeitou as pernas abertas para o alto, esperando. Quando Roberto voltou, tinha o lábio machucado de tanto que havia mordido e segurava o que parecia um tubo de óleo de amendoas.
— Eu não quero te machucar – ele avisou antes de qualquer coisa.
Fofo, Rafa pensou enquanto o beijava de novo e colocava sua mão lá. A boca de Roberto era um O quando ele o encarou de novo.
— Eu acho que você quer sim.
O namorado avançou nele de um jeito selvagem e Rafa o segurou nos ombros, se preparando para aquela sensação que sabia que chegaria.
Quando aconteceu, os dois se deitaram no chão e Rafa abriu os olhos para piscar com a dor que sentiu.
— Meu Deus – Roberto começou a se remexer embaixo dele. – O que foi isso?
Rafa estava prestes a dizer algo como “cala boca” ou “continue” quando algo chamou sua atenção. Um homem encapuzado estava parado logo atrás do sofá, encarando Rafa por trás do rosto escuro.
Ele arfou e se separou de Roberto com dor.
— Ei! – Roberto o encarou assustado. – O que foi? Está tudo bem?!
Rafa olhou de novo para trás do sofá, mas não viu o homem de novo.
— Rafa, o que foi? – Roberto seguiu seu olhar. – Algum problema? O que você viu?
Ele apenas balançou a cabeça, sentindo o coração pulsar em seus ouvidos.
— Eu fui muito fundo?
A pergunta de Roberto era muito, muito tola, mas ele assentiu.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!— Sim, eu – ele suspirou. – Foi muito fundo.
Roberto enrubesceu e o tocou nos ombros.
— Nós podemos parar se preferir.
Por favor, parem.
— Não, eu só preciso de um tempo – ele olhou perdido para as janelas, esperando ver algo ali. – Posso ter um minuto no banheiro?
— Claro – Roberto assentiu.
Rafa se levantou, não se importando com sua evidente nudez e pegou seu short jeans no meio do caminho.
— Rafa.
Ele se virou para o namorado.
— Você está palido – ele informou.
Rafa apenas tocou o rosto de jeito apreenssivo e continuou andando.
Já no banheiro e com o short jeans ele se encarou no espelho enquanto procurava o número de Fernando. Seu celular chamou seis vezes antes de cair na caixa postal.
— Fernando – ele disse depois do bipe. – Eu preciso que você atenda esse celular. Acho que o Capuz está aqui na casa dos avós de Roberto, por favor, chame os outros... – ele engasgou. – Eu acho que ele nos seguiu.
Ele terminou e saiu do banheiro, checando se Roberto estava no corredor. Ele foi até a sacada que dava visão ampla para a sala e ficou confuso. Onde estava Roberto?
Desceu as escadas e entrou na cozinha enorme cheia de cacarecos estranhos. A avó de Roberto talvez fosse uma mulher bem medonha quando viva.
— Rob? – ele chamou e olhou suas roupas espalhadas no chão. – Rob?!
Ele deu um passo e se olhou no espelho do microondas. Seu cabelo estava revolto e seus olhos pareciam arregalados. Ele também estava pálido como o namorado havia informado.
Ficou olhando seu reflexo até uma forma aparecer atrás dele.
Ele gritou.
— Rafa, calma! – Roberto o segurou pelos ombros. – Calma – ele o afastou um pouco para olhar seu rosto. – O que está acontecendo amor? Por que está tão assustado?
Rafa ficou sem falas, mas conseguiu murmurar algo sobre ele o ter surpreendido.
Roberto riu.
— Eu só fui até o véstibulo – ele comentou. – A porta estava aberta.
— O quê?
O namorado apenas abanou a mão num gesto vago.
— É um defeito da maçaneta. Às vezes se não trancamos, ela faz isso.
Rafa duvidava que fosse só a maçaneta.
— Acha que alguém nos seguiu?
— Eu duvido, mas – ele não completou a frase.
— Mas? – Rafa pressionou. – Como assim? Contou a alguém que iamos vir?
— Só aos meus pais – ele deu de ombros e então acrescentou: — E aos meus irmãos.
— Desse jeito vamos perder ele de vista! – Fernando retrucou socando o amigo no ombro.
Eduardo o encarou de um jeito mortal e acelerou um pouco para frente com o carro na rua. Mas só um pouquinho, o que deixou ele mais louco ainda.
— Mais rápido! – ele ergueu a mão.
— Se me tocar de novo queimo sua roupa – Eduardo ameaçou e olhou para frente. – E relaxa, ele não esta fazendo nada demais! Nem para que vai se mexer.
Os dois estavam mesmo decididos a seguir Henrique. E depois da Rua do Dropcoff, haviam seguido ele até uma loja de confeitaria que mais parecia uma padaria com sua tintura rosa. A dona da loja usava coisas enroladas para segurar todo o cabelo – Fernando não reconhecia coisas de meninos, que dirá meninos – e segurava o braço do suspoto Capuz enquanto conversava toda sorrisos com ele.
— Não sei não – comentou o loiro. – Ele parece estar brincando... Ou sei lá... Curtindo com a nossa cara.
— Parece mesmo – Eduardo assentiu. – Será que sabe que estamos aqui?
— Se ele sabe é porque você não sabe disfarçar nada!
O moreno fechou a cara.
— Você é um estupido mesmo, né. Eu quero só ver o que vai fazer com toda essa suspeita se descobrir que não é ele.
— Está duvidando de mim? – ele apontou para o próprio peito. – Eu não acredito nisso.
— E eu não acredito que aceitei seguir esse garoto com você.
— Você aceitou porque sabe assim como eu – o loiro insistiu. – Ele é culpado.
Eduardo revirou os olhos, mas acelerou mais dessa vez no carro, chegando perto de uma caixa de correio.
— Devagar, senão ele nota – retrucou o loiro.
Se já não notou.
Enquanto Fernando encarava o outro moreno com os olhos focados, Eduardo se pegou olhando para seu reflexo no espelho. Notou seu nariz um pouco avermelhado e o tocou gentilmente.
O que será que Andressa estaria fazendo agora? Será que já tinha ido para La Iglesia? Sem avisar nem mesmo a Fernando?
Você abandonou esse grupo, não eu, ele se lembrou de ouvi-la dizer, Você vai deixar Fernando sozinho e você é culpado nisso tudo.
Ele engoliu em seco e depois se lembrou da forma como ela entregou a Agulha. Merecia aquilo e sabia muito bem disso. Mas era tão dificil de lidar e de acreditar que estava tudo acabado. Sim, ele era o errado da situação e estava esperando demais um pouco de consideração de alguém. Se sentia sozinho e frio ao se encarar na tela de seu celular, mesmo com Fernando ao seu lado desde que ele havia contado.
O que ele e Andressa tiveram era algo lindo, verdadeiro e muito inesperado por um tempo. Mas quando aconteceu ele se sentiu feliz por não ser o único a sentir algo.
Porém agora toda a magia havia acabado. A Magia boa do que ele chamou de amor para ela foi quebrada. Andressa estava puta e ele quebrado. E ninguém seria feliz dali para frente.
