Choose Your Pack
2 In The Pack
No edifício escuro, duas sombras, uma loira e uma morena, se jogaram para trás de um dos pilares de concreto do lugar plano e abandonado. O chão feito de concreto fazia um som de raspagem a cada vez que uma delas tocava o chão. Sabrina foi a primeira a chegar no ponto e encontro, afastando a franja loira do rosto para conseguir enxergar sua aliada.
– Aqui já esta bom demais – ela grunhiu para a escuridão que mais parecia um estacionamento abandonado. – Não vou correr mais do que isso.
– Cale a boca ingrata – Carolina emergiu das sombras, o cabelo cacheado castanho parecendo um manto desgovernado. – Tem sorte de eu ter aparecido... E acho que o termo que quis usar era fugir, certo?
Sabrina bateu uma das asas e deu uma boa medida na aliada não muito desejável. A Chefa de Atiradores tinha uma aparência que traia seu titulo. Suas roupas eram escuras, mas seu corpo escultural e magro mais parecia uma das novas caras da Vogue ou da Vogue Teen. Se Sabrina não fosse um anjo-caído, vulgo demônio, até que daria umas dicas de como ela poderia de beleza.
Mas ela era um demônio. E tinha uma missão. E aliados. Dois aliados.
– Isso não vem ao caso – ela fingiu não ficar nervosa. – Eu quase tinha colocado minhas mãos no Mário. Mais dois minutos e ele estaria acabado.
– Você sabe que isso não é bem verdade – Carolina balançou a cabeça com decepção. – Mais dois minutos e logo Andressa e os membros do Pack iriam te fazer em pedaços – ela estremeceu rapidamente. – Literalmente.
Sabrina soltou uma risada audaciosa.
– Não me confunda com você, querida – ela fuzilou os olhos. – Não fui eu quem abandonei meu clã inteiro de Atiradores para um bando de adolescentes. Essa foi você!
Os olhos de Carolina se escureceram.
– Isso é porque não foi você quem enfrentou todos eles, tinham lobisomens lá e...
– Basta!
A terceira voz que se juntou a discussão pertencia a um capuz preto recostado levemente em um outro pilar um pouco mais distante na escuridão. Carolina quase não conseguia ver seu rosto e sabia bem que aquilo era proposital, apesar de saber sua identidade. Não ia conseguir discutir com aquela pessoa na forma em que estava. Era desconcertante.
– Vocês duas não estão vendo que essa discussão toda é inútil?
Nenhuma das duas respondeu e Sabrina fungou com o nariz de um jeito meio que meticuloso.
– Isso não se trata de quem fez o quê, ou onde – a voz continuou. – Se trata que ambos temos inimigos em comuns. E enquanto vocês perdem tempo matracando, eles estão tentando nos achar, então calem a maldita boca de vocês e se concentrem.
Carolina pigarreou.
– Acontece que uma coisa mudou um pouco o trajeto dos nossos planos.
O capuz virou a cabeça rapidamente em sua direção.
– Que tipo de coisa?
Carolina engoliu em seco e tentou não ficar nervosa. Era melhor não mexer com aquela pessoa. Seria perigoso demais se ela falhasse uma só vez.
– O Pack acabou se reencontrando com Rafa Capoci – ela soltou de uma vez. – Ele viu Sabrina tentando matar Mário e tentou intervir.
O capuz continuou encarando-a, sem nenhuma nova reação.
– Nisso que ele se intrometeu, eu cheguei perto de mata-lo – Sabrina continuou para a aliada. – Mas os três apareceram e estragaram tudo.
O capuz moveu a cabeça um pouco para o lado e o que parecia ser uma risada escapou entre seus lábios e ecoou pelo local abandonado. Nenhuma das duas se arrepiou, mas isso não significa que gostaram do som.
– E chama isso de estragar tudo? – a pessoa riu outra vez. – Minhas queridas, não podiam ter me dado uma noticia melhor.
– Noticia melhor? – repetiu Sabrina. – Por que essa informação serviria de algo positivo para a nossa vingança?
