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9 Golden Eyes
Notas iniciais
Fernando fechou todas as portas do quarto com força bruta, sentindo um arrepio a cada porta aberta e a cada cômodo vazio. Não, não e não. Ele não tinha feito isso. Seria imperdoável se ele fizesse isso com eles. Seria imperdoável se ele fizesse isso com ele.
— Eu não entendo – desabafou para Edu, que o seguia pelos quartos. – Por que ele faria isso se estava tão protegido aqui? – se virou para encarar o amigo. – Se tínhamos toda a proteção?
Andressa, que estava na soleira do quarto, respondeu:
— Rafa não precisava de proteção. Precisava encontrar o namorado dele. Então na primeira oportunidade que teve – ela deu de ombros. – Ele fugiu.
Fernando semicerrou os olhos para ela e depois para o parceiro de batalha.
— Ele fugiu— repetiu com escarnio. – Se vocês dois não estivessem tão ocupados em parar com o draminha de vocês só para ficar de olho em uma pessoa, só uma pessoa, ele ainda estaria aqui!
— Fê, por favor, relaxe – Eduardo pediu. – Nós sentimos muito por ter deixado ele fazer isso. Mas relaxe, ele não deve ter ido muito longe!
Andressa bufou.
— Será que você não compreende nada? – ela andou até o centro do quarto e olhou Fernando. – Ele foi atrás de Neemias. Foi se encontrar com ele, não existe essa de muito longe, ele se foi.
— Tem que ter algo que possamos fazer – Fernando murmurou com os olhos fixos no assoalho.
— Seja lá o que for fazer, acho melhor deixar para outra hora.
Os três encararam Carla na porta do quarto.
— O que está acontecendo? – questionou Andressa.
— O irmão do Rafa. Ele chegou.
***
No segundo andar, Roger segurava uma sacola de papel pardo com cheiro forte de café enquanto olhava os convidados indesejados em sua casa. Olhou de lado para Rita com um sorriso zombeteiro.
— Você é a irmã do Marco – ele riu enquanto equilibrava a sacola nos braços. – Você é gata.
— Sim, você deve ser o irmão do Rafa – Rita moveu o peso de um pé para o outro enquanto sorria de volta. – Eu não sabia que era você.
— Eu em pessoa – o mais novo estufou o peito. – Você é muito gostosa, sabia?
— Ei – Erick cruzou os braços. – Olha lá como fala.
O olhar de Roger para o lobo foi frio.
— Eu olho muito bem o que eu falo – ele o mediu com o olhar. – Por que está usando roupa de militar?
Erick franziu os lábios e olhou de um lado para o outro, perdido.
— Não seja por isso – ele começou a tirar a camisa.
Enquanto Rogério gemia de pavor, Carla, Andressa, Fernando e Eduardo desceram as escadas avaliando-o com cautela.
— Uau – Roger sorriu. – Tá rolando alguma suruba aqui?
Andressa e Fernando se encararam.
— Mais ou menos – brincou Dessa.
— Onde está o viado do meu irmão?
— Ele saiu – Fernando respondeu na mesma hora.
— Sério? Pra onde?
— É – o loiro girou os olhos pela sala. – Web Designer Online.
Roger assentiu com os olhos desconfiados.
— Ele está dentro da revista da enciclopédia do meu pai? – ele seguiu o olhar de Fernando. – Você não é tão criativo assim.
— Ele foi até a casa de uma amiga nossa – Carla se colocou para frente. – Estávamos indo encontrar ela agora mesmo.
— Então por que ele foi primeiro que vocês? – ele avaliou a todos e pairou seus olhos sobre Henrique, que estava de braços cruzados. – Eu conheço você. Você tava afim do meu irmão. Pensei que tinha sumido.
Henrique sorriu.
— Muito obrigado por ser tão sútil, Roger.
— Roger é para os próximos – retrucou o loiro e ajeitou a sacola novamente. – Vocês vão me contar o que tá acontecendo com o meu irmão ou eu vou ter que sair da sala e fingir que não quero saber de nada?
— Opção dois – disse Eduardo com a voz embargada. – Olha, seu irmão foi até um lugar muito longe, é só o que precisa saber. Nós estamos indo busca-lo.
Roger assentiu.
— Eu conheço essa história – ele passou por todos na sala sem olhar fixo para nenhum rosto, mas então parou na soleira. – Ele vai voltar, não vai?
Os olhos de Fernando brilhavam.
— Eu prometo que sim.
Rogério encarou o loiro intensamente antes de dar de ombros e entrar na cozinha.
Os outros se encararam mutuamente com mais alivio no rosto.
— O que vamos fazer? – cochichou Carla.
— Cochichar menos e sequestrar o irmão do Rafa? – questionou Erick com impaciência na expressão.
— Nós temos que trazê-lo de volta – Rita se virou para Andressa e Fernando. – Por favor, tem que haver algum jeito.
— Não tem – Carla balançou a cabeça e tirou do bolso o que parecia ser um bilhete. – Nós fomos avisados.
Se mais alguém tentar salvar Roberto, eu vou fazer o mesmo.
— Estavámos na caverna quando li isso – prosseguiu a Alfa. – Se tentarmos irmos ir até lá de novo, podemos morrer.
— Eu não ligo – Fernando balançou a cabeça. – Vou correr o risco.
Eduardo olhou o amigo com intensidade.
— Você em certeza?
O loiro assentiu.
— Então estou com você.
Andressa descruzou os braços.
— Eu também.
Os três se viraram para Erick e Carla na espera.
— Parece um suicidio – Erick suspirou. – Mas vocês têm a mim.
Carla, depois de fuzilar o outro Alfa com os olhos, suspirou.
— Tudo bem. Eu também irei ajudar.
Fernando sorriu para os quatro ali e encarou o final do dia com expectativa.
— Vamos atrás do Rafa.
Rita sorriu por dentro para o loiro. Ele e Rafa eram só amigos, apenas companheiros e ele estava disposto a correr um risco que ninguém ali queria correr. Aquilo era um ato de um homem de verdade.
Mas então uma pontada nervosa atingiu Rita e ela se virou para as janelas da sala. Uma sombra projetava ali e parecia estar encarando ela.
Quando ela respirou, a sombra sumiu tão rápido quanto poderia ser notada.
Fazendo ela se perguntar se era real ou não.
O que se passava pela cabeça de Rafa enquanto seus olhos continuavam fechados eram seus pais. Ele vizualizava os rostos deles e a última expressão que havia visto de cada um. O pai estava sério, porém resignado ao dizer tchau antes de partir para mais uma viajem a trabalho. A mãe soprava um beijo antes de pedir que ele olhasse a casa e cuidasse do seu irmão.
Os dois iam para longe, mas a visão de Roger ficava.
Ao contrário da expressão seca que sempre fazia quando o via, agora ele o fitava com o que parecia preocupação enquanto recostava os cotovelos na bancada da pia. Parecia olhar algo por sobre o ombro com preocupação e coçava os olhos na hora de tirar as compras de dentro de um saco de papel pardo.
Estava chorando?
— Rafa! – ele disse com os olhos ainda fixos nas sacolas. – RAFA ACORDA!
Rafa piscou não entendendo.
— RAFA! RAFA ACORDA AGORA!
De repente não era Roger e sim Roberto e seus olhos se abriram.
Havia um nevoeiro que os olhos de Rafa tiveram que se adaptar antes que ele soubesse onde estava.
Mas mesmo assim, não sabia.
— Rafa.
Ele olhou para cima e viu Roberto. O rosto do namorado não estava encoberto em nenhuma névoa, mas parecia haver algo errado com ele que Rafa não soube identificar de primeira.
— Roberto – ele engoliu em seco. – Só fique bem ai, eu vou te salvar.
Ele parecia querer dizer algo, mas Rafa não esperou. Foi para frente correndo e sentiu o impulso de algo o progjetando de volta para o chão. O barulho tilintante das correntes o fizeram piscar para olhar para baixo.
Haviam correntes de cor de ferrugem enroscadas em seus pulsos e em suas pernas, amassando a calça. A caustrofobia se arrastou por Rafa devagar. Ele estava preso.
— Rafa, você precisa ir embora – Roberto arfava do outro lado da névoa. – Por favor, vá embora logo!
— Não, Rob, do que está falando? Eu vim por você.
— Não deveria – o outro balançou a cabeça com temor.
Rafa olhou confuso, mas então entendeu tudo através da névoa. Roberto estava atrás de barras e envolto no que só poderia ser uma jaula de passarinho em tamanho humano.
— Divertido né?
Ele olhou para cima e levou um susto quando duas figuras usando roupas escuras apareceram. Neemias e Marta sorriam com a situação dos dois.
— Mas que diabos? – ele encarou Marta e se recordou de seus olhos Vermelhos. – O que você está fazendo aqui?
A velha amiga revirou os olhos.
— É sério que você ainda está fazendo perguntas?
Ele encarou confuso, mas então a luz se acendeu em sua cabeça. A terceira garota. Uma Vampira.
— Você – ele sussurrou. – Você trabalha pra ele! – apontou para Neemias.
— Finalmente – ela sorriu trazendo as presas brancas para frente. – Eu achei que demoraria muito para entender.
— Mas por quê? Achei que fossemos amigos!
— Capoci, Capoci – Neemias interveu entre os dois. – Acho que você tem que entender também que nem tudo tem a ver com você. Marta sempre quis ser uma Vampira.
Ele olhou sem acreditar enquanto a morena saltitava, a saia curta mostrando as coxas acizentadas.
— É uma beleza estar morta!
— Você a transformou? – questionou para Neemias.
— Eu pareço um Vampiro pra você – ele balançou a cabeça. – Também não te interessa isso. Só o que importa é que você está aqui e podemos começar.
— Começar com o que?
— Está tudo pronto, chefe.
Leticia surgiu do outro lado da névoa, andando a passos normais e ritmicos. Quando notou Rafa ali, seu rosto ficou pálido, mas ela não disse nada.
— E quanto a Carolina? – Neemias perguntou sem se virar.
— Aqui – A Atiradora surgiu atrás de Rafa. Encarou ele com um sorriso mortal. – Como é a sensação de sentir que nada acabou?
— Vá pro inferno! – ele se afastou dela no chão.
Ela riu e jogou o cabelo por sobre o ombro.
— Vai ser um prazer finalmente poder me vingar pelo ano passado.
— Basta – o Espirito dentro de Neemias tomou as rédeas e Carolina se postrou ao seu lado. – Marta, ligue Brad e Jensen e diga para se prepararem. Eles virão atrás de Rafael e não podemos perder tempo.
— O que vão fazer? – Rafa questionou enquanto pensava em Fernando, o loiro jamais perdoaria ele pelo que ele tinha feito.
— Não é obvio? – os olhos Dourados do outro voltaram junto com um sorriso paralisante. – Eu vou matar todos os seus amigos. E depois vocês dois.
Quando os olhos de Rael se abriram naquela manhã, ele se sentiu bem... Diferente. Havia algo no jeito como o sol entrava pela janela aberta de seu quarto que trazia uma energia boa. Ele se espreguiçou em sua cama e jogou os braços atrás da nuca enquanto se virava para o lado. Sua boca fez um O quando viu quem estava deitado sem camisa ao seu lado.
Com as cobertas de Rael o cobrindo até a cintura, Vicente dormia profundamente, os olhos fechados deixando seu rosto todo limpo. Ele nunca tinha notado o quanto a pele dele era bonita ou no quanto ele era bonito já que vivia rindo de jeito malicioso.
E agora ele estava ali ao seu lado depois de os dois terem ficado na noite passada. Por mais que Rael estivesse estressado na noite passada, se lembrava muito bem que não havia sido só uma ficada. Não tinha razões para ele se achar puritano, mas é que ele não fazia aquilo desde o Natal do ano retrasado, com Rafa. E desde o ex nunca tinha experimentado com ninguém, ou não queria experimentar com ninguém.