— Edu – Fernando o chamou. – Ele está se movendo.
Ele acordou do transe e girou a chave.
— A pé ou de carro? – sugeriu Eduardo.
Fernando o encarou de um jeito seco.
Ok né.
Ele ligou o carro e começou a seguir Henrique, que andava de um jeito normal pelas ruas, com um copo de café na mão enquanto acenava para algumas pessoas que não acenaram de volta. De costas ele lembrava um pouco a si mesmo, mas Eduardo sabia que se ficassem frente a frente sem camisa, ele teria muito mais musculos e cicatrizes para provar suas diferenças.
O garoto de repente parou para olhar uma loja de reliquias e apontou com o dedo para um anel dourado. Fernando suspirou.
— Esse cara é ridiculo.
— Ele ou a gente, por segui-lo? – Eduardo descansou a cabeça no volante. – Por que não encurrala-mos ele em um muro de pedra ou algo assim e socamos até que ele confesse?
Fernando pareceu pensativo.
— Não – disse repentinamente. – Ele poderia dizer ao Rafa que fizemos isso e fazê-lo se voltar contra nós.
— E quem liga? – ele perguntou, mas Fernando não respondeu. – Ah é, você.
O loiro parecia querer reclamar, mas de repente se moveu com tudo para fora da janela de forma abrupta.
— Garoto, o que foi?
— Ele sumiu – ele voltou à cabeça para dentro. – Ele só... SUMIU!
Eduardo encarou a lojinha e franziu a testa.
— Sumiu como... O Capuz?
Os dois não disseram nada e Eduardo acelerou. Procuraram na esquina perto dali e duas quadras adiante, mas nada de Henrique. Decididos, saíram do carro batendo as portas com força.
— Eu disse que a pé podia ser melhor!
— Você só sugeriu! – retrucou Fernando.
— E você não me ouviu!
Os dois bufaram ao mesmo tempo e começaram a procurar com os olhos. Eduardo então voltou a encarar a lojinha por qual eles tinham passado e notou algo que não tinha percebido antes.
— Fê – ele apontou.
O loiro seguiu seu olhar e viu uma espécie de milharal na rua de trás da lojinha. Parecia propriedade privada, mas que tipo de propriedade privada ficaria tão aberta assim na avenida?
— Precisamos ir lá.
Eduardo assentiu e eles abandonaram o carro para correr até o outro lado da rua. Algumas pessoas os encararam, mas Fernando não ligou. Se Henrique fosse mesmo o Capuz, aquele era o lugar perfeito para se encontrar com algum cumplice ou algo assim.
Eles pularam pelo milharal e correram no meio do mato derrubando as plantas com velocidade. Fernando poderia se apressar, mas queria ficar igual ao paceiro. Eduardo só estava correndo por correr.
Quando os dois avistaram uma forma escura pularam juntos sobre ela e pousaram com tudo na sua frente.
— Parado! – Edu sacou a arma.
— Nós sabemos quem você é!
Mas então, uma surpresa.
Marta sorria para eles debaixo de um guarda chuva escuro. Seus olhos eram de um Vermelho vivido.
— Você? – Fernando olhou para os lados. – Onde está o Henrique?
Mas ao invés de responder a Vampira levantou a perna e bateu no chão.
Algo desabou embaixo dos dois e Fernando só conseguiu ver a Vampira se afastando enquanto Eduardo e ele caíam dentro de um abismo.
Taffara Kauane se olhou no espelho, feliz por ter tirado as roupas escuras do funeral. Agora vestia um top branco e uma saía bege enquanto passava o Gloss no rosto. Todos os seus problemas pareciam distantes enquanto ela se arrumava e isso era uma benção – para ela.
Ela soprou um beijo para seu reflexo, tocos os cachos com leveza e depois saiu do próprio quarto, fechando a porta atrás de si.
Não conseguindo mais respirar, Vick e Camila saíram de dentro do armário batido de ferro, arfando para conseguir mais ar.
— Tem certeza que ela foi? – questionou a amiga num sussurro.
Vick e começou a olhar por todo o quarto.
— Deve estar aqui, em algum lugar.
— O que estamos procurando mesmo? – questionou Camila. – Provas de que ela matou o Diogo?
— Sim, procure qualquer coisa, um corda, um barbante – sussurrou de volta para ela. – Algo que possa sufocar alguém.
— Tipo uma sacola? – ela apontou para uma Bergdorfs no canto do quarto.
— Essa é de papel, Camis – ela tocou a escova de Taffara. – E se roubarmos algo dela para eles fazerem um teste sanguineo?
— Seria perfeito – a amiga sorria ironicamente. – Se tivéssemos alguma prova para bater o sangue dela com ela né?
Vick murchou.
— Eu não consigo achar nada nesse quarto apavorante – ela se sentou na cama macia. – Apavorante e caro.
— Que tal voltarmos até o armário antes que ela volte?
Vick deu de ombros.
— Oh – Camila Alves semicerrou os olhos. – Você não se importa se ela nos achar aqui?
— Tô pouco me fodendo para o que Taffara achar que estamos fazendo aqui... Eu quero é alguma prova. Algo que ligue os dois.
Camila Alves rodeou o quarto até parar perto da janela. Vick conseguiu escutar uma porta batendo e um carro sendo ligada.
— Para onde acha que ela está indo?
— Encontrar o cumplice.
— Cumplice?
— Você acha mesmo que ela fez tudo sozinha? – retrucou Vick. – Ela pode ser fria, mas não inteligente.
Ai.
— Amiga, eu sei que aceitei com todo o meu grande coração curioso em te ajudar aqui – ela se sentou e tocou seus ombros. – Mas eu não acho que ela matou ninguém. Esse lugar está impecável!
Vick mordeu o lábio inferior.
— Isso só me deixa com mais suspeitas.
Camila Alves suspirou e se virou para uma caixinha de joias no criado mudo. Só por brincadeira, ela tocou a tampa e ela se abriu com uma bailarina dançando uma música de Rock. A amiga deixou cair no chão com o susto.
O brinquedo estava quebrado.
— Ai, droga! – ela se abaixou e pegou a caixa que ainda fazia barulho. – Cala boca, bailarinha estúpida!
Vick perdeu o olhar no Cisne Negro dançando dentro da caixinha e então notou algo cinzento no carpete em meio as peças quebradas. Um celular.
— Camis.
— Eu não estou com inveja dela! – retrucou a outra. – Ela pode ser mimada? Talvez! Mas com certeza é bem bancada pelos pais desde a infância!
— Não é isso – Vick se abaixou ao seu lado e pegou o celular. Ela ligou a tela e uma foto de Diogo apareceu com uma tela de bloqueio. – Esse é o celular dele!
Camila Alves olhou sem acreditar.
— Meu Deus – ela arregalou os olhos. – Você sabe a senha?
Vick mordeu o lábio inferior e tentou 1, 2, 3 e 4. Logicamente, nada abriu.
— Pense como o Diogo – aconselhou à amiga. – Pense como um idiota que gosta de abusar de menininhas!