O capuz se virou de costas para elas, ainda rindo, e pareceu encarar algo que estava longe de estar ali.
– Rafa Capoci se reconectando com seus amiguinhos do Pack e pronto para ir caçar alguma coisa com eles novamente – o capuz se virou para elas. – Têm jeito melhor de começar a trabalhar nossos planos com ele assim?
Carolina, muito confusa, deu um passo a frente.
– Não entendi aonde quer chegar.
– Relaxa, cara – a pessoa riu. – Tudo tem seu tempo. E nossa vingança contra os membros do Pack vai chegar. Muito em breve.
*~*~*~*
Quando Rafa Capoci abriu os olhos, a primeira coisa que seus olhos focaram foi o teto cor de areia. Uma confusão de pensamentos encheram sua mente até que ele olhou para o chão ao seu lado e tudo fez mais sentido. Fernando dormia tranquilamente em cima de um amontado de cobertores cinzentos. Seu rosto bronzeado estava sereno, suave e inconsciente. Rafa lembrou de sua insistência para que ele dormisse em sua cama de solteiro, uma vez que o outro quarto pouco empoeirado estava sendo ocupado por Andressa e Eduardo. Rafa se lembrou de tentar recusar o pedido humildemente, uma vez que a ideia de dormir no mesmo cômodo que Fernando o deixava nervoso. Mas ele não tinha muitas escolhas.
Depois que decidiu entrar para o Pack, logo ele e os outros trocaram olhares nervosos.
– Bem... – Fernando tinha sido o primeiro a dizer alguma coisa. – Isso é bom, eu acho.
Rafa a encarou brevemente e logo percebeu que Andressa o fitava e Eduardo mudava o peso do pé de um lado para o outro.
– Qual o problema? – questionou. – Eu não posso?
– Claro que pode! – Andressa respondeu rapidamente, mas com uma risada nervosa. – Só que...
– Só que? – Rafa pressionou.
– Não é tão simples assim – Eduardo respondeu.
– Como assim?
Nessa hora, os olhos de Fernando o fitaram de forma tão profunda e séria que Rafa quase quis andar até ele, segurar seu ombro e perguntar “moço, esta tudo bem?”.
– Para entrar no Pack é necessário passar por um teste.
– Teste? – Rafa engoliu em seco. – Que tipo de teste?
Andressa bufou.
– Nenhum que precisa usar caneta e papel, disso você pode ter certeza.
No momento Rafa a tinha olhado de um jeito assustado, mas assim que Eduardo se afastou com o celular no ouvido e dizendo algo como “Precisamos que venha rápido”, algumas peças se encaixaram.
– O que ele precisa que venha rápido?
– Layane – Andressa respondeu automaticamente.
– Ela esta aqui?
– Ela virá aqui – Fernando corrigiu. – De helicóptero e tudo.
– De helicóptero? Mas por quê?
– Porque, meu querido, — Andressa sorriu lascivamente enquanto falava. – Nós vamos para La Iglesia.
E agora Rafa aguardava pelo tal “teste” que eles tinham mencionado. Como seria isso? Bom, Andressa tinha deixado bem claro, de um jeito bem sútil, que não seria por escrito. Mas então... Como seria? Rafa estava curioso para saber.
O movimento brusco de Fernando acordando o arrancou de seus pensamentos e Rafa tentou disfarçar o máximo enquanto cobria suas pernas para debaixo das cobertas.
Fernando se sentou preguiçosamente no chão e seus olhos se encontraram brevemente antes de ele começar a esfrega-los.
– Bom dia – sua voz saiu rouca.
– Bom dia – Rafa usou um tom neutro.
– Dormiu bem?
Rafa assentiu.
– Não é tão ruim quanto parece – esboçou um sorriso.
– Então – Fernando apertou os olhos. – Está preparado?
A pergunta foi feita de forma tão simples e de forma tão rápida que Rafa nem teve tempo de preparar sua própria reação. O mais difícil ainda é que notou, quase inevitavelmente, que Fernando estava sem camisa, exibindo seu dorso perfeito.