Mas Vicente tinha sido muito bom na coisa toda do sexo sem preservativo. Tinha sido paciente na hora H e bruto na hora em que ele precisava. Transava muito bem, mesmo Rael só tendo experimentado uma única vez antes dele. E aquele cabelo platinado na frente... Huuum.
E o incrível também é que ele parecia ter gostado de tudo. Parecia ter gostado de Rael. Ele era afim dele ou alguma coisa do tipo? Como ele não tinha notado se fosse esse o caso? Pensou em todas às vezes em que ele falava de Gabriel e no jantar em que tiveram todos juntos. Ele estava com... Ciúmes dele?
Vicente se remexeu de repente ao seu lado e Rael piscou esperando ele o encarar de volta. Ele o olhou e ele esperou que ele gemesse de pavor ou gritasse, mas então, apenas sorriu.
— Bom dia, luz do dia – ele coçou os olhos com os pulsos. – Dormiu bem?
— Aham – Rael fingiu tocar um fio invisível na coberta. – Dormi muito bem.
Vicente se sentou e se recostou na parede acima da cama. Colocou os braços atrás do pescoço e olhou de cima para ele com uma grande interrogação no olhar.
— Tem algo de errado comigo?
— C-com você? – Rael balançou a cabeça. – Não, não tem nada de errado. Por quê?
— Porque você está me encarando – Vicente afirmou.
— Ah – Rael deu de ombros. – É, estou sim.
O outro balançou o cabelo platinado.
— Acho que estou com fome e tenho quase certeza que foi por causa de ontem à noite – ele lançou a Rael um olhar diabólico. – Você se lembra de ontem né?
— Lembro claro – Rael mordeu o lábio inferior sentindo sua temperatura aumentar. – Quer dizer, como eu poderia esquecer? Foi aqui na minha cama.
Vicente fechou os olhos e sorriu com a boca aberta.
— É, foi mesmo aqui.
Rael não conseguia acreditar que ele estava mesmo dizendo aquelas palavras, então afagou a coberta novamente fitando o peito do outro enquanto pensava.
— Você gostou mesmo?
— Está brincando?! – Vicente se remexeu agitado. – Eu nunca fiz uma coisa tão boa como essa na minha vida!
Rael enrubesceu com o jeito que ele estava interpretando tudo aquilo.
— Quer dizer que você nunca tinha feito isso antes? – ele piscou. – Eu pensei que você era bi.
— E eu sou – ele lhe devolveu um sorriso torto. – Só não tinha experimentado fazer algo assim até agora.
— Meu Deus – Rael levou as mãos ao rosto.
— O que foi?
— Eu tirando sua inocência – ele sacudiu a cabeça. – Não acredito que fiz isso.
— Pois é, nem eu! – Vicente exclamou como se os dois estivessem falando de futebol ou algo do tipo.
— Mas por que comigo? Por que logo comigo?
Vicente deu de ombros e os olhos escuros viajaram pelo quarto.
— Não sei explicar bem. Mas acho que eu já estava querendo isso com você.
Rael franziu os lábios.
— Só nunca tinha tido coragem para fazer nada.
— Você não ter coragem para fazer nada? – Foi a vez de Rael rir. – Está zoando comigo.
— Não estou – Vicente respondeu com intensidade. – Estou falando sério, Coelhinho. Acho que gosto mesmo de você.
Rael quis sorrir por dentro, mas sua cabeça deu muitas voltas. Como ele havia conseguido ir de Catherine de o Morro dos Ventos Uivantes para Lolita em menos de vinte e quatro horas? Vicente era bonito e gostoso, e agora estava se declarando para ele. Como proceder?
— E o que vamos fazer agora? – ele se sentou ao seu lado.
Vicente deu de ombros.
— Ser amigos está fora de cogitação – comentou.
— Não conseguiria?
— Eu não iria querer – corrigiu o outro se virando para olha-lo.
Os dois se encararam por um longo tempo até escutarem os barulhos de portas no apartamento e as vozes da irmã de Rael e sua mãe. Ele se levantou, achando melhor ir ver o que elas estavam fazendo antes que vissem o que ele e seus hóspedes tinham feito.
— Pode me trazer um café? Se não for pedir muito?
Rael se virou e Vicente o encarava de um jeito enigmático enquanto ele colocava as roupas na sua frente. Por algum motivo a nudez não o estava deixando nada desconfortável, pela primeira vez.
— Claro – sorriu.
Ele foi até a porta e a abriu.
— Gabriel?
O garoto o olhou com os olhos castanhos curiosos.
— Hey – ele sorriu todo doce. – Está ocupado?
Aquela porta só podia ser a entrada para o quarto particular de Hades.
— Que porra você está fazendo aqui? – ele engasgou.
— Eu só pensei em te compensar por ontem – o outro se explicou. – Minha mãe disse que você foi em casa.
— Rael? Quem está ai?
Gabriel olhou confuso por sobre o ombro dele. Ahhh não.
— Quê? – ele piscou. – Que porra é essa Rael?!
— Que porra é essa?! – ele olhou de Vicente para Gabriel com a cabeça girando mais do que 360°. — Eu é que pergunto.
— Do que está falando? – ele fuzilou Vicente com os olhos. – E eu não acredito que está fodendo com esse filho da mãe!
— Isso não te diz respeito – Rael arfou.
Gabriel exalou alto e saiu andando pelo corredor, mas não antes de ele gritar:
— VAI ATRÁS DA SUA NOIVA!
O garoto de cabelo escovinha parou no meio do corredor e o olhou com a testa franzida.
— De que merda você está falando agora seu puto?!
— Eu fui até a sua casa e eu vi Déb – ele andou até ficar no meio do corredor. – Ela e sua mãe me disseram tudo se chamando de sogra e nora.
Gabriel balançou a cabeça.
— Que droga – ele colocou as mãos na frente do rosto. – O que está acontecendo? Por que ela faria isso?
— Ela quem?
— Minha mãe! – Gabriel explodiu com sua voz no corredor. – Eu não acredito que ela se entregou a Débora desse jeito.
— Gabriel, do que está falando?
— As duas não me aceitam pelo que eu sou. Não querem que eu fique com você e não querem que eu seja gay.
As paredes do corredor começaram a se fechar.
— É o quê?
— Débora é fanática em mim – Gabriel piscou. – E minha mãe é uma católica irrecuperável e fascista. Não existe nada que ela não faria para me impedir – ele encontrou seus olhos. – E para fazer você pensar que eu nunca te quis.
Rael engoliu em seco. Aquilo não estava acontecendo. Essa não era a vida dele e sim uma vida de uma adolescente americana dramática. Então Gabriel não era o mentiroso filho da puta safado pra quem ele tinha ligado tantas vezes na noite anterior?
— E você aqui se pegando com ele! – Gabriel apontou para Vicente na porta.
— Eu não sabia que você... – ele se interrompeu e deu de ombros. – O que importa de qualquer forma? Eu te liguei mais de vinte vezes! O que aconteceu com a droga do seu celular?
— A droga do meu celular quebrou o pino de entrada – Gabriel sacou um aparelho com capa dourada. – Pode checar se quiser.
Rael pegou o dispositivo e o encarou brevemente. O minúsculo buraco estava partido ao meio. Que morte mais sofrida.
— Eu não sabia.
Gabriel balançou a cabeça, os olhos ainda em Vicente.
— Se ao menos você esperasse para ouvir o que eu tinha pra te dizer – comentou em uma voz amargurada.
— O que quer dizer com isso?
Ele retorceu o queixo com raiva.
— Eu ia te pedir em namoro. O anel que você provavelmente viu com a Débora? Pois é, era pra ser seu – mais uma olhadela para Vicente atrás dele. – Mas agora que eu sei que você está comendo esse filho da mãe pode esquecer!
— Não é nada disso – a voz de Rael tremeu. – E não sou eu quem estou comen... Olha não importa – ele suspirou. – Não foi minha culpa! Não pode simplesmente aparecer aqui e vir com cem motivos para me parecer fazer o errado na história!
Gabriel se aproximou o suficiente para que ele pudesse ver pequenos cravos se formando na monocelha.
— Eu não precisei fazer nada. Você mesmo o fez.
Quando Gabriel saiu andando pelo corredor, Rael ficou encarando o corredor por meio minuto até sua mãe e Karina aparecerem em sua frente perguntando o que tinha acontecido. Se lembrou na mesma hora da existência de Vicente.
Mas quando espiou por sobre o ombro, a porta estava aberta e não havia ninguém ali.
Marco não tremeu quando entrou no elevador. A caixa deveria ser claustrofóbica para ele depois de um episódio onde teve que passar horas na delegacia antes de ter seu coração partido. O barulho de telefones tocando ainda havia perseguido ele até sua casa. Mesmo colocando o travesseiro em cima da cabeça, ele ainda podia visualizar a si mesmo entrando na sala de Gabriella com um sorriso malicioso.
E saindo com uma careta retorcida de dor.
Mas ele não podia deixar assim, podia? Ele tinha que tentar se desculpar com ela adequadamente. Apesar de que não fazia sentido ele se desculpar por algo que não sabia. Nem haviam se passado vinte minutos que ele descobriu que Taffara havia mandado aquela mensagem pelo celular de Diogo e Gabriella o acertou com uma pedrada acusatória. Não era culpa dele que a vadia tinha um terceiro olho pela cidade.
Marco voltou seus olhos para o próprio reflexo vestido com sua melhor camiseta azul social (tudo bem, ele tinha roubado do próprio pai há alguns anos, mas caía muito bem agora) e jeans escuros. O cabelo sempre caindo um pouco estava penteado para cima, como se ele fosse um surfista. Só que sem o colar havaiano.
Quando olhou o número do andar que estava, notou que só faltava mais um para chegar ao apartamento de Gabriella. Seus dedos tremeram e ele agradeceu a si mesmo por não ter decidido mandar alguma mensagem. Já tinha mandado tantas que desconfiava se Gabriella não estava fazendo um esporte ao apagá-las. As duas portas se abriram e ele pisou com força para fora, quase saltando.
O corredor vazio tinha uma pequena janela no alto por onde o sol não entrava e o piso de madeira desgastado rangia onde ele pisava. O apartamento de Gabriella era o R3, com porta marrom escura e uma placa de “Não Pertube” em formato de rosquinha. Ele colocou o punho na madeira e bateu duas vezes, tentando não soar baixo o suficiente para ser considerado fraco.
Um segundo se passou antes de a porta escancarar e se abrir. Marco meio que esperou que ela abrisse a porta de vez, mas Gabriella apenas a entreabriu e a deixou ali aberta, se afastando da entrada.
Confuso ele a empurrou e estudou o apartamento. Gabriella andava até o que parecia uma mesinha antiga de computador e retirava vários documentos de dentro de uma gaveta, depois as atirava dentro de um saco. Notou também que perto do sofázinho onde eles haviam ficado deitados por horas havia uma mala vermelha.
— Não vai dizer nada? – perguntou ela em uma voz abafada, mas sem se virar.
Ele entrou no apartamento e fechou a porta atrás de si. Gabriella se virou e o encarou gélidamente.
— Não me lembro de ter dito que você podia entrar.
— Que mala é essa? – ele ignorou a ironia.
Gabi baixou os olhos escuros para o objeto ao lado do sofá.
— Logicamente é minha – respondeu. – E logicamente significa que vou usa-lá.
— Você vai embora? – a pergunta mal saiu num sussurro, mas ele desconfiava que ela tivesse escutado.
Gabriella ajeitou os óculos antes de continuar falando.