Vick encarou a pequena tela do aparelho cinza umedeceu os lábios. Se eu fosse Diogo e quisesse impedir alguém como Vick de mexer em algo meu. O que eu colocaria como senha?
Ela teve uma ideia louca e tentou. Por incrivel que fosse, ela conseguiu e Camila ao seu lado soltou gritinhos.
— Como você sabia?
— O teclado dele é diferente – Vick respondeu apontando o aparelho desbloqueado. – Se você quiser escrever até mesmo um nome, tem que usar os números. Tentei escrever Diogo usando apenas os números e... Funcionou!
— Você é um gênio! – a amiga a abraçou no mesmo instante que a porta se abriu.
Camila Poli olhou de uma para a outra com o arco branco em sua cabeça deixando seu rosto avermelhado.
— Eu pensei que ela estava paranóica – ela riu. – Mas pelo visto Taffara estava certa – ela olhou de uma para a outra. – Vocês mataram Diogo. Juntas.
Camila Alves se levantou e avançou nela para prensa-la na parede, enquanto Vick tentava apartar. Mas Taffara entrou logo em seguida e olhou o celular em sua mão.
— Me dá ele aqui, Victoria – ela ordenou enquanto as Camila’s brigavam na parede. – Me dá ele aqui ou eu juro por Deus que você vai pra cadeia por ter invadido minha casa de novo!
— Ah é? Quero ver! – Vick tentou correr para a janela, mas Taffara a alcançou e a jogou na cama.
— Me dá! – ela começou a tentar puxar o aparelho.
— Pra que? – Vick a socou no rosto. – Pra você acobertar aquele seu ex-namorado lunático?!
Taffara a acertou no rosto com a mãoe pegou o celular.
— Você não sabe de nada!
Vick cerrou os dentes.
— E você muito menos! – e a chutou na barriga.
Taffara caiu no carpete enquanto o celular voava longe dali.
Todas as garotas olhavam sérias enquanto para o aparelho ao mesmo que o que parecia ser uma gravação conseguiu ser escutada em todo o quarto.
Depois a voz grossa terminou de falar, Vick encarou Vick que gemia no chão e balançava a cabeça.
— Você – ela se levantou da cama. – Foi você quem ligou para ele? Pra ameaça-lo?
— Você não entendeu! – Camila Poli guinchou. Nós achamos isso no bolso da calça do Roberto!
— Me poupe – Camila Alves a empurrou e ela caiu com tudo no chão. – Roberto não faria isso.
Vick andou até o celular e apertou para ouvir o recado de novo. Quando olhou Taffara, essa a encarava de um jeito temeroso.
— Ela não está mentindo – ela arfava. – Foi Roberto.
Não conseguindo acreditar no que ela estava falando, Vick saiu do quarto, levando a amiga consigo. Ignorando as ameaças de Taffara.
Elas enfim tinham uma prova. Só não sabia bem o que ela significava.
Rita foi para o meio da sala e tirou de cima da lareira o que parecia ser um bastão de hóquei.
— Sério? – Leticia disse ainda mantendo distância entre elas duas. – Um bastão vai mesmo me impedir de fazer algo com você? Eu sou uma Bruxa!
— O que você quer? – Rita perguntou calmamente. Alguém havia lhe dito que nada melhor do que uma boa conversa antes de furar alguém.
— Conversar, já disse – a Bruxa andou até o sofá. – Tenho um recado para os membros do seu Pack. Eu não quero fazer mal a ninguém.
— Jura? – Rita apertou o bastão com os dedos magros. – Então por que será que você entrou na minha mente? Ou na de Érika? E nada de Rafa?
Leticia a olhou friamente.
— Eu não machuquei vocês, tecnicamente – ela respondeu com um olhar atento ao bastão. – Só precisava entrar em vocês por outro motivo. Não tem nada a ver com...
— Com o seu chefe? – Rita se distanciou em um passo preciso. –Nós sabemos que você está trabalhando pra alguém que quer o Rafa muit mal. O que você quer?
— Quebrar uma maldição – Leticia abriu os braços. – E é só isso que posso revelar no momento.
— E o que quer comigo na minha casa? – Rita prestou atenção no modo como a quina da mesa era pontuda enquanto falava. – Eu sei que não veio só transimitir algum recado.
— Isso é verdade – Leticia baixou os olhos. – O plano na verdade é que eu te distraia a tempo suficiente para ele conseguir colocar as mãos no Rafa.
Rita ficou em silêncio apenas esperando.
— Mas não vou te ferir – continuou a Bruxa. – Vou apenas aproveitar que estamos nós duas aqui e ser honesta com você. Eu não tenho intenções de machucar seus amigos.
— Você só quer quebrar a maldição – continuou Rita. – Que maldição é essa? Trazer pessoas de volta a vida? Como fez com Lucas?
— Isso não te diz respeito – Leticia ergueu o queixo. – E não sou eu quem mostra as pessoas a vocês. Elas vêm do fundo do seu subconsciente. Das coisas que vocês mais pensam.
— Foi baixaria – Rita apontou o taco. – Não sei o que esse Capuz está oferecendo a vocês, mas não vale a pena. Você ainda pode vir para o lado bom e...
— Lado bom ou lado ruim? – Leticia bufou. – Acha mesmo que isso existe? – ela andou mais. – De onde eu venho garota, é cada um por si.
Rita não estava nem um pouco interessada em ouvir sobre histórias wiccanas do leste. Ela só precisava que Leticia fizesse qualquer movimento, qualquer um.
— Não quero mesmo que ele coloque as mãos no Rafael Capoci, mas só o que posso fazer é esperar e deixar os dados rolarem.
— Está falando da vida dos meus amigos – Rita se irritou. – E NÃO DE DADOS!
Leticia retorceu o rosto e apareceu na frente dela de repente.
— Solte esse taco – ela a pegou pelo pescoço. – Você e eu sabemos que vai precisar mais do que isso para me machucar.
Rita a ignorou e arremesou o bastão com tudo. Leticia desviou na hora indo para trás e na mesma hora tropeçou na mesinha e caiu com tudo no chão.
Ela aproveitou a guarda baixa da Bruxa e se jogou em cima da Bruxa. Era contra violências, mas aquelas três batidas na cara de Leticia resolveram para que ela caísse na inconsciencia.
Estava prestes a passar pela porta quando uma mesa se projetou em seu caminho. Ela se virou e Leticia estava se levantando, a mão palida erguida e os olhos atrás dos óculos tortos a encarando.
— Você não me deu outra escolha Ritinha!
Rita estufou o peito e a encarou nos olhos.
— Qual o nome dele?
Leticia franziu a testa.
— De quem?
— Do Capuz.
Leticia abaixou a mão e a avaliou por alguns segundos. Talvez se decidindo se faria diferença ou não fazer a revelação.
Quando respondeu a pergunta dela, Rita quase teve uma síncope. Aquela pessoa? Logo aquela pessoa?
— Agora fique aqui comigo até que ele resolva as coisas – ela começou a andar enquanto ajeitava o cabelo alvoroçado. – Seus amigos logo...
