Roberto não estava nada bem ao acordar. Suas costas pareciam enrijecidas por uma força esmagadora e seus olhos doeram ao se abrirem e encarar o chão empoeirado em que ele se encontrava. Sua cabeça doía e sua mente parecia dispersa ao pensar na única pessoa que não estava ali com ele: Rafa.

Eles haviam programado todo um dia perfeito juntos e ele mal chegara à metade quando algo aconteceu. Aquilo aconteceu. Ele não podia acreditar no que seus olhos viram, não mesmo. Deveria haver alguma explicação além dos olhos Dourados que viu e toda a força bruta vinda do irmão mais novo e do namorado.

Mas se era mesmo tudo mentira, o que o estava prensando contra o chão?

Ele ofegou e o peso de repente foi suprimido enquanto ele se sentava para olhar em volta. Encarou sem acreditar as barras de ferro ao tocá-las.

— Onde eu estou? – sussurrou para si mesmo.

Alguém riu e ele se assustou ao ver uma garota de cabelo afro encarando ele de perto. Ela riu com a pele de azeite e os olhos Vermelhos enormes.

— Marta?! – ele arfou. – O que aconteceu com você?

A morena fechou a boca e Roberto notou que um ar estranho, visível e branco a rondava enquanto ela andava. Lembrava bastante a uma nevoa. Onde eles poderiam estar?

— Que fofo você se preocupando comigo – ela riu e tocou as barras com as unhas grandes. – Mas é para você que faço a pergunta – ela mudou o tom.

— Do que está falando? – ele olhou para fora da janela. – Onde estamos?

— Você está dentro de uma jaula – ela apontou olhando atrás do ombro dele. – Eu, linda e poderosa estou solta aqui fora e te mantendo meu refém.

Roberto se virou sem acreditar para o cubiculo horrível com jaulas em todo o seu circulo. Estava no que parecia uma versão maior do que uma jaula de pássarinho. Tudo visto ao lado de fora das barras era envolto em névoa com um asfalto àrido e sujo.

— Me tire daqui! – ele sacudiu as barras com as duas mãos.

— Não faça barulho – reclamou Marta. – Eu posso arrumar qualquer motivo para machucar você.

— Por que você faria isso?

Ela sorriu e seus olhos Vermelhos brilharam mais ainda, seguido por seus lábios que se abriram e reveleram caninos enormes do tamanho de um tigre-dente-de-sabre. Roberto odiava tigres.

— O que é você?!

— Sou a nova vida – Marta riu repicadamente. – E sua morte.

— Marta, pare.

Roberto olhou por entre as barras de lado e viu duas garotas com cabelos cacheados se aproximando. Uma delas tinha o cabelo preto e usava jaqueta preta e botas, a calça verde lembrando uma militar. A de cabelo castanho usava óculos e roupas comuns, mas seu andar na névoa era mais elegante de certa forma.

— Ele não foi trago aqui para você – disse a de óculos.

— Ah, ela sabe disso – respondeu a militar olhando Marta com nojo. – É a raça dela que não permite que ela seja tão sã.

— Raça? – Roberto balbuciou a olhar de uma para a outra. – Não podem estar falando sério que ela é... – encarou a amiga de Rafa. – Ela não pode ser o que eu estou pensando!

— Ela pode e ela é – Marta sibilou.

Roberto se afastou das grades.

— Corra o quanto quiser Rato – ela recostou as mãos pálidas nas barras. – Quando tudo isso acabar vamos ser só eu e você mesmo.

— Basta.

A voz que havia dito aquilo não precisou gritar para fazer Roberto sentir medo. Apesar do teor que sentiu vindo dela não foi isso que o deixou com medo. O que deixou Roberto com medo foi o reconhecimento daquela voz.

Ele olhou para as três garotas e só Marta e a de óculos se retrairam ao notar a presença dele. O que só podia siginificar que ele era algum tipo de “chefe” entre elas.

— Que bom que voltou – a militar disse se referindo a ele. – Ficamos sabendo que Rafa e seu Pack quase o pegaram.

Rafa? Pack? Hein?

— Isso não passa de pura ilusão – disse o Chefe. – Os amigos de Rafa mal chegaram a me tocar.

Roberto queria mesmo estar dentro de um sonho ao se virar para o dono da voz. Porque quando o olhou sabia que o reconheceria seu cabelo castanho, sua altura mediana e seu moletom escuro. Reconhecia tudo daquele garoto exceto pelos Olhos Dourados.

Neemias.

— Isso não é possível – ele encarou o irmão mais novo e sentiu todo o seu pesadelo em que ele o jogava no chão logo depois de atirar Rafa da sacada, voltar. – Não pode ser.

Neemias riu e ergueu o queixo como se só conseguisse ver Roberto de cima.

— É possível e pode ser mano – os olhos dele brilharam mais e mais. – E você não sabe ainda nem da melhor parte.

Os membros do Pack desceram do carro de Eduardo um a um, sem pressa nenhuma, na rua da casa de Rafa. Ele achava que já era mal encarado pelos vizinhos quando estava sozinho, até ver como eles reagiram à chegada dele com os outros. Andressa jogava o cabelo por sobre o ombro, fingindo não estar afetada. Edu, logo atrás dela a encarava de um jeito metódico. Será que andaram brigando de novo? Fernando chamava a atenção da maioria dos olhares, mas encarava as costas de Rafa quando seus olhos se encontraram. Carla e Erick usavam roupas escuras e um pouco folgadas, mas não pareciam se importar por parecerem dois lutadores de MMA. Rita era a mais comum com seu vestido florido e olhos verdes inocentes para a péssima vizinhança.

Eles se juntaram na frente da casa dele e conversaram sobre o que fazer. Os Lobos prometeram procurar e ficar de olho de lá dentro do loft perdido na floresta. Quando Fernando e Andressa insistiram em ficar com Rafa, Eduardo rapidamente mudou seus planos, alegando que deveria treinar. O mais estranho foi que nenhum dos outros membros do Pack, além de Fernando, pareciam curiosos com os planos do moreno.

Havia algo acontecendo.

Foi só quando ele começou a subir nas escadas com os dois caçadores em seu flanco que viu alguém cruzar o jardim cheio de hortênsias plantado por sua mãe.

Henrique.

— Rafa? – ele o olhou e depois encarou Fernando e Andressa. – O que está acontecendo? Quer dizer, tem algo acontecendo certo?

Rafa se virou para ele e ouviu alguém bufar. Olhou por sobre o ombro e viu Fernando com os olhos revirados.

— Sim, Henrique – ele suspirou para ele. – Tem algo muito ruim acontecendo.

— E o que é? – ele questionou tremulo. – Eu não consigo entrar em contato com meus irmãos, então imaginei que...

Rafa assentiu.

— Entra – ele sugeriu segurando a chave nas mãos. – Nós vamos te explicar.

Depois de uma mentirinha para a Sra. Capoci e um encontrão com um Rogério elétrico e curioso por tanta gente na casa, Rafa conseguiu fazer com que os membros de seu Pack e Henrique entrassem em seu quarto com ele.

— Uau – Andressa assobiou. – Você tem toda uma decoração maravilhosa aqui! Digna de você!

Rafa revirou os olhos, mas Fernando assentiu.

— Tem mesmo, mas você precisa ver quando ele joga as roupas todas no chão porque não sabe o que vestir.

Dessa parecia querer comentar isso, porém franziu o cenho.

— Quando você esteve aqui?

O loiro abriu a boca, mas Rafa o dispensou com um gesto.

— Por favor, gente – ele olhou Henrique. – Eu vou te contar o que aconteceu...

Depois que Rafa contou tudo ao futuro cunhado este por sua vez escutou tudo com calma no começo. Mas depois que Rafa começou a dissertar sobre o dia anterior, seus olhos se arregalaram.

— Então aquele cara que matou o Diogo – sua voz parecia engasgada. – Esse tempo era o Neemias? O meu irmão?

— Sim – Andressa assentiu. – E ele está com Roberto, seu outro irmão.

— Mas por que ele faria isso?! – Henriqeu parecia um misto de confusão e choque. – Por que ele faria isso com o Rob?!

— Porque ele está possuído, lembra do que eu te disse? – Rafa explicou. – Existe um espirito dentro dele agora que está dando a ele todos os poderes que ele tem.

— Então agora não sabe mais quem o Rob é? – o moreno perguntou hesitante, como se não quisesse ter feito a pergunta.

— Sabe – Andressa respondeu com uma olhadela para Rafa. – E esse é o problema. Porque ele estava fazendo tudo por conta própria.

— Conta própria? Está me dizendo que...

— Ele nunca gostou de mim – Rafa disse. – Deixou isso bem claro todas as vezes que se encontrava comigo e dizia que me odiava o espiríto dentro dele não deu isso a ele. O ódio vem dele mesmo.

— Isso não é possível. Ele mal sabia quem você era.

— Ele sabia – Fernando se recostou na cabeceira da cama enquanto falava, tocando o apanhador de sonhos na cama de Rafa. – Apesar de possúido ele passou mais duas pessoas para o seu lado. Não sei como ele transformou uma delas em Vampira, mas foi ele sim.

— E isso tem alguma cura? – Henrique perguntou. – Existe algum jeito de tirar esse espirito dele?

Os três sobrenaturais se entreolharam nervosamente. Só haviam pensado no Capuz como inimigo natural nos últimos dias. Agora que sabiam sua identidade e quem ele era não faziam ideia como derrotá-lo. Muito menos exorcizá-lo.

— No momento só focamos em achá-lo – Andressa engoliu em seco.

— E levá-lo para nossa Chefa – Fernando se referiu a Anna e Rafa se lembrou dela. Fazia quanto tempo mesmo que não via ela e Layane?

— Espera – Henrique notou a evasiva a sua pergunta. – Vocês não vão matá-lo né? Ele pode ser esse Capuz que vocês, mas continua meu irmão mais novo!

— Seu irmão mais novo matou uma pessoa — Andressa disse duramente. – Eu sei que está preocupado com ele, mas no momento tente se preocupar com você mesmo. Se ele feriu Rafa e levou Roberto o que acha que ele é capaz de fazer?

Rafa olhou para Henrique e observou seus ombros caírem. Também encarou os dois caçadores e eles pareciam com pena do cunhado dele. Será que não havia mesmo uma maneira de tirar o espiríto de Neemias?

— Nós vamos achar um jeito de trazer todos para casa – disse a Henrique, apertando seu braço. – Eu prometo.

O moreno semicerrou os olhos para ele.

— Eu quero ajudar.

— O quê?

— Meus dois irmãos estão envolvidos nisso – ele olhou de Andressa para Fernando. – Não podem me impedir de fazer parte disso.

Fernando bufou e murmurou algo sobre aquele quarto ser pequeno enquanto encarava a mão de Rafa no braço de Henrique. Andressa avaliava o moreno com interesse. Rafa se virou para ele e sorriu corajosamente.

— Não podemos mesmo.

Os olhos de Érika se abriram para uma luz de sol intensa vinda de um ponto alto quadriculado no teto. Seu queixo doeu quando ela levantou a cabeça, mas ela precisava enxergar o teto abobado cor de areia para saber onde estava.

Mas não foi preciso mais avaliar o lugar com seus olhos quando um emaranhado cabelo castanho cumprido tapou sua visão de um jeito preciso.

— Bom dia luz do dia – disse a voz rouca de mulher saindo do seu campo de visão. – Se espreguiçou bem hoje?

Ela piscou várias vezes para sua visão voltar ao normal e ficou surpresa quando finalmente entendeu onde estava. E quem estava falando.

— Anna – ela disse olhando todo o escritório em volta da Chefa de La Iglesia.

Anna usava uma camiseta bege com mangas curtas e um par de calças jeans escuras e coladas na pele. Os óculos na frente do rosto deixavam seus olhos parecendo asiáticos, mas seu porte frio e jovem fazia com que ela parecesse mais velha do que aparentava ser. Ela sorria para Érika e isso de longe significava uma coisa boa.

— O que eu estou fazendo aqui no seu escritório? – ela perguntou, mas então se lembrou. – Achei que Lizz, Felipe e Giulia estavam me levando no carro.

— E estavam – Anna respondeu de um jeito irônico e então ergueu uma das mãos para ela. – Até um deles te dar isso.

Érika olhou e viu uma espécie de bala amarela reluzir na palma branca de Anna. Aquilo era Aconito?

— Eu achei que seria punida – ela comentou olhando Anna e sua postura divertida. – E não drogada.

— Ah, você está fazendo os dois.

Érika se confundiu com o que ela disse, mas quando tentou pegar a bala na mão da Chefa sentiu uma impotência ao notar que estava sentada em uma cadeira dura. Olhou em volta de si e viu uma estranha corda preta em volta de seus braços e pernas. Ela tentou lutar, mas elas nem se rasgaram.

— Nem adiantar tentar – disse uma voz no canto do escritório. – Não é uma corda comum e sim fios de cabelo de uma virgem. Pode usar toda sua força licantropa e ainda sim não vai sair.

— Layane – ela arfou ao encarar a assistente Ruiva de Anna com temor. – Eu... Eu sinto muito por tudo!

— Está tudo bem – Layane se levantou da cadeira com um livro verde nas mãos e o jaleco balançando enquanto ela andava. – Eu estou bem, Érika, não precisa se preocupar comigo.

A Beta franziu o cenho para a assistente.

— Você não deveria estar toda machucada e com queimaduras? Sem ofensas.

Anna pigarreou e a loira a encarou com confusão também.

— Eu não sei se você está sabendo de muita coisa, Érika, mas eu tenho habilidades. E uma delas serve muito bem em invejar a medicina.

A Beta foi um pouco para trás com a declaração.

— Você a curou?

— Tem sorte de eu ter conseguido – respondeu ela ajustando os óculos. – O que aconteceu com Layane não seria reversível nem com toda a magia do mundo.

A palavra magia fez com que Érika se lembrasse de Letícia e isso lhe deu raiva ao pensar no quanto ela não tinha se esforçado para derruba-lá na escola do C apoci.

— Não gosto de Bruxas.

Anna ergueu as sobrancelhas castanhas.

— Então somos duas – ela riu. – Eu não sou uma Feiticeira também, mas sou da familia.

Érika continuou a olha-lá com confusão. Quando olhou para Layane, esta a encarava com pena. Por que ela estaria com pena? Será que a punição dela seria tão ruim assim? Ela seria punida mesmo, ou o fato de Layane estar bem aliviou sua pena?

Anna se virou e começou a rodear sua mesa, tocando um livro grande de um jeito lerdo. Olhava ele com tanto foco e intimidade que Érika se considerou intrusa só de olhar também.

— Com licença – ela pigarreou para Anna. – Sem querer parecer grosseira, mas eu não deveria estar sendo punida?

Anna riu ao levantar os olhos para ela.

— O que você estava esperando? – ela deu de ombros. – Facas? Socos na barriga e torturas? – ela fechou o livro enorme tirou os óculos. — Não sou eu quem vai te punir Érika. É pra isso que eu tenho juízes.

A menção aquela úlitma palavra trouxe a Érika uma lembrança, mas que ele mal teve tempo de processar quando as portas grandes do escritório de Anna se abriram com força.

Lizz entrou na sala com pressa, as lapelas de sua jaqueta se movendo. E então ela abaixou e Érika só pode observar um objeto metalizado atingir um dos livros guardados em uma das estantes.

Ela seguiu a mira e viu Anna encarar Lizz de um jeito nada doce. Layane saiu do seu lado e foi correndo atrás do livro, o chamando por algum nome. Já não era bizarro o livro ter um nome e você colocar outro nele?

— Eu já disse que você tem que ser anunciada antes de entrar!

— Mas eu fui anunciada – Lizz retrucou de volta se levantando. – Você me pediu para trazer eles!

Anna a encarou por um tempo, mas então deu de ombros.

— Depois eu me dou alguma branca – e então começou a bater palmas como uma criança. – Eles já estão ai?! Eles estão preparados?!

— Sim e eu não sei! – Lizz bufou e foi andando até se sentar em uma cadeira. Irritada, notou Érika ali. – Perdeu alguma coisa?

A loba se limitou a engolir em seco e encarou Anna.

— Esses juízes – ela disse com calma. – Eles vão me fazer algum mal?

— Provavelmente – Anna disse sem olhar para ela. De repente estalou os dedos para Layane. – Que tal um café?

— Para compensar Louis Leonard? – questionou Layane se agarrando ao livro rasgado. – Talvez.

— Fechado.

E então as duas saíram dali, deixando as portas abertas. Érika olhou incrédula enquanto Lizz se levantava.

— Você está fodida. Sabe disso, né?

— Mas ela está bem! – contestou a loira. – Ela vai tomar café enquanto eu vou ser...

— Guarde suas desculpas para alguém que se importa.

— Espera Lizz! – Érika gritou e a outra loira se virou para ela. – Vai me deixar sozinha com eles?!

Lizz bufou.

— Como se fosse a primeira vez.

Sem entender Érika a observou sair dali e encarou com nervosismo as portas abertas. Não demorou muito para três figuras de perfil forte entrar na sala e ela entender bem do que Lizz estava falando.

— Olha só quem está aqui.

Belle, Julia e Tomi entraram e encararam Érika de um jeito divertido, como se tudo aquilo não passasse de um jogo.

— Eu não entendo – ela murmurou sem acreditar. – Porque vocês tem que me punir?

— Que pergunta mais boba – Julia sorriu e jogou o cabelo preto por sobre o ombro magro. – Nós não vamos machucar ninguém.

Marco se sentou na cadeira giratória atrás da mesa de Gabriella e começou a girar 380 graus. Era tão divertido ver tudo borrado, mas quando a Detetive parou seu movimento rotatório para bater em sua cara, ele gemeu.

— Ai Gabi! – ele se levantou da cadeira. – Precisava bater tão forte?

— Você não está em um playground, está no meu trabalho, Marco Antônio!

Ele fungou e então a encarou de um jeito divertido.

— Se continuar a gritar assim, eles vão achar que você está falando sozinha.