– Quer uma resposta honesta? – Rafa respondeu depois de um esforço tremendo para desviar o olhar. – Eu poderia estar preparado se soubesse como esse teste funciona.
Fernando respirou fundo e o mediu com um olhar que parecia beirar entre pena e diversão.
– E eu poderia te contar muita coisa sobre isso – começou a dizer, mas então parou, mordendo o lábio inferior para se impedir de continuar.
– Mas não vai, não é mesmo?
– Olha, Rafa, esse é o seu teste – ele o lembrou. – Não posso intervir nisso, sinto muito.
– Não, tudo bem, eu entendo – ele balançou a cabeça. – Não precisa ficar com pena de mim nem nada.
O loiro franziu o cenho.
– Pena?
– É – Rafa pigarreou. – Está me olhando do mesmo jeito que me olhou no ano passado, quando meu amigo morreu.
Fernando ficou bem surpreso com a resposta e, mesmo sem confessar a si mesmo, Rafa também. Achava que falar da morte do melhor amigo demoraria bastante, e não que a usasse em uma conversa tão casual como aquela.
Pensando bem... Aquilo tudo estava longe de ser casual.
– Eu não estou com pena de você – respondeu se erguendo do chão. – Apenas acho que não deveria se preocupar tanto.
– Acha? – Rafa citou. – E por que acha?
– Porque por mais que você não saiba o que vai ser preciso para você entrar no Pack, ainda assim vai conseguir. Porque é o que você quer.
Rafa se surpreendeu com a convicção na frase.
– Acredita mesmo que eu quero entrar pra tudo isso?
Fernando pareceu querer dizer outra coisa, mas deu de ombros e o olhou nos olhos.
– Você acredita?
E com isso se levantou e saiu do quarto, não respondendo a pergunta do outro.
Andressa jogou uma toalha em cima da cômoda e suspirou pesadamente. Ajeitou a alça da camiseta escura e deu uma olhada pela janela. Dali podia ver o escritório de Anna, onde teria que se apresentar dentro de segundos e reportar um relatório sobre a última missão. Fracasso, ela já podia ouvir Anna lhe repreendendo.
Antes que pudesse pensar um pouco mais nisso, mãos grossas afagaram sua barriga e a puxaram para trás. Ela ficou tensa no começo, mas não com medo. Até porque reconhecia as mãos – o toque delas, também.
– O que essa cabecinha não para de pensar, hein? – ele sussurrou no pé do ouvido dela, o hálito quente e delicioso se derramando sobre o seu rosto.
Andressa sorriu e o cutucou com o ombro.
– Sobre o que eu não poderia parar de pensar? – ela provocou.
Eduardo riu e o som disso fez o corpo todo dela se arrepiar.
– Em mim, é claro.
Andressa se virou para ele e encontrou o rosto lindo do namorado perto do seu. Seus lábios rosados curvados em um sorriso provocador.
– Nisso eu já penso até demais – ela respondeu.
Ele abriu a fileira de dentes brancos e perfeitos.
– E o lado ruim disso é...
Ela o silenciou puxando sua nuca. O beijo dos dois foi forte e intenso. Os lábios de Edu não soltavam sua língua exploradora. O cheiro que vinha dele fazia o estomago dela se remexer. Aquele era um beijo que eles vinham dando há meses. Um beijo apaixonado.
Mas tão logo começou, ele a interrompeu.
– Vai ser juiz no teste do Rafa hoje?
– Não – ela respondeu meio encabulada, descansando uma das mãos no rosto do namorado. – Anna disse que tem outro tipo de coisa programa para mim hoje.
– O relatório?
Um revirar de olhos da garota foi mais do que uma resposta.
– Ela vai gritar comigo e provavelmente quebrar um vaso ou dois.
– Deixa ela quebrar – caçoou ele. – São os vasos dela mesmo.
Andressa se deixou sorrir e colocou os braços envolta do pescoço dele. Ele respondeu dando um beijo carinhoso em sua bochecha.