A Bruxa foi silenciada com mais uma batida. Dessa vez, Rita esperou até mais de dez segundos para ver se ela respirava. Quando ela não se levantou do golpe, ela empurrou a mesa projetada, saiu para o lado de fora e sacou o celular.
— Erick! – ela disse para a caixa posta. – Eu sei quem é o Capuz. E ele está indo atrás do Rafa agora!
— Por que voltamos pra cá mesmo? – um Erick distraído e com o celular carregando no loft perguntou a Andressa e Carla enquanto eles entravam no estacionamento da escola.
— Aqui foi um dos lugares que ele provavelmente passou – desabafou a Alfa olhando para a instituição vazia. – O cheiro dele está definitivamente mais forte desde que achamos isso.
— Isso? – Andressa ergueu o REVIVAL. – Parece ser música de boa qualidade... Tem certeza que pertence a ele?
Carla assentiu.
— Cheira a morte – respondeu Erick.
Andressa deu de ombros.
— Então é alguem que estuda nessa escola – ela gemeu. – Ah, não, voltamos a estaca zero!
Carla franziu a testa.
— O que quer dizer com isso?
— Foi aqui que Rafa achou a caixa.
Os Lobos olharam para o lugar com seus novos olhos enquanto Andressa se lembrava daquele setembro quente e ameaçador. E de correr dos Atiradores e de seus aliados estranhos.
— Faz sentido – o Alfa começou a andar no chão empoeirado. – Foi aqui que tudo começou. É aqui que fica mais forte o cheiro!
Andressa ficou sem entender.
— Eu não falo licantropês!
— Mas eu sim – Carla rebateu. – Ele está dizendo que foi aqui que tudo começou. Se Rafa achou a caixa aqui só significa uma coisa.
Eles ficaram a olhando como tontos e ela apenas moveu a cabeça para frente.
— E então?
— O Capuz deixou a caixa aqui para Rafa pegar.
Andressa riu sem nenhum humor.
— Isso não é possível, é babaquice – ela riu alto. – Isso significaria que... – ela percebeu e então sua voz minguou. – Que ele planejou tudo. Que ele queria que ele abrisse a Caixa aquele dia.
— Sim – Carla parecia animada. – Foi plano do Capuz o tempo todo. Por isso ele quer o Rafa, porque ele o libertou!
A espinha de Andressa tremeu todinha.
— Meu Deus, então ele estava aqui naquele dia?
Carla fez que sim com a cabeça.
— Só pode ser o namorado de Rafa.
— Não tenha tanta pressa – Erick balançou a cabeça.
— É o que?
O moreno cruzou os braços.
— Tem outra pessoa que tem o mesmo cheiro que Roberto – ele olhou as duas. – Henrique. Ele tem o mesmo cheiro, eu consigo sentir.
— Isso é tudo tão confuso! – Andressa bufou. – Se o cheiro vem de apenas um dos irmãos, então porque não estamos indo até a casa deles agora mesmo?
Eles pensaram e olharam para frente, mas então congelaram. Andressa seguiu a encarada tensa e observou seis jovens pálidos andando na direção deles com as bocas abertas. Pareciam zumbis.
— Quem são vocês? – Carla fungou. – Vão embora!
— Subjugados – Andressa olhou para os pulsos cortados de cada um deles.
Erick a olhou confuso.
— E o que eles fazem?
— Tudo o que o chefe deles mandar – ela disse e então pensou. – Ou seja, Marta!
Uma ruiva balbuciou e se lançou contra eles. Carla rugiu e a garota foi para trás um pouco, mas não parou.
— Não os machuquem – Adressa disse enquanto sacava a adaga. – Eles não sobrenaturais. Ainda.
Erick parecia querer rir enquanto socava um gordo rolando em sua direção.
— Uma distração – ele chutou mais outro e rugiu. – Eu vou adorar devorar essas ditrações!
E então rugiu como um Alfa genuino.
O jantar começou mais cedo que o previsto no apartamento de Rael. A mesa estava posta na cozinha e ele, a mãe, a irmã Karina, Vicente e Gabriel degustavam da macarronada famosa da Sra. Coelho. Ela mesma havia adorado ambos os garotos. Tanto Vicente por suas piadas aleatórias quanto Gabriel por estar bem vestido para a ocasião.
E como estava. Apesar de a comida estar boa e tudo de bom, ele não conseguia desgrudar os olhos do rosto fino e perfeito de Gabriel. O cabelo castanho estava impecável e ele perdeu o folego ao pensar no beijo que ele havia lhe dado assim que chegou. Enquanto Vicente fingia um pigarreio para fazer com que eles parassem.
O fato da mãe não achar nada demais Vicente ficar com eles por um tempo assustou Rael. Mas ao decorrer das horas e das conversas, ele foi percebendo que o garoto tinha um carisma poderoso. Não só conseguia arrancar gargalhadas forçadas de Karina, da mãe dele e até mesmo as contidas de Gabriel como também o fez rir muito também.
Talvez fosse um talento natural dele ou talvez fosse a perfeição daquele dia tomando conta do ar e infestando todos de felicidade. Parecia Natal.
Nem parecia que Rael o conhecia a tão pouco tempo.
— Rael – a mãe chamou sua atenção e ele a encarou.
— S-sim – ele engoliu em seco.
— Com sua comida – ela ameaçou com um garfo. – Você não quer desmaiar aqui na frente desse cavalheiro, quer? – ela tocou Gabriel pelos ombros.
— Ele só quer chamar atenção – Karina falou enquanto mastigava. – Ei, Raelzinho, vai me deixar dormir no seu quarto hoje?
— Oi? – ele a encarou. – Ficou louca? Por que eu cometeria tal suicidio?
Karina revirou os olhos.
— Eu vou jogar Xbox com o Vicente – ela declarou.
— Então jogue no seu quarto – ele sorriu para Gabriel. – Vamos assistir a um filme hoje à noite.
— Um filme? – Vicente pousou o garfo no prato. – Qual?
— Quer mais, Vince? – ofereceu a mãe de Rael com doçura.
— Claro – riu ele e se virou para Rael de novo. – Qual vai ser?
— Nós vamos ver – ele murmurou a contragosto. E nós quer dizer eu e o Gabriel apenas, Mané!
— Vai usar sua conta no Netflix? – a irmã mordeu o lábio inferior. – Olha, o que você for achar lá saiba que não fui eu!
— Gente para – ele olhou a mãe. – Diga a esses dois que eles não vão entrar no meu quarto hoje à noite.
— Vocês não vão entrar no quarto de Rael hoje à noite – repetiu a mãe dando o prato a Vicente.
— Mas mãe! – Karina bateu o pé. – Eu queria mesmo usar meu quarto, mas o Vicente não quer ir!
Rael olhou o garoto de cabelo platinado.
— O que? Por quê?
— Eu quero ficar no seu quarto – Vicente declarou com os olhos no prato. – Sou seu convidado e não da Karina.
Rael balançou a cabeça e olhou para Gabriel que, apesar de olhar Vicente do mesmo jeito, sorriu e deu de ombros.