Nervosa, Gabriella se levantou da cadeira e olhou pela fresta das cortinas de sua sala. Os dois marcaram de se encontrar meia hora atrás e Marco combinou com ela de buscá-lo nos fundos. O único jeito de ele entrar sem aparentar suspeitos era sendo algemado.

Ele provavelmente ganhou alguns olhares reprovadores de outras pessoas ali, mas não se importou muito. Até que foi divertido. Apesar de seus pulsos estarem marcados pelas algemas.

— Eu falo que estou em uma ligação importante – ela estalou a lingua e voltou a se sentar atrás da mesa. – E você pode ficar caladinho ai onde você está.

Marco sorriu e andou até ela. Sem graça, Gabriella apenas ficou calada enquanto ele se abaixava para dar um beijo nela. Ela correspondeu o beijo e se levantou da cadeira. Extasiado com o gosto da boca dela, ele a empurrou de leve até a mesa e enlaçou uma de suas pernas até a cintura.

Ela podia estar usando uma calça escura social, mas continuava linda para ele. Os óculos estavam em cima da cabeça para não atrapalhar o avanço do mais novo.

— Uau – ela se afastou um pouco arfante. – Isso foi bom.

— Eu também gostei – ele sussurrou de volta. – Se é isso que chama de conversar.

— Ah, eu tentei – ela reclamou baixinho em sua orelha. – Mas você tinha que fingir aquele lance todo de fetiche e me provocar né? Só você mesmo.

— Só eu – ele a beijou de novo. – Só eu e mais ninguém.

Os dois voltaram a se beijar sem bater os dentes e ficaram colados nos braços um do outro no que pareceram eras. O que mais deixou Marco feliz foi que ao invés de afastá-lo novamente, Gabriella apenas deitou sua cabeça em seu ombro.

— O que nós vamos fazer? – ela riu. – Eu nunca vou me cansar de te beijar, eu acho.

— Nós podemos matar seu trabalho e ir até seu apartamento – ele sugeriu. – Tenho certeza de que nenhum telefone vai ficar tocando lá – disse se referindo a cacofonia do lado de fora da sala dela.

— Não existe matar o trabalho, Marco, e o colegial acabou para mim – ela deu um tapinha em sua nuca. – E eles me ligariam mais vezes lá do que aqui!

Ele gemeu e juntou sua testa com a dela.

— Eu não aguento mais. Por quanto tempo mais vou ter que esperar?

— Você não precisa esperar eu já disse – ela indicou. — Pode ir pra casa e depois nos encontramos no meu apartamento se quiser.

— Se eu quiser? – ele riu com escárnio. – Existe mais algum outro lugar que podemos nos pegar?

Gabriella não respondeu.

— Me desculpa, eu só quero ir embora daqui.

Ela assentiu e relaxou os ombros.

— Eu também. Mas não precisa ficar.

— Eu fico – ele insistiu tocando suas pernas. – É até interessante te ver trabalhando.

O telefone na sala de Gabriella tocou na mesma hora e ela revirou os olhos para ele.

— Me observe.

Ela atendeu a ligação e Marco se recostou na cadeira enquanto observava ela olhar o nada enquanto falava.

— Quem? – ela guinchou e olhou por entre as cortinas. E então gemeu. – Jura? Que nem dá ultima vez? Eu já te disse Carlos, se quer começar a acreditar nessas pessoas, é escolha sua!

— O que foi? – Marco sussurrou, mas Gabriella levou o dedo indicar aos lábios. – Desculpa.

— Eu entendo – ela revirou os olhos e suspirou. – Pode mandar entrar.

Marco arregalou os olhos.

— Entrar? Quem vai entrar?

— Relaxa, é só uma garota chata – ela então mordeu o lábio inferior, se lembrando dele ali. – Pode ficar no armário até eu mandá-la embora?

Marco ficou um pouco ofendido, mas tentou ver aquilo como uma grande brincadeira. Meio afetado ainda ele murmurou um “sim” e se jogou no cubiculo pequeno cheio de revistas e pastas relatórios que era o armário de Gabi.

Graças às frestas do armário ele conseguia ver Gabriella ajeitando o cabelo preto e se virando para a porta que batia.

— Pode entrar! – ela ordenou enquanto fingia estar ocupada com algo em sua mesa.

A porta se abriu e um policial gesticulou para que uma garota entrasse. Marco reconheceu Vick pelo seu andar forte e seus passos decididos na sala. O que a amiga de Rafa estava fazendo ali?

— Você por aqui – Gabriella se sentou na cadeira e a avaliou. – Ouvi dizer que tem algo a me mostrar.

Apesar de parecer nervosa, Vick ergueu o queixo para a Detetive.

— Sim, eu tenho – ela começou a futucar a própria bolsa enlaçada nos ombros. – E eu juro que tentei não tocar nela de jeito nenhum – ela pareceu querer se desculpar.

— Espera um pouco – Gabriella a impediu em uma voz grave e ajeitou os óculos. – Se isso for o que eu estou pensando, é melhor você colocar a bolsa toda na mesa garota.

Vick assentiu e jogou o tecido pesado de cor de cobre na mesa. Gabriella tirou da gaveta da mesinha um par de luvas e as colocou minunciosamente enquanto Marco observava Vick morder o lábio inferior. O que ela mostaria para Gabriella?

Gabi futucou e tirou da bolsa um esmalte.

— Giovanna Antonelli? – ela bufou. – É sério?

— Taina Mulller – corrgiu Vick exaltada. – E não é essa prova!

Gabriella jogou o objeto dentro da bolsa e começou a remexer de novo. Dessa vez tirou um aparelho cinza pequeno e de aparencia pesada. Um celular.

— A quem deveria pertencer isso? – a pergunta de Gabriella ecoava os pensamentos de Marco.

Vick franziu os lábios e se postrou na mesa.

— Diogo Barros.

Gabriella a encarou.

— O que significa isso Vick Melo?

— Significa o que isso significa – respondeu a garota mais nova. – Vai me ajudar a ter respostas ou não?

Camila Alves e Vick pararam na porta da delegacia com nervosismo.

— Vai na fé amiga – aconselhou Camis agarrando seu ombro. – Vai que é tua!

— Do que está falando? – Vick olhou a amiga. – Você não ia entrar comigo?!

Camila hesitou.

— Eu ia migs, mas acho que o que você está fazendo é...

— Ah, por favor, Camila – Vick cruzou os braços. – Vai me dizer que você não quer ver Taffara atrás das grades também?

— Seria uma coisa legal – a outra assentiu. – Mas, cara, eu me contento ao ver ela com medo da gente!

Vick assentiu e seguiu seu olhar. O carro escuro parado no estacionamento da delegacia só podia ser de Camila Poli. Bom, se elas queriam observar, que observassem bem o que ela estava prestes a fazer.

— Eu quero que ela pague pelo que fez.

— Mas ela fez? Você tem certeza? – Camila a encarou fixamente, tirando uma mecha do cabelo castanho do rosto. – Tem certeza que foi ela quem matou Diogo?

— Não – Vick olhou duramente para as portas. – Mas se ela vai acobertar quem quer tenha feito, vai se ferrar com isso.

Ela estava falando sério, por isso se surpreendeu com a cara que de reprovação que a amiga fez.

— Qual o problema?

— Você está mesmo fazendo tudo isso pelo cara que te atormentou quando era vivo?

Aquilo era verdade. Diogo tinha sido um escroto todos esses anos por ama-la de um jeito torto e doentio, o que não podia ser dito como amor. E sim obsessão e controle. Ela era como uma propriedade para ele.

Mas por pior que fosse sua memória merecia jus diante de seu assassino. E até mesmo assassina.

— Só vamos acabar logo com isso.

Sem que Camila pudesse protestar mais, ela a pegou pelo braço e atravessou as portas da delegacia com força. Os policiais viraram suas cabeças e um cadete gordo na recepção encarou as duas com confusão.

— Posso ajudá-las? – questionou seu parceiro bombado na recepção.

— Sim – Vick foi com tudo na direção do balcão enquanto Camila optou por esperar nos bancos. – Eu quero falar com Gabriella.

— Sobre o que gostaria de conversar com a Senhorita Dias? – corrigiu ele cordialmente.

— É sobre algo que ela possa querer saber.

O policial pareceu esperar que ela dissesse mais.

— Não posso falar mais do que isso – ela olhou para os lados da delegacia. – É algo do interesse dela.

O policial revirou os olhos com desdém, mas pegou o telefone e começou a falar. Vick olhou nervosamente para Camila, na expectativa de que ela estivesse apoiando. Mas a amiga já não estava mais nos bancos de espera.

— Ela está na sala dela, no final do corredor – o cadete pegou um crachá de visitante e o colou na frente da camisa de Vick. – Pode ir, ela está esperando.

Vick se forçou a encarar o policial de um jeito destemido e passou pelas mesas cheias de policiais mal encarados e durões. Um deles a acompanhou até a sala com uma plaquinha G. Dias colada na porta.

— Pode entrar! – ordenou a voz da policial vinda de dentro.

O policia abriu num rompante e a fechou atrás dela. Gabriella parecia ligeiramente ocupada com sua papelada enquanto arrumava a mesa meio bagunçada. Engraçado, ela não fazia ideia que ela era tão desleixada.

— Você por aqui – Gabriella se sentou na cadeira e a avaliou. – Ouvi dizer que tem algo a me mostrar.

Mesmo se sentindo intimidada, Vick ergueu o queixo para fingir que a Detetive não a intimidava.

— Sim, eu tenho – ela começou a futucar a própria bolsa enlaçada nos ombros. – E eu juro que tentei não tocar nela de jeito nenhum – ela não planejou dizer aquilo em um tom de desculpa.

— Espera um pouco – Gabriella a impediu em uma voz grave e ajeitou os óculos que a deixavam mais velha. – Se isso for o que eu estou pensando, é melhor você colocar a bolsa toda na mesa garota.

Vick assentiu e jogou o tecido pesado de cor de cobre na mesa. Gabriella tirou da gaveta da mesinha um par de luvas e as colocou minunciosamente enquanto Vick mordia o lábio inferior com expectativa. Gabriella precisava mesmo fazer tanto suspense?

Gabi futucou e tirou da bolsa seu esmalte.

— Giovanna Antonelli? – ela bufou. – É sério?

— Taina Mulller – corrgiu Vick ofendida. – E não é essa prova!

Gabriella jogou o objeto dentro da bolsa e começou a remexer de novo. Dessa vez tirou um aparelho cinza pequeno e de aparencia pesada. O celular de Diogo.

— A quem deveria pertencer isso? – a pergunta de Gabriella foi feita em um tom grosso, mas Vick pode ver em sua expressão que ela estava meio confusa.

Vick franziu os lábios e se postrou na mesa.

— Diogo Barros.

Gabriella a encarou.

— O que significa isso Vick Melo?

— Significa o que isso significa – ela respondeu. – Vai me ajudar a ter respostas ou não?

Gabriella balançou a cabeça.

— Do que está falando, Vick Melo?

— Eu achei esse celular na casa da Taffara – ela foi direto ao ponto. – E pode mexer nele se quiser, ele pertence a Diogo.

— E o que quer que eu faça? – Gabriella pousou o aparelho na mesa de madeira. – Que eu a prenda por estar com o celular dele?

— Não é o suficiente?

— Por que seria? – rebateu a policial. – Vick, eu agradeço que tenha trazido isso até aqui. É uma prova que estavámos mesmo precisando no momento. Mas não espere que eu prenda Taffara só por isso. Ela era o par de Diogo na festa, é um motivo ocasional ela tê-lo nas mãos.

— Mas e se eu te disser que ela está acobertando alguém? Um namorado ou algo do tipo?

Gabriella a encarou confusa.

— Então não acha que foi ela?

— Também, mas... – ela suspirou e ajeitou os ombros. – Gabriella, me escute, eu sei que posso estar parecendo maluca e que esse celular não é prova o suficiente para eu provar nada.

A policial assentiu um sinal para ela prosseguir.

— Mas e se eu te disser para pressionarmos ela? E se dermos um pequeno susto em Taffara para fazer que ela confesse quem o matou? Seria errado?

— Seria – Gabriella assentiu dando uma breve olhada no relógio acima da parede. – Mas se ela confessar e você estiver certa isso pode ser desconsiderado.

Vick se alegrou.

— Mas se ela não confessar estarmos prendendo uma inocente...

— Ela não é inocente – ela insistiu. – Taffara Kauane é uma das garotas mais vadias que já conheci na minha vida. Ela sempre controla as pessoas e consegue sair impune pelo que faz. Sabe o que é ter que aturar alguém assim?

Pelo olhar demorado de Gabriella para ela, Vick deduziu que sim.

— Tudo bem, nós vamos pegá-la – a Detetive suspirou, mas então ergueu as mãos. – Só um interrogatório.

— Adoro – Vick bateu palmas. – Muito obrigada por me ajudar, Gabriella.

— Eu não fiz por você – a policial se levantou e olhou para as pastas enquanto encarava o armário atrás de si nervosamente. – Fiz pelo caso de Diogo.

Vick assentiu, mas desconfiava no fundo do fundo que Gabriellla já devia ter sido uma adolescente como ela e enfrentado os mesmos problemas do colegial.

— Agora, onde está a Vadia psicopata?

Vick sorriu e começou a sair da sala.

— Vem comigo.

Rael acordou em um bom humor que só. Seu quarto com tintura em pastel de repente pareceu dourado só de ele posar os olhos nele ao acordar. Não estranhou ao ver que estava naquele pique todo, tinha dormido ao lado de um lindo Gabriel com samba canção xadrez vermelha e cabelo perfeitamente bem lavado depois de um banho. Ele tomou banho em sua casa, que tudoooo. Mas às 5:00 da manhã, veio a decepção ao tocar o cobertor ao seu lado. Mas se ele queria mesmo ir, Rael não podia fazer nada mais do que aceitar sua decisão e levá-lo até a porta.

Na despedida silenciosa, Gabriel o beijou brevemente até escutar o barulho de um elevador vizinho e correr.

Agora, apenas usando samba canção, Rael se levantou da cama e tateou com os pés até encontrar seus chinelos felpudos da Marc Jacobs encomendados pela mãe de NY. Depois de afagar o cabelo cacheado e encarar seu reflexo previsível no espelho saiu do quarto para tomar café. Mal chegou na ilha da cozinha quando já começou a bocejar ao pegar o bule de café.

Olhou pela vista da sacada enquanto o cheiro da cafeína subia em suas narinas. Era uma vista boa aquela. Será que Gabriel estava olhando para ela de onde estivesse?

— É linda a vista, não?

Ele se virou para o lado e a xicara quase se espatifou no piso do apartamento. Vicente coçava os olhos incomodados e espreguiça os braços nus. Seu dorso estava exposto também e o abdômen meio sarado entrou em foco.

— A do sol — ele prosseguiu encarando a sacada.

— Claro — Rael não ousou se virar para o brilho do sol. — É mesmo uma bela vista.

Vicente riu e penteou o cabelo platinado com os dedos enquanto procurava um lugar na mesa redonda.

— Pode me servir? — ele questionou apontando a xícara com logotipo da Disney de Karina. — Por favor? Rael bufou.

— Só porque você conhece as palavras magicas.

Vicente riu e depois de um gole servido do café lançou a ele um sorriso malicioso.

— Sua mãe é uma Deusa! — comentou. — Acha que ela gostou mesmo de mim? Rael cruzou os braços.

— Pode parar de flertar com a minha mãe também?

— E o que eu posso fazer? – ele fitou o café dentro da xícara. – Eu sou muito irresistível.

Rael revirou os olhos.

— Só fique longe da minha família.

— Eu fico, mas como fazer isso morando no mesmo apartamento que elas? – Vicente apertou os olhos. – Deixe-me pensar.

Rael não disse nada e o ignorou tocava uma cesta de pãezinhos na mesa. Vicente o observou em todo o processo de passar manteiga no pão como se aquilo fosse algum Master Chef.

— Você está puto comigo – Vicente refletiu. – É por que eu te enchi o saco com seu namorado ontem?

— Ele não é meu namorado – Rael largou a faca com frustração na mesa. – Pelo menos não ainda.

Vicente assentiu.

— Você tem certeza que esse cara é boa pinta?

Rael franziu a testa.

— Como assim? Do que está falando?

— Nada – ele pousou a xícara na mesa. – Nada mesmo.

Os dois se olharam na mesa até o relógio cuco contar um minuto inteiro. Com calma, Rael afastou a faca.

— O que você ia me dizer?

Vicente suspirou.

— Não diga que eu não te avisei.

Vicente despejou uma história de que quando Rael estava no banho, Gabriel tinha ido até a soleira falar no celular com alguém. Uma garota. E a tratava com carinho e a chamava de amor.

— Isso não é verdade – Rael riu. – Ele terminou com a namorada dele há alguns dias.

— Tem certeza? Porque me pareceu que ele estava bem intimo da pessoa.

— Você se confundiu.

Vicente fez uma expressão de desdém, mas Rael o ignorou e se levantou da mesa.

— Não vai tomar café?

— Eu perdi a fome.

— Só por que eu disse que seu namorado não terminou com a namorada dele?! – Vicente fez um “tsc” e se levantou também. – Rael, eu não estou zoando. Ele estava mesmo conversando com uma garota chamada Déb. Eu presumi que fosse Débora.

Ele encarou o amigo de um jeito temeroso. Vicente raramente era do tipo que mentia sobre algo, ainda mais naquele tom de voz. Não sabia muito dele, mas não teria como ele inventar aquilo.

— Mas ele me disse que terminou com ela – ao se ouvir dizer ele pensou se sua voz não estava soando como um mongol.

— Então é melhor você esclarecer isso – Vicente pegou o telefone fixo e entregou a ele.

— Eu devo ligar pra ele?

— Você quer saber o que está acontecendo ou não?

Vicente estava certo.

Rael pegou o telefone da mão e digitou o numero de celular de Gabriel. Depois de seis toques, uma mulher avisou que se ele quisesse deixar recado, deveria esperar até depois do bipe.

E na segunda vez a mesma coisa.

Na terceira também.

Na quarta, ele já tinha desistido.

Gabriel não queria atender. Não queria conversar.