— Eu preciso de um tempo fora – ela fingiu tocar um fio invisivel em seu terninho enquanto falava.
— Fora de Vallywood ou da minha vida? – Marco questionou.
Ela o encarou.
— Nós fomos longe demais com isso tudo.
— Não, você me beijou – ele apontou e começou a cruzar o apartamento. – E então eu confessei que gostei de você. E depois decidimos conversar se isso teria algum futuro mais tarde. Você está tomando decisões sozinha agora!
— Sim – ela assentiu. – Eu estou. E acredite é melhor para nós dois.
— Não é – ele riu, mas sua voz sua voz parecia rouca demais. – É melhor para você porque eu não vou ser mais nenhum problema pra você. É por isso que vai ser melhor. Para você.
— Do jeito que você fala parece ser mais divertido para mim do que para você.
— E não é? – ele questionou. – Afinal de contas você vai ter um problema a menos, certo? Só mais um novinho que passou na sua vida e que pode ser esquecido por um simples passaporte de avião.
— Eu só preciso de um tempo, Marco.
Ele não queria ouvir mais nada, mas por alguma razão não conseguiu sair andando do apartamento.
— Eu não acredito que ainda vai me culpar pelo que houve com a Taffara – ele voltou a falar depois da pausa. – Eu não disse nada a ela!
— Eu acredito em você – Gabriella o encarou. – Percebi isso segundos depois que você saiu da minha sala. Sinto muito ter te acusado.
— Não se desculpe – ele se aproximou. – Só me diga que não vai embora.
Ela desviou os olhos.
— Não posso dizer isso.
Ele baixou os olhos para o chão e decidiu fazer uma loucura. Agachou-se na frente dela e segurou suas mãos.
— Por favor – ele implorou os olhos grudados nos dela. – Não vá. Eu não quero estragar sua carreira.
— Marco levanta – ela pediu com uma voz torturada. – Você não está me fazendo perder nada, tem um cargo na corregedoria me esperando em LA.
A boca dele tremeu.
— Você vai sair de Vallywood?!
Gabriella mordeu o lábio inferior.
— Eu já tinha recebido a proposta – assentiu. – Uma semana atrás.
— Não – ele piscou várias vezes tentando expurgar as lágrimas. – Não vai embora. Eu vou ficar louco se você for.
— Pois não deveria – ela tocou seu cabelo. – Marco você é tão jovem e tão cheio de vida. É engraçado e ambicioso, e tem uma familia boa que te ama muito.
— Você nunca conheceu meus pais – ele contestou. – Estão sempre viajando.
Ela olhou para o chão como se procurasse algo para sutenta-lá ali.
— É só um palpite. Mas estou certa do que digo – ela afagou seu cabelo. – Marco, por favor, não quero que faça nenhuma bobagem.
— Então não me obrigue a fazer – ele se levantou e segurou nas mãos úmidas dela. – Não vá embora e eu prometo fazer tudo o que você quiser. Eu vou devagar – engasgou enquanto falava. – Eu espero você estar pronta. Mas desfaça essas malas.
— Não posso.
Ele sentiu as paredes começarem a ficarem mais altas do que o normal. Conhecia aquele tom. Quando Rita e eles tinham ido ao circo pela primeira vez, ela tinha usado aquele tom. Quando seus pais não podiam colocá-lo na escola pública que o melhor amigo dele de infância, eles usaram o mesmo tom. Era o tom de impotência – mas soava mais como desistência.
— Não vai – ele chorou e não se envergonhou quando sentiu o rosto esquentar com a lágrima derramada. – Por favor, eu te imploro. Eu não vou conseguir pensar em nada quando você for.
— Existem outras garotas no colegial.
— Não existe você no colegial – ele retrucou.
— E é por isso que você vai ser feliz – ela encontrou seus olhos. – Sem ninguém pra fazer você parar no tempo. Você não precisa de mim.
Ele queria dizer o quanto precisava, mas as lágrimas irromperam como numa cascata. Havia algo de errado com ele, algo que deixava seu peito pesado e sua força esgotada. O que era aquela dor? De onde vinha? Alguém poderia, por favor, ajudar ele?
Gabriella não fez nada além de apenas encarar enquanto ele recostava a cabeça no braço do sofá e chorava.
Só havia uma coisa que ela poderia fazer por ele. E essa era a única que ela não faria.
Ficar.
— Não. Você fica aqui.
— Mas Rafa é meu amigo também – insistia Rita. – Eu tenho que ir!
— Você é humana, não vai ajudar em nada – retrucou Fernando ajeitando a mochila cheia de armas nas costas.
— É – Eduardo concordou. – E da última vez que levamos um de vocês, alguém faleceu – ele encarou Andressa que estava na cozinha do loft de Carla, distraída. – Com todo o respeito nós não queremos que isso se repita.
— Mas eu voltei – insistiu Rita com os olhos brilhando. – Eu sobrevivi no ano passado.
— Sim, mas ficou em perigo. Você e seu irmão. E eu recomendo que você fique e cuide dele.
— Eu não posso ficar aqui – ela passou as mãos nos braços, sentindo frio. – Ainda mais depois que vi aquela sombra olhando a gente da casa do Rafa.
— Ritinha, só pare – Erick disse descendo as escadas. – Você não sabe o que viu mais cedo. Não tem possibilidade que seja o Capuz. Ele está com Rafa e nós não sentimos seu cheiro. Não é ele.
— Não disse que era ele – ela sussurrou e então encarou Fernando. – E de qualquer forma Marco acabou de me mandar uma mensagem de que se precisarmos dele, ele está disponível.
— Vocês dois estão disponiveis para ficar aqui – retrucou o loiro. – Rafa não me perdoaria se eu levasse os amigos humanos dele para o campo de batalha.
Eduardo riu.
— É engraçado você querer respeitar a vontade dele mesmo ele não tendo respeitado a sua.
Fernando semicerrou os olhos.
— Okay, eu fico quieto.
— Rita fique, por favor – ele pediu a garota de olhos verdes. – Nós não vamos demorar.
— Eu não tenho certeza – Andressa disse lentamente se reunindo a eles. – Mas acho que dar conta de uma Bruxa, uma Atiradora, uma Vampira e um Espirito altamente poderoso com dons que a gente não conhece... Pode demorar um pouco sim.
— Me deixe ir – Rita implorou. – Posso ajudar. Enquanto vocês lutam contra todos eles, nós soltamos Roberto.
— Isso é loucura.
— Na verdade, é um bom plano – Erick disse e todos o encararam. – Que foi? É uma ideia boa.
Fernando suspirou.
— Tudo bem – ele olhou para Edu e Dessa. – Pode vir com a gente.
Rita sorriu e parecia à beira de uma comemoração quando Fernando ergueu um dedo.
— Não diga que eu não te avisei sobre os riscos.
— Ela vai ficar bem, eu vigio as costas dela – Erick piscou de lado para ele.
— Okay – Eduardo se prontificou. – Agora que resolvemos esse problema, só resta mais um para tomarmos uma decisão.
Fernando franziu o cenho para ele e o amigo apontou para Henrique, que se recostava na parede do loft com uma expressão apática.
— O que vamos fazer com ele?
Percebendo que estavam falando dele, levantou a cabeça e olhou a todos parecendo incomodado.
— O que? Sem essa – ele apontou para Rita. – Se ela vai, eu definitivamente vou também.
— Vocâ até antes de ontem nos odiava e achava que eramos assassinos – disse Andressa cruzando os braços. – Me dê um motivo para deixarmos você vir.
— Meus dois irmãos estão lá – ele retrucou e Andressa descruzou os braços. – E eu não vou ficar aqui parado enquanto vocês estranhos vão atrás deles! Eu vou salvar meus irmãos.
— E eu meus amigos – Rita assentiu. – Fim de papo.
Eduardo revirou os olhos.
— Isso aqui está muito desorganizado. Eu não sei nem como um grupo com quase dez pessoas não vai chamar a atenção de ninguém.
— Eu tenho um carro – declarou Henrique.
— Não vamos todos nós cabermos nele – declarou Carla.
— Tenho mais de um carro.
Erick assoviou.
— Até que o humano tem suas habilidades.
— Só vou emprestá-los se eu for.
Fernando suspirou e encarou Carla.
— Nós conseguiremos chegar lá mais rápido de carro?
— Definitivamente – A Alfa assentiu. – Mas gente, o lugar está cheio de armadilhas e precisamos ser discretos. Não sei onde você vai estacionar esses seus carros esportivos, mas já aviso que teremos que abandoná-los em alguma hora.
— Eu não me ligo – Henrique deu de ombros. – Meus irmãos precisam ser salvos. Isso é mais importante.
— Tudo bem – Fernando arrumou as alças da mochila. – Vamos indo agora antes que fique tarde.
O grupo começou a sair, quando Carla de repente parou no meio da sala.
— Espera – ela fungou. – Tem algo errado.
Eduardo e Andressa se afastaram da porta. Erick fungou.
— Eu conheço esse cheiro.
Carla girou para olhar para o segundo andar e grunhiu.
— O que é gente?! – Rita se segurou no braço de Erick, com medo. Erick sorriu.
— O que você está fazendo aqui?
Todos olharam para cima com cara de interrogação quando um flash loiro apareceu no alto da escada.
— Érika?! – Eduardo arfou.
— Érika – Andressa disse em um tom de voz seco enquanto o encarava. – Quem soltou à louca?
A Beta desceu as escadas e balançou a cabeça.
— Gente, eu posso explicar tudo. Mas eu preciso que saibam que eu sou inocente e vim me redimir com vocês ajudando na sua missão.
— Ninguém precisa da sua ajuda – retrucou Carla. – E eu não acredito em você.
— E eu queria muito que isso fosse só sobre você, Carla – a loira passou por ela. – Mas não é. Eu vim ajudar a salvar o Rafa.
— Como você está antenada – assoviou Fernando. – Quem está te atualizando? Essa é a minha pergunta.
— Anna está sabendo das últimas, por isso ela me trouxe aqui correndo.
— Como isso chegou a Anna? – perguntou Andressa a ninguém em particular.
— Espera, ela? – Eduardo questionou. – Quem te trouxe aqui?
— Euzinha – uma vozinha veio da porta e todos encararam.
Lizz.
— Anna mandou você aqui? – Fernando arfou. – Só você?
— Apenas eu, os outros estavam muito ocupados – ela passou os olhos em todos. – Pelo que estou vendo o batalhão está cheio – ela encarou Henrique. – O que é você? Um Kanima? Ou um Homem Jaguar?
— É o que? – o moreno piscou.
— Ele é humano – respondeu Rita. – Mas o irmão dele está sequestrado.
— E você também deveria estar – Lizz a encarou. – Ela é humana também. O que está acontecendo aqui?
— Nós precisamos de toda a ajuda possível – Fernando explicou. – E eles são amigos do Rafa. Querem estar lá por ele.
— Isso faz de nós diferentes – ela semicerrou os olhos para Andressa. – Eu posso chamar meus colegas a qualquer momento se isso for um problema.
— Não, não, não – Eduardo interveu. – Nós conseguimos lidar com isso sozinhos. Eu prometo.
Lizz assentiu.
— Acredito em vocês – ela olhou Carla. – Quer ir comigo na garupa?
Os outros ficaram confusos enquanto a Alfa corava.
— Pode ser – ela deu uma olhadela para Érika. – Esses carros já vão estar bastante cheios mesmo.
— Espera você vai? – Fernando questionou.
— Sim.
— Por quê?!
— Porque Anna pediu – a loira tirou um par de óculos escuros do bolso da própria jaqueta preta. – E ela é quem manda.
Andressa, Eduardo e Fernando assentiram nervosos, mas Erick suspirou aliviado, parecendo feliz com a ideia de mais uma mãozinha útil se unindo ao Pack.