— Não – ele olhou Vicente. – Sim, você é meu hóspede, mas hoje à noite o Gabriel fica.
— Rael – o cujo tocou sua mão na mesa. – Está tudo bem, não precisa.
— Por quê? – Rael guinchou. – Você não ia dormir aqui?
— É que eu tenho outros planos – Gabriel coçou a barba que não tinha. – E tenho que ir para casa do meu pai amanhã cedo. Então...
— Perfeito – Vicente bebeu o refrigerante. – Você não tem mais desculpas para me ignorar.
Rael bufou, mas olhou para Gabriel com cara de dó.
— E se formos ao shopping depois daqui?
Gabriel pensou um pouco.
— Por mim tudo bem.
— Quer o meu cartão de crédito filho? – ofereceu a mãe jogando sal na comida.
— O de débito, mãe – Rael sorriu docemente para Gabriel. – Nós vamos comer fora.
— Haja estomago – Vicente murmurou e Karina riu.
Qual era a de Vicente? Ele estava sendo legal até agora. Por que de repente estava fazendo o indesejável número um na vida de Rael do nada?
— Olha – ele pousou o copo na mesa enquanto o encarava de volta. – Não quero interromper o encontro de vocês nem nada. Podem ficar com o quarto só para vocês.
— Então...
— Eu só estava testando o garanhão aqui – Vicente olhou para Gabriel. – Ver se ele é mesmo o cara.
Gabriel riu fracamente e tomou o refrigerante.
— Eu sou – ele ergueu uma sobrancelha preta. – Eu serei.
Vicente assentiu com um olhar acido e Rael balançou a cabeça. Quem era ele para julgar quem era o cara perfeito para ele?
— E você é – Rael acrescentou e pegou a taça com suco. – Um brinde a nós.
— Um brinde! – gritaram todos, mas Rael encarava apenas Gabriel.
Porque só brindaria a ele a partir de diante.
— E então?
Marco mordeu o Cookie teste e esperou enquanto o gosto ia se ajustando a boca. Roger esperava com os dedos cruzados e a expressão séria. Como alguém poderia ficar sério com Cookies?
— Bom – Marco engoliu o biscoito. – Ficou bom.
— Bom? – o sorriso de Roger sumiu. – Você jura? Só bom?
Marco deu de ombros.
— Meio metálico.
Roger o encarou com horror.
— Você é o pior novato da escola do mundo! – ele atirou a luva de assar nele. – Deveria bajular a mim e aos meus Cookies!
— Não vou bajular nada de ninguém – retrucou o outro. – O que eu posso fazer se você não fez aula de Gastronomia?
Roger bufou.
— Aulas de Gastronomia são para manés problemáticos homossexuais – ele bufou e lançou um olhar vazio para janela. – Tenho pésssimo histórico com o mundo da Gastronomia.
Antes que Marco pudesse escutar a ilustre história de Roger, Rodolfo entrou afobado na cozinha, equilibrando o computador de jeito perigoso no peito.
— VOCÊS NÃO TEM IDEIA DO QUE EU DESCOBRI!
— EI! – Roger apontou com o dedo. – ESSE COMPUTADOR CUSTOU MAIS DE MIL DOLÁRES!
— Xiu – ele pousou ele na pia ao lado dos Cookies. – Fiz uma pesquisa do endereço de IP e fiz algumas descobertas.
— Descobriu quem me mandou a mensagem?
— Não – Rodolfo piscou.
Marco cruzou os braços.
— Você disse que ia tentar achar!
— Não, não disse!
— Mas você se comprometeu!
— Olha, estou mais comprometido com o mundo da tecnologia – ele dedilhou o teclado do mouse. – Vocês tem que ver o que eu achei!
Revoltado, Marco se recusou a seguir Roger enquanto ele se juntava ao amigo assustador para ver o que ele tinha a mostrar. Mastigava teimosamente os biscoitos, preocupado com Gabriella e com quem havia mandado a mensagem. Esse alguém não estava brincando... Queria ferir ele.
— Nossa! – Roger gritou de repente. – O que esse lunático está fazendo?!
Rodolfo sorriu balançando a cabeça.
— Não sei, mas já achei irado – comentou. – Vou fazer um HQ inspirado nele!
Marco revirou os olhos.
— O que diabos estão olhando? – questionou.
— Você tem que ver com seus próprios olhos – Roger riu. – Esse cara é doido!
— Que cara?
— Eu consegui acessar todos os documentos do computador da escola com a mensagem que você me mandou – Rodolfo explicou. – Ao que tudo indica, o endereço de IP do wifi da pessoa que te mandou a mensagem estava na escola quando ele mandou a mensagem. E isso de alguma forma bizarra me deu acessos a tudo que tem guardado na escola!
Marco deu de ombros.
— E daí? Que graça tem saber o que vão dar hoje ou amanhã na cantina?
— Você não entendeu cara – Roger parecia extasiado. – Isso quer dizer que ele também tem acesso as cameras!
Marco ainda não havia entendido, mas aquilo ficou mais interessante.
— E eu achei isso – Rodolfo virou o computador e inciou o vídeo.
Parecia uma camera do estacionamento da escola deles. Parecia uma tarde ensolarada, daquelas que fazem você soar só de andar uma quadra. Nos primeiros segundos nada acontecia e era um saco. Mas então um homem vestido de preto e de... Capuz entrava no foco dela e deixava uma caixa pousada ali no chão.
Capuz. Capuz.
Marco se jogou mais para frente e o Capuz se virou para deixar o local onde deixou a caixa. Quando ele viu o rosto descobriu que não se tratava de um homem. E sim de um garoto.
E ele era o Capuz.
Quando Eduardo abriu os olhos, tudo o que ele viu foram os escombros em cima dele e piscou para tirar a terra deles. Moveu a mão para cima e toda a terra se moveu.
Ele se sentou, balançou o cabelo escuro e olhou para um Fernando desmaiado ali perto. Ao menos ele parecia desmaiado.
Olhou para cima e o céu azul estava a metros em cima deles. Brilhando com o milharal radiante.
Disposto a não continuar mais um segundo soterrado ali, ele ergueu as mãos novamente e a terra toda estremeceu e os atirou para cima.
Chegou a superficie e carregou Fernando consigo. O amigo loiro abriu os olhos com dor na expressão.
— O que aconteceu? – questionou.
— Nos pegaram em uma armadilha – ele contou e procurou algum sinal de Marta no milharal. – Vamos sair daqui.
Na rua, as pessoas encararam os dois e Edu o estabilizou para que ele ficasse em pé.
— Não era o Henrique – Fernando contestou.
Eduardo balançou a cabeça.
— Não parecia ser.
Fernando parecia desapontado.
— Nós nunca vamos saber quem ele é?
Na mesma hora uma garota gritou o nome deles enquanto cruzava a rua. Fernando semicerrou os olhos e Eduardo balançou a sujeira da roupa, sabendo que não tinha saido tudo.
— Rita – Fernando tossiu terra. – O que aconteceu? Por que está assim?
Ela queria responder, mas então os avaliou.
— Eu que pergunto.