– Isso é sério, Edu. Assim que ela descobrir que deixei a Carolina fugir de novo ela vai ficar puta.
– Não foi culpa sua. Estávamos todos lá.
– HA! Vai você dizer isso pra ela.
Ele estava prestes a encontrar uma resposta, mas um som na entrada do que eles chamavam de casa – ou loft, tanto faz – fez com que ambos ficassem tenso.
– Dessa, querida?
Aquela voz até Eduardo reconhecia. Seu rosto ficou pálido de imediato e ele encarou Andressa, em busca do que fazer.
– Banheiro – ela cochichou.
Sem hesitar, Edu se esgueirou para o cômodo e fechou a porta.
Andressa suspirou e jogou o cabelo por sobre o ombro, dando uma olhada pelo espelho para ver se estava com o rosto muito corado. Ótimo, tudo perfeito.
– Sim, mamãe – ela falou em uma voz muito mais alta e muito mais confiante.
A mulher que gerou Andressa apareceu na entrada da casa. O cabelo negro e curto na altura do queixo impecável. Os olhos verdes, brilhantes e grandes analisando todo o local. Usava uma túnica preta do tipo que só os caçadores mais antigos do Pack de La Iglesia usavam.
– Está sozinha aqui, filha? – perguntou semicerrando os olhos.
Andressa apenas sorriu e assentiu. Agora estou.
– Que bom – a mãe sorriu de volta. – Ouvi dizer que estava em uma missão. É verdade?
Surpresa e orgulhosa de si mesma, Andressa afirmou com a cabeça.
– Sim. Em Vallywood – ela pigarreou.
– Isso é muito bom. Estou orgulhosa de você. Não é tão fácil assim ir caçar uma Chefa de Atiradores.
De repente Andressa percebeu que aquilo estava bom demais para ser verdade. Sua mãe estava parecendo falar a verdade, mas seu tom inclinava para algo mais.
– No entanto...
– Ah, Deus — Andresa afagou as pontas do cabelo. – Qual o problema dessa vez, mãe?
A mais velha pareceu um pouco confusa de inicio.
– Ora, não há problema nenhum, querida.
– Não mesmo?
Uma oscilação na expressão dela dizia o contrario.
– Eu ouvi dizer que Eduardo Dragomir ainda esta no seu Pack.
Um silêncio pairou entre as duas. Mas foi breve.
– Mãe – ela fez de tudo para manter o tom sob controle. – Edu sempre fez parte do meu Pack. Ele faz parte.
A mãe franziu os lábios e cruzou os braços.
– Eu posso não estar de acordo com isso.
– Bem, eu não me importo com o que pense – Andressa retrucou, esperando que a mãe se aborrecesse. Mas não. A Srta. Bertoni continuou com um olhar insatisfeito, porém nada chocada com a revolta da filha.
– Espera, mãe, o que quis dizer com ele ainda faz parte do meu Pack.
A mãe ergueu os olhos e a encarou firmemente, sem piscar.
– Andressa.
– Mãe.
– Saiba que eu só quero o seu...
– Desembucha – ela cortou o papo emocional, sem notar que estava amassando uma das toalhas em cima da cômoda.
– Conversei com Anna esta manhã e – ela fez uma pausa olhando na direção do escritório pela janela. – E disse a ela que não quero mais que esse garoto faça parte da mesma equipe que você; ou você da dele, não me importa.
O coração de Andressa deu um salto tão grande que por um segundo ela pode jurar que veias roxas embaçaram sua visão por um momento. Como é?
– Querida – a mãe se apressou em dizer. – Eu não quero esse garoto do seu lado.
– Por quê? – a pergunta quase nem saiu.
– Ele quase colocou todos vocês em risco em Setembro passado. Fiquei com muito medo que algo acontecesse com você.
– Algo aconteceu! – Andressa guinchou. – Ele quase morreu.
Surpresa atravessou a expressão da mãe, mas não durou por tanto tempo assim. Logo a mascara de seriedade e reprovação estavam estampados ali novamente.