— O que estão fazendo parados ainda? – guinchou Lizz. – Vamos!
Vick passou depressiva pelo corredor da escola transbordado de alunos. Já era o terceiro tempo e ela não havia visto nem Rafa ou seus amigos estranhos. Rita e seu irmão mais novo também não estavam ali. A escola parecia cheia para uma sexta-feira, mas ninguém que ela conhecia estava ali.
Nem mesmo Camila Alves.
Agora era tarde mais para ela fazer novos amigos. Teria que se contentar com o fato de que a escola era um aquário cheio de peixes ignorantes onde a pessoa mais simpática que poderia aparecer para te reconfortar com comentários irônicos estava morta.
Ela passou por um corredor onde pessoas saiam do laboratório de quimica e esbarrou em uma garota de cabelo escuro, derrubando seus cadernos.
— Ei, olha por onde anda, aberração!
Vick franziu o cenho para a garota estranha e a observou andar até uma loira. As duas cochicharam dela ao ar livre, mesmo com ela ainda estando ali.
Por mais estranho que aquilo fosse ela continuou andando até avistar uma nuca familiar estudando um painel sobre vegetação. Camila Alves anotava o que parecia ser um resume criativo sobre o tema.
Ela cutucou a amiga no ombro.
Camila se virou para olhar e então se virou de novo.
Vick se remexeu inquieta e pigarreou.
— Ei, está me ignorando?
A outra suspirou e continuou forçando a caneta no papel.
— O que eu fiz de errado?
Camila continuou em silêncio.
— Eu fiz algo? Foi aquela coisa com a Taffara? – ela assentiu. – Eu sei que estava obcecada com aquela vadia cega, mas é que...
— Você não estava obcecada com aquela vadia cega – Camila rompeu o silêncio. – Você estava sendo a vadia cega!
— Eu sei, mas eu queria que ela fosse presa – ela se chateou ao dizer. – Mas acabou não dando muito certo.
— É – Camila Alves assentiu. – Não deu muito certo porque ela conseguiu se safar e seu pai agora está decepcionado.
Vick suspirou.
— Do jeito que você fala parece que eu não moro com ele pra saber disso. Olha amiga, eu sei que dei mancada, mas eu precisava fazer algo.
— Mas isso custou seu pai.
— E custou você também – ela comentou. – Eu sinto muito Camis. Juro que vou te ouvir mais da próxima da vez.
A expressão de resposta em Camila era a de alguém incrédulo.
— Eu não sou uma assassina!
As duas se viraram para uma garota vestida toda de rosa atravessando o corredor com dificuldade no meio do enxame de alunos. Taffara segurava uma pasta na frente do corpo como se ela fosse algum tipo de escudo. O corpo estudantil a encarava sem serem discretos, sussurrando sobre a prisão dela e tirando selfies ou gravando para o Snapchat.
Ela parecia arrasada, mas não quebrada. Quando notou os olhares das duas em cima dela, Taffara ergueu o queixo e estufou o peito para frente. Então a vadia não podia se dar ao luxo de ser humana nem uma vez?
— Ouvi por aí que ela está sofrendo ainda com as acusações – comentou Camila.
Vick assentiu.
— Seja lá o que eu fiz, parece que deu certo de algum jeito.
Camila a encarou e ela não precisou perguntar. Aquilo não era algo do qual ela deveria se gabar.
— Parece que ela perdeu o trono, pelo menos.
A amiga parecia que ia concordar quando pousou seus olhos para frente de novo.
— Ou não.
Vick seguiu seu olhar e Taff tinha parado de andar para olhar a todos os alunos. Que merda ela iria fazer? Chorar? Isso não adiantaria, só faria com que ela ficasse ainda mais mal falada no pior dos casos.
— Eu sei o que todos vocês devem estar pensando – Taffara se virou para todos no corredor. – Ela é uma assassina. Ela matou o Diogo. Só pode – fez uma pausa para respirar fundo. – Mas eu não fiz nada além de ser a fadada garota a ser seu par naquela noite. Não fui eu quem o sufoquei. E não vai ser eu quem vai responder por esses crimes.
Apesar da voz dela não ser tão alta, muitos a encararam com seriedade, outros com nojo.
— Eu vou lutar pela minha inocência – ela prosseguiu com as mãos na frente do corpo. – E quem estiver do meu lado, que esteja – ela pousou os olhos em Vick e Camila Alves. – E quem não estiver, que seja também.
Camila Polli, vinda de quem sabe onde, apareceu ao seu lado e segurou o braço da suposta melhor amiga.
— Eu estou.
Camila Alves suspirou.
— O que vamos fazer com elas? São insuportáveis.
Vick deu de ombros.
— Eu não sei você. Mas eu desisti.
Ela começou a andar e, ao passar por Taffara, tinha decidido não falar nada. Porém mudou de ideia.
— Acho que não é só pra gente que você precisa provar algo – sussurrou. – Antes você tem que se convencer.
E deixou Taffara com cara abobada esperando por uma explicação. Mas não teria.
— Em que parte de Vallywood estamos?
Neemias, que estava de costas para onde Rafa estava acorrentado, virou-se em seu Capuz preto e sorriu de orelha a orelha, os olhos Dourados tão claros que espantavam a névoa ao seu redor.
— Por que você quer saber? – riu o vilão. – Não vai a lugar nenhum depois daqui.
Em resposta, Rafa se forçou a quebrar as correntes com toda sua força. Mesmo quando a física não surtiu efeito, nem mesmo a mental conseguiu. Sentiu um ímpeto o deixando fraco e o que quer que o fazia explodir, mover as coisas ou erguer a barreira havia sido bloqueado. Será que Neemias tinha algo a ver com isso?
— É inútil – respondeu o próprio andando até a jaula de Roberto. – Por mais que eu deteste você e queira acabar com isso logo, não posso correr o risco de você conseguir escapar.
Rafa não disse nada e continuou focando nas mãos. Era impressão dele ou as correntes estavam ficando mais apertadas?
— E só respondendo sua pergunta: Nós estamos em uma parte esquecida da cidade, quase perto da fronteira para a outra. Estamos em uma ponte misteriosa que por alguma razão nada natural, sempre tem um nevoeiro. As pessoas antigas daqui a chamavam de Atalho para o Inferno.
— Por quê?
Neemias bufou.
— Eu não sei, não vivo a tanto tempo aqui— e sorriu. – Mas não se preocupe, eu mando um cartão postal para os seus amigos depois que terminarmos o ritual.
— Do que está falando? – grunhiu Roberto de dentro da jaula. – Leticia me falou que existe um motivo para você ter sequestrado o Rafa. Do que ela estava falando?
Neemias revirou os olhos.
— Leticia fala demais — ele ergueu a mão. – E você também.
Roberto, que parecia confuso, caiu com um baque no chão.
— O que você fez com ele?!
— Algo que não posso fazer com você – retrucou o Capuz.
— Eu ouvi isso.
Os dois olharam para o lado e viram três sombras se aproximarem. A primeira foi Marta, com os olhos Vermelhos que Rafa ainda não tinha acostumado em ver. A amiga traidora e Vampira sorria.
Ao seu lado, em cada flanco, Carolina segurava uma arma e olhava Rafa de um jeito glorioso. E Leticia parecia retraída, como se fosse fazer algo muito chato que já fez alguma outra vez.
— Eles estão prontos? – Neemias perguntou a Marta.
— Sim. Eles nem vão saber o que os atingiram.
— Eles quem? – Rafa questionou.
Os quatro vilões o encararam.
— Ah não – ele remexeu as correntes sentindo o peso aumentar. – Deixem meus amigos em paz!
— Sinto muito, Rafa – Carolina destravou a arma. – O que está feito, está feito.
Ele olhou Roberto desacordado no chão da jaula e sentiu uma dor no peito. Não podia ficar parado ali enquanto aqueles monstros se livraram de seus amigos. Tinha que tentar algo.
Mas Neemias espalmou as mãos na sua frente, tirando sua concentração.
— Eu gostaria muito de deixar você escapar – disse em um tom de quem parecia se divertir. – Mas nós vamos começar o ritual agora e eu não quero que você atrapalhe.
Rafa franziu a testa para Leticia e as outras duas, que se colocaram atrás do Capuz de olhos Dourados, parecendo sincronizadas.
— Ritual? – ele olhou para baixo de si e viu que estava em um ponto reto na direção de Neemias. Ah, não.
Neemias foi um pouco mais para trás e se juntou as suas Damas da Morte. E então olhou Rafa profundamente e ergueu os dois braços acima da cabeça. Uma luz vermelha em formato de cauda subiu logo atrás dele e Rafa arfou quando a forma desceu e se arrastou até ele.
Ele esperou pelo impacto e achou que isso de alguma forma ajudaria, saber das coisas ajudaria. Mas não. Seja lá o que fosse aquilo, cortava mais como uma faca e se afundava dentro dele sem nenhuma dificuldade para entrar. Olhou para baixo em sua barriga e não conseguia acreditar que aquilo estava lá dentro.
— Não se preocupe Rafael – riu o monstro com duas vozes que assumia a face de Neemias. – Vai doer muito. Mas logo você não sentirá mais nada.
Rafa queria ter algum comentário sarcástico, mas faltava ar até para isso. E ele tentou guardar o máximo – porque parecia que iria precisar.
Rael terminou de arrumar o próprio quarto, mas não conseguiu se sentir nada bem. A cama parecia mais impecável que seu cabelo e o ventilador estava ligado no local abafado. Apesar de ele ter passado seu perfume mais forte, o lençol em sua cama ainda tinha aquele cheiro. Cheiro de homem.
Ele e Vicente eram uma coisa tão... Nova, tão estranha que ele não tinha tido tempo para pensar a respeito ainda. Eram amigos? Os comentários maliciosos e provocativos na escola lançados a ele diziam que não. Eram próximos? Os sussurros da noite passada enquanto mandavam a ver diziam que sim. Ele gostava dele? Qual é ele tinha chamado o cara para morar dentro da sua casa!
Se isso não era gostar o que podia ser?
Mas ainda tinha Gabriel. Era uma coisa que ele havia perseguido no começo daquele ano com suas próprias garras e corrido atrás dele até fazê-lo confessar o que sentia. E advinha só? Ele gostava. Ele o beijou. E advinha só? Ele tinha namorada. E quando ele ficou sabendo, se afastou. E advinha só? Ele o seguiu até a festa em que eles estavam e os dois ficaram de novo. E advinha só? Eles voltaram.
E advinha só? Ele não sabia mais o que queria. E nem quem.
— Noc, noc.
Ele olhou para cima e se ajeitou na cama imediatamente. Vicente estava parado na soleira usando camiseta arregata cinza e bermuda que deixava suas pernas amostra. Em seu rosto – pela primeira vez que Rael tinha visto – ele não sorria.
— Eu atrapalho?
Rael apenas balançou a cabeça.
— Só estava fazendo um grande nada aqui – ele pigarreou. – E então? A que devo a honra de sua visita.
Vicente olhou sem graça para o chão.
— Eu só deixei minha camisa aqui.
Rael murchou enquanto ele ia andando até o cesto e pegava a camiseta. Ele olhou para as costas do outro e sentiu uma dor no próprio peito.
— Eu sinto muito por antes – começou a dizer. – Não sabia que Gabriel estaria aqui mais cedo.
— Relaxa – Vicente respondeu rapidamente. – Você não me deve satisfações de nada.
Ele se calou e esperou enquanto o outro saía do quarto. Mas Vicente parou na batente e voltou para o meio do quarto.
— Só que, como você pode acreditar nele de novo? – ele questionou e seu tom expressava que ele estava frustrado. – Depois de tudo o que ele fez com você.