— Fomos pegos numa armadilha pela Vampira – Eduardo suspirou. – Acontece que era a Marta.
— Marta?
— Sim – Fernando assentiu.
— É ela estava certa – Eduardo concordou.
— Ela quem?
— Andressa.
Fernando pareceu não querer entender e se virou para Rita.
— O que você ia dizer?
— Leticia foi até a minha casa.
— Ela te atacou? – Edu começou a procurar a arma. – Se eu pego ela nos eliminamos mais uma.
— Não! – Rita o parou. – Não atacou, na verdade ela queria conversar. E meio que... Acabou falando demais.
Fenrnado a encarou.
— Como assim?
— Ela acabou me dizendo quem é o Capuz – Rita suspirou. – Eu sei quem ele é.
Roberto tinha decidido cuidar do almoço enquanto Rafa esperava. Ele geralmente seria contra deixar o namorado sozinho depois do que pensou ter visto, mas se acalmou. Ele encarou o celular, esperando qualquer sinal. Será que deveria ligar para Rita? Ela era humana. Ela atenderia sem demoras.
Agora ele esperava no quarto dele, olhando os livros e a mobilia bem cuidada, observando cada ponto do lugar onde dormiria e se culpando um pouco. Será que ele deveria ter deixado Roberto ir até o fim mesmo depois do que tinha visto? Mesmo com aquela coisa escura o encarando?
Cansado, Rafa se levantou e começou a mexer na mesinha do computador, tocando a caneta dos Muppets que achava fofa, uma foto de Roberto com a familia no ano novo mais recente e o notebook em aberto ali. Ele pensou em dedilhar ali, mas deixou para lá quando notou algo interessante em uma parte de estante que ficava oculta pela cadeira.
Ele afastou a giratória longe e se aproximou para encarar a corda. Com horror ele a pegou e observou do nó até onde parecia ter sido arrancada por algo afiado.
Pensou em Andressa jogando sua Agulha e reclamando que ele já estava morto.
Aquela corda era a que havia usado para pendurar o corpo de Diogo. Para matá-lo.
— O que pensa que está fazendo?
Rafa bateu a cabeça na mesinha do computador e a coçou para afastar a dor enquanto se levantava. Ele se virou e queria se desculpar, mas levou um susto quando viu quem estava ali na sua frente.
— Neemias?
O irmão de Roberto usava jeans, tênis de mola e um Capuz azul escuro que cobria a maior parte da frente do seu corpo. Sua expressão de arrogância era a mesma que ele sempre usava com Rafa.
— O que você está fazendo aqui?
Neemias não respondeu e não desfocou o olhar dele. Rafa se lembrou de que estava com a corda nas mãos e acenou.
— Isso não é nada – ele riu. – É só um fetiche meu e do seu irmão. Você provavelmente não vai querer escutar nada disso.
Neemias olhou para baixo e depois olhou para o rosto de Rafa com uma serenidade estranha.
— Largue a corda, Capoci.
Rafa franziu a testa.
— Largar? – ele o encarou. – Por quê?
— Até parece que a resposta dessa pergunta você já não sabe – Neemias sorriu friamente. – Caubói.
Todo o mundo girou enquanto ele entendia onde ele queria chegar.
— Você – ele sussurrou e largou a corda no chão. – Você é o Capuz.
Neemias sorriu e andou de um lado para o outro.
— É, Rafa – seus olhos assumiram um tom Dourado. – Eu sou o Capuz.
Ele sentiu uma força bruta o empurrar contra a parede com um estrondo e Rafa foi perdendo a consciência enquanto via Olhos Dourados andando até ele.
Andressa socou uma loira que estava tentando pega-la pelo cabelo se virou para socar um ruivo que tentara um ataque surpresa. Os subjugados se dividiram para atacar eles e, mesmo depois de terem caído mais vezes que Jeniffer Lawrence no palco, eles se erguiam e atacavam. E eles o derrubavam de novo.
— Não entendo porque não poemos matá-los – Erick pegou o gordo pelo pescoço e o chutou na barriga diversas vezes antes que esse desmaiasse. – Já sinto como se estivessem mortos.
— Você ouviu a Dessa – Carla rugia e arranhava uma garota com tranças. – Eles são humanos... Só precisam se lembrar disso – e então arranhou um garoto nas costas.
Andressa desconfiava que ela estivesse gostando daquilo demais.
— Eles não param – ela reclamou metendo a cotovelada na boca de um adversário chato e careca. – Como Marta pode ter dado tanto folego a eles?
— O sangue chama a atenção.
Ela olhou para o lado e um jato de àgua veio em sua direção. Ela pulou, mas os Subjugados foram afogados no chão. Andressa encarou Eduardo com indiferença.
— Vocês estão bem? – perguntou Fernando que chutou na canela um que tentou pega-lo por trás. Espertinho. – Quem são esses?
— Aviõezinhos da Marta — Erick reclamou e rugiu tão alto que o gordo insistente desmaiou. – Ela os mandou para nos distrair.
Rita o encarou.
— Leticia também tentou me distrair.
O Lobo a encarou.
— Como assim tentou?
Rita deu de ombros.
— Dei um jeito nela.
— Uau.
— Não temos tempo pra isso – Eduardo olhou Andressa enquanto falava. – Nós dopamos com Marta em um milharal. Você estava certa... Ela é uma Vampira.
Dessa virou a cara para ele.
— Por que estão com essas caras? – ela questionou olhando Rita. – E como assim você derrotou a Bruxa sozinha?
— Ela pode ser mágica, mas não é muito da esperta – Rita respondeu, mas então a olhou seriamente. – Ela acabou me revelando a identidade do Capuz.
Erick apagou os olhos Vermelhos e Carla descruzou os braços.
— Neemias é o Capuz – Fernando declarou.
— Quem é esse? – Erick piscou duas vezes.
— O irmão mais novo de Henrique e Roberto – informou Eduardo. – Ele se manteve na sombra dos dois para que não desconfiassemos dele.
— Que safado filho da mãe! – Dessa cuspiu no chão. – E eu achando que o Robertin estava querendo o mal do Rafa!
— Do que está falando? – Fernando questionou.
— Achamos algumas pistas – esclareceu Carla. – Nós suspeitamos que fosse um dos três, mas não sabiamos ao certo qual deles.
— E onde está esse filho da mãe possuído? – questionou Erick estalando os dedos. – Quero cravar minhas garras no pescoço dele por ter roubado aqueles Legos!
— Ele deve estar na casa do Roberto – Rita arriscou. – Talvez devessemos ir até lá.
— Não, espera – Fernando encarava o celular. – Eu acho que não estamos tão pertos dele assim.
— O que foi, Fê?
— Tem um monte de ligações perdidas do Rafa – o loiro olhou a todos. – Eu acho que Neemias os seguiu.
— Vick, diga alguma coisa, por favor, implorava Camila Alves na rua.
— Tipo o que? – questionou.
— Tipo qualquer coisa – arriscou a amiga parecendo preocupada. – Eu sei que você está chocada. Mas eu também estou.