– Podia ter sido com você, filha.
– Podia ter sido com qualquer um – ela engoliu em seco, pensando em Lucas. – Não pode esperar que eu não corra risco saindo nessas missões, mãe! Eu sou uma caçadora, pelo amor de Deus!
– Não meta Deus nisso – a mãe sibilou. – Eu sei que existem perigos nessa vida. Mas o modo como esse garoto trabalha... O jeito como ele se arrisca nas missões, isso sim é risco demais.
– Se arriscar nunca é demais se for para concluir nossas missões – Andressa soltou. – Você me lembrou isso, não se lembra?
A mãe piscou por alguns instantes os olhos claros, mas deu de ombros e começou a se virar.
– Não importa o que pense, minha decisão esta tomada.
Andressa ergueu o queixo.
– A minha também – disse e a mais velha se virou com olhos confusos na direção dela. – E eu decido mudar a opinião de Anna.
O celular de Vick primeiro vibrou e depois tocou. Uma musiquinha estática e rápida que nem mesmo ela lembrava o nome mesmo. Ela atravessou a cozinha e a sala de estar para chegar em seu quarto e o pegou em cima da própria cama.
Olhou a tela que dizia CHAMADA DE CAMILA ALVES.
Suspirou, pensando no que a amiga poderia querer dizer que não pudesse ser pessoalmente, uma vez que não moravam tão longe assim. E atendeu.
– Alô?
– Vick?! — o chiado da voz soou por todo o cômodo.
– Fala, Camis – ela respondeu a amiga e se sentou na cama.
– Então, looouca, tem algo que estou precisando conversar com você!
– Não diga – caçoou. – Vai me dizer ou ficar fazendo suspense?
– Não seja chata, isso é sério – exigiu a outra do outro lado da linha.
– Ok – Vick se lembrou da tarde anterior, das duas seguindo Taffara e Camila Polli – que até então costumava ser amiga delas. As duas pareciam estar tramando algo e Taffara, inclusive, parecia estar escondendo mais do que uma coisa.
– Se lembra de toda aquela confusão de ontem à tarde? Com a Taffara e a... Traidora? – questionou e Vick não ficou surpresa com o tom de raiva da melhor amiga.
Mas então surpresa pelas duas estarem pensando na mesma coisa afastou o celular e olhou em volta com um sentimento de paranoia.
– Lembro sim – respondeu cautelosamente. – O que é que tem?
– Tem algo sobre ontem que eu devia ter dito – ela parou e seu tom assumiu um tom menos estridente. – Eu fui atrás da Cami... Da traidora, e acontece que ela meio que virou a esquina em uma cafeteria vagabunda. Eu até achei que naquela altura do campeonato ela sabia que eu estava indo atrás dela, mas não. Ela nem me notou.
– Tudo bem, conseguiu atiçar minha curiosidade – Vick confessou. – E depois?
– A traidora parou perto da porta da cafeteria e bateu três vezes em uma porta do lado. Eu esperei que um velho aparecesse ou algo assim, mas não, o que eu vi foi um garoto. E os dois conversaram bastante, até ela entregar um papelzinho pra ele.
Uma sensação estranha tomou Vick. Um papel? Uma nota? De quem? De Taffara?
– E o que mais? – o tom de Vick agora estava longe de soar desinteressado. – Quem era o garoto?
– Eu não sei – a amiga soltou. – A Camila ficou na frente o tempo inteiro com aquela cabeça enorme dela e eu não pude ver o rosto. Só me deu tempo de ver que eles conversaram só mais um pouco e ele fechou a porta na cara dela. Eu até tentei bater lá depois que ela saiu, mas ele não voltou a aparecer.
Vick passou a mão no rosto, frustrada e cansada demais pra dizer qualquer coisa.
– Ela provavelmente tá escondendo e aprontando alguma coisa!
– Minha querida, disso eu nós estamos cansados de saber – Vick a lembrou. – Agora você me liga só pra dizer que viu a estupida da Camila entregar um bilhete pra um cara que nem sabemos quem é?! Tenha dó, Camis!