Taffara e Camila Poli esperavam do lado de fora no estacionamento. O carro da aliada estava abafado por dentro, mas ela não tinha outra escolha a não ser permanecer ali. Se Vick as achasse ali, isso poderia significar o fim da espionagem delas.

— Vamos só ficar aqui paradas? – perguntou Camila depois de um tempo encarando as portas da delegacia feitas de vidro.

— Não estamos paradas – Taffara gesticulou de uma para a outra. – Nós estamos fazendo tocaia e isso é fazer algo, certo?

— Não tenho quase certeza, Taff, mas acho que tocaia é algo para pessoas da CIA.

— Então pode começar a treinar – ela retrucou. – Nós precisamos saber o que ela veio fazer aqui no momento.

— Está bem claro o que ela veio fazer aqui. Ela tá com o celular do Diogo e veio até aqui te denunciar. Isso não é obvio?!

Surpreendendo a amiga, Taffara riu.

— Qual a graça?

— Vick Melo não faria isso – ela se controlou para não rir mais. – Ela é muito santinha pra querer fazer alguma acusão tão séria. E eu não temo, sabe, não fiz nada mesmo.

— Não mesmo – Camila assentiu com um olhar perdido para o painel. – Roberto é.

— Ou talvez Henrique – Taffara arriscou e mordeu os lábios. – Ou os dois. Vai saber. Deve ser coisa de irmãos.

— Coisa de irmãos matarem alguém? – Camila balançou a cabeça. – Isso não é nem falta de um hobby. De verdade, quem perderia tempo matando o Diogo?

Taffara estava prestes a responder quando um flash brilhante surgiu no painel. Ela olhou para cima e viu Camila Alves saindo da delegacia e entrando em seu carro.

— Ela está indo embora? – questionou Camila Poli olhando também.

— Não – Taffara a observou apenas cobrir os olhos e recostar a cabeça na poltrona. – Acho que ela vai esperar pela Vick.

Camila Poli a encarou e começou a tirar o cinto de segurança. Taffara sorriu para a aliada.

— Ainda bem que você me entende.

Juntas as duas saíram do carro e desfilaram no asfalto. A escolha de salto deveria ser algo ruim para uma tarde tão quente, mas Taffara era tão profissional naquilo que não ousou se desequilibrar nem mesmo quando Camila Alves as percebeu chegando, ignorou com um revirar de olhos.

Perceptiva, Camila Poli bateu na janela do carro com os dedos firmes.

— Sabemos que consegue nos ouvir – anunciou Taffara. – Não adianta nos ignorar.

Por mais enojada que parecia estar, Camila Alves abaixou a janela do carro.

— Não está comigo – ela já foi falando.

Camila Poli encarou Taffara.

— Eu te disse...

Taffara ergueu a mão para silencia-la.

— Onde está o celular? – perguntou a Camila Alves.

Camila Alves se remexeu no assento e tirou do bolso um Nokia de capa branca e rosa.

— Aqui.

Taffara semicerrou os olhos.

— Você sabe do que estou falando. O celular do Diogo.

— Ah, esse – Camila Alves fingiu se espreguiçar dentro do carro. – Não faço a minima ideia.

— Para de mentir! – Camila Poli guinchou. – Você sabe muito bem que a Vick levou ele lá pra dentro! – ela apontou para a delegacia.

— O que eu sei é que você é uma falsa o tempo todo – retrucou a outra secamente. — Se vocês já sabem disso, o que estão fazendo perdendo tempo aqui?

Taffara se aproximou da janela e Camila Alves a encarou atentamente.

— O que ela vai fazer com o celular?

— Não faz ideia? – Camila riu. – Porque eu faço.

— Você precisa impedi-la. Ela não sabe no que está se metendo. Ele não estava comigo, estava com o Roberto! Pode ser ele o assassino!

Camila Alves a encarou com desdém.

— Ah, então agora você quer nos dar respostas? Tarde demais. Vick não vai te ouvir. Ela vai arrancar tudo o que você não está falando para ela.

Taffara engoliu em seco.

— Você tem que entrar lá e convence-la do contrário! Diga que não fui eu!

O olhar de resposta de Camila Alves foi seco.

— Eu já disse.

Na mesma hora, as portas da delegacia se abriram e Vick saiu com um rompante. Ela encarou Taffara de um jeito decisivo e... E sorria.

Atrás dela, Gabriella passou e desceu as escadas. Com confusão, Taffara piscou para ela sem acreditar.

— Não – ela sentiu seu instinto dizer para ela correr. – Isso não é...

— Cale-se, Taffara Kauane – Gabriella se aproximou dela e tirou um par de algemas. – Você está presa pelo assassinato de Diogo Barros. Recomendo que venha comigo.

Ela quase não sentiu quando a Detetive a pegou pelos pulsos e pediu para que ela se virasse. Depois de fechar as algemas, ela começou a empurrá-la na direção da delegacia.

Camila Poli a encarava com uma cara de choro.

— Você vai sair dessa amiga – falou, mas sua voz era rouca e ela parecia incerta.

— Ou não – Camila Alves disse de dentro do carro.

E ao passar por Vick ela entendeu porque ela sorria. Um ponto para ela. Ia conseguir suas respostas.

Depois que a mãe de Rafa saiu para o trabalho e o irmão dele, Roger, disse que tinha um compromisso com o tal de Rodolfo, ele conduziu Andressa, Fernando e Henrique para ficarem confortáveis na sala de estar.

Os membros do seu Pack pareciam admirados com os móveis simples e despejaram suas armas na mesinha de centro. Andressa praticamente lambia as facas e pistolas, enquanto Fernando encarava com tédio a decoração batida de ferro.

Henrique por outro lado parecia irriquieto, um pouco como ele mesmo, ao andar de um lado para o outro. Ele podia sentir toda a confusão e a frsutração do cunhado em saber que não poderia fazer nada.

Rafa podia fazer algo. Ele até mesmo tinha conseguido jogar Neemias contra a parede e fugir brevemente. Quem sabe não havia uma chance de eles ganharem aquela? De eles salvarem a todos, inclusive Neemias?

Então se havia tantas chances...

— Por que estamos aqui parados?

A pergunta surpreendeu todos e eles o encararam de súbito.

— O que você recomenda que façamos? – Andressa questionou olhando Fernando de lado. – Não podemos fazer muito se os Lobos não estão aqui.

— Os Lobos e Edu – acrescentou Fernando. – Precisamos estar todos juntos para passar por isso, Rafa. Neemias não é só um. Ele tem uma Vampira e uma Bruxa do lado dele. E uma Atiradora.

— Uma que já derrotamos antes! – exclamou Rafa. – Ela nem tem tantas habilidades.

— Não foi o que me pareceu – retrucou Fernando, se referindo a tarde das volta às aulas deles.

— Só espere os Lobos chegarem, Rafa – pediu Andressa num tom mais leve. – Eles têm algo com o cheiro deles, não vai ser dificil rastrearmos onde Roberto está.

— Então vamos – Henrique disse parando de andar. – Onde estão esses dois Lobos que vocês tanto falam? Estão uivando? Nem é noite de lua cheia.

— Olha essa boca humano – Fernando sibilou. – Eles são mais úteis que você.

— Bem eu duvido. Porque se dependesse de mim, já estariamos atacando o lugar onde eles estão e salvando meus irmãos.

— Tem razão. Se dependesse – Andressa sorriu. – O que você sabe sobre ataques, de qualquer forma? Você tem alguma estratégia? Sabe como derrotar uma Bruxa? Porque eu com certeza sei.

Henrique mirou seus olhos na mesinha cheia de armas e deu um passo.

— Epa – Fernando entrou em seu caminho. – Você ao menos sabe atirar?

— Eu aprendo! – ele guinchou e olhou Rafa. – Você pode vir comigo.

Ele sentiu vontade de dizer as mesmas coisas, mas quando encarou o rosto de seus outros dois parceiros, vacilou.

— Henrique, não é tão simples.

— É sim, o jeito de vocês que é complicado!

— Você quer morrer? – perguntou Rafa sem dó.

O moreno o encarou, mas não respondeu.

— Porque é só o que você e eu vamos conseguir se formos sozinhos. Não vai adiantar nada tentar salvar o Roberto se não tomarmos as devidas precauções – ele olhou para o seu Pack. – Confie neles.

Henrique respirou fundo e então se sentou na poltrona.

— Eu só queria que tudo voltasse ao normal.

Rafa também queria isso. Sempre quis todo esse tempo, mas não era fácil. Uma vez que você abria os olhos para aquele mundo cheio de perigos e pessoas tentando te matar, não tinha volta.

— Me dêem licença – Rafa se retirou da sala, sentindo o olhar de seu Pack em cima dele.

Mas não se importou. Precisava fazer algo.

***

Já na lavanderia, Rafa encarava indeciso a porta que levava para os fundos. Seus lábios estavam franzidos no espelho, apertados em uma linha rigida e fina.

Olhou por sobre o ombro, se perguntando quanto tempo os outros notariam sua demora e começariam a procurar. A cena em sua mente lembrou a si mesmo na casa dos Avós de Roberto, gritando com impaciência e pânico o nome do namorado.

Ele sumiria da mesma forma que ele.

Sem pensar duas vezes, Rafa abriu a porta da lavanderia e foi para o gramado dos fundos, onde o começo de um gazebo estava sendo feito. Sua mãe era uma psicopata quando o assunto pendia para flores e plantas, então um ramo de orquideas estava todo enlaçado na madeira de um modo que ficaria artistico – quando ficasse terminado.

Enquanto andava sem olhar para trás, pensou em Henrique e na preocupação com os irmãos. Se o caso fosse com ele e Rogério estivesse nas mãos de alguém perigoso, ele tinha certeza que faria do mesmo jeito.

Então pela impotência de Henrique e pela vida de Roberto ele acharia seu namorado e salvaria a todos, mesmo que custasse sua vida derrotar as três aliadas de Neemias primeiro.

Ele morreria. Mas seria por uma boa causa.

Quando Rafa pisou para fora da extremidade de sua propriedade, um aperto foi sentido em seu braço e ele foi puxado com tudo para trás, seu rosto afundando no chão em todo o caminho.

Chocado e machucado, ele xingou e olhou para cima.

Andressa cruzava os braços e segurava a girava em círculos a corrente de metal usada para pegá-lo.

— Mãos para o alto, Caubói, você não vai para lugar nenhum!

Erick parou em frente à cafeteria vermelha do Dropcoff com e encontrou seu próprio olhar confuso nos espelhos da cafeteria. Olhou para suas vestes que eram uma camisa verde, jeans verdes cor de vomito e botas de amarrar. Depois que chegaram, ele e Carla chegaram ao loft, a Alfa havia separado aquela pilha de roupas para ele e pedido para ele encontra-lá em vinte minutos no Dropcoff.

Okay. Ele estava vestido como um militar e entrando em uma cafeteria de bairro onde as pessoas conversavam e mexiam em seus smartphones. Se aquilo era alguma ideia de fazê-lo se enturmar...

Cansado do mistério todo, ele entrou na loja e sentiu o cheiro de bolo de chocolate ao passar pelo balcão e encarar as cabines cheias de pessoas. Carla estava no fundo, vestindo as mesmas roupas escuras de antes, com um toque diferente no cabelo que estava amarrado em um coque.

Ele andou até a Alfa e duas garotas loiras sorriram para ela. Se fosse qualquer outro dia, ele pediria o número delas.

Quando chegou à mesa encarou Carla com expectativa.

— E então?

— Erick – Carla ergueu os olhos e deu um sorriso pálido a ele. – Que bom que veio.

Ele franziu o cenho.

— Você me pediu pra vir aqui.

Carla assentiu.

— Sim, só estava testando sua formalidade.

Ele balançou a cabeça.

— Minha formalidade e minha vestimenta, pelo visto – ele gesticulou para seu uniforme. – O que significa isso? Isso é alguma brincadeira? Por que eu não me lembro de apostar com você que sequestrariam Roberto ou Henrique.

A Alfa revirou os olhos.

— Por favor, senta.

Ele fez o que ela pediu a contragosto. Não fazia muito sentido ela ficar irritada com ele agora, ela sabia que as coisas com Erick eram menos intensas. Ele gostava de ser direto.

— Eu quis marcar uma reunião com você – disse ela.

Ele assentiu.

— E por que aqui? – ele olhou em volta. – Está cheio de adolescentes aqui.

— Você vai entender que esse lugar é perfeito logo, logo.

Erick cerrou os dentes.

— Eu vou entender quando você me explicar por que caralhos estamos em uma cafeteria – ele apertou os punhos. – Vá direto ao ponto, Carla.

— Tudo bem – A Alfa começou a remexer as mãos nervosamente. – Você sabe que nós dois somos Alfas, certo?

Ele não respondeu por que era obvio que sim.

Carla assentiu e continuou:

— E, além disso, você deve saber que todo Alfa tem seu, ou sua Beta, como no meu caso a Érika.

Erick assentiu.

— Mesmo ela tendo chifrado você, continua chamando ela assim?

— Todo Alfa tem seu Beta – ela ignorou a pergunta sarcastica dele. – E eu acho que está na hora de você ter o seu.

Erick ficou um tempo sem falar e Carla começou a tamborilar os dedos com impaciência no centro da mesa.

— Você está me pedindo para morder alguém.

— Sim – ele conseguiu escutar ela engolindo em seco. – Estou pedindo para transformar alguém em Lobisomem. Como eu e você.

— E Érika – ele assentiu. – Tá, mas por que quer que eu faça isso?

— Aí vem à parte boa – ela sorria, mas então murchou ao encará-lo. – Ou não.

— Antes de qualquer coisa – Erick se ajeitou na mesa. – O que te faz pensar que eu tenho capacidade de criar mais alguém?

— O fato de que você tem. Você é um Lobo, Erick. Não é nada dificil morder alguém.

— Não mesmo, eu só vou mudar a vida da pessoa e... Quem sabe em um caso raro o cujo não se lembra de nada, certo?

Aquilo foi baixo, mas Erick não se importou.

— Não sei por que está me pedindo para fazer isso com alguém, mas pode esquecer. Eu já fui muito mal tratado só na minha vida como Lobo, fui feito até como escravo. E agora você quer que eu passe meu trauma pra alguém?

— Eu quero que você passe suas habilidades para alguém Erick. E tenho certeza que você vai dar um belo Alfa e vai deixar todos os seus seguros.

Todos? WTF?

— Eu tenho uma ideia melhor – ele juntou as mãos na mesa. – Que tal eu não transformar ninguém e deixar todos seguros assim? Hein? Não é uma ótima ideia?

Carla suspirou.

— Olha Erick, você sabe que essa cidade onde estamos é um lugar meio diferente – ela olhou em volta. – Você sabe mais do que eu que tem algo de errado aqui. Parece que algo... Atrai a gente até aqui e atraí os problemas também.

O Alfa não disse nada. Ele não foi atraído até ali coisa nenhuma, foi obrigado.

— Então é recomendável termos alguns bons aliados do nosso lado para qualquer coisa né? – ela sorriu.

— Nada melhor do que mais flancos — Erick retrucou. – Resumindo, você quer um exército.

— Eu quero uma armada – Carla corrigiu. – E você pode estar me achando uma louca por perder, mas vai entender mais tarde depois que algo pior que Neemias vir atrás de nós. E nessa hora... Você vai entender do que estou falando.

Erick suspirou. Discursos não o inspiravam, davam sono. E ele queria muito não ter que ouvir aquele. Olhou em volta de repente, sobressaltado.

— Por que estamos tendo essa conversa sobre recrutamento logo aqui nesse lugar cheio de humanos?

— É o lugar perfeito – Carla repetiu a frase de antes. – Pense nisso como um cardápio, por enquanto. Você pode transformar qualquer um aqui, mas tem que ter tato – ela apontou com a cabeça para um gordo comendo um Cheescake. – Imagine aquela alma perdida... Como ele ficaria tão poderoso.

— Só consigo imaginar que ele não vai mais precisar de academia – Erick fungou e a encarou. – Isso se eu aceitar esse seu pedido.

— Confie em mim – Carla alcançou sua mão na mesa e a apertou. Era quente como a dele. – É tudo uma questão de sobrevivência.

Ele encarou suas mãos na mesa.

— Tem certeza? – perguntou de mansinho. – Ou isso é por que a Érika foi levada ontem?

— Também – ela o encarou com os olhos baixos. – Mas você tem que admitir uma coisa, não podemos esperar ela para sempre. Eu preciso de uma nova Beta.

— Você precisa de um tempo – ele se levantou. – Mas nesse tempo você deveria pensar ao invés de recrutar um exército.

— Você nunca vai me entender – Carla suspirou.

Erick a ignorou e saiu da cabine.

Mas então no meio do corredor, ele se virou confuso para ela.

— Posso perguntar sobre as escolha das roupas?

Carla sorriu para ele.

— Eu as escolhi por que sabia que você ficaria sexy de uniforme.

— QUE PORRA DE AVISO É ESSE NA MINHA GAVETA DE CUECAS?

Rita revirou os olhos para não ficar sobressaltada com o fato de o irmão estar em casa. Mais um dia havia se passado e dessa vez ele tinha dormido ali, apesar de chegado tarde. Ela até tinha tentado contar sobre as novidades para ele, mas ao colocar a cabeça para dentro do quarto, o garoto já roncava.

— Rita! – ele parou na soleira do quarto dela com os olhos fuzilados. – Por que entrou no meu quarto ontem? Tem uma placa na porta, não sabe ler?

— Relaxa Marco – ela o ignorou e continuou a dobrar suas roupas. – Eu só deixei uma nota avisando que ia sair porque pensei que você chegaria cedo ontem.

Ele revirou os olhos da mesma forma.

— Mesmo assim. Não quero te ver no meu quarto!

— Tudo bem – ela deu de ombros. – Não é como se você estivesse lá para me impedir de qualquer jeito.

Ele cerrou os lábios.

— Escuta aqui...

— Onde você está se metendo? – questionou Rita. – Desde esses últimos dias você tem passado tanto tempo na rua que os leitores desse livro até acreditavam que você era o Capuz!