Vick pegou o celular enquanto elas andavam e olhou a foto de um Diogo sorridente. Taffara estava com o celular dele não só pelos motivos que ela achava. Havia uma gravação ali que incriminava alguém e esse alguém podia ser alguém que ela queria defender.
Alguém que ela talvez ainda gostasse.
— Não estou chocada – ela declarou. – Eu suspeitei que fosse Taffara o tempo todo.
— Foi é? – Camila Alves a olhou com descrença. – Amiga, por que ela ia querer guardar uma gravação de uma ameaça que supostamente ela fez? Não foi ela!
— FOI SIM! – Vick explodiu. – ESTOU CANSADA DE NÃO SABER DE NADA E ESTOU CANSADA DE TEORIAS!
Camila a olhou surpresa e quieta.
— Eu cansei – Vick prosseguiu olhando o celular. – Não vou mais tatear às cegas porque agora tenho essa coisa. Com isso Taffara vai ser obrigada a me falar tudo que vem escondendo de mim! Ela ou Henrique, tanto faz! Um deles vai pagar pelo que fizeram e eu vou encerrar isso tudo para sempre.
Por mais arriscado que fosse Camila Alves ainda parecia querer falar.
— Encerrar o caso da morte do Diogo ou encerrar o caso do desaparecimento de Lucas?
A borda da ferida não só doeu, ardeu. Mas Vick ergueu o queixo sentindo as lagrimas no rosto começarem. E isso não a interrompeu.
— Os dois.
Camila Alves assentiu e disse que precisava chegar cedo em casa. Vick aproveitou a caminhada solitária com o celular em mãos, sem cobrir nada. Ela não tinha de quem se esconder.
— Vick.
Ela olhou para o lado ao virar à calçada e encontrou olhos escuros a fitando com confusão.
— Está tudo bem? – Henrique perguntou com delicadeza.
— Sim – ela não ousou disfarçar que estava chorando. – Está tudo ótimo.
Henrique assentiu e olhou para baixo.
— O que é isso?
Vick seguiu seu olhar e jogou o celular dentro da bolsa.
— Uma coisa.
Ele a fitou com preocupação.
— Você está parecendo com alguém que conheço.
— Uhum – Vick sabia de quem ele estava falando. – Talvez eu e ela sejamos mesmo parecidas nessas circunstâncias.
Os ombros de Henrique abaixaram.
— Eu nunca te disse isso – ele começou. – E sei que vai soar meio desnecessário dizer isso agora. Mas eu sei o que você fez para o Rafa enquanto eu não estava aqui.
Vick ficou surpresa e seu corpo relaxou um pouco.
— Eu sei da mentira e do lance todo com o Diogo – ele coçou a nuca. – Mas não te julgo. Você estava defendendo um dos seus.
— Então existem lados agora? – ela riu sem nenhuma emoção. – Você está de que lado? Do da Taffara?
— Não Vick – ele olhou no fundo de seus olhos. – Não estou. Mas quero que saiba que te acho forte por ter suportado o Diogo esse tempo todo. Não sei se criou algo por ele nesse tempo todo em que ficaram juntos, mas estou sendo honesto. Eu não gostava dele e o que você fez eu não conseguiria fazer.
Ela ficou sem palavras.
— Porque sou um cara – ele prosseguiu rindo e ela o acompanhou. Uau. – Não quero o seu mau, Vick.
Ela pensou no celular dentro da bolsa e pensou na raiva que tinha segurado em todo o caminho até ali. De repente, não parecia mais ter sentido sentir aquilo.
— Eu também não quero o seu Henrique.
O moreno sorriu e ela se remexeu nervosa.
— Eu tenho que ir...
— Vick, espera – ele lambeu os lábios. – Tem algo mais que quero te dizer.
Ela esperou.
— Diogo gostava de você. Não estou falando como pessoa, mas ele gostava. Estava pedindo a Taffara para ajuda-lo a surpreender você... Assim como Rafa estava me ajudando a surpreender Taffara, no passado.
Rafa abriu os olhos para o mesmo quarto em que estava, mas algo parecia diferente. Como uma presença pesada que o deixasse flutuando enquanto seus olhos se ajustavam as paredes do quarto em que ele dividiu com Roberto.
Ele olhou à frente e olhou sem entender até ver uma corda de cor pálida pendurada ao ventilador no teto.
Rafa arfou se lembrando de repente de tudo quando a porta do quarto se abriu.
— Mas já acordou? – Neemias entrou desfilando enquanto fechava ela atrás de si. – Achei que fosse ficar horas fora de ar.
— Você – ele se levantou na parede e encarou o mais novo. – Você é o Capuz!
— Já não passamos por isso?
— Você está possuindo Neemias! – ele acusou. – Por isso ele sempre me odiou!
O garoto fez que não com o dedo indicador e Rafa sentiu a espinha arrepiar. Ele havia feito o mesmo na noite da festa.
— Está enganado, eu não dei nada a meu hospedeiro – ele seguiu os olhos Dourados paranormais pelo próprio corpo. – A hostilidade que ele tem com você era algo já premeditado. Como um bônus, Rafael.
— Como fez isso? – ele gesticulou para o hospedeiro do vilão. – Por que logo com ele?
— Foi sua culpa, na verdade – Neemias deu de ombros. – Você abriu aquela caixa. E na verdade, eu te levei até ela, então...
— Como? – era só o que ele conseguia perguntar.
Entediado, Neemias moveu a mão direita e a cadeira giratória veio até ele. Ele se sentou e encarou Rafa de um jeito meticuloso.
— Naquela tarde em que você estava super-revoltado com a vida por não te escutarem naquele anfiteatro, eu já estava lá. Eu caí no estacionamento dentro daquela caixa e precisava de um escape. Então eu encantei alguém novo, alguém fosse e não fosse dali.
Rafa piscou.
— Roberto disse que Neemias estava lá nesse dia – ele lembrou. – Você o chamou?
— Eu o encantei — corrigiu a entidade. – Mas não perca seu tempo. Ele já estava destinado a ser ruim já que me aceitou tão bem dentro dele – ele sorriu. – Continuando. Eu precisava de um bode expiatório, então pedi para que Neemias... Bem, eu, me pegasse e me deixasse em algum lugar aonde um bobão chegasse e abrisse a caixa.
— Ela estava ali perfeitamente parada – Rafa balançou a cabeça. – Eu não achei que fosse nada demais.
— Isso! – ele bateu palmas. – E foi perfeito! O trágico acidente perfeito!
Rafa cerrou os dentes.
— E depois que eu abri?
— Eu me soltei. E entrei em Neemias. Vesti a roupa que era o corpo dele tão bem que em instantes já tinha tudo planejado para pegar você. Eu sabia muito bem onde os Atiradores estavam e não foi nada difícil trazer Carolina para o meu lado depois disso. O resto que aconteceu com você – Neemias riu delicadamente. – Foi tudo orquestrado por mim.
— Eu não consigo acreditar.
— Pode acreditar Capoci – ele se levantou e atirou a cadeira longe. – Porque logo eu vou acabar com você e aí você não terá mais nada para ter fé!