— Eu sei que o que ele fez comigo foi errado. Mas não acho que ele teria vindo aqui se o que Débora e a mãe disseram fosse verdade.
— Tem certeza? Porque pra mim mais parece que ele quer limpar o nome dele com você.
— Tudo bem, mas e se for? – Rael se levantou da cama. – Vai fazer alguma diferença pra você?
Vicente franziu a testa.
— Do que está falando?
— Você – Rael gesticulou em sua direção. – Parece estar puto comigo por ele ter vindo.
— E eu estou – confessou.
— Por que você gosta de mim?
Vicente não respondeu.
— Você gosta de mim? – ele insistiu. – Por favor, Vince, só me diga. Se ontem foi só uma coisa...
— Foi só uma coisa. Não gosto de você assim.
— Por que fica falando desse jeito? – Rael se aproximou. – Me parece mais que você está tentando fugir quando fala tão rápido assim.
Demorou um pouco de tempo, mas Vicente ergueu os olhos para encará-lo.
— Ok, vou admitir: Eu gosto de você e já faz algum tempo.
Rael suspirou. Tempo.
— Quanto tempo?
— Desde... – Vicente semicerrou os olhos pensando. – Ah, que se dane. Eu não me lembro.
— Que encorajador.
— E por que você quer saber? – Vicente explodiu com a pergunta de repente. – Por acaso vai mudar no seu caso? Eu só fiz aquilo com você porque não aguentei te ver daquele jeito!
— Que jeito?
— Derrotado, louco. Parecia que ia explodir.
— Bom, eu ia ficar com os meus pedaços, você não precisava fazer isso.
— Não mesmo. Mas eu também fiz porque quis.
Rael balançou a cabeça. Por algum motivo deixava ele enjoado saber que Vicente sentia algo por ele.
— E quanto a você?
Ele olhou surpreso.
— Eu o que?
— Gosta de mim também?
Com a camiseta, com a bermuda e com esse cabelo estranho todo seu, eu gosto sim. Ele queria dizer tudo aquilo.
Vicente riu.
— Perfeito!
— Não, não, eu não quis dizer isso... – ele tentou se retrair.
— Não mesmo. Você só não disse nada.
Rael comprimiu os lábios.
— Eu preciso pensar... Isso aconteceu muito rápido.
— Do jeito que fala parece que foi um acidente – ele se aproximou dele até os dois ficarem cara a cara. – E não algo que nós dois sabíamos que ia acontecer.
Ele engoliu em seco. Apenas isso.
— Eu acho melhor você saber o que quer Rael Coelho. Porque eu não nasci pra esperar ninguém.
Eles desceram com o carro — ou melhor, os carros — de Henrique no meio de uma trilha.
De um lado, Fernando, Erick, Andressa, Rita e Marco, do outro, Eduardo, Carla, Érika, Lizz e Henrique. Eles se encararam e logo depois olharam à frente. A relva acima da floresta carregava consigo uma névoa estranha considerando que eram 14h da tarde.
— Então é aqui? – questionou Rita num tom baixo.
— Sim – Carla respondeu.
— Por que está sussurrando? – Lizz questionou a humana. – O que quer esteja lá dentro não liga se está aqui ou não e mata.
Rita franziu o cenho.
— Eu só estou cansada.
— Em meio a uma batalha contra o que quer que esteja lá? Não creio!
— Ok eu acho que basta desse preconceito racial – Andressa se juntou no meio das garotas. – Vamos só focar na missão e tentar salvar todo mundo.
— Salvar todo mundo vai ser difícil – Érika comentou.
— Difícil vai ser te aturar.
— Eu concordo com ela – Carla assentiu. – Quem te chamou aqui, querida?
— Meninas, meninas – Fernando se juntou ao grupo. – Sejam belas, recatadas e de casa? Obrigado.
— Por mim façam o que quiserem – comentou Erick com um tom quente. – E se quiserem começar a tirar a roupa...
— Eu não acredito que estão fazendo piada quanto a tudo isso! – Eduardo chamou a atenção de todos.
— Isso é o que acontece quando se chama as pessoas erradas – murmurou Henrique.
Marco franziu a testa.
— Oi?
Um tiro soou no alto da floresta.
Todos olharam Eduardo.
— Agora podemos focar? Só focar?
Andressa empinou o queixo e saiu andando. Carla a seguiu como uma sombra. Lizz assoviou e sorriu para Érika. A Beta grunhiu e seguiu as garotas. Erick olhou Edu com o que parecia choque e Marco fixou os olhos em sua arma, pensando em alguma coisa realmente profunda. Henrique parou ao seu lado.
— Posso usar uma?
Eduardo o olhou com desdém.
— Você pode calar a boca.
E saiu andando.
A floresta à frente deles era fria, longa e um pouco fumacenta, como se uma fogueira tivesse sido acesa em um dos cantos mais remotos dela. A relva era silenciosa a cada passo em que eles davam nela. Era como se toda a terra e todas as plantas estivessem esperando por algum evento. O mesmo evento que eles esperavam. Um tronco fez um barulho e Eduardo apontou com a arma, uma moita se moveu com a leve brisa e Carla sibilou. Todos se entreolharam com nervosismo e questionamento. Mas o silêncio permaneceu por eras até que cada um deles voltasse a andar de novo – sem surpresa nenhuma, a primeira a andar havia sido Lizz.
Logo à frente, por detrás de uma cortina de folhas caídas, a névoa parecia ainda mais espessa. Não, ela parecia filtrar o ar de tão forte que estava. Transformando tudo ao seu redor em um planeta cinza e com aparência fria. Um planeta cinza desconhecido com algo esperando eles por dentro.
Estavam a doze passos de distância do final da trilha quando Érika e Erick se retesaram. Carla os encarou.
— Estão sentindo também?
— Sim – responderam em uníssono.
— Parece familiar – suspirou Erick.
— Aquilo é uma ponte? – questionou Andressa semicerrando os olhos.
— Ao que tudo indica – Eduardo respondeu sem encara-la nos olhos. Sabia que não ganharia nada com isso. – Esse lugar deve estar abandonado.
— Não totalmente – Lizz balançou a cabeça. – Eles estão esperando por nós. Eu posso sentir isso. Tudo o que estamos procurando está do outro lado.
— Então é agora? – Marco sussurrou e Fernando o encarou. Rita encarou os dois.
— Não podemos voltar – disse ela. – Não agora.
O loiro assentiu.
— Eu jamais voltaria.
Eles não reduziram os passos, não se preocupando em serem detectados ou não. Estava na hora de lutar. Andressa fechou o punho ao lado do corpo, pensando em Marta na festa. Fernando focou os olhos na ponte e imaginou Carolina sorrindo depois de derrubá-lo no chão. Rita abraçou a si mesma com força tentando não tremer ao se lembrar de Leticia caída no meio de sua sala. Marco pensou no Capuz o atacando na festa e agora que ele finalmente tinha um rosto, não conseguia deixar de pensar em como ele o havia derrubado tão facilmente.
Aquilo não seria fácil.
Eles pisaram para fora da trilha e perceberam que havia uma rampinha para a ponte. Ao redor dela, um riacho se mantinha tão quieto que era quase impossível acreditar que ele não estava congelado. E mais a frente, metade do que parecia ser o chão de mormaço só havia uma neblina densa e mais escura, cobrindo tudo que pudesse ser visto depois daquilo.
— Eles estão lá dentro? – sussurrou Erick para ninguém em particular.
Fernando estava prestes a dizer Só vamos descobrir indo até lá quando de repente o Lobo que fez a pergunta, Carla e Érika se moveram com tudo para frente.
— Mas que diabos?! – Andressa sacou uma adaga encarando as costas dos três. – O QUE FOI AGORA?!
— Dessa – Lizz a silenciou erguendo uma mão. Ela tinha os olhos castanhos em toda a floresta. – Cala boca.
A morena queria questionar quando Erick e Carla se retesaram.
— Vampiros.
Henrique arfou.
— Onde?
A pergunta dele foi respondida quando dois vultos se projetaram no meio da ponte. Um em cada extremidade deles vestiam roupas escuras e tinham olhos Vermelhos surpreendentes. Enquanto um era mais baixo e moreno, o outro tinha cabelo loiro platinado.
— Brad? – Henrique parecia à beira de um engasgo. – Tyler? – ele mirou seus olhos escuros no outro Vampiro.
— E a nossa estrela de Vallywood retorna – brincou o loiro. – Eu apostei que você tinha fingido sua morte, sabia? Eu perdi.
— Do que está falando?
— Conhece esses dois? – Rita questionou.
— Não importa – Fernando se colocou na frente dos Lobos e encarou as duas criaturas. – Onde está Rafael Capoci?
— O Rafa? – o moreno baixinho riu. – É sério isso? Nosso chefe não nos disse que ele tinha alguma coisa a ver com isso.
— Você quis dizer Marta – Eduardo retrucou em uma voz alta. – Nós sabemos que ela está aqui.
— E nós viemos destruí-la – Andressa pendeu a cabeça para um lado. – Façam um favor e vão direto até ela contar que eu mesma arrancarei a cabeça dela.
— Eles não vão a lugar nenhum – Erick comentou em um tom novo. Um tom menos brando e menos brincalhão. Se Rita estivesse em seu raio de visão, poderia jurar que seus olhos já teriam mudado de cor.
Brad riu e deu alguns passos para frente. Érika e Carla deram três.
— Não podem nos matar – a criatura loira respondeu com escárnio. – Não enquanto não souberem como encontrar seus amigos.
— Só nós sabemos – o outro Vampiro se postou ao lado de seu parceiro rapidamente. – E não estamos dispostos a deixar vocês chegarem lá tão rápido.
— Concordo com você – Fernando suspirou. – Será muito menos que rápido porque vocês nem terão tempo para piscar.
Ele se jogou para frente com tudo no asfalto. Eduardo o seguiu, com Andressa em seu flanco.
Os Lobos saltaram logo à frente reivindicando seus lugares na batalha. Duas tríades poderosas.
Lizz olhou para os que ficaram e balbuciou para algo em seu pulso enquanto corria também.
Henrique, Marco e Rita ficaram parados, sem saber o que fazer.
Mas então algo aconteceu.
O bando, cada um deles, mal conseguiu cumprir metade da corrida quando Brad levantou uma de suas pernas esguias e Tyler se curvou para o chão, como se fosse partir ele no meio.
E então um estrondo pareceu partir a terra em pedacinhos.
Vick se perdeu de uma coisa.
Ela pensou que se fosse até escola apenas de passagem não perderia nada de vista. Mas não foi isso que aconteceu. Ela perdeu de vista o que estava procurando e agora não sabia bem o que faria até que voltasse a encontra-la. Mas será que... Ela encontraria de novo?
Na estrada da dúvida ela se viu diante de um dilema. Ir para casa, onde seu pai e a madrasta juntamente com o irmão mais novo viveriam suas vidas enquanto ela se trancaria em sua “torre” de segredos isolada. Essa era o problema de ter uma família às vezes, nem sempre era o lugar que você deveria estar.
Não podia falar com Camila porque, odiava ter que admitir a si mesma, ela não estava nem aí para as suspeitas de Vick e a procura sobre o que era verdade ou não. Como os outros ela não queria problema para si mesma, não podia se dar ao luxo ter um.
Então Vick estava sozinha naquela.
Já na Rua do Dropcoff ela tinha decidido não entrar na cafeteria e muito inclinada a não olhar para o cartaz pendurado na entrada. A última coisa que queria pensar era naquilo.
Quando decidiu que estava sem saídas, houve um sinal. Ok, talvez ela tivesse feito daquilo um sinal, mas enfim, o garoto lendo o cartaz que ela havia colocado chamou muito sua atenção. Sem saber bem o que estava fazendo ela andou até ele.