— Não seja ridicula, Rita! E daí se eu estou saindo? GRAÇAS A DEUS QUE ESTOU SAINDO!

— Olha essa boca – ela avisou parando de dobrar. – Tem um assassino a solta e ele pode pegar você.

Marco parecia inclinado a reclamar mais, quando de repente sua expressão escureceu.

— Ah – disse num tom baixo. – Tem algo que preciso te contar. Eu acho que descobri quem é o Capuz.

— Neemias – Rita assentiu.

O irmão a olhou sem acreditar.

— Como você sabe?

— Aquela Bruxa me atacou de novo e acabou falando demais – ela contou. – Como você sabia que era ele?

Marco mordeu o lábio inferior.

— Não posso contar.

— Marco, você tá brincando comigo?

— Ok, ok – ele sorriu. – Uns amigos meus invadiram o sistema da escola e nós vimos um vídeo onde ele deixa a caixa que o Rafa abriu no estacionamento.

— Uau – ela ficou surpresa com a capacidade de dedução dele. – Bem, eu acho que temos que mostrar isso para o Rafa depois.

— E como ele está? – Marco perguntou. – Conseguiram destruir o babaca?

— Não – Rita balançou a cabeça. – E pra piorar, ele levou o Roberto com ele.

— O quê? – Marco arfou. – Como isso aconteceu?

— Neemias foi atrás do Rafa e do namorado na casa dos Avós logo depois do enterro. Rafa disse que chegou a ver algo na casa, mas não pode fazer nada quando ele chegou e o derrubou.

— E o Roberto?

Rita suspirou.

— Quando ele acordou Roberto já não estava mais lá.

— Ele morreu?

— Não sabemos ainda – ela engoliu em seco. – Mas os dois são irmãos, certo? Será que ele o mataria tão rapido assim?

— Uau – Marco não respondeu e levou à mão a boca. – Onde eu estava quando isso tudo aconteceu?

— Eu é que me pergunto. Você está de namorada nova, ou algo do tipo?

— Não – ele respondeu olhando ela nos olhos. – Por que está me perguntando isso?

— Porque o Rafa disse que quando ele passava os dias fora de casa, um garoto era a causa disso tudo.

Marco jogou os braços para o alto, exaltado.

— Está me comparando com um gay?

— Estou te comparando com uma pessoa – Rita corrigiu. – Olha, Marco, se tiver algo que queira me contar, alguma garota nova... Você pode me falar a qualquer hora. Eu vou aceitá-la.

O irmão mais novo mordeu o lábio inferior e olhou para Rita duramente.

— Nha – ele balançou a cabeça. – Só tenho esses dois novos camaradas com quem eu me encontro. Não tem nada de feminino acontecendo na minha vida.

Rita assentiu.

— Agora eu te considero como gay.

Marco chutou o pé da cama dela e ela riu.

— Ok estou zuando – ela se controlou para não rir mais. – Só que, Marco, tome cuidado. Com essas coisas acontecendo, eu temo que algo aconteça com você...

— Rita, eu...

— Estou falando sério – ela o interrompeu com intensidade. – Se algo acontecer a você nunca vou me perdoar. Ouviu bem?

Marco assentiu e começou a se afastar para a porta. Assim como o pai ele sempre ia embora quando a merda ficava muito séria com ela.

— Tudo bem – ele disse e então sumiu para o corredor.

E Rita tentou acreditar nele.

— Me deixa ver se entendi – Érika olhou para os três juízes um de cada vez. – Vocês não vão me machucar?

Tomi encarou suas duas parceiras com a testa franzida.

— Nós vamos?

— Tecnicamente, não – respondeu Julia Magric.

— Tecnicamente, como assim? – questionou Érika.

— Como juízes daqui – Belle começou a falar com o tom de voz irritante. – Nós temos a função de castigar quem faz coisas erradas. Mas optamos por um modo menos...

— Doloroso – completou Julia com um sorriso amigável. – Não é melhor para você, Alapulof?

A Beta piscou várias vezes.

— Mas vocês estavam lá comigo quando eu explodi o escritório da Anna – ela olhou a todos eles. – Vocês sabiam o que eu ia fazer.

Tomi encarou Julia e esta por sua vez olhou Belle, que apenas deu de ombros.

— Como juízes daqui – ela repetiu as mesmas frases. – Nós temos uma reputação para zelar. Não podemos nos dar ao luxo de levar a culpa por você.

Érika assentiu.

— Então vocês mentiram – ela olhou Julia nos olhos. – E vão me castigar também, mesmo mentindo?

— Sim – respondeu Belle sem desviar os olhos de seu rosto.

— Escute Érika – Tomi puxou uma cadeira e se aproximou dela. – Não leve isso para o lado pessoal. Nós nos divertimos bastante naquele dia.

— Minha namorada brigou comigo por ter dado um perdido nela – Érika retrucou. – E vocês sairam correndo.

— Não podiamos arriscar ser vistos – comentou Julia. – Mas Tomi está certo, não leve para o lado pessoal, ok? Nós somos seus amigos.

Ela tocou Érika no braço e os olhos Dourados da Beta brilharam tão fortes que Julia optou por afastar a mão.

— E não é como se fossemos te machucar de verdade.

— Vocês continuam falando isso, mas não me explicam – ela olhou para os três. – Como vão me castigar?

Julia encarou Belle e esta andou até a mesa de Anna. Por mais que não conseguisse olhgar atrás da mesa conseguiu escutar um barulho de uma gaveta sendo arrastada. E depois o baque da caixa sendo colocada na mesa.

Com as mãos cheias de dedos finos, Belle abriu a tampa e tirou uma seringa de dentro da caixa com um sorriso. Socorro.

— O que é isso?

— Isso – respondeu Tomi. – É um soro desenvolvido pela Anna para neutralizar seus inimigos.

— Neutralizar?! – A Beta sentiu as cordas ficarem mais apertada.

— Relaxe, relaxe – Julia chegou perto dela e tocou sua nuca. – O efeito não dura por muito tempo e vai ser a mesma coisa que dormir. Os efeitos colaterais que são um saco.

— Efeitos colaterais?

— É – Tomi riu. – Ela já injetou isso em mim e fiquei dias encarando objetos que eu já sabia o nome de um jeito enevoado e estranho. Sem falar das memórias.

A loira o encarou.

— Memórias?

— É – ele deu de ombros. – No sonho você vai ficar se lembrando de tudo que aconteceu com você de um jeito bagunçado. Como se fosse um filme do Tim Burton.

— E depois que eu acordar – ela perguntou calmamente. – Também vou me lembrar?

Tomi assentiu com um olhar nostálgico.

— Definitivamente sim.

Érika olhou a seringa nas mãos de Belle com interesse repentino. Memórias. De repente aquilo não era mais só uma seringa, e sim as respostas que Érika tanto caçava.

Pensou em Carla e em Erick dizendo que a perda de memória era algo normal e temporário. Se Tomi estivesse dizendo a verdade, ela logo se lembraria de tudo logo, logo.

— Pode vir – ela olhou a juíza sádica. – Pode injetar em mim.

Surpresa, Belle andou até ela rapidamente e enfiou a seringa em algum ponto de seu pescoço.

Depois que se afastou, Julia e Tomi a encararam como se esperassem que algo acontecesse.

Érika não fazia a menor ideia do que eles esperavam porque sua mente minguou pouco a pouco, escurecendo seus pontos de vista e sua visão.

No sentimento enevoado, ela se deixou levar.

— Está tudo bem por aqui? – Eduardo perguntou quando Andressa entrou rebocando um Rafa Capoci pelos pulsos presos nas costas.

Fernando assentiu, mas saiu de perto dele e ficou de frente para os dois.

— Eu falo com você depois – disse fuzilando o Caubói com os olhos azuis.

Rafa bufou e Andressa o conduziu até as escadas.

— O que ele fez? – Eduardo riu.

— Não tem graça – Fernando respondeu voltando para o meio da sala. – Ele estava tentando ir atrás do namorado dele sozinho.

— Sozinho? – questionou Carla. – Ele não pode. É suicidio.

— É disso que estavámos falando! – Fernando estalou os dedos, mas então voltou a encarar os dois. – Mas então, vamos voltar ao tema. Precisamos achar o Capuz.

— Gente não quero ser chato – Erick, que usava roupas de militar, se meteu na conversa. – Mas vocês não acabaram de concluir que é suicidio ir atrás desse cara.

— É suicidio ir sozinho – retrucou Eduardo. – Mas se formos todos juntos, pode ser que dê certo.

— Pode ser – o Lobo retrucou e se virou para Carla. – Nós dois matamos a Vampira, enquanto eles cuidam da Atiradora e da Bruxa.

— Você está se esquecendo de alguém – Fernando respondeu. – O Capuz é muito forte e mesmo no número que estamos não vai ser suficiente para derrotá-lo.

— Rafa conseguiu empurrá-lo, não conseguiu? – Eduardo questionou. – E se o chamarmos para ir junto?

— Depois da tentativa dele de fugir? Não mesmo.

— Sim – respondeu Henrique que tinha ficado em silêncio. Até agora. – Você não precisa ficar tratando ele como se fosse uma criança de castigo. Ele só estava tentando trazer meu irmão de volta.

— Me desculpa – Fernando o encarou. – Mas eu pedi sua opinião?

— Fernando, ele está certo – Carla disse. – E é o irmão dele, ele pode opinar quando quiser.

Henrique sorriu para Carla com agradecimento e a Loba assentiu. Eduardo bufou.

— Mas ele é só humano – respondeu ele. – Mesmo certo ou não, ele precisa entender que nada disso é simples.

— Nada nessa vida é – Carla retrucou. – Algumas coisas chegam a ser tão complicadas que fodem com tudo.

Eduardo sabia do que ela estava falando, mas não conseguiu ficar quieto dessa vez.

— Olha, me desculpa pela Érika, mas temos uma emergência maior aqui.

— Não foi isso que você pensou quando se pegaram as escondidas – retrucou a Alfa.

— Que tal nós só focarmos? – Fernando apartou os dois. – Só focarmos na missão e deixarmos as diferenças de lado?

— Ela não conseguiria fazer isso – provocou Eduardo. – Ao que parece ela tem que prender a própria Beta para conseguir esquecer que ela fez algo ruim.

Carla grunhiu.

— E talvez o Eduardo só precise pegar alguém que é compromissado... Mas isso só quando ele estiver já compromissado com outro alguém entende? Porque não basta magoar um coração – ela encarou o moreno com ódio. – Ele tem que magoar dois.

— Carla, por mais que eu esteja do seu lado – Erick a segurou pelos ombros olhando Edu com ódio. – Nós não podemos deixar nossos sentimentos atrapalhar em nada. É isso o que o Capuz quer ver... Separação.

— Bom, ele conseguiu – Eduardo deu de ombros. – O que recomenda que façamos?

Erick pareceu pensar de verdade.

— Que tal – ele olhou Fernando. – Nós mandarmos esses dois sozinhos atrás dele?

Carla grunhiu e Eduardo xingou.

— Você ficou maluco? – Fernando arregalou os olhos. – Quem precisa de um suicida quando esses dois já querem matar um ao outro?

— Eles não vão – Erick sorriu para os dois. – Eles sabem que a missão é importante e vão resolver seus problemas sozinhos.

— Você está louco – Henrique se meteu se sentando no braço de um sofá. – Isso aqui não é um filme da Hanna Montana e meus dois irmãos estão em perigo! – ele olhou Fernando. – Vai mesmo colocar a vida do meu irmão nas mãos desses dois?

O loiro franziu a testa.

— Nas mãos de um cara que sabe dominar quatro elementos e uma Alfa? – ele questionou com ironia – Acho que sim.

— Fernando – Eduardo avisou. – Eu juro que faço o que você quiser. Mas essa é uma péssima ideia!

— Eu não acho – ele murmurou e se juntou a Erick. – Acho que podem trabalhar juntos. Assim como eu e o Erick, certo amigo?

Erick sorriu de um jeito levado.

— Certo.

Carla bufou e Eduardo respirou fundo. Os dois se fuzilaram com os olhares e faíscas poderiam ser vistas mesmo a olho nu.

Aquilo parecia uma péssima ideia. Mas eles não tinham muita escolha.

Ainda estava frio e enevoado do lado de fora da jaula.

Roberto encarava as três garotas que pareciam super confortáveis em mantê-lo no cativeiro. Marta, a amiga de Rafa, gritava no celular com alguém sobre não obedecer a suas ordens a respeito de sangue. A morena tinha uma arma nas mãos e olhava uma mesa redonda com algum mapa que, de vez em quando, brilhava e deixava-a curiosa.

A terceira garota, a garota de cabelo castanho com óculos, era a que estava mais perto da jaula, parecendo encarar suas duas cúmplices de um jeito entediado.

Lembrava um pouco ao próprio Roberto pouco tempo antes de ele saber nadar. Até seu professor dizer que ele não precisava deixar seu medo afastá-lo das coisas que ele queria.

Se ele quisesse entender o que estava acontecendo e sair dali também, ele não podia ter medo. Então com coragem, invocou seu treinador interior e se segurou nas barras da jaula.

— Psiu – ele a chamou.

Ela o encarou, confusa, e baixou os óculos.

— Está falando comigo?

Ele assentiu.

— Como você se chama?

— Por que você quer saber? – ela se virou de novo. – Isso não vai te tirar daí de dentro.

— Não mesmo – ele tamborilou os dedos nas barras. – Mas eu perguntei por que quero mesmo saber.

A garota de óculos se virou de novo.

— Se eu disser você promete ficar calado? – ela suspirou. – Já é um saco ficar aqui tendo que aturar aquelas duas. Não transforme isso pior do que já está.

— Eu sei, a Marta é irritante, né? – ele foi seguindo a onda. – Imagina se ela não fosse uma Vampira? O quanto seria fácil acabar com ela?

— Xiii – ela colocou o indicador na frente dos lábios. – Ela ainda é uma Vampira e ainda tem uma super-audição, então se não se importa...

— Ok, ok – ele se afastou das barras. – Só estou tentando não enlouquecer aqui dentro. Eu odeio não saber das coisas.

Ele ficou olhando para o chão da jaula, mas sabia de algum jeito que ela estava o encarando.

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— Não fique assim.

Ele levantou o olhar e ela estava mais perto da jaula.

— Eu sei que é um saco que seu irmão tenha sequestrado você.

— Por que ele fez isso, afinal de contas? – questionou e torceu para que não tivesse soado frustrado ao invés de ansioso. – Ele é meu irmão e nunca me amou de verdade? Ou ele não é da familia?

— Não é nada disso – respondeu. – Um espirito está o possuindo. Seu irmão ainda está lá dentro, mas acha que tudo que está fazendo é por vontade própria.

Roberto se alimentou com aquela noticia. Espiritos. Já não bastava ele ter visto seu irmão e seu namorado lutarem como dois telepatas poderosos um com o outro, agora ele tinha que saber que Neemias estava possuído?

— E o que esse espirito quer?

— Ele quer o Rafa – respondeu ela parecendo inclinada. – Se ele conseguir Rafa vai conseguir acabar com tudo isso.

— Acabar com tudo – ele repetiu. — Nos matar?

— Não, ele quer te deixar livre, acredite em mim. Mas o único jeito de fazer isso foi levando você. Para que Rafa viesse atrás de você.

— Ele não faria isso – respondeu Roberto com a voz seca.

— Ele vai fazer – a garota assentiu parecendo certa do que dizia. – Nós achamos um jeito de entrar em contato com ele.

Roberto olhou confuso enquanto ela tirava do bolso um celular. O celular de Roberto.

— Vai enganá-lo.

— Sim – ela sorriu. – É meio baixo, mas não se ofenda, é o unico jeito de fazê-lo vir.

— Está tudo bem – ele precisava pegar aquele celular. Não sabia se isso impediria Rafa, mas tinha que tentar. – Mas se vocês queriam Rafa aqui, por que Neemias não o pegou ao invés de mim?

— Rafa também tem algo de especial, não sei se você notou. E essa coisa que Neemias quer que ele libere só vai sair se ele achar que você está correndo perigo.

Roberto olhou em volta sem acreditar.

— E eu não estou?

— Na verdade não – a garota de óculos balançou a cabeça. – Você podia estar sendo torturado, mas não está.

— Mas aquela Vampira...

— Marta é meio elétrica, isso você aprende com o tempo – ela bufou. – Mas só estamos te fazendo de isca.

Então era isso. Ele era só uma isca.

— Onde diabos eu estou?

A garota parecia querer abrir a boca, quando de repente a morena com uma arma na mão surgiu ao seu lado. Os dois ficaram calados enquanto ela olhava o cano da arma de um jeito melancólico.

— Compartilhando informações com a isca, Leticia? – ela sorriu como se aquela fosse uma conversa boa entre amigos. – Neemias vai adorar saber disso.

— Não, não! – Leticia ergueu as mãos. – Só estavamos conversando sobre o quanto estamos entediados.

— Você talvez sim – ela apontou a arma para Roberto. – Mas este aqui quer mais do que dizer o quão entediado ele está.

Leticia a olhou sem entender.

— Ele estava te usando para ganhar informações – ela riu. – Tapada.

Leticia olhou Roberto com raiva.

— Isso é verdade?

— Quem se importa? – ela empurrou a garota. – Agora vá fazer o escudo como Neemias mandou antes que ele volte.

A Bruxa saiu andando enquanto Roberto encarava a Atiradora de um jeito seco.

— Eu posso ter enganado ela – disse. – Mas não me arrependo disso.

— Ah, não?

— Não. Eu quero sair daqui, então não fique surpresa quando eu conseguir.

Ela parecia querer dizer algo mais, porém apenas ergueu o queixo.

— Foi uma boa tentativa, Roberto, foi mesmo.

E voltou para a mesa.

Rafa ficou encarando o próprio quarto como se fosse um cativeiro. Sua televisão estava desligada, mas ele agia como se algum programa interessante estivesse passando. O programa Andressa Bertoni está do lado de fora da porta esperando caso eu tente sair.