– Eu senti que precisava te dizer, amiga! – a outra se defendeu.
Vick estava prestes a responder quando a campainha soou por toda a casa.
– Eu tenho que atender a porta – ela avisou.
– VICK, ESPERA! AMIGA, FICA DE OLHO NESSA TAFFARA, ELA NÃO PASSA DE UMA...
Ela cortou a ligação rapidamente, se colocando de pé.
– Já vai! – ela gritou quando a campainha soou mais duas vezes, impaciente.
Retirou-se do quarto e entrou na sala de estar. Ao atender a porta, ficou surpresa com o que viu. Aquela realmente era o oposto da impaciência.
– Olá – a garota sorriu e piscou os olhos verdes belos. – Desculpa incomodar, meu nome é Rita.
– Oi – Vick respondeu timidamente. Rita parecia legal, mas suas próximas palavras quase estragaram tudo.
– Eu sei que é meio inconveniente eu ser tão direta assim, mas – ela hesitou, parecendo sinceramente arrependida. – Eu vim conversar com você a respeito do Lucas. Ele era meu amigo também.
Quando Erick terminou de correr o quinto perímetro do campo de areia perto da base de Lobisomens, seus olhos arderam um pouco com o sol escaldante. Parou um pouco de andar e se recostou em uma rocha aleatória na altura de seu quadril.
– Erick!
Ao olhar para o lado, Carla esta vindo em sua direção. O cabelo preto e cumprido batendo nas costas da camiseta arregata bege. Deu uma boa avaliada nos jeans dela e quase não acreditou que ela podia ser lésbica. Mas suas próximas palavras denunciaram isso.
– Você viu a Érika? – questionou quando ele não respondeu e ficou a encarando de boca aberta. Érika era a namorada dela, Erick logo processou.
– Não – ele respondeu de pronto.
– Que estranho – a testa dela se franziu. – Achei que ela estivesse com você.
– Quem me dera – Erick assoviou, mas com um olhar penetrante da loba logo pigarreou. – É... O que te fez pensar isso?
– Ela me disse que ia correr com você – Carla revelou. – Não é verdade?
– Não, é verdade sim.
– Ah.
– Ela correu por três segundos e então desviou o caminho do nada.
Carla juntou as duas sobrancelhas.
– Como é? Que história é essa?
– História que aconteceu – Erick deu de ombros como quem se desculpava.
– E por que não veio falar isso pra mim?
– E eu lá sabia que você sabia de alguma coisa?
Carla grunhiu ao invés de responder.
– Onde é que ela se meteu?
Erick quase deu de ombros, mas os olhos de Carla brilharam como um aviso.
– Eu já disse que eu não sei.
– Bem – ela suspirou e os olhos voltaram à cor normal. – Me ajuda a procurar ela?
– Claro – ele nem pensou duas vezes na resposta e sim nas presas evidentes dentro da boca da outra.
*~*~*~*
Os dois acabaram perto do que parecia uma base cheia de pessoas sérias de La Iglesia, o que quase intimidou Erick, que estava sem camiseta. Carla se encolheu um pouco, se sentindo desconfortável e olhou ao redor.
– Esse não parece um lugar onde a Érika estaria – ela comentou, avaliando uma garota de terno e saia azul.
– Não, parece um lugar onde a Oprah se apresentaria – Erick suspirou. – Acho melhor procurarmos em...
– Posso ajuda-los? – uma voz rouca perguntou atrás deles.
Erick e Carla se viraram para uma garota pálida, alta, com cabelo loiro claro e trança. Usava roupas diferentes das dos “empresários”, meio surradas e um colete na frente do corpo que ia até os ombros. Parecia uma gladiadora.
– Er... Não sei – Carla franziu a testa. – Você viu uma garota de cabelo loiro grande por aqui?
A garota avaliou a loba com calma e depois deu de ombros.
– Posso ter visto.
– Como assim pode ter visto? Viu ou não viu?