— Oi – murmurou nervosamente. – Você o conhece?
O garoto de cabelo escuro curto balançou a cabeça.
— Nem de longe. Mas sei que deve ter sido alguém legal.
Não tinha como ninguém saber disso só olhando um cartaz.
— Ele era seu amigo, esse Lucas – não foi uma pergunta.
Quem era aquele garoto estranho que já sabia tudo sobre ela? Ela era alvo de alguma Gossip Girl não famosa?
Importava de verdade se fosse?
— Ele sumiu desde o ano passado – respondeu.
O garoto assentiu.
— Eu sinto muito por sua perda.
Parecia que ele estava inclinado a falar um discurso fúnebre, então ela pigarreou nervosamente.
— Ainda não sabemos bem o que aconteceu.
Os olhos do garoto escureceram e sua postura se intensificou.
— Não sabemos? – ele repetiu. – Ele tinha muita gente por ele?
— Ele tem – insistiu Vick. – Muitos amigos. E em especial tem a mim se precisar.
Ele assentiu com um olhar intenso para ela.
— Sei que posso entender sua insistência nisso e sei que não nos conhecemos, mas você não acha que deve parar de pensar nisso? Digo, nos outros? Você se revira tanto para pensar no que pode ter acontecido com alguém que não consegue pensar tanto em você.
Vick se sentiu... Nua.
— Não entendo porque está me dizendo essas coisas – ela abraçou o próprio corpo. – É algum Orientador?
— De certa forma – ele riu de alguma piada interna que ela não entendia. – Pode me chamar de guia, se quiser.
— Ok, guia...
— Mário – ele ergueu a mão para cumprimenta-la. – Pode me chamar de Mário Kart.
Vick apertou a mão firmemente achando aquilo formal demais.
— O que está procurando nessa cidade, Mário? – ela fingiu olhar as unhas do pé. – Pessoas desoladas sofrendo com o sumiço de outras?
— Não. Na verdade eu estou à procura de alguém. E faz algum tempo que prometi que voltaria.
Vick assentiu notando que Mário parecia mesmo falar sério, mais sério do que das outras vezes. Parecia até mais intenso.
— Bom, se quiser minha ajuda.
— Eu quero – ele riu de um jeito que deixava tudo mais leve. – Mas não posso pedir.
Ela achou aquilo um absurdo.
— Prefere ficar pedindo ajuda em silêncio?
— Prefiro encontrar o que estou procurando – ele rebateu de um jeito condescendente. – E não tenho pressa. Porque sei que vou achar.
Ela assentiu. Mal conhecia Mário e já tinha certeza que os dois eram o oposto um do outro.
— Eu espero que encontre.
Mário assentiu e então de repente pareceu se lembrar de algo ao apalpar o próprio bolso.
— Pode me ligar? – ele entregou seu cartão. – Eu estarei aqui para o que precisar.
— Claro – ela respondeu enquanto pegava o cartão. Franziu a testa quando o examinou.
— Foi um prazer, Vick Melo – ele sorriu e saiu andando.
Foi só quando ela leu o cartão de novo e olhou para cima e viu que ele já tinha ido que ela percebeu.
Não tinha dito seu nome a ele.
A terra parecia ter sido partida ao meio. Mas só parecia mesmo.
Rita se balançou nas próprias pernas com o tremor súbito e se segurou na coisa mais sólida que encontrou. Henrique a encarou e os dois se fitaram por um longo tempo até olharem para frente. Marco estava estirado no chão, os olhos arregalados para os dois. Ela o ajudou a se levantar.
— O que está acontecendo? – ele ofegou.
— Um daqueles Vampiros... Quer dizer, os dois, bateram no chão com força e de repente tudo tremeu. Mas acho que foi só isso.
Henrique balançou a cabeça.
— Não foi só isso.
Ela seguiu seu olhar incrédulo e viu todas as rachaduras na ponte. Algumas partes já estavam desmoronando e se jogando contra o lago, mas a que eles se encontravam permanecia intacta, exceto pelas rachaduras e um buraco nele.
No outro lado mais destruído da ponte a batalha prosseguia. Ela conseguiu ver Erick se mover rapidamente e chutar o que parecia um borrão. O Vampiro baixinho. Quando este se levantava para correr, Carla vinha e o derrubava novamente, seguida por uma Érika que crispava as unhas e o pegava pelo pescoço.
Ao lado dali Andressa e Fernando cercavam o Vampiro loiro com pequenos ataques, porém mais estratégico que os do outro grupo. A criatura parecia longe de ceder, mas quando Eduardo o lançou para longe com uma brisa pesada ele foi arrastado para longe na névoa.
Rita ouviu um guincho e virou a cabeça a tempo de ver Érika sendo chutada pelo Vampiro e Carla presa nos braços dele. Erick parecia querer avançar, mas Tyler rugiu coisas indescritíveis e ele ficou apenas estudando.
— Nós temos que ajudar – ela disse.
— Ficou louca? – Marco a segurou no braço. – Nós vamos morrer se ficarmos no caminho deles! Tudo parece sobre controle para eles!
Ela balançou a cabeça e Henrique ao seu lado também. Os dois começaram a andar.
Na mesma hora, o Vampiro loiro, já em pé, encarou através do grupo de Fernando e sorriu para ela lascivamente.
Rita franziu a testa se perguntando o que ele planejava fazer dali até sentir o vento ao seu redor se mexer. O Vampiro não estava mais a metros de distância e respirava atrás dela.
Em um movimento lento, Erick se virou para olhar e foi atacado pelo Vampiro Tyler. Carla e Érika facilmente o domaram, mas o Alfa se levantou e correu em sua direção.
— MAIS UM PASSO E EU ARRANCO A CABEÇA DELA! – ameaçou o Vampiro com um berro atrás dela.
Não sabendo bem porque ela se virou. Brad sorriu e ela o socou. Ai.
Seus dedos começaram a sentir dor, mas seu corpo estava tão quente pela adrenalina que ela nem sentiu. O Vampiro porém virou seus olhos da cor de sangue e abriu a boca.
Ela se jogou com tudo na direção dele e os dois caíram no chão enquanto ela ouvia a voz de Eduardo seguido por algo raspando. Foi levantada por braços fortes e Andressa apareceu perto do Vampiro com uma adaga prensada ao seu pescoço.
— Está tudo bem? Ele te tocou? – Erick sussurrou em seu ouvido.
Ela só conseguia encarar o Vampiro nos braços da Caçadora.
— Onde estão nossos amigos?! – Andressa pressionou o objeto. – Diga logo seu monstro ou eu o faço morrer pela segunda vez!
Brad parecia querer dizer algo, mas então sorriu.
— Morram.
Nesse momento uma ventania fez os cachos de Rita tampar sua própria visão. Na cegueira momentânea ela ouviu gritos e sentiu seu corpo sendo puxado. Sentiu-se como em um Carrossel enorme em sem controle para reduzir a velocidade enquanto seus braços e pernas eram jogados.
E então tudo se apagou.
Quando Rita abriu seus olhos a névoa parecia menos densa, mas continuava ali. Ela se sentou confusa por perceber que esteve deitada e confusa pelo silêncio. Por que tudo estava tão quieto agora?
— Aonde viemos parar?
Ela olhou surpresa, mas não queria estar quando viu Erick ao seu lado. Ele também se sentou e piscou para a névoa à sua frente.
— E-eu não sei – ela gaguejou. – Eu senti algo me puxando...
— Eu também – Erick disse surpreso.
— E eu também.
Os dois se viraram para a terceira voz familiar. Marco estava em pé andando até eles e batendo nas barras de seu jeans para tirar o pó delas. O cabelo escovinha estava um pouco mais abaixado do que antes, deixando tudo mais revolto.
— Eu ouvi alguém dizer que era um feitiço – ele desabafou para os dois. – Não tenho certeza, mas acho que foi o Eduardo.
— Um feitiço? Leticia estava lá então.
— Ou ela o lançou até lá – Erick balançou a cabeça. – Parece que foi tudo planejado eles aparecerem ali.
— Uma distração, Brad mencionou algo assim – Rita olhou ao redor. – Será que estamos muito longe?
— Meu olfato diz que sim – ele pisou em falso para se levantar do chão e observou toda a área com os ombros erguidos. – Mas tem algo errado. Eu estou sentindo um cheiro diferente.
— Er... Esse cheiro envolve café? – Marco fungou. – E madeira?
Erick assentiu e olhou confuso para o mais novo.
— Por que disse isso?
Marco apontou com o queixo para uma casa que eles não notaram logo atrás dele. Tinha uma pintura desbotada vermelha e branca e suas janelas grandes estavam todas fechadas. Na frente da propriedade solitária e abandonada havia um jardim verde e cinzento.
— Quem em nome de Deus moraria aqui?
Erick deu de ombros.
— Só porque é amaldiçoado não quer dizer que os negócios têm que parar – murmurou Marco. – Ou vai ver é mais uma cilada – ele acrescentou quando os dois mais velhos o fitaram.
— Devemos ir até lá?
— Temos que encontrar os outros – Erick avisou. – Estão em menor número agora.
— Acho que isso foi proposital – desabafou Marco.
Erick parecia protestar, mas Rita o segurou pelo braço.
— Ele tem razão. Você viu o sorriso daquele Vampiro Brad antes de ele vir pra cima de mim. E mais... Eles estavam em dois. Porque Marta deixaria eles virem até nós sabendo que estávamos em maioria?
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!— A melhor pergunta é por que eles vieram até nós se sabiam que era um grupo grande.
— Talvez eles não soubessem.
— Bem – Marco interrompeu a discussão. – Já que estamos claros de que nos perdemos dos outros, podemos ir até a tal casa? Tá um frio do caralho aqui fora!
Rita encarou o irmão, crédula, mas não quis dizer nada. Ele estava certo.
— Vamos.
Ela se levantou e os garotos ficaram em seu flanco. Em outra série e em outro mundo ela ia adorar tamanha atenção a si mesma, mas não podia. Eles quase morreram na ponte e foram levados para aquele lugar por algum motivo e já que estavam ali, o que custava bater na porta?
Erick não parecia muito inclinado a bater e foi preciso Rita passar a mão em seu abdome e olha-lo nos olhos para ele entender que aquilo não podia.
— Segura onda Alfa das Putarias – brincou Marco.
Timidamente, ela se inclinou e deu duas batidas com os ossos dos dedos.
No primeiro segundo que esperou ninguém apareceu, mas quando ela já estava inclinada a bater novamente, ouviu uma voz grossa e passos se aproximando pelo assoalho atrás da porta.
Ela se abriu e um garoto de cabelo escuro e olhos castanhos olhou para eles confuso. Ok... O garoto parecia na verdade um homem, mas o rosto o fazia o lembrar de um bebê.
— Er, posso ajudar?
— Pode – Marco se inclinou. – Eu estou com sede.
Rita o socou no ombro e se voltou para o garoto.
— Nós nos perdemos de alguns amigos nossos e gostaríamos de ajudar para voltar na cidade. Pode nos ajudar?
O anfitrião futuro deles avaliou cada um e franziu os olhos para Erick de um jeito nervoso.
— Quem trouxe vocês até aqui?
Rita encarou os dois de seu grupo pelo ombro, um pouco perdida.
Mas então passos vieram atrás do cara e um garoto de cabelo escuro com topete entrou na soleira.
— Theus? – ele olhou para o que estava na porta e depois para Rita, Marco e Erick. – Quem são esses?
Aparentemente, Theus, deu de ombros.
— Eu não sei Luke. Mas acho que vamos ter que deixa-los entrar para saber.
Brad saltou com os pés no asfalto e olhou ao redor, bem atentamente. Sentiu o cheiro familiar e se projetou para frente, esperando.