Okay, ele não era a pessoa mais discreta do mundo, mas ele não podia desistir. Por mais perigoso que talvez fosse ele tinha que trazer Roberto de volta – E Neemias também. Ele não queria perder mais ninguém, ainda mais se esse alguém foi pego por sua culpa.

Devia ter terminado com Roberto, ou rompido assim que ele começou a fazer perguntas.

Com um sobressalto, ele notou que estava pensando em terminar. Terminar o namoro? Mas por quê?

Havia tantas razões para ele terminar que ele não soube bem por onde começar. E nem teve a chance, porque na porta, Fernando o encarava da soleira com os olhos fuzilados.

— O que você estava pensando?

Rafa se sentou na cama devagar.

— Em salvar meu namorado – respondeu.

— Acontece que você ia acabar matando a si mesmo – Fernando chutou a porta atrás de si. – E você não conseguiria salvar ninguém. Depois nós teriamos que ir e limpar sua bagunça.

— É o que? – Rafa riu sem acreditar. – Por que fala como se fosse uma obrigação salvar o mundo?

— Porque é – o loiro balançou a cabeça. – Rafa, não estou falando como obrigação estou falando isso porque eu me preocupo com o que pode acontecer com todo mundo. Com o que pode acontecer com você.

Rafa ficou sem fala.

— Quando eu não consegui te achar – continuou o loiro. – Eu imaginei tanta coisa. Achei que Neemias tivesse entrado aqui e te pego, ou que uma daquelas aliadas tivessem o matado...

— Não foi nada disso, eu só queria salvar todo mundo – Rafa engoliu em seco se sentindo culpado. – Que nem você.

Fernando o olhou como se ele fosse louco.

— E nem vem me falar que isso não é tarefa minha. Eu também sou do Pack, lembra?

— Sim, me desculpa, não quis dizer que você é inferior nem nada.

Rafa abriu a boca sem acreditar.

— Você não está ajudando. Fernando, temos que fazer alguma coisa logo ou vou ficar louco aqui.

— Eu sei, eu concordo com você – o loiro baixou os olhos azuis. – E é por isso que pedi para duas pessoas que confio muito irem.

— Quem?

— Edu e Carla.

Rafa franziu a testa.

— O Eduardo e a Carla? Por que não a Andressa?

— Porque – Fernando respirou fundo. – Eduardo traiu Andressa com a Érika. Pronto, falei.

Rafa riu achando que era piada.

Fernando apenas ficou calado.

— Ai meu Deus – ele parou. – Você está falando sério.

— Sim e isso é muito complicado.

— Isso é complicado, mas explica tudo – Rafa riu de novo. – Como puderam jogar a Carla numa missão com ele assim?

— Carla é uma Alfa, ela vai focar na missão – ele deu de ombros. – Não vai?

— Não sei – Rafa umedeceu os lábios. – Ela é humana certo?

Fernando fez uma cara de “Ops”.

— Droga.

— Relaxe, talvez dê certo – talvez.— Mas não acho certo eles terem ido sozinho. Algo pode acontecer.

— Eu confio que o Edu consegue. Você não?

Rafa balançou a cabeça.

— Olha depois do que você me falou não consigo confiar nem em mim mesmo.

— O que quer dizer com isso?

— Que até eu não sei se quero continuar com meu namorado.

Fernando congelou no meio do quarto.

— Como é que é?

— Eu sei que posso parecer canalha dizendo essas coisas, mas, por favor, não me entenda mal. Acontece que você viu o quanto ele ficou em perigo só por estar comigo. Eu não sei se posso continuar com ele fazendo tanto mal assim.

Fernando assentiu.

— Entendo.

— Entende mesmo? – ele suspirou. – E agora ele está com aqueles lunáticos enquanto eu estou aqui tentando entender se quero terminar com ele. Sou o pior namorado do mundo.

— Rafa, não – Fernando respondeu em uma voz baixa. – Não se veja assim. E não foi culpa sua, saiba disso. Não tinha como você saber que o irmão dele era quem queríamos pegar. Ele fez tudo por baixo dos nossos olhos.

— Isso não muda o fato de que eu trouxe até isso – ele engoliu em seco. – Eu o coloquei em perigo, desde o começo.

— Para – Fernando andou até ele. – Não quero mais ouvir que você se acha culpado.

Rafa revirou os olhos, não o escutando.

— E não termine com seu namorado só porque não conseguiu deter o Capuz. Ele é seu namorado e não sua dama indefesa. Não é por isso que estão juntos. Certo?

Rafa assentiu. De repente se sentiu tão transparente para o loiro que não conseguiu evitar o incomodo com isso.

— Certo.

Quando Fernando pareceu terminar de falar, Rafa sentiu o celular vibrar no bolso e encarou a tela com confusão.

— E Rafa – Fernando disse abrindo a porta. – Se for mesmo terminar seu namoro, esteja bem certo disso.

Rafa apenas sorriu de volta e o outro saiu do quarto.

Com os olhos no celular ele viu uma notificação informar 1 nova mensagem. O número era de Roberto.

Estarei na rua atrás do Dropcoff. Me encontre às 18:00.

Taffara olhava seu reflexo no espelho da sala de interrogatório. Um péssimo dejá-vu para ela, mas uma lembrança nostalgica para quem a olhava de fora. Ela fitou seus lábios rosados, sua pele pálida e seu cabelo castanho emaranhado.

Não acreditava que estava sendo suspeita de novo. Tudo bem, ela tinha dado motivos, mas quem Vick Melo era para conseguir coloca-la atrás das grades? Ela não era melhor que ela de jeito nenhum. De jeito nenhum.

De repente a porta da salinha se abriu e dela saiu Gabriella Dias, a encarando com um sorrisinho no rosto. Ela parou na frente dela parecendo esperar algo.

— Isso vai demorar muito? – Taffara se recostou na cadeira de metal. – Eu estou muito cansada.

— Não é de se admirar – a policial puxou a cadeira na frente dela e se sentou. – Mentir tanto deve cansar mesmo.

Taffara estalou a lingua.

— Eu não sei o que Vick Melo te fez para convencer você, mas recomendo que não acredite nela.

— E eu devo acreditar em você? – Gabriella balançou a cabeça. – Você estava escondendo o celular de Diogo esse tempo todo.

— Eu já disse que o Roberto deixou ele cair na minha cama!

— Acho muito engraçado isso de o Roberto estar na sua casa – ela recostou o cotovelo na mesa. – Ele não é irmão do Henrique? Seu... Namorado que estava sumido?

Ela engoliu em seco.

— O que ele tem a ver com esse caso?

— A mesma coisa que você, quem sabe – ela deu de ombros. – Quem sabe você o esteja defendendo. Ou defendendo mais alguém.

— Eu não posso afirmar que Henrique fez algo a Diogo – ela dobrou as mãos na mesa. – Por que na verdade, não tenho ideia de porque ele faria isso.

— Tem certeza? – Gabriella se aproximou dela. – Eu acho que tem.

Ela balançou a cabeça sem acreditar.

— Isso é alguma manobra de tortura da policia? Porque se for, eu não sou obrigada a dizer nada.

— Então vai optar por obstrução da justiça?

— Não quis dizer assim – ela balançou a cabeça. – Pare de fazer isso comigo! Eu não matei Diogo! E não faço ideia de quem matou!

— Eu acho que está mentindo, sabe – Gabriella se levantou da cadeira.

— Isso é uma acusação? – Taffara olhou para Gabriella. – Porque se for só uma acusação, eu posso processar Vick por calunia.

— Você é menor – Gabriella sorriu. – E não vai processar ninguém por nada porque ela que me trouxe a prova. O juri e nem ninguém vai acreditar em você. Ainda mais com sua fama nessa cidade.

— Você disse juri? – ela ergueu as sobrancelhas. – Eu vou ser presa?!

— Se você continuar a se recusar sobre me dizer quem é o assassino – Gabriella deu de ombros. – Sim, vou te prender.

— Isso é chantagem!

— Então você sabe de algo? – apontou Gabriella.

— Não! – Taffara se levantou. – Eu não sei quem matou Diogo Barros!

— Pare de dificultar as coisas pra si mesma – Gabriella balançou a cabeça. – Só me de o nome, Taffara, apenas isso. Foi o Henrique?

Ela se jogou na cadeira de novo, cansada. Que droga de vida. Por que ela tinha tanta sorte em ser ela mesma?

— Você e aquela idiota da Vick Melo – ela cuspiu. – Podem ir a merda com a suspeita de vocês.

Gabriella balançou a cabeça.

— Eu tentei do jeito fácil – ela parecia ter fogo nos olhos. – Mas você não me deu escolhas.

E saiu da sala fechando a porta com força.

Sem explicar como seria o jeito dificil.

Marco voltou para a delegacia depois de ter ido em casa. O local de trabalho de Gabriella estava movimentado com os mesmos sons de telefones tocando e policiais andando para lá e para cá com arquivos ou rosquinhas nas mãos.

Ele avistou Vick parada em um corredor olhando para uma tela de vidro. Seguiu seu olhar e viu Taffara sentada na sala de interrogatório. Enquanto a Rainha da Escola parecia entediada, Gabriella sentava-se de frente para ela e dizia coisas que não deixavam sua expressão uma das melhores.

— O que ela fez de errado? – perguntou de mansinho.

Vick o olhou de lado como se só o tivesse notado ali naquele momento.

— Obstruiu a justiça – ela suspirou. – A Detetive está tentando fazer com que ela fale alguma coisa.

— Um nome? – ele jogou a isca, esperando que ela mordesse. – Talvez um garoto?

Ela o olhou, confusa, e ele torceu para que ela não desconfiasse do que ele já sabia.

— Sim – assentiu. – Você é parente da Rita?

Ele fez que sim.

— A genética diz que sim. Não somos muito parecidos, né?

— Na verdade, seu nariz lembra o dela muito.

Marco cerrou os dentes.

— Vou fingir que não disse isso.

Vick riu e ele ficou feliz por ela confiar nele logo de cara. Olhou para Taffara de novo e mordeu os lábios.

— Não acha que está meio que se exaltando? – questionou. – Ela parece meio inocente para mim.

— Conheça ela a mais tempo do que eu e vai ver que está errado – ela fuzilou a garota no vidro com os olhos. – Também não acho que ela tenha feito algo, mas tenho a impressão que ela saiba mais do que esta falando.

Marco assentiu. Não só ela como tmbém Taffara não sabiam o que estava acontecendo. A morte de Diogo. Henrique. A revelação do Capuz. Tudo aquilo estava acontecendo debaixo dos olhos da nata de Vallywood. E enquanto elas brigavam, nem sonhavam no quanto estavam longe de advinhar o perigo.

— Eu ouvi por cima – ele mentiu. – E parece que ela não quer dizer quem matou um amigo seu. Acertei?

— Como sabia disso?

— Minha irmã é próxima do Rafa – ele respondeu. – Ela foi ao enterro desse tal de Diogo para dar apoio a ele. E eu fui com ela também.

Vick assentiu.

— Eu não gostava tanto dele. Mas ele não mereceu o fim que teve.

— Acha então que um amigo dela fez isso?

— Vamos ser especificos e dizer ex-namorado. Ele voltou tem pouco tempo e justo quando ele chegou às coisas aconteceram. Diogo morreu no mesmo dia e, tipo, horas antes eles tinham discutido.

— Discutido por quê?

— Não importa – ela escureceu os olhos.

— Entendo. Mas qual a ligação dela com isso tudo?

Vick olhou para os lados e remexeu em sua bolsa. De dentro dela tirou um saquinho de plástico transparente com o celular que havia dado para Gabriella.

O celular de Diogo.

— Isso era do Diogo e estava com ela. Eu presumo que ela pegou depois que ele morreu, ou antes. E ela mentiu para mim que deixaram isso na casa dela.

— Como sabe se ela não está mentindo?

— Porque esse meu amigo não faria isso.

— Tudo bem – Marco olhou em volta. – E onde ele está?

Ela o encarou e parecia afetada.

— Eu não sei – ela deu de ombros. – Por que está defendendo ela tanto?

— Não estou Vick, só tome cuidado. Você pode acabar prendendo uma inocente só por ter acreditado tanto nesse seu amigo. Que nem está aqui para se defender.

Ela ficou pensativa e quieta e Marco foi se sentindo um pouco culpado por se aproveitar da informação que já tinha. Roberto só não estava ali para se defender, porque o verdadeiro assassino de Diogo tinha o levado.

— Posso ver? – ele indicou apontando para o celular.

— Mas isso é uma evidencia.

— Eu não vou tirar do plástico – ele riu. – Posso dar uma olhada?

Depois de meio minuto hesitando, ela assentiu e deu o saco para ele. Marco o apertou até sentir o botão de ligar a tela. Ela brilhou e através do plástico ele foi forçando para conseguir acessar o Menu.

Enquanto Vick ficava distraída com uma Taffara irritada, ele foi estudando a galeria do celular, remexendo nas nudes e em todo o armazenamento. Tentava achar algo que fizesse mais sentido do que a ideia de que Taffara fosse assassina.

E então, tocando sem querer em uma notificação de mensagem, ele abriu todos os tópicos. E o que encontrou mudou o rumo de tudo.

Bem ali estava seu número de celular, com a seguinte mensagem que ele já tinha lido antes:

EU SEI DE VOCÊ E GABI E EU VOU CONTAR.

Ele arfou e automaticamente apagou a mensagem.

Depois encarou fixamente à frente, sem nada ver de verdade.

— Algo errado? – Vick franzia a testa para ele.

— De quem era esse celular? Era do Diogo mesmo?

— Sim. Por quê?

Marco não soube o que responder até quando a porta da sala de interrogatório se abriu e Gabriella saiu dele com um suspiro alto e entediado.

— Não adianta, ela não vai falar – notou Marco ali e cruzou os braços. – O que está fazendo com uma evidência nas mãos, Sr. Marco Antônio?

A casa de Gabriel ficava logo na venida, perto de um milharal. Mas apesar da vegetação próxima, sua casa colossal não tinha nada de vegetal na sacada intimidante. A cor da casa era marrom, mas seu estilo era tão languido que quem visse estive logo embaixo pensaria que era preta.

Enquanto andava até a soleira, tentou não pensar nas palavras de Vicente ou em seu tom pessimista a respeito da conversa de Gabriel na sacada com outro alguém. Esse alguém sendo uma garota. Deb.

— Não acredite, não acredite – ele foi dizendo a si mesmo enquanto subia as escadas. – Vicente não sabe o que diz.

Ele se avaliou da camisa roxa, passando pela bermuda jeans, até o par de tênis All Star velho. Na pressa em provar que o outro estava errado ele pegou a primeira coisa que viu na frente da sapateira bagunçada.

Seu cabelo provavelmente estava uma bagunça, mas ele não ligou. Só precisava que Gabriel falasse com ele e não desligasse na sua cara como fizera nas outras vezes.

Nas outras quinze vezes.

Rael apertou a campainha uma vez e esperou.

A porta não tinha vidro para ele conseguir ver o que acontecia, mas ele conseguiu escutar alguma cafofonia vindo do lado de dentro. Vozes altas se sobrepujaram até ele decidir apertar de novo.

Dessa vez uma voz chata pareceu próxima e ele ficou esperançoso. Era Gabriel. Só podia ser ele. Começou até imagina-lo usando camiseta de grife e jeans como na noite passada, o cabelo preto escovinha bem penteado.

E então a porta se abriu.

Uma garota ruiva usando camisa branca social grande demais que chegava a cobrir o começo de suas pernas nuas parou na soleira com um sorriso travesso para ele.

— Olá! – ela sorriu debilmente enquanto piscava para a luz da tarde. – Quem é você?

— E-eu – ele pigarreou. – Eu sou Rael.

— Ah – a garota parou de rir. – Oi, Rael. Quem é você?

Ele mal conseguiu abrir a boca. Ela era Debóra. Só podia ser. O mesmo cabelo de fogo da acompanhante de Gabriel na festa, o mesmo porte sexy bonito que deixaria qualquer cara hétero louco.

Ele piscou. Não podia deixar de esquecer porque estava ali.

— Vim pelo Gabriel – ele olhou por sobre o ombro dela. – Ele está?

— Ele estava— ela olhou para trás. – Ô dona Nunes!

— O QUE, MINHA NORA? – gritou uma voz mais grossa de mulher vinda de algum canto da casa.

— SOGRA, VOCÊ SABE ONDE O GABRIEL FOI? – ela perguntou aos berros.

— BUSCAR A JANTA PRA MIM! POR QUÊ?!

— PORQUE TEM UM AMIGO DELE AQUI – Déb se virou para encará-lo. – Rael, né?

— Claro – ele engoliu em seco.

Sogra. Nora.

— RAEL!

— ENTRA AMIGO DO GABRIEL!

Déb sorriu e abriu mais a porta. Meio hesitante Rael passou pela porta e entrou em uma sala quentinha e cheia de enfeites. Identificou um apanhador de sonhos e se perguntou qual era a religião deles.

— Ela está meio ocupada assando cookies – Déb passou por ele e cruzou os braços. – De onde conhece Gabriel?

— Do shopping – ele assentiu. – Saímos algumas vezes.

Débora deu uma risadinha.

— Ele disse algo sobre isso. Aquele canalha sempre saí por ai quando não estou por perto!

Rael foi um pouco para trás. Ela sabia?

Débora franziu a testa.

— Você faz isso com a sua também?

— Desculpa o quê?

— Com sua namorada – Débora explicou. – Sai com seus amigos quando ela não está por perto?

Não era bem isso que Rael estava imaginando em dizer.

— Saio, bastante – ele riu sem nenhuma graça aparente. – Até esqueço que ela existe.

— Como você é mau!

Ah, que legal, agora a namorada de Gabriel achava ele sexy. Como a vida era irônica.

— O-oi – a mãe de Gabriel parou na soleira da sala com um pano de prato no ombro e um avental amarrado na frente do corpo. – Rael, né?

— Sim – ele engoliu em seco.

— É amigo do Gabriel?

Ele ficou em silêncio e Déb riu.

— Eu sei, eu sei – ela o segurou pelo ombro. – Ninguém quer ser amigo daquele mimadinho.

— Mimadinho? – questionou Rael.