— Por quê? – Rafa estava assustado, mas não conseguia entender. – Por que me morto? O que eu fiz pra você se eu era só mais um cara normal antes de abrir a caixa?
Os olhos Dourados do vilão moveram à íris, mas de repente uma batida soou do outro lado da porta. Roberto.
Neemias se ajeitou e seus olhos escureceram.
— Pode entrar – ele cantarolou.
O namorado de Rafa entrou com uma cara confusa ao ver o irmão mais novo ali.
— Mias? – ele olhou para Rafa. – Ele estava aqui esse tempo todo?
Rafa não abriu a boca e o garoto na sua frente o encarou rapidamente. Ele fez que sim rapidamente.
— Sim, há muito tempo.
— Que estranho – Roberto andou até os dois. – Por que você está aqui? Veio estragar nosso final de semana?!
— Não é nada disso, Rob – ele revirou os olhos de um jeito irritado. Como sempre tinha encenado. – Eu só vim te avisar que o pai e a mamãe não querem vocês dois sozinhos aqui!
— O que? Isso não é possível – o loiro bufou e ergueu as sobrancelhas. – Eu falei com eles agora pouco. Você é que não deveria estar aqui.
Neemias olhou Rafa de lado como se esperasse algo.
Mas Rafa não moveu um musculo.
— E isso é estranho – Roberto prosseguiu olhando a corda no ventilador. – Eu não saí primeiro que você de casa?
Neemias fingiu ficar perdido, mas então sua testa se vincou e ele olhou Rafa com raiva.
— Pelo visto você se recusa a cooperar – ele brilhou os olhos novamente. – Não tenho outra escolha, Rafael.
Ele foi empurrado novamente pela mesma força de antes, mas dessa vez foi grudado contra a parede.
— Rafa! – Roberto gritou e encarou o irmão mais novo. – O que diabos está fazendo com ele?
— AH, Calado Roberto! – Neemias parecia fora de controle. – Você é um porre e estou tão cansado de você!
Aproveitando que ele estava olhando para o lado, Rafa forçou a mente e quebrou a paralisia. Neemias girou seus olhos Dourados, mas Rafa foi mais rápido ao impulsionar seu escudo com força. O garoto voou para o outro lado do quarto, rachando a parede e caindo em cima da mesinha do computador.
Roberto levou a mão à boca, pasmo.
— Rob! – Rafa o pegou pelo braço. – Não temos muito tempo. Precisamos ir embora, agora!
O loiro assentiu tremulo e cheio de pergunta nos olhos e abriu a porta correndo. Rafa foi logo atrás dele, o olho focado nas costas do namorado loiro enquanto o alcançava.
Mas então algo o atingiu e toda a casa vista da sacada e tudo os cantos dos moveis pareceram entrar em foco enquanto Rafa caía novamente. Ele estava caindo da onde?
— Rafa!
Foi o último grito que ele ouviu.
E sumiu de novo.
— O jantar estava ótimo, dona Coelho.
— Disponha – sorriu a mãe de Rael para Vicente. – Seja bem-vindo, viu filho?
Vicente assentiu e levou seu prato até a pia, decidindo lavar ele em seguida. Era tão bom ter um lar. Tão bom ter um lugar e não dormir numa praça ou em um banco abandonado em alguma propriedade privada. E seria bom quando ele tomasse banho.
Ele se retirou da cozinha e foi para a sala, encarando a porta da sacada aberta. Gabriel parecia admirar a vista da rua. Ele procurou Karina com os olhos, mas Rael não. O estressadinho havia decido tomar um banho antes de arrastar seu “parceiro” para seu quarto.
Vicente achou que estava abusando um pouco da boa vontade do colega que o acolheu, mas como ele podia evitar? Ele gostava do jeito que ele vincava as costas quando ficava bravo com ele. E não era só isso. Ele tinha um coração bom e qualidades que Vicente devia ter visto antes de decidir zombar com ele na escola.
Decidido a se tornar mais nobre, ele andou até a sacada. Foi só quando deu um passo de fininho que percebeu que Gabriel não estava só admirando a vista.
Parecia falar com alguém pelo celular.
— Eu sinto muito, mas é que a casa do meu pai hoje está cheia – ele parecia implorar para alguém do outro lado da linha. – Sim, nós acabamos de comer... O que? – ele riu. – Não, não, você não sabe do que está falando. Somos só amigos!
Amigos? De quem ele estava falando? E com quem?
— Não, Deb, eu juro – ele fez uma voz meio doce/enjoativa dessa vez. – Não. Eu amo você e você vai ser sempre minha namorada. Quero ficar com você para sempre.
Vicente foi para trás devagar, decidido a não fazer barulho e voltou para a cozinha correndo.
Ele odiava estar certo daquela vez.
Ao abrir os olhos de novo naquele dia, Rafa arfou ao se sentar. Sentiu um par de mãos quentes o envolvendo e se afastou abruptamente.
— Ei, relaxa – Fernando o encarava atentamente. – Você está bem?
Rafa apenas piscou e percebeu que estava no chão da sala da casa dos avós de Roberto, olhando para as outras pessoas reunidas ali. Um Eduardo com braços cruzados. Uma Andressa um pouco preocupada com a mão no peito. E Carla, Erick e Rita avaliando a sala.
— Está tudo bem? – Fernando repetiu a pergunta.
— Eu não sei – seus olhos começaram a procurar algo. – Eu acho que não.
— Por quê? – Andressa balançou a cabeça. – Escute não temos tempo para você ter suas memórias de volta! Nós descobrimos quem é o Capuz!
Rafa arregalou os olhos e ficou em pé na mesma hora. Agora se lembrava de o que estava procurando.
— Onde ele está?
— Quem? – Eduardo questionou.
— Neemias! – ele gritou. – Ele estava aqui!
— Percebemos – Rita olhou a bagunça na sala. – Ele cortou a energia e fugiu daqui.
— Não deve estar muito longe – Erick fungou. – Temos que ir atrás dele agora.
— Esperem.
Todos o encararam. Rafa olhou para as luzes apagadas e percebeu que apenas o final de tarde lançava sombras pelo lugar. Trazendo uma espécie de brilho cinzento.
— O que foi Rafa? – Fernando questionou.
— Onde está ele?
— Neemias? Nós já falamos, ele...
— Roberto! – Rafa levou a mão ao peito. – Onde ele foi?!
Todos eles o encararam com confusão.
— Nós não sabemos – Rita o olhou com gravidade. – Achamos que você saberia.
Rafa pulou e foi correndo até o segundo andar.
-Roberto? – ele procurou no corredor e começou a adentrar os quartos. – Rob? Rob, você está aqui?
Mas nem nos quartos dos pais e nem no quarto destroçado do último confronto Rafa o encontrou. Roberto não estava ali. O Pack todo entrou pela porta.
— Rafa o que aconteceu? – Andressa questionou.
— NÃO, NÃO, NÃO – Rafa desabou e começou a chorar no chão de madeira. – ELE LEVOU ROBERTO! NEEMIAS LEVOU ROBERTO COM ELE!
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