Tyler saiu de seu esconderijo e olhou ao redor todo sorrisos.
— Conseguimos! – ele concluiu com um olhar distante para a floresta. –Levamos todos eles para a outra dimensão!
Brad assentiu.
— Tenho que confessar que não achei que seria fácil – desabafou o loiro. – Quem era aquele moreno? A reencarnação do Avatar?
— Não, mas certamente ele é perigoso. Temos que tomar cuidado na próxima vez.
Brad bufou.
— Não vai ter próxima vez! Matheus e Lucas vão cuidar deles muito bem!
— Mas eles são dez...
— Dane-se! Ao menos alguém vai morrer hoje – ele inalou. – Eu só queria ter bebido o sangue de alguém antes.
Tyler pareceu sentir sua dor, mas curvou os ombros.
— Agora vamos reportar a Marta.
Eles assentiram e correram até a barreira, mas então ficaram confusos no meio do caminho.
— Espera... O quê?
Tyler encarou o comparsa.
— O que foi Brad? O que está sentindo?
O loiro mal teve tempo de se virar quando um objeto dourado veio direto em sua garganta e explodiu.
Tyler se levantou do chão com os sentidos a flor da pele e sua visão estava toda respingada de sangue.
— NÃO É POSSIVEL! – ele se virou para o grupo que se aproximava. – O FEITIÇO ERA PARA PEGAR A TODOS VOCÊS!
Uma loira de jaqueta preta andou até ele e balançou a cabeça.
— Mas não pegou – e ergueu a mão.
Tudo ficou quente para Tyler. Tudo mesmo.
O vampiro foi dizimado.
Lizz limpou as mãos na própria calça jeans, mesmo sabendo que não havia sujado elas. Olhou para os outros seis atrás dela e franziu o cenho.
— O que foi? Eu o derrotei.
Andressa assentiu.
— Você o fez virar pó – ela retrucou. – E agora não temos mais pistas de onde os outros possam estar.
Ela entendeu onde a morena quis chegar... Mas deu de ombros mesmo assim.
— Se você quer reclamar no SAC de feitiços, fique à vontade.
— Isso o que eu não entendi – Eduardo disse em um tom confuso. – Por que eles só levaram Rita, Marco e Erick?
— Porque eles têm problemas de sociais – retrucou Lizz estressada.
— Isso é sério gente!
— Não podemos fazer nada – Fernando olhou para o parceiro. – Por mais que eu não queira deixar isso pra lá, temos que encontrar o Rafa.
— Por mais que você não queira? – Carla bufou. – Eu tenho uma teoria sobre isso.
— E qual é Loba Fodona?
— Você sabe o que os Vampiros queriam... Distrair-nos. Que melhor jeito nos separando?
— Mas Leticia não está aqui – Andressa retrucou. – Como ela pode lançar um feitiço à distância?
— Ela não precisa lançar um feitiço que já esteja aqui.
Todos olharam para a névoa.
— Esse lugar – Fernando exalou. – Está coberto desse feitiço até o talo as raízes dele.
— Isso quer dizer que não vamos conseguir chegar até meus irmãos? – Henrique questionou.
— Talvez sim. Se formos reto nessa ponte.
— É tão simples assim? – Érika fungou. – E se houverem mais obstáculos?
— Mais Vampiros? – Lizz sorriu. – Dá pra mim!
Andressa revirou os olhos.
— Vamos logo embora daqui.
— Espera! – Érika, que quase não tinha falado nada, guinchou.
Eduardo olhou e Fernando não se moveu. Carla franziu a testa para a Beta.
— O. Que. Foi. Agora?
— Eu notei que – Érika disse enquanto andava. – Quando eles estavam voltando... Algo os parou – ela tocou o ar na frente das cinzas de Tyler. – Como uma barreira.
— Isso é loucura... – Carla já ia falando.
— Lizz – Andressa tocou a loira no ombro magro. – Use sua luz.
A Caçadora levantou a manga da jaqueta e ergueu o braço direito.
Vários pontos brilhantes cristalinos de repente ficaram visiveis no ar à frente deles. Henrique arfou.
— Que droga é essa?
— Um feitiço – Eduardo o olhou friamente. – E eu recomendo que não tentemos detê-lo.
— Não, não – Fernando piscou. – Isso... Não pode ser. Tem que ter um jeito de passar!
— Sim claro – a loira sorriu com escárnio. – Morrer.
— Não, todo feitiço tem algum quebramento. Todo selo pode ser desfeito – Fernando olhou a todos. – Nós temos que tentar algo.
Andressa andou pensativa e encontrou os olhos de Eduardo rapidamente. O moreno corou.
— O que foi?
— Nada – ela balançou a cabeça. – Só pensando.
Ele mordeu o lábio inferior e arriscou uma breve olhada.
— Se importa em dividir seu pensamento comigo?
Carla se afastou um pouco do grupo e suspirou. Estressada, ela começou a puxar o cabelo atrás dos ombros para fazer um rabo de cavalo desleixado. Porém, foi pega de surpresa por um olhar intenso de alguém. Érika.
— Então – a loira sorriu para ela.
— Você conseguiu sair – Carla comentou sem olhar ela nos olhos.
— Quer saber como aconteceu?
— Não.
Érika fechou a cara.
— Você ainda tá com raiva de mim?
Carla a olhou incrédula e soltou o cabelo nos ombros.
— Não, magina.
A loira respirou fundo.
— Eu entendo.
— Não entende não. Você traiu a mim e aos seus amigos fazendo toda aquela palhaçada!
— Eu sinto muito. Mas eu to aqui pra ajudar.
A Alfa a encarou bravamente.
— Então ajude. Gostei de ter notado que os Vampiros não conseguiram passar mais cedo...
Érika corou.
— Não fique vermelha querida – Carla ergueu um dedo. – Eu não sou seu brinquedinho de apertar. Nem vem que não tem pra você. O que nós teremos agora... Vai ser isso – ela traçou uma linha com a perna longa. – Apenas Lobas. Só isso.
Érika assentiu.
— Você já foi mais condescendente.
Carla não negou, mas moveu seus olhos escuros para cima.
— E mais trouxa também.
Rael a encontrou na sacada vermelha da cafeteria Folha de Ébano usando camisa azul escura de botões e jeans branco. Ela flertava com dois caras, mas estava de costas para o outro. Parecia bastante focada em fingir que sabia rir enquanto bebericava o café ao mesmo tempo.
Quando ela o notou ali sorriu ainda mais e se virou para avisar os caras bombados que ia tomar uma àgua. No meio do caminho para chegar onde ele estava, ela abaixou os óculos e colocou as mangás de volta aos pulsos antes de jogar o cabelo escuro por sobre o ombro.
Ester era uma figura.
— Rael – ela sorriu para ele de lado, do jeito que sempre fazia. – A que devo a honra de você vir me visitar na cafeteria que eu sem querer mencionei a você que eu sempre ia?
Ele riu.
— Eu preciso de conselhos.
— Ok. É pra isso que as consultas são semanais – ela fingiu sussurrar ao dizer consultas.— Mas, já que você é meu paciente mais anormal e triste... Sem ofensas.
— Não me ofendeu – ele pigarreou e olhou uma das cabines vazias. – Podemos conversar?
Estér assentiu e os dois se sentaram. Ela retirou os óculos na frente do rosto e os pousou no centro da mesa. Depois pousou um dos ombros magros nela e o encarou, esperando.
— Então. Como começar isso – ele umedeceu os lábios.
— Pelo começo – zombou Ester.
Ele revirou os olhos.
— Estou zoando, mas se for sobre esse tal de Gabriel, o que tenho a dizer é que ele já pode morrer.
— Também – Rael respirou fundo antes de continuar. – Eu dormi com Vicente.
Ester ficou segundos paralisada. Ele esperou que sequer respirasse fundo, mas ela apenas enrolou o próprio cabelo escuro no dedo esguio.
— E então?
— Quem é Vicente mesmo? – perguntou ela por fim.
— Um colega meu da escola. Ele vivia me irritando o tempo todo, me cutucando com as piadinhas dele.
— Ai você decidiu cutucá-lo?
— Não! Olha, Luna, o que eu preciso te dizer é que ele estava morando na rua há algum tempo, não sei quanto, e eu pedi para ele passar um tempo na minha casa até que ele conseguisse algum lugar para ficar.
— Foi muita bondade sua... Poucas pessoas aceitariam fazer o que você fez hoje em dia.
Ele sentiu seu coração esquentar um pouco com a doçura da profissional.
— Mas você só fez por que ele precisava?
— Como assim?
— Você gostava dele?
Rael estava prestes a abrir a boca para dizer que não, mas algo aconteceu. O que era aquilo? Por que sua garganta não conseguia soltar sua voz para dizer o que ele precisava dizer? Ele precisava dizer?
— E-eu não...
— Não gosta? – pressionou Ester.
— Eu vim aqui falar que dormimos juntos.
— Pois é – ela assentiu. – E acabou de baixar sua guarda porque não sabe se deve me falar.
— Falar o que?
— Que você está apaixonado por Vicente. E que sempre gostou dele.
Como eles tinham chegado ali mesmo?
— Isso é ridiculo.
— Muito. Mas me explica direito como foi isso de você ter acabado dormido com ele.
Rael abriu a boca sem acreditar.
— Isso é... Muita idiotice. Olha eu vim te pedir conselhos...
— E me confessou que dormiu com um cara sendo que gosta de outro. Não foi isso?
— Não, quer dizer, sim, eu, eu...
Ester pegou o lenço de papel e jogou contra a cara dele.
— Relaxa. Agora respira. E conta tudo.
Ele contou como havia convidado Gabriel para jantar em sua casa e de todo o jantar meio turbulento. Depois contou sobre o que Vicente declarou a ele e depois sobre o sumiço de Gabriel. E do quanto ele ficou preocupado a ponto de ele e Vicente se relacionarem.
E então sobre mais cedo.
— Então Gabriel mentiu – ela comentou com um olhar para a mesa. – Mentiu. Depois mentiu de novo. Pegou você e mentiu. Mentiu de novo e... Agora quer que você acredite na mentira dele?
— Ele não está mentindo! Débora e a mãe dele são duas loucas que não querem aceitar que ele seja gay!
— Rael, para um segundo pra pensar. Se uma mãe não aceita que o filho é gay ela tenta mesmo forçar ele? Pensa só um segundo... Ainda é possível que isso seja verdade.
Ele encarou os dedos largos da Orientadora e seus ombros caíram. Pensou em como Gabriel havia sido no shopping. Depois no passeio. E então a mentira. A discussão dos dois na calçada dele, depois a provocação na festa. E depois da festa... Mais mentiras. E depois disso...
Mas como Gabriel podia mentir tanto a ele se não o queria? Não era simplesmente mais fácil chegar nele e terminar tudo?
— Você precisa decidir o que você quer.
Rael ergueu o olhar.
— Vicente disse exatamente a mesma coisa.
Ester sorriu.
— Então acho que ele é uma pessoa sensata e sabe o que quer. Que nem eu.
— Não é tão facil assim. E eu não entendo porque eu tenho que escolher qualquer coisa.
— Porque esses dois garotos gostam de você, Vicente e Gabriel – ela gemeu com o último nome. – E você não pode ter os dois na sua vida agora.
Ele cobriu o rosto com as mãos suadas. No começo, era para Gabriel ser só um crush. E Vicente? Bem, ele nem sabia quem ele era direito. E Gabriel? Ele queria muito beijar Vicente... Opa, ele quis dizer Gabriel. Ele queria beijar Gabriel!
— Você está pensando – Ester sussurrou divertidamente. – Significa que você está fazendo uma escolha?