— Sim, mimadinho bonitinho – a mãe de Gabriel se sentou no braço do sofá. – Odeio admitir, mas meu filho é mesmo um fresco com as coisas.

Será que fresco era adjetivo para gay? Rael não sabia como interpretar.

— Ele vai demorar muito? – perguntou.

— Não sei, talvez sim – Déb riu. – Ultimamente ele tem demorado bastante para chegar em casa. Como ontem à noite.

Rael se virou para ela.

— Como ontem à noite?

— Sim – ela riu. – Ele chegou na cama e me acordou de madrugada. Eu olhei o relógio e eram quase 23:00.

Rael tinha certeza absoluta que Gabriel tinha saído de sua cama às 5:00. A não ser que ele tivesse um gemeo ou... A não ser que ele tenha levantado e ido de volta para casa... E depois voltado de novo para o apartamento de Rael.

— Você não estranhou por ele chegar tão tarde? – questionou. – Quer dizer, vocês são namorados, certo?

Débora abriu a boca para dizer algo, mas então trocou um olhar rápido com a mãe de Gabriel. E depois sorriu.

— Na verdade, eu não sou mais namorada dele.

O coração de Rael batia e era capaz de ser escutado no silêncio da sala.

A mãe de Gabriel riu com doçura.

— Ele a pediu em casamento.

Ele olhou sem acreditar enquanto Débora erguia a mão direita com o anel brilhante. Aquilo era um quilate? Ou dois?

— Eu estou noiva!

As duas mulheres riram e Rael tentou acompanha-las. Mas na verdade sentiu uma vertigem estranha, como se estivesse afundando na escuridão.

— Eu tenho que ir – disse de repente.

— Mas já? – Débora o segurou pelo pulso. – Por quê?

Rael se levantou e olhou a mãe de Gabriel. Não aguentava mais olhar para a garota ruiva noiva. Noiva.

— Podem avisá-lo que passei aqui? – murmurou em uma voz rouca.

— Claro querido – a mãe de Gabriel franziu a testa. – Você está bem?

— Está cansado? – Déb se levantou do sofá. – Pode deitar na nossa cama.

— Nossa?

— Minha e do Gabriel – ela riu. – O nosso ninho de amor.

— Eu estou bem – ele se virou para a porta e saiu sem se despedir.

Sentiu como se fosse vomitar, mesmo seu estomago estando vazio.

Erick se sentava no sofá da sala dos Capoci sentindo o tédio o acertando em cheio enquanto ficava parado. Andressa e Rita conversavam na ilha da cozinha, o tom de voz baixo, mas na mesma altura que as garotas gostavam de usar para esconder seus segredos.

Ele não estava a fim de se juntar a conversa porque também odiava esperar pelos outros. Odiava ter que esperar por Carla, principalmente, já que a Alfa havia colocado um monte de abobrinha dentro de sua cabeça. Como diabos ele conseguiria transformar alguém? Deveria invadir um bar e arrastar um dos barmans? Ou então um jovem no meio da rua? Ou uma garota que trabalha numa loja de gibis?

Aquelas coisas levavam muito planejamento e cautela – e cautela era uma coisa que Erick não colocaria em seu currículo pessoal. Gostava de ser livre e de andar livre. Um bando de seguidores para ele cuidar estragariam todos os seus planos.

Foi só depois de suspirar e se espreguiçar no encosto do sofá que ele notou uma figura escura em cima dele. Ele se assustou com Henrique o encarando de um jeito intenso atrás do sofá.

— Pois não?! – ele ergueu os braços.

Henrique se ajeitou para ficar em pé.

— Como é isso de ser um Lobisomem? – perguntou. – Você vira um lobo mesmo?

Erick abriu a boca, mas então balançou a cabeça.

— Não dói? – ele continuou as perguntas. – Quando suas presas crescem?

— Por quê? Quer ser um Lobisomem?

Henrique não respondeu.

— Eu só viro Lobo na hora em que eu quiser. O que geralmente eu não tenho feito por que... Bem, eu não sou obrigado. E as presas não doem, é como ter dentes normais.

— Dentes normais não degolam pescoços.

— Dentes são dentes e cortam de qualquer forma- Erick bufou. – É só você colocar o tanto de força suficiente.

Henrique refletiu batendo os dentes audivelmente. O barulho era baixo, mas incomodou Erick de qualquer forma.

— Na Lua Cheia você se transforma?

— Na Lua Cheia eu me irrito – Erick suspirou. – Do mesmo jeito que estou ficando agora com tantas perguntas suas.

— Me desculpe – Henrique colocou as mãos nos bolsos. – Eu só estou tentando não endoidecer com tudo isso.

Isso Erick conseguia entender. Não era fácil mesmo engolir aquelas coisas no começo.

— Existem Vampiros?

— Sim. Mas o clã mais perto, para a minha sorte, vive no norte.

Henrique refletiu.

— Por que um deserto?

Erick deu de ombros.

— Por que não desertos? Eu não sei não gosto muito de Vampiros. Por razões obvias.

— Já se deparou com algum?

Erick balançou a cabeça.

— Eu tento não me envolver no problema dos outros.

Henrique riu.

— Qual a graça?

— É como se você estivesse falando sobre um bairro, cheio de casas – explicou o humano. – Tipo, casa dos Lobos, casa dos Vampiros, das Bruxas... Como se fossem de uma unica vizinhança.

Erick riu.

— A Vizinhança Sobrenatural. Podia dar um livro.

— Sim.

— E você? – o lobo se virou no sofá. – É amigo do Rafa?

O moreno moveu a boca, meio confuso.

— Eu não chamaria bem assim.

— Por que o ex dele quase te matou?

— Também – os olhos dele escureceram. – Mas não, não é só isso. Antes de tudo acontecer, nós estavámos nos entendendo.

Erick moveu a cabeça para trás, um pouco surpreso.

— Vocês ficaram?

— Foi um beijo – Henrique ergueu um dedo. – Mas foi debaixo do visco, então não conta.

— Conta se você gostou – Erick pegou uma almofada e a trouxe para o meio das pernas. – Você gostou?

Henrique fitou o nada por um instante.

— Não tenho certeza.

— Que loucura, ele é namorado do seu irmão.

— É – Henrique assentiu de um jeito apático. – Que loucura.

— Achou seu irmão? – Andressa questionou a Rita se sentando na bancada da pia.

— Sai daí garota! – Rita reclamou batendo nas pernas da caçadora. – Você vai quebrar!

Andressa a encarou chocada.

— Está me chamando de gorda?

— Estou dizendo que você vai quebrar – Rita riu. – E sim, eu o encontrei. Ao que parece estava saindo com alguns amigos. Nada de drogas nem nada.

Andressa assentiu.

— Eu invejo você por ter um irmão.

Rita franziu o cenho.

— Por que inveja?

— Não sei explicar – Andressa deu de ombros. – Acho que por que sempre me senti sozinha desde pequena. Como filha única, eu não tinha com quem ficar quando meus pais saiam para as missões deles.

— Eles te deixavam sozinha?

Andressa assentiu.

— Mas não se deixe enganar. Eu conseguia me virar sozinha.

— Conseguia cozinhar?

Andressa mordeu o lábio inferior.

— Eu tentava.

Rita sorriu.

— Mas essa solidão só durou até você conhecer o Fernando e o Edu né?

— Sim. Meu primeiro ano como caçadora foi tão turbulento. Eu tinha só doze anos e achava que nunca ia conseguir encontrar pessoas que não ficassem intimidadas comigo.

— Por causa do seu jeito?

— Por causa da minha familia – ela franziu a testa. – Qual o problema com o meu jeito?

— Nada – Rita abanou a mão na frente do rosto. – E como se conheceram?

— Bom Eduardo era bom estrategista – ela forçou a nome ao sair na garganta. – E o Fernando estava só por perto tão confuso quanto eu. Parecia perdido e não entendia bem o que era no começo. E isso foi muito dificil porque, ele achou que nós teriamos alguma espécie de preconceito.

— Não entendo – Rita franziu a testa. – Qual o problema de ele se transformar em um animal a noite?

— Era assim que pensavámos – Andressa a encarou com orgulho. – Fernando foi reconhecendo isso e até hoje é um dos melhores no que fazemos.

— Mas eu percebi que você está sempre tentando ser a melhor.

Andressa deu de ombros.

— Eu fui criada pra ser uma das melhores. Só não aceitei.

Rita assentiu.

— Minha familia também é assim. Meus pais são advogados e sempre me obrigavam a competir com o Marco. Mas quando eles nos davam as costas, eu sempre o ajudava. E depois riamos com isso.

— Parecem unidos mesmo.

Rita tocou uma corrente em seu pescoço e trouxe para fora o que parecia um medalhão de prata. Havia um símbolo de uma moto logo na frente, com penas enfeitando os cantos do desenho.

— E nós somos – ela o abriu.

Dentro do medalhão, uma foto cortada mostrava duas crianças pequenas. Uma de olhos verdes e a outra de olhos castanhos.

— Que lindo – Andressa tocou o medalhão. – Quem te deu?

— Meus pais – Rita sorriu e o fechou. – Acho que é alguma herança.

Andressa assentiu.

— É muito bonito.

Rita assentiu e jogou o cabelo cacheado por sobre o ombro. Andressa não conseguia acreditar que uma garota que parecia tão frágil como ela havia conseguido vencer de Leticia.

— O que ela disse para você?

Rita não precisou perguntar de quem ela estava falando.

— Que não estavámos de lados diferentes e que não queria nenhum mal com o Rafa. E que tinha um motivo para ela ter nos atacado desde o começo.

— Raiva?

— Um ritual – Rita balançou a cabeça. – Ela quer quebrar alguma maldição. Eu não sei bem o que era, mas quando perguntei, ela se recusou a me dizer.

Dessa assentiu.

— Talvez ela queira ressucitar os mortos.

Rita arregalou os olhos.

— Isso é possível?

Andressa sorriu.

— Você ainda se faz essa pergunta mesmo depois de nos conhecer?

Ela baixou os olhos claros de volta para o medalhão.

— É, acho que não pensei desse jeito.

— Vou te adiantar e dizer que todos os monstros que os pais dizem para as crianças não terem medo e que vivem debaixo das camas e dentro dos armários – ela chegou mais perto da humana. – São todos reais.

Rita ficou calada. Talvez estivesse assustada.

— Mas nós também somos – ela sacou uma adaga e a girou. – E somos quem acaba com eles.

Eduardo e Carla andavam lado a lado um do outro, ele com a arma na mão, ela com as garras proeminentes crispadas ao lado do corpo. O albúm com o cheiro de Roberto estava bem seguro dentro de uma mochila que ela carregava.

Eles andavam pela parte sul da cidade que era cheia de trilhas que se você soubesse muito bem andar nelas poderia chegar em outra cidade. Naquela parte da folresta, muito pássaros voavam longe antes mesmo de eles se aproximarem. Em parte por estarem assustados, em parte por saberem o que os dois eram.

— Estamos chegando perto? – Eduardo perguntou não desviando os olhos da frente.

Carla assentiu sem dizer nada.

— Sabe onde vai dar o final dessa trilha?

Ela poderia dizer que no final de um laguinho, mas apenas fez que sim com a cabeça.

— Vai conseguir me responder com a boca aberta algum dia?

Carla suspirou e parou de andar.

— Não enche.

Eduardo a imitou.

— Não enche.

— Muito cuidado, Dragomir! Eu já gosto muito de você!

— Eu não entendo de onde veio tanta raiva – ele riu. – Se é mais por eu ser um caçador ou pelo que aconteceu.

Carla o olhou sem acreditar.

— Não sinto nenhuma raiva da Andressa, mas se ela pega alguem que eu gosto e estou namorando, pode ter certeza que vou fazer o mesmo que fiz com você.

Ele mereceu aquilo, mas quando ela passou por ele não desistiu.

— Eu já pedi desculpas.

— Quando isso? – a Loba girou 360 graus para ele. – Acho que foi em algum episódio que eu não apareci.

— Tudo bem, então agora, me desculpa. Eu não escolhi me apaixonar pela sua namorada, está bem? Sinto muito que tenha sido errado e sinto muito você se sentir traída.

— Não sinta, por favor, não sinta – ela balançou a cabeça. – Apenas viva sua vida e eu vou viver a minha.

— Não vamos conseguir nos focar na missão enquanto não resolvermos isso Carla – ele a olhou nos olhos e eles pareciam fundos. – Vamos, me diga. O quanto de raiva você sente? O quão traída você se sente?

Ela balançou a cabeça.

— Meu nível de amargura no caso é zero. Eu não te odeio Eduardo – ela confessou. – Eu odeio que tenha acontecido logo comigo. Quer dizer que eu amei a toa esse tempo todo? Érika foi uma casca do amor que deveria sentir? Eu... Sei lá, eu tenho algo de errado?

O moreno ficou sem falas.

— Eu não digo o que estou sentindo porque não quero lidar com isso agora. Não só pela missão, mas é porque eu não aguento. Posso ser uma Loba sim, mas também sou humana. E toda essa dor pra mim não dá.

Ele engoliu em seco.

— Sabe que não pode esconder isso pra sempre, não sabe? Uma hora vai ter que colocar pra fora.

— E eu vou – ela o olhou friamente. – Quando estiver preparada.

Carla voltou a andar e ele a seguiu na trilha, sentindo uma leveza maior dessa vez em seus passos. Antes estavam distantes e cautelosos, esperando mesmo que um matasse o outro. Mas talvez para quem visse o problema de fora achasse que era assim.

A verdade era que era muito pior do que aquilo.

— Estamos chegando ao lago – Carla disse. – Tem uma espécie de substância com um cheiro diferente vindo de lá.

— E parece com o que?

— Com o que o Capuz é – ela deu de ombros. – Cheira como a morta também.

Eduardo levantou a arma.

— Se prepare porque teremos que lutar em breve.

Mesmo de costas, ele conseguiu ver um sorriso no rosto dela.

— Eu já nasci preparada.

Eles chegaram ao lago e encararam a àgua azul. Não muito longe dali uma cachoeirinha fazia um barulho de fundo que deixava o lugar muito tranquilo. Não parecia que Neemias poderia estar por ali.

— Está vendo ali?

Eduardo encarou confuso a àgua.

— O quê?

— Tem uma caverna escondida na cachoeira – informou Carla apontando com uma de suas garras. – O cheiro provavelmente deve vir dali de dentro.

Ele assentiu e ainda empunhando a àgua começou a andar até a borda. Carla o segurou pelo braço.

— Ei, e se for uma cilada?

Eduardo riu.

— Eles que tentem me pegar. Eu não vou cair tão facil nessa.

Ele parou na borda do lago e jogou as mãos para cima, como se estivesse em uma oração. Carla ainda se lembrava do poder do moreno no ano passado, mas não conseguiu deixar de ficar surpresa quando a àgua cristalizada do lago se elevou no ar e se transformou em um gêiser sobrenatural.

Edu guardou a arma dentro da calça e saltou sobre o gêiser, controlando a àgua para que ela ficasse sólida o bastante. Quando conseguiu se equilibrar, encarou Carla com um sorriso torto.

— Você vem?

Ele deu espaço e ela saltou. Os dois dividiram espaço no gêiser e Edu começou a empurrar o ar para que a àgua o levasse até a caverna. Parecia tranquilo controlando o elemento, mas Carla não parava de olhar a floresta ao redor e o alto, esperando por algo.

Concentrado, Eduardo avisou quando eles pararam perto da cachoeira agora barulhenta pela proximidade deles com ela. Carla pulou primeiro e fechou os olhos ao atravessar a cortina de àgua.

Logo depois, Eduardo surgiu ao seu lado na caverna escura. Os dois olharam a frente e perceberam que o lugar era grande no tamanho, mas não comprimento.

Era do mesmo tamanho que um corredor de hospital, só que sem saída no final. Eles andaram e Carla farejou.

— Está aqui. Em algum lugar.

Eduardo a olhou e ergueu a mão para uma bola de fogo iluminar o local.

— Não tem ninguém aqui – ele avaliou. – Não tem nada.

Carla assentiu, mas então seus olhos brilharam para algo.

— Espera.

Ela andou no chão de pedra e foi até o final do corredor. Havia algo no chão. Ela chegou perto e reconheceu o que só podia ser um pedaço de camisa. Quando leu as letras ali, seus olhos pularam para Eduardo com urgência.

— Corre!

Mas foi tarde. Na mesma hora um tremor se iniciou por toda a caverna. Mesmo desequilibrada ela saltou para a abertura quando o teto caiu em cima dela.

Antes de tudo escurecer ela viu Eduardo erguer as mãos como se tentasse parar algo. Parecia ter dado certo, mas então uma explosão soou alto em seus ouvidos.

E tudo foi soterrado por escrombos.

Rafa desceu as escadas de um jeito discreto, evitando chamar tanta atenção para si mesmo. O celular em seu bolso de repente pesava mil toneladas quando ele andava, mas tentou não deixar ninguém perceber.

Erick e Henrique estavam na sala, conversando em um tom normal enquanto seguravam suas almofadas. Andressa e Rita conversavam na cozinha, a caçadora estava sentada em cima da pia de mogno de sua mãe.

Todos pareciam envoltos em um clima bom, apesar da espera de notícias. Ele só percebeu que falatava alguém quando o loiro entrou pelo hall de um jeito arfante. Rafa o questionou com o olhar.

— Está tudo bem?

— Sim, sim – ele cruzou os dedos. – Está tudo ótimo.

Rafa cruzou os braços.

— Você está ansioso.

— E você não? – ele olhou para os lados. – Eles já estão fora a uma hora.

— Como se derrotar Neemias devesse durar um minuto – contra-atacou ele.

Fernando sorriu maliciosamente.

— Eu poderia tentar bater esse recorde.

Rafa balançou a cabeça.

— Como aguenta ficar fazendo piadas? – ele olhou para os outros. – E por que todo mundo está tão calmo?

— Você sabe por que – Fernando o olhou acusadoramente. – Todos nós merecemos um descanso.

Rafa riu.

— Eu pego minhas férias agora ou depois de um ano?

Fernando franziu a testa.

— Qual a graça?

Ele não respondeu e se controlou para não rir. Fernando sorriu também depois de um tempo.

— Você é tão estranho.

— Estranho por quê?

— Em uma hora fica histérico e em outra tenta fugir da gente. E então de repente intenso e depois solto e divertido – explicou. – Tem algum lado seu que eu deva me preparar pra conhecer?

Rafa fingiu pensar.

— Sim, existem outros cinquenta tons.

Fernando sorriu.

— Sempre fazendo piadas internas também. Um dia eu vou saber o que todas elas significam.

— Ah é? – Rafa desafiou. – Por que não começa hoje?

O loiro parecia prestes a responder quando as portas da entrada abriram em um rompante. Rafa olhou por sobre o ombro dele e viu Carla carregando um sujeito de roupas escuras.

— O que aconteceu?

Carla arrastou o moreno pela sala e Erick e Henrique saíram do sofá para que ela o deitasse ali. Rita e Andressa entraram no comodo.

— Edu? – Dessa olhou para Carla. – O que aconteceu?

— Era uma cilada – respondeu a Loba parecendo engasgar. – A caverna tremeu e depois explodiu. Eduardo me protegeu, mas não conseguiu proteger a ele mesmo.

Andressa olhou com pavor e começou a remexer nos bolsos da jaqueta. De um deles ela tirou uma Agulha Giante.

— Dessa? – Fernando se aproximou. – O que você vai fazer?

Ignorando ele e a todos os outros na sala, ela rasgou a frente da camisa dele e o espetou, bem de leve, no meio do peito.

Em segundos, Eduardo abriu os olhos e puxou uma camada intensa de ar. Depois de olhar para ela, seus olhos giraram nas órbitas e ele caiu de novo.

— Ele está...

— Ele está bem – Andressa suspirou e largou a Agulha sangrenta no chão. – Só inalou muito veneno.

Carla a olhou surpresa.

— Eu podia ter feito isso.

Andressa assentiu, mas não a olhou de volta. Parecia abalada.

— Sim, podia.

E todos se encararam com um embaraço.

— Ela só vai ficar sentada ali? Sem dizer nada? – Vick perguntou a Gabriella enquanto as duas olhavam Taffara sentada e impaciente.

— Ela não quer cooperar – Gabriella balançou a cabeça. – Ou ela sabe muito bem esconder ou...

— Sem essa, ela sabe que nós vamos tentar de tudo para fazê-la falar. Está se fazendo de dificil para desistirmos de tudo.

— Bom, está funcionando.

Vick a pegou pelo braço.

— Por favor, você tem que continuar pressionando – ela implorou. – Se ela sair daqui ilesa ninguém vai conseguir ficar em paz nessa cidade. E ela vai se vingar.

— Eu não posso fazer nada, Victória – Gabriella respondeu. – Se o celular fosse prova o suficiente para manter ela aqui... Acontece que não é.

Vick olhou o vidro de novo. Taffara sorria.

— Deixe que eu cuide disso.

— Vick, não – ela a pegou pelos ombros.

— Vick!

Ela se virou para a porta da delegacia e um homem alto um pouco calvo andava até elas duas.

— Pai? Como sabia que eu estava aqui?

— Uma amiga sua me ligou.

Ela olhou por sobre o ombro e viu Camila Alves morder os lábios e se recostar na parede. Fuzilou ela com os olhos. Guardaria aquela para depois.

— Pai eu só estou tentando resolver o caso.

— A policia pode resolver o caso sozinha – ele olhou Taffara lá dentro. – Essa garota não matou Diogo Barros. Você sabe disso.

Ela balançou a cabeça, cansada de ficar concordando com tudo o que os outros diziam para ela.

— Na verdade, eu não sei não. Eu só vim conseguir respostas, pai.

— Você não precisa disso fiha – retrucou num tom grave. – Deixe a familia deles em paz.

Ela cerrou os lábios e encarou Taffara também. Olhava o resto deles do outro lado do vidro com expressão inocente, sem na verdade vê-los. Ou será que a vadia conseguia ver?

Não importa. Ela não acreditaria nela em nenhum segundo. Taffara era falsa, tóxica e perigosa. E ela faria o que poderia para fazê-la contar tudo o que estava escondendo.

— Eu vou deixar depois que ela fazer as revelações que eu quero ouvir – Vick se virou para Gabriella. – Prenda-a se ela não falar nada.

Gabriella suspirou, mas assentiu.

O pai de Vick a encarou com o que podia chamar de decepção.

— Se precisar de mim estarei no carro.

— Disponha – ela olhou Camila Alves. – Eu já tenho carona.

O mais velho saiu andando e Camila o seguiu com o olhar até o estacionamento.

Ela parecia querer se desculpar, mas de algum jeito não se aproximou. Será que Vick estava fazendo alguma careta?

Será que ela estava agindo como... Taffara?

Quando olhou de novo para o vidro, esta sorria de um jeito glorioso.

Marco se sentava em um dos bancos do lado de fora da delegacia, observando o estacionamento vazio. O muro não era tão alto, então quando ele olhava, conseguia ter uma vista do céu limpido e espaçoso. E aquela visão tirava seu folego.

Mas o que mais tirava seu folego era saber que Diogo sabia do seu caso com Gabriella. Mas será que tinha sido... ele mesmo? Afinal de contas, o corpo dele já estava na casa de Rafa quando Marco recebeu a mensagem de manhã.

Não havia como.

A não ser que alguém tivesse pegado o celular dele e mandado a mensagem.

Mas quem?

Neemias?

— Por que me chamou aqui?

Marco se virou e Gabriella estava de braços cruzados, parecendo sentir frio dentro do terninho social.

— Oi pra você também – ele sorriu de lado. – Como está a investigação?

Ela olhou para os lados e sorriu um pouquinho antes de se sentar ao lado dele.

— Um saco. Aquela garota não quer falar e eu não consigo tirar nada dela.

— Taffara é osso duro de roer.

— Ela é uma vaca, isso sim! Pensa que pode enganar a gente, mas não pode!

— Como você sabe se ela está mentindo ou não? – ele questionou. – Quer dizer, ela só estava com o celular.

Gabriella o encarou.

— O que você quer dizer?

Ele franziu o cenho.

— Do que está falando?

— Parece que está do lado dela – Gabi cruzou os braços. – O que está escondendo?

— Nada! – ele se remexeu. – Só não acho que ela pode ter algo a ver com a morte dele.

— Sei – ela semicerrou os olhos. – Eu me lembro de você e ela conversando no shopping quando estava me espionando.

— Sim, mas o que isso tem a ver?

— Eu é que pergunto – ela se aproximou. – Qual a relação entre vocês dois?

Ele estava prestes a não dizer nada, quando de repente sua ficha caiu. Vick pegou o celular de Diogo na casa de Taffara. Ela ficou com ele o tempo todo desde a morte dele, certo?

Então... Ela sabia?

— Eu não tenho nada com ela.

— Demorou muito para responder – Gabriella revirou os olhos. – Está mentindo.

— Eu estou falando sério, nós não temos nada.

— Ela sabe de algo?

— Não!

Gabriella o fitou.

— Se alguém souber sobre nós dois Marco, pode ter certeza que nós vamos terminar.

Ele juntou os dedos na frente da boca.

— Minha boca é um tumulo.

Gabriella suspirou.

— Estou falando sério. Não só pela minha carreira, mas por você também. Eu não quero que ninguém faça nada com você por um erro que eu cometi.

— Gabi – ele pegou suas mãos. – Não comece.

Ela o olhou nos olhos.

— Quando eu te conheci, te achei muito parecido com os garotos do meu passado.

— Isso é um elogio?

— Mas aí – ela ignorou seu comentário. – Você se mostrou ser mais interessante do que qualquer outro cara. Tira a minha cabeça do lugar, faz meu coração ficar mais forte ao bater. Eu achava que teríamos algum futuro.

— E nós podemos ter – ele apertou suas mãos. – Nós podemos ter algum futuro.

Ela sorriu, mas então soltou suas mãos.

— Eu preciso voltar – ela o encarou. – Sobre o que queria falar?

Ele a fitou sem entender e ela esperou.

— Nada – ele sorriu e deu de ombros. – Só que gosto muito de você.

Ela se levantou friamente, mas então murmurou:

— Eu te amo.

E voltou para a delegacia.

Érika abriu os olhos e se encontrou em uma sala vermelha e branca. As paredes pareciam ondulantes quando ela as encarou. Não estava presa por cordas quando olhou para baixo, mas seu corpo pairava alguns centimetros do chão.

— Érika.

Ela se virou para o que parecia uma das paredes brancas, mas não tinha ninguém ali.

— Érika!

— Que foi?

— Érika, vem comigo – sussurrou a voz. – Venha comigo.

Ela seguiu o som da voz e tudo ao redor mudou com um borrão. De repente ela estava em uma casa, onde uma mulher parecia lavar a louça.

— Érika, pode ir buscar o Tom pra mim?

Ela a encarou confusa.

— Não se faça de surda, irmã.

— Quem é Tom?

A mulher pareceu se cansar e enrolou o cabelo castanho em um coque.

— Não comece de novo, Érika. Estou farta de você.

Ela se levantou de um sofá que nem sabia que estava deitada e ficou atrás da mulher.

— Quem é você?

A mulher suspirou.

— Eu sou a pessoa mais infeliz do mundo por te conhecer.

Ela se enfureceu e puxou a mulher pelo ombro.

— Quem é você?!

Mas quando olhou de repente o cabelo da mulher se soltou, longo e preto e ela conhecia seu rosto.

Era Carla.

— Eu sou a pessoa mais infeliz do mundo por te conhecer.

Ela gritou e empurrou-a contra o chão.

Carla sumiu no ar antes de espatifar na cozinha.

Alguém tocou seu ombro e ela se virou.

Eduardo a encarava intensamente.

— Eu acho que estou apaixonado por você.

Ela o empurrou.

— Edu.

— O que vamos fazer? – ele a puxou pelos braços. – Eu acho que estou apaixonado por você.

— Edu – ela entrelaçou seus dedos no cabelo do moreno. – Eu quero entender tudo o que está acontecendo.

Ele sorriu débilmente.

— Eu acho que estou apaixonado por você.

Ela o encarou confusa e de repente seus braços a apertavam com força demais.

— Edu – ela começou a ofegar. – Me larga, Edu.

— Eu acho que estou apaixonado por você – ele ria histéricamente. – Estou me apaixonando!

— EDU PARA! – ela o socou e rugiu.

A visão sumiu e de repente tudo estava escuro.

Agora ela estava em uma cafeteria e uma garota loira a encarava com um sorriso misterioso.

— Posso te acompanhar nesse drinque?

Ela franziu a testa.

— Lizz?

A caçadora sorriu e se aproximou.

— Quero saber mais sobre você.

Ela olhou para o refelxo do espelho na pia e viu que seu cabelo estava preto.

Seu rosto não era o seu.

Ela não era ela.

E então ela acordou.

Roberto sabia que tinha feito uma péssima escolha em tentar passar a perna em suas sequestradoras. Agora que elas sabiam que ele tinha bancado o espertinho para cima de Leticia, ele tinha ficado sozinho na jaula enquanto elas sumiam na névoa.

O que quer que fossem fazer com ele não podia ser pior do que tentar matar ele de tédio. Ou será que podiam?

Enquanto se recostava com desistência nas grades, ele pensou em Rafa. O que será que ele estava fazendo agora? Será que estava tentando vir atrás dele? Por mais que não aguentasse ficar ali desejou para que não.

Neemias estava armando para cima de seu namorado e suas intenções não eram nada boas. A única coisa que mantinha ele acordado ali agora era saber que pelo menos poderia dividir um lugar com ele na cela.

Por mais que os dois acabassem tendo um fim trágico.

— Causando turbulencias na minha missão, é?

Roberto se levantou do chão e encarou Neemias de braços cruzados pra ele com um sorriso levado. Seus olhos estavam castanhos e uma faísca de esperança o atingiu.

— Irmão?

Neemias riu e passou um dos dedos nas barras.

— Por que você age como se eu estivesse mesmo possuído?

Roberto engoliu em seco.

— Porque você está. Não é você, eu posso sentir.

— Claro que pode – ele riu com escárnio. – Pode sentir isso também?

Ele ficou confuso por alguns segundos até uma onda pesada se arremeter contra seus ombros e fazê-lo cair contra o chão.

— Era você?

O peso sumiu e ele o encarou enquanto seu peito subia e descia de forma irregular.

— Era você quem estava fazendo isso.

— E esse é só o começo do meu poder.

Neemias parecia vanglorioso, mas Roberto o conhecia de verdade. Ele era maldoso, mas também era divertido. Não aceditava que aquele era seu irmão mais novo que tinha carregado no colo por um tempo.

— É o poder do espirito, não seu.

Neemias revirou os olhos.

— Não sabe do que está falando. Eu sou o escolhido.

— Para morrer – Roberto assentiu. – Ele vai te usar e depois te descartar. E você vai morrer.

— Cala boca – ele riu. – Eu vou matar é seu namorado patético. Ele vai pagar por ser tão irritante.

— Irritante? – Roberto retrucou. – Você só vai matar ele porque ele foi irritante com você?

Neemias o encarou confuso.

— Pensa bem – ele tentou passar pelas barras. – Essa raiva toda é irracional. Não vem de você Mias. É essa coisa dentro de você que está te deixando perigoso e cruel. Nunca teve nada a ver com você.

— Não – ele piscou com dificuldade. – Esse sou eu, apenas eu. Não tem nada dentro de mim.

Roberto riu.

— Seus olhos ficam Dourados e quando você diz algo e sua voz fica grossa. Definitivamente não é você.

Neemias começou a segurar a cabeça, como se para impedir que o que quer que estivesse ali não saísse.

Roberto viu isso como uma oportunidade.

— Está vendo? – ele passou o rosto pela barra. – Você ainda é aquele garoto que eu ensinei a andar de bicicleta. Eu tirei suas rodinhas pra você.

Neemias tirou as mãos da cabeça e ficou de olhos fechados.

Quando ele os abriu estavam Dourados.

— Pelo visto você não desiste – a coisa dentro de Neemias sorriu e ergueu o dedo indicador.

Roberto foi jogado com tudo para o outro lado da grade. Sua cabeça doía, mas a visão daquele Neemias doentio era pior. Ele não podia acreditar que seu irmão estava perdido para sempre.

— DEIXE-O EM PAZ! – ele gritou para ele. – TRAGA MEU IRMÃO DE VOLTA!

— Não – o vilão sorriu e abaixou a mão. – Ele não quer ir.

Uma sombra escura tomou as partes expostas da jaula e Roberto arfou quando uma escuridão gélida o cobriu.

Quando a porta da sala de interrogatório se abriu de novo, Taffara ergueu o queixo com arrogancia para encarar Gabriella. A Detetive usava as mesmas roupas de antes, mas a expressão em seu rosto tinha deixado a ironia pela frieza de seu olhar sério.

— O que foi? – questionou risonha. – Faltam mais provas para me prender?

Gabriella não respondeu e tirou do bolso de trás da calça um objeto de metal que brilhou na luz da sala. Algemas.

— O que significa isso?

— Eu conversei com a Delegada – Gabriella abriu o objeto em dois. – Eles me deram permissão para te prender.

Taffara imaginou a cela e sua visão escureceu.

— Não – ela tremeu. – NÃO! NÃO PODE FAZER ISSO!

— Pare de chilique – Gabriella começou a andar até ela. – Você vai ser presa e não há nada que possa fazer.

— Mas...

— A não ser – a policial com as algemas abertas. – Que você me dê um nome.

Ela queria mesmo dizer, mas não tinha ideia de quem podia ser. Ela suspeitava de Henrique, da mesma forma que Vick suspeitava dela, mas não podia acusar um inocente. Não queria ser do mesmo nível que sua rival.

Precisava controlar seu desespero.

— Eu não tenho nomes para você – disse em alto e claro som. – Eu não sei quem matou Diogo.

Gabriella olhou para ela como se estivesse com pena.

— Eu sinto muito.

A policial a pegou pelos pulsos e os fechou no objeto.

Taffara sentiu o mundo escurecer enquanto ela a puxava da cadeira e dizia que ela tinha direito de não dizer nada que poderia ser usado contra ela no tribunal.

Mas então ela viu seu reflexo. Ela estava com o cabelo revolto e seu rosto estava pálido demais. Nem parecia a Rainha da Escola que todos temiam.

— Vamos andando – Gabriella ordenou. – Ou vou ter que fazer do meio dificil?

— Você não vai fazer nada – ela murmurou.

— Como é?!

— Isso mesmo que você ouviu – ela encarou a policial. – Você não vai fazer nada comigo. Porque eu sei que você e Marco tem um caso.

Os olhos claros de Gabriella se arregalaram tanto que ela achou que iriam explodir.

— Eu sei de vocês dois – Taffara sorriu sentindo o extase em seu sangue voltar para o cérebro com tudo. – Eu sei que estão mantendo a relação de vocês em segredo. Um menor de idade Gabi... Como você pode?

— Quem te contou sobre isso?

— Não importa – ela tocou as algemas em seu pulso. – Eu acho melhor você tirar isso de mim ou logo não vou ser a única a saber.

Gabriella fitou sem falar nada e começou a abrir as algemas. Depois que o fez, Taffara abriu os braços de um jeito extasiado.

— Isso foi divertido – ela piscou para ela. – Vamos fazer mais vezes.

E saiu da sala de interrogatório recitando que uma frase em sua mente que já tinha escutado muitas vezes. “A verdade realmente a libertava”.

Érika abriu seus olhos para o mundo real dessa vez.

Estava de volta para o escritório de Anna, os olhos girando pelo teto de modo incerto. Tinha ido a algum lugar, mas não sabia bem aonde. Só sabia que estava de volta e que isso era um alivio.

— Como foi?

Ela olhou para frente e os Juízes continuavam a encarando. Tomi de um jeito nervoso, Julia com preocupação e Belle com um sorriso de quem se divertia muito.

— Viu muita coisa em sua visão?

Ela balançou a cabeça.