Rael olhou perdido para as janelas da cafeteria, fixando o olhar nas pessoas que mais pareciam pontinhos nas ruas. Vicente e Gabriel eram pontinhos. Dois pontinhos que queria ele, segundo Ester disse.
Com qual deles ele deveria ficar?
Erick e Rita se sentaram lado a lado no sofá da sala de Theus e Luke. Marco se recostou em uma poltrona e encarou os dois de soslaio. “Eles são gays” ele moveu a boca sem emitir som algum.
Erick deu de ombros e Rita o olhou com censura. Não ligava se eram ou não, só queria saber quem eles eram. Matheus circundou a sala, tocando em um copo recostado em uma estante de livros colossal. No centro da estante, uma TV parecia desligada. Será que o sinal alcançava aquele meio do mato?
Lucas, o susposto namorado dele, se recostou nas costas do sofá e remexeu em no pulso, onde uma pulseira verde que parecia brilhar no escuro estava. Ele subiu seus olhos escuros para todos eles e flagrou o olhar de Rita. Que desviou na hora.
— Desculpa se pareço indelicado – ele falou depois de um tempo. – Mas quem são vocês?
— Marco – o mais novo sorriu com os dentes platinados. – Me desculpa, mas você se chama Lucas mesmo??
Lucas piscou duas vezes para ele.
— Sim – respondeu lentamente. – Por quê?
— Porque nós tinhamos um amigo chamado Lucas... E ele morreu.
— Interessante – ele voltou a olhar para o pulso.
— Você lembra um pouco ele – comentou Rita. – E não só o cabelo ou a cor dos olhos, muito menos o nome.
Lucas a encarou e assentiu, como se pegasse o comentário dela e arquivasse em alguma parte de sua mente.
Matheus voltou da cozinha e cruzou os braços para eles com um sorriso convidativo. Rita avaliou sua calça jeans e sua camisa xadrez. Parecia o tipico visual de alguém que morava na mata há algum tempo.
Mas seu namorado ao seu lado parecia um modelo da abercrombie com a camiseta azul de linho clara e o jeans cor cáqui que mais parecia bege. E ele parecia ter um visual mais jovial, porque talvez fosse mesmo jovial.
— Então – Matheus chamou sua atenção. – O que precisam saber?
Rita queria falar, mas Erick a pegou pela mão.
— Primeira coisa: Quem são vocês?
Matheus franziu a testa e encarou o parceiro, que nem ousou olhar de volta.
— Somos... Pessoas?
— Tá, mas porque moram aqui no meio da mata.
O olhar de resposta dele foi um pouco mais escuro.
— Gostamos de privacidade.
Marco pigarreou/riu e assentiu.
Lucas ergueu a cabeça.
— Algum problema?
— Eu? – o mais novo apontou para o próprio peito. – Jamais.
Rita chutou o irmão e encarou Matheus.
— O que queremos mesmo saber é que lugar é esse. Desculpe se incomodamos. Não foi nossa escolha vir até aqui.
— Compreendo – Matheus coçou a barba. – É natural as pessoas se perderem aqui – ele arregalou os olhos. — Com essa névoa e tudo mais, quero dizer.
— Por falar nisso – ela estalou os dedos. – Qual o problema desse lugar? É amaldiçoado?
Matheus pareceu inclinado a dizer algo e sua postura mudou completamente. De tenso para impetuoso, ele sorriu e colocou os braços ao lado do corpo, se sentindo leve.
— Existe uma história nessa cidade sobre esse lugar. E o que eles dizem por aí é que essa névoa é do fluxo das almas de pessoas que morreram por aqui.
— Que reconfortante – murmurou Marco.
— É sério – Matheus se sentou ao seu lado. – E essas almas não ficam aqui porque estão presas por algum assunto inacabado. Elas só querem. E veem e vãaao. Do jeito delas. Eu fico louco só de pensar, mas é a verdade!
Rita riu um pouquinho e Matheus a olhou confuso.
Ela ficou envergonhada, mas Lucas, atrás dele no sofá sorriu e se levantou.
— Eu vou buscar um suco.
— Ah – Marco se remexeu. – De que sabor?
Lucas franziu a testa.
— Obviamente que de uva – e saiu andando enquanto Marco socava uma almofada e dizia “droga, droga”.
Rita se voltou para Matheus.
— E vocês vivem bem por aqui? – questionou. – Não existe nenhum medo de algum animal ou...
— Nós gostamos da natureza – Matheus sorriu e fechou os olhos. – E tudo o que ela tem a oferecer pra mim já basta.
Erick se inclinou.
— Tudo mesmo?
— Tudo mesmo – respondeu solenemente.
— Até mesmo coisas – o Lobo murmurou lentamente. – Inexplicaveis?
Matheus ficou confuso e se afastou um pouco. O que era incomum para um homem homossexual.
— Não entendo. Muitas coisas são inexplicaveis – ele estalou a lingua e sua expressão se tornou pensativa. – Por que um amigo mente para seus amigos se deveria confiar neles? Por que fulano de tal não pôde fazer todo mundo feliz? Por que aquela garota não ajudou alguém que poderia ajudar e decidiu não o fazer? Por que o universo é escuro e não totalmente radiante em seu plano de fundo? Por que o ódio e o amor tem que coexistir em uma mesma criatura pensante? – ele respirou fundo e quanto voltou seus olhos a eles, brilhavam. – Enfim. Muita coisa inexplicavel.
— Você é algum fisico ou algo do tipo? – questionou Marco.
— Fisico? Não, de forma alguma. Mas pode se dizer que eu tenho conhecimento de formas fisicas, sim – ele pousou seus olhos em Rita. – Sei um pouquinho de cada um.
Por algum motivo que ela não entendeu, Rita quis sair correndo dali.
— Está sabendo de algo que não deveria? – Erick se inclinou mais ainda.
Matheus olhou para ele sem representar nenhuma defensiva.
— Eu sei de tudo que eu tenho que saber.
Nessa mesma hora Lucas entrou correndo e pousou uma jarra de vidro com o liquido roxo da cor de uva. Ofereceu copos para cada um deles, mas só Marco aceitou.
Rita olhou de soslaio para Erick e percebeu que o Lobo parecia sem saída. Eleita por si mesma como membro mais saudável daquele trio, ela decidiu intervir.
— Nós queremos voltar para cidade. Pode nos arrumar algum mapa ou direção para a cidade?
Matheus assentiu parecendo feliz e se levantou para ir até o segundo andar. Na mesma hora, Lucas foi à direção da cozinha com a jarra, apagando um abajur em um criado mudo antes de sumir por dentro do arco.
Marco e o Lobo se viraram para ela rapidamente.
— Não confio neles – disseram em unissono.
— Por quê? – ela sussurrou a pergunta. – Eles me parecem um casal comum querendo viver na casa deles comum.
— Que conveniente – o tom de voz de Erick lembrava ácido. – Eles morarem bem no lugar onde nossos amigos foram sequestrados. E um deles fica agindo como se soubesse de cada coisa que fizemos!
Ela queria dizer mais coisas, mas o som dos passos de Matheus voltando pela escada em espiral fez eles se remexerem no móvel incrivelmente confortável.
— Isso é um catálogo de lojas e números delas – indicou ele pousando um guia em cima da mesa. – Se acharem algo que bata com o endereço de onde vocês moram, tenho certeza que vão conseguir algum número ou ponto de referencia.
Rita assentiu agradecida.
— Muito obrigada – ela suspirou e desviou o olhar para a casa. – Adorei sua sala. Vocês decoraram tudo?
Lucas entrou na sala novamente com um sorriso colado no rosto.
— Essa parte vocês podem dar todo o crédito a mim – ele segurou Matheus pelo ombro. – Meu marido pode ser inteligente, mas não entende nada de Design.
Marido. Uau.
Os dois reviraram os olhos um para o outro e ela quase não quis suspeitar.
Até notar algo. No dedo indicador de Lucas havia um anel, que estava colocado apenas no comecinho, quase que meio solto. E por mais que não fosse tão grande ela conseguiu olhar seu brasão.
Era o mesmo do colégio Vallywood.
Lucas estudou ou estudava lá.
Alguns minutos haviam se passado e Andressa ainda continuava impaciente. Os membros do grupo restantes ali espelhavam seu estado de espirito, mas de forma singular e única. Érika e Carla pareciam envoltas em alguma discussão, embora o tom de suas vozes estivesse controlado. O humano Henrique respirava fundo e piscava para cada um eles esperançoso. Lizz bocejava, mas Dessa não conseguia deixar de notar que seu olhar perspicaz mirava a barreira atentamente. À espera de uma fraqueza na barreira. Fernando roía a unha do polegar sem conseguir parecer sútil em seu nervosismo.
Eduardo a encarava.
— Você estava pensando algo – ele comentou.
Andressa o olhou com indiferença.
— Estamos todos pensando.
— Mas seus pensamentos são especificos – acusou o moreno com os olhos fixos nela. Não era ilegal erncarar as pessoas daquele jeito? – Você tem um plano.
Ela queria ganhar mais tempo e protelar para não ter que ser obrigada a dizer nada a ele, mas pelo visto Eduardo a conhecia de verdade. E por mais que não gostasse disso ela teria que deixar as indiferenças de lado.
— Tudo bem. Eu não queria te dizer isso porque tem a ver com o Natal retrasado. E Fernando pôde não gostar do plano.
A testa de Eduardo se enrugou.
— Natal? Como assim Natal?
Ela suspirou e falou:
— Você se lembra de quando enfrentamos aquelas duas Bruxas gêmeas? Denise e Freya?
Os olhos escuros de Edu se perderam, mas ele assentiu.
— Denise estava usando um feitiço semelhante a esse da barreira – ela prosseguiu. – E toda vez que Fernando e Felipe tentavam passar por ela, eles eram empurrados de volta, assim como os Vampiros que acabaram de morrer.
— E a barreira também podia nos jogar para lados diferentes, nos separar – ele parecia começar a entender. – Como Rita, Erick e Marco.
— Sim! – ela espalmou as mãos atraindo os olhares dos outros membros do Pack. – E o único que conseguiu quebrar a barreira tinha sido Felipe!
— E o que você recomenda que façamos? – Lizz a questionou. – Chamar o espadachin do meu Pack que está em uma missão completamente arriscada do outro lado do mundo?
— Você estava ouvindo nossa conversa?
A loira revirou os olhos.
— Corta essa. E nós não podemos chamar ele. Ou seja...
— Temos que quebrar a barreira.
— Mas como Felipe conseguiu? – Eduardo questiona. – Até onde sabemos esse era o dom dele. Ser imune a habilidades de Bruxas.
Andressa balançou a cabeça.
— Ele não era imune – ela levanta os olhos para a floresta. – A espada dele era. E era feita de madeira.
Eduardo segue seu olhar para os troncos das àrvores e em sua expressão tranquila tudo parece começar a se esclarecer.
— Madeira... Madeira quebra o feitiço.
Érika, que a essa altura do campeonato já escutou tudo, balança a cabeça com descrença em sua expressão.
— Parece tudo muito fácil para mim.
Dessa quer dizer algo, mas então Carla se vira para a Beta.
— Você é muito fácil – ela cospe e encara Eduardo e Andressa. – Quebrem a barreira.
Andressa olha para Eduardo e percebe que talvez ele a esteja olhando com intensidade demais. Mas não questiona por algum motivo. Ela então pula da ponte com habilidade e se joga em um galho forte e maduro. Vira-se para Edu e o moreno a espera com as mãos erguidas.
O galho é cortado facilmente pela adaga em sua mão e ela o pega com destreza. Com um último olhar para fazer a mira certa, ela o lança na direção da ponte.
Eduardo alcança a madeira e atira contra o espaço vazio, que não é tão vazio.
Um estrondo faz toda a ponte tremer.
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