— Eu não me lembro do que vi.

— Se lembra da gente? – Tomi questionou.

— Claro.

— Droga – Belle xingou. – Eu queria muito que não. Seria mais divertido.

Érika fungou e sentiu uma dor de cabeça.

— Me tirem daqui, por favor.

— Não podemos Érika – explicou Julia. – Nós temos uma reputação a zelar. Não podemos deixar você ir.

— Mas eu não fiz nada – ela fungou. – Eu não fiz nada demais. Me tirem essas cordas, pelo menos.

— Não – Belle riu. – Vou perder toda a minha diversão.

Érika abriu os olhos.

— Vocês três estavam comigo naquele dia. Deviam ser punido também.

— Não obrigada – Belle riu. – É muito melhor sair como inocente e ninguém suspeitar de nada.

— Mas é errado.

— E quem liga? – Tomi deu de ombros. – O bom é que sua raça existe. Assim podem pagar pelo que fizemos.

Érika sorriu.

— É, pelo que vocês fizeram.

Julia a olhou nervosamente.

— Qual a graça?

— Está é a graça – ela olhou cima. – Pode sair daí.

A Caçadora pulou da biblioteca e pousou com leveza na frente dos juízes.

— Lizz? – Belle engoliu em seco. – A quanto tempo você esteve aqui?

— O suficiente – ela olhou os três com desgosto. – Para ouvir o quanto vocês são irresponsáveis.

— Não, não, você entendeu errado – Julia riu histéricamente. – Foi culpa da Érika. Foi ela que jogou a bomba.

A loira deu de ombros.

— E eu deveria acreditar no que vocês dizem? – ela pegou uma faca e cortou as cordas de Érika rapidamente.

A Beta se soltou e afagou os pulsos e os braços nus.

— Vá embora – ela então olhou os juízes. – E vocês nem pensem em fugir. Eu já falei com Anna e ela está vindo.

Com um sorriso escondido para Julia, Tomi e Belle, Érika seguiu Lizz para sair do escritório de Anna. É ela estava mentindo sim.

Mas no seu caso a mentira era libertadora.

A casa de Rafa continuava silenciosa depois que Andressa ajudou Eduardo. Todos haviam decidido ficar lá embaixo enquanto ele havia inventado a desculpa de que iria se deitar. Não queria ficar ali com todos que pensavam que tudo estava perdido.

Olhou seu celular e depois a porta de seu quarto. Estava trancada e Fernando. Fernando e Erick haviam decidido sair com Carla para a Alfa explicar onde tudo havia acontecido.

Eles não voltariam tão cedo. E com Andressa preocupada com Edu, ela não estava pensando muito nele. E mais ninguém estava.

Sem hesitar, ele digitou alguns botões e ligou para o número da mensagem de antes.

No segundo toque, uma voz grossa atendeu:

— Capoci — Neemias atendeu e ele sentia o sorriso em sua voz. – Posso saber o que aconteceu com nosso doce encontro?

— Foi interrompido – ele sussurrou.

Neemias fez uma pausa.

— Eles não sabem que está me ligando – Não era uma pergunta.

— Não – ele engoliu em seco. – Por isso se certifique que isso seja rápido.

— Tudo bem – ele respondeu. – Me encontre no mesmo endereço de antes. Estarei lá com Roberto. Não ouse levar ninguém ou eu mato todo mundo.

Ele deveria se arrepiar com a voz, mas apenas sentiu alívio dentro dos pulmões.

— Ótimo. Estarei lá.

E então desligou.

Olhou mais uma vez por sobre o ombro e embaixo da porta. Ninguém tinha ouvido ninguém saberia.

E abriu as janelas do quarto, as mesmas que Fernando havia usado uma vez para entrar em seu quarto.

Vick estava tão faminta que não podia esperar por Gabriella prender Taffara. Decidiu ir até a Starbucks na mesma rua da Delegacia e comprar um Latte já que ficaria esperando.

Enquanto bebericava o café, viu dois carros familiares ao entrar pelo estacionamento. Um era de sua amiga Camila Alves, mas ela não estava ali. O outro era de seu pai e este a encarava do mesmo jeito de antes.

Bom ela não podia agradar todo mundo, podia? Mas era aquele ditado, vamo fazer o que?

Ela riu com o próprio pensamento e sacou uma rosquinha de dentro do saco de papel. Mas acabou se atrapalhando toda e seu celular caiu no chão.

Estava equilibrando as coisas em um só braço quando de repente uma mão pálida o pegou do chão e entregou a ela.

Ela olhou Taffara e sentiu seu rosto se retorcer.

— O que você está fazendo aqui?

— De nada – Taffara riu ao entregar o celular e ajeitou a bolsa ao lado do corpo. – Essa rosquinha não tem muitas calorias?

— Taffara – ela grunhiu e respirou fundo. – Como você veio parar aqui?!

— Ah, você sabe né querida – ela jogou o cabelo castanho por sobre o ombro. – Tenho meus meios.

Vick encarou enquanto ela passava por ela.

E a pegou pelo braço.

— Não! – ela cuspiu. – Você não pode estar se safando disso!

— Ah eu posso – Taffara riu. – Posso me safar de todo mundo que tiver segredos. Eu posso tudo enquanto ainda houver mais segredos seus e de todos os seus aliados – ela soltou o próprio braço. – Sou intocável.

— Não...

Mas Taffara já se afastava de salto alto pisando em sua confiança.

— Ao menos me diga um nome – ela arfou. – Ao menos me diga o que eu devo fazer. E onde devo procurar.

Por algum motivo, a Rainha da Escola parou e a encarou com os lábios franzidos.

— Por mais que eu odeie sua trupe de amigos, eles são muito piores que eu. Acredite em mim.

Andressa agora lavava as mãos na pia do banheiro do segundo andar, não sabendo bem se aquilo era anti higienico ou não.

De repente, sentiu uma presenã atrás de si, mas não se virou para encara-lá.

— Já acordou?

— Sim – Edu respondeu. – Fiquei alguns minutos deitados, mas acordei sim.

Ela assentiu sem dizer mais nada.

— O veneno deveria me deixar mais sonolento – ele continuou. – Mas você tirou ele todo, eu suponho.

Quando Andressa voltasse para a sala, ela socaria todo mundo, não querendo saber quem tinha contado a ele o que ela tinha feito.

Agora ele ficaria em seu pé.

— Muito obrigado – ele disse com uma voz embargada. – Eu poderia estar morto.

— Você deveria tomar cuidado – ela murmurou com indiferença. – Não deveria se colocar em risco de novo.

— Só vai me dizer isso?

Ela se virou e Eduardo com um curativo na camisa rasgada, mas seu rosto estava distorcido de desgosto.

— Carla não me odeia – ele deu de ombros. – Como você pode continuar com isso?

Ela riu com escarnio. Lá vinha o bom samaritano.

— Eu com certeza não sou a Carla – ela contestou. – E não tenho nenhuma obrigação de te perdoar por nada.

— Você tem razão, não tem. Mas Andressa eu me arrependo muito.

— Não é o que parece pra mim – ela pousou a cabeça de lado. – Pra mim parece mais querer perdoar a si mesmo.

— Talvez seja verdade – ele começou a andar em sua direção. – Mas eu não desisti da gente.

— Não existe a gente Eduardo – ela começou a se irritar. – Eu terminei tudo com você em caso de não ter entendido isso.

— Eu sei. Aquele seu gesto de me entregar a Agulha deixou isso bem claro.

— Então o que você ainda está fazendo aqui?

O moreno abriu a boca para falar, mas então se jogou na frente dela. Andressa ficou imóvel enquanto seu rosto ficava a centimetros do dela.

— Edu – ela avisou.

— Dessa – ele sussurrou. – Por favor. Eu não aguento mais.

Ela podia sentir pelo tom de voz dele que ele não aguentava mais. Seus olhos escuros estavam cansados e brilhavam com as lágrimas ameaçando sair.

— Volte pra mim – ele exigiu tocando seu cabelo. – Volte para o meu amor.

Ela balançou a cabeça.

— Nunca existiu amor – ela fungou e percebeu com ódio que também chorava. – Não posso voltar para o que nunca teve.

Ele implorou com os olhos, mas Andressa se soltou dele e foi para a outra extremidade da pia.

— Você fode com tudo – ela riu apesar do choro. – Fode com tudo mesmo Eduardo! Afasta todo mundo de você e depois quer que nós voltemos como se nada nunca tivesse acontecido!

Ele a encarou sem expressão.

— E ainda pede desculpas – ela secou as mãos em um pano. – Eu não posso te perdoar por nada se você não souber bem o que quer.

— Eu sei o que eu quero – ele afirmou. – Quero voltar com você.

Andressa fungou e respirou fundo.

— Você precisa seguir em frente. Porque eu nunca vou voltar para você.

Apesar da expressão morta do moreno, ela saiu da cozinha evitando olhar para ele quando começou a chorar. A dor em seu peito era maior que a dele e ela queria muito que ele entendesse isso ao invés de ficar só implorando.

Ela não sabia se queria ele. Não sabia se não queria.

Só queria paz.

Quando Marco entrou na delegacia notou que estava tudo muito calmo. Como um céu escuro só esperando a hora para cair sua chuva na terra.

Ele passou pela sala de interrogatório e ficou surpreso ao ver que não havia ninguém ali dentro.

Nem sinal de Taffara ou Vick.

Confuso, ele andou até um corredor que mais parecia o vestíario e passou por uma portinha que levava até as salas dos investigadores especiais.

Uma policial loira toda de preto o olhou com irritação, mas não questionou por que ele estava ali.

Ele andou até o escritório de Gabriella e bateu na porta timidamente.

— Entra.

Ele o fez imediatamente e encontrou Gabriella sentada atrás de sua mesa. Parecia preocupada com sua papelada e fazia biquinhos sem sentidos para cada papel que erguia.

— Hey policial – ele sorriu. – Posso dar uma palavrinha com a senhora.

— Feche a porta, Marco Antônio.

Ele franziu a testa, mas o fez também.

— Não precisa encenar tanto – ele avisou. – E aí, o que aconteceu com a Taffara?

Gabriella o encarou brevemente e largou a papelada na mesa.

— Eu a soltei.

Ele ficou surpreso.

— Que bom – ele se sentou na cadeira de frente para ela. – Ouviu a voz da razão, o que é bom.

A Detetive continuava de cara amarrada.

— Qual o problema? – ele questionou. – Eu fiz algo?

— O motivo pelo qual eu soltei Taffara Kauane – ela respondeu de modo frio. – É porque ela me chantageou.

Marco esperou que fosse alguma brincadeira.

Mas ela não estava rindo.

— Chantageou? – ele questionou. – Com o quê ela te chantagearia?

— Acho que isso você sabe.

Ele ficou em silêncio encarando Gabriella com temor, torcendo para que não fosse nada daquilo que ele estava pensando.

A Detetive pareceu se cansar.

— Foi alguma aposta entre vocês dois?

— O que?

— Isso tudo – ela gesticulou dela para ele. – Foi uma aposta? Porque se foi, olha, eu tenho que admitir que você mereceu seu prêmio.

— Gabi – a voz dele tremia. – Do que está falando? – questionou mesmo sabendo do que ela estava falando.

— Quantas amigas suas sabem sobre nós?! – ela explodiu de raiva. – Vick? Camila? Sua irmã Rita também sabe?

Ele engoliu em seco.

— Gabi – ele sussurrou encarando o chão. – Eu posso explicar.

Gabriella se levantou da mesa.

— Eu cansei de ouvir sua voz – ela olhou para a porta. – Quero que saia desse escritório agora mesmo, Marco Antônio. E não entre nunca mais.

Apesar das duras palavras o tom dela foi calmo. Simpático, até. Marco fitou a cadeira enquanto se levantava e ia até o meio da sala. As palavras de Gabriella do lado de fora foram repassadas em sua mente. Sobre como ela se sentiu quando o conheceu. Mas também sobre o que aconteceria se alguém soubesse sobre os dois.

Estava tudo acabado.

— Então ele pediu a menina em noivado? – Vicente riu com escarnio. – Uau! Isso é tão foda!

Rael fuzilou o amigo com os olhos e arremessou um travesseiro em sua cabeça. Vicente só riu mais ainda enquanto ele circulava o quarto com o celular nas mãos. Por mais que tivesse ligado mais de vinte vezes, Gabriel não atendia o celular e seu coração ia ficando cada vez mais acelerado.

Tentou imaginar o que ele estava fazendo e só conseguiu vizualizar imagens de Déb tomando café perto dele, deitada com ele em sua cama, na cama deles, o tal “Ninho de amor” e só conseguiu sentir a ânsia de vomito voltar.

Gabriel era um mentiroso do caralho e ele deveria abandoná-lo de vez depois daquela visita. Mas por algum motivo ele precisava desabafar, e não só com Vicente, precisava cuspir toda a verdade na cara de Gabriel.

Ou na tela do celular.

A moça do recado apitou no ouvido dele novamente e com frustração ele atirou o celular contra a parede. O problema era que ele errou e o celular caiu em cima de seu travesseiro com um baque surdo. Como se estivesse zombando por ele não conseguir nem quebrar um celular.

— Ei, relaxa – Vicente se sentou na cama de Rael. – Só esquece isso. Deixa ele pra lá.

Rael balançou a cabeça.

— Eu só vou conseguir deixar pra lá quando eu acertar a cara dele!

Os olhos de Vicente brilharam.

— Vai bater nele?

O outro bufou.

— Claro que não! Só vou jogar as verdades na cara dele. Só isso.

Vicente murchou.

— Você é tão chato.

— E Gabriel é um filho da puta.

— Ei, ei, ei – Vicente riu se levantando e o pegou pelos ombros. – Por mais que eu ache foda você xingando ele sem parar, você tem que se acalmar, Coelhinho!

— ESSA PIADA PERDEU A GRAÇA!

— CALMA – Vicente riu apesar dos gritos. – Você não pode ficar assim ou é ele quem vai ganhar espaço!

— Espaço onde?

Vicente inchou as bochechas pensando e então tocou a testa de Rael.

— Aqui – ele comentou. – Você vai perder sua mente desse jeito.

Rael suspirou.

— Eu não possso evitar. Ele me tirou toda paz.

— Isso é impossível, a paz é da cabeça e não do corpo.

— Como você está filosófico – ele se sentou na cama. – Muito obrigado por me confortar. Mas não vai dar certo.

Vicente se sentou do seu lado.

— E o que ajudaria?

Rael não soube bem responder a pergunta e não entendeu porque o silencio pairou entre os dois depois da pergunta do outro. Focado, ele se arrastou no colchão e pegou o celular de novo.

— O que você vai fazer agora?

— Vou ligar de novo.

— Mas você ligou trinta vezes!

— Vinte – ele sacou o aparelho e começou a digitar os botões de novo. – Mas quem está contando? O trouxa aqui!

Vicente revirou os olhos e tocou o dispositivo.

— Rael solte – ele avisou.

— Não posso – o outro arfou. – E não quero.

— Rael – ele ficou frente a frente com ele. – Solte.

Não sabendo bem porque e como, ele deixou seus dedos afrouxarem e Vicente jogou o celular longe. Dessa vez o baque foi audível.

— Viu só? – Vicente o agarrou pelos ombros. – Você conseguiu.

— É – Rael coçou os olhos. – Eu consegui.

Ele levantou a cabeça e seus olhos se encontraram. Vicente o olhava e sorriu.

E por algum motivo o eles o beijou.

Foi alto, como um estaco, mas os dois se encararam confusos.

De repente, Vicente retribuiu o beijo e se deixou levar. Os dois afundaram na cama de Rael e deitaram em cima dos travesseiros.

Ele não sabia bem o que estava acontecendo, mas quando Vicente tirou sua camisa e ele puxou o cobertor para cobrir os dois, sabia bem o que iriam fazer.

E por algum motivo não pareceu errado.

Fernando, Erick e Carla entraram na casa dos Capoci quando o sol já estava ficando baixo. Na sala, Eduardo já não estava mais deitado e Henrique e Rita pareciam duas pedras decrépitas em cada lado da sala.

Da cozinha, Andressa atravessou o arco com os olhos vermelhos. O loiro queria perguntar para ela o que estava acontecendo, mas de repente notou algo com pavor.

— Onde ele está?

Andressa franziu a testa, mas com um olhar para o segundo andar, compreendeu.

— Eu não sei. Lá em cima?

O loiro subiu correndo pelas escadas e passou por todas as portas abertas no corredor. Nada de Rafa. Nada do Capoci.

No dejá-vu do dia anterior, ele notou que estava no lugar do cujo que tanto procurava. Mas aquilo estava longe de deixá-lo só em pânico.

— Ele se foi – Eduardo de repente estava ali em cima com algo nas mãos. Um papel.

O loiro foi até ele e puxou o objeto com tanta força que quase rasgou.

Escrita em caligrafia cursiva e apressada, estavam as letras do que só podia ser Rafa, formando uma frase.

Não venham atrás de mim.

O beco quase escuro pela chegada da noite não intimidou Rafa e ele continuou em frente. Ele não correria, ele não iria embora. Precisava ver Roberto.

Na luz do poste, duas sombras pareciam estar reprimidas contra uma parede se escondendo dela. Ele andou os dois e parou alguns passos antes.

— Você veio – a voz rouca sibilou. – E sozinho, como o programado.

Rafa assentiu.

— Agora me dê ele.

Uma risadinha vinda detrás dele fez sua nuca se arrepiar.

— Quanta pressa, viado.

Ele se virou confuso e o que viu congelou sua alma.

— Marta?

A amiga de pele morena parecia pálida de um jeito sobrenatural. De um jeito inexplicavelmente sobrenatural.

— Pois é Capoci – ela o olhou por sobre o ombro. – Eu mesma.

Ele seguiu seu olhar e arfou.

As duas sombras se revelaram Brad e um outro jogador de futebol. Os dois tinham olhos Vermelhos vivídos. Quando encarou a velha amiga, seus olhos tinham o mesmo tom.

— Você...

Mas ele mal conseguiu terminar quando algo o acertou. E ele desmaiou.

Novamente.