– Carla – Erick a censurou com uma mão no ombro.
– Não, eu não a vi – ela disse. – Só estava provocando.
Carla semicerrou os olhos.
– Quem você acha que é? A princesa das pegadinhas?
– Não, eu me chamo Alex. Sou uma corredora.
Erick ergueu as sobrancelhas, surpreso, mas Carla apenas bufou e começou a se afastar.
– Não estou disposta – ela olhou por sobre o ombro, para Erick. – Você vem?
Erick estava prestes a se afastar, mas deu uma boa olhada em Alex, a corredora, e sentiu uma pontada de curiosidade.
– Não, não, pode ir – ele murmurou, mal encarando a alfa de volta.
Carla soltou um grunhido frustrado e saiu correndo. Erick apenas sorriu para a garota de trança.
– Corredora, é? Que tal me dizer mais sobre isso?
– Um aperto de mãos? Só isso? – Karina desdenhou com a boca enquanto encarava o irmão mais novo.
Rael fez uma careta feia para ela e se virou para ajeitar seu cabelo cacheado. As pessoas sempre elogiavam seu cabelo por ser cacheado. Lindo e natural, uma coisa ou outra. Ou as duas ao mesmo tempo.
– Não foi só um aperto de mãos – ele grunhiu se virando para ela. – Ele passou o dedo na palma da minha mão.
Karina continuou inexpressiva e desdenhosa.
– E o que isso tem de mais? Pode ter sido sem querer.
Rael bufou.
– Ele me chamou pra beber, isso não é prova o suficiente?
– De que ele seja gay? Não mesmo.
– Você é minha irmã, deveria ficar do meu lado.
– Eu ficaria, acredite – ela o olhou nos olhos. – Se ao menos você tivesse algo de concreto nessa história. Talvez ele seja novo na cidade e só tenha precisado de um amigo.
– Tá legal, esse tipo de coisa não existe.
– Não foi assim que você conheceu o Rafa?
Rael fechou a cara.
– Isso é golpe baixo.
– Mas é verdade, não é?
– Tudo bem, mas eu podia te jurar que a forma que ele me olhou... – ele se interrompeu no meio da própria frase.
– Rah, já não conversamos sobre isso? – a irmã se levantou da cama dele e afagou seu ombro. – Não. Se. Iluda.
Ele deixou os ombros caírem e Karina deu um sorriso levado.
– Mas por outra parte, eu acho que deveria encontrar ele de novo.
– Como é? Mas você não disse...
– Eu sei o que eu disse – ela brincou com um cacho dele de um jeito carinhoso. – Mas o que você quer?
Rael não respondeu e mordeu o lábio inferior, e essa foi a deixa para Karina sair do quarto.
– Te odeio! – ele gritou para ela.
Decidido a não ficar com pensamentos na cabeça, Rael vestiu uma camiseta diferente e calçou o par de tênis vermelho e favorito. Logo estava descendo as escadas para o segundo andar e saindo porta afora.
Não demorou muito para estar na avenida, perto do terminal lotado de pessoas ocupadas e estressantes. Estava prestes a decidir aonde queria ir até que notou uma forma familiar perto de uma banca.
Gabriel.
Piscou duas vezes, achando que era uma ilusão, mas o garoto de cabelo escuro e olhos grandes que tinha conhecido um dia atrás estava mesmo parado ali, tocando uma revista de UFC com um olhar interessado.
Pensou se deveria andar até ele, mas Gabriel foi mais rápido ao se virar automaticamente e o notar ali parado. A primeira reação foi o reconhecimento. A segunda foi um sorriso crescendo em seus lábios.
Sem folego, Rael apenas o observou andando até ele.
– Ei, você – ele apontou para o peito dele. – Não sabia que costumava andar por aqui.
Rael esperou para poder falar até ter certeza de que não gaguejaria; o que ainda não tinha certeza ao dizer:
– Nem eu – fez uma risada falsa. – Achei que não ia te ver tão cedo.
Gabriel assentiu em concordância.
– Eu também, mas pelo visto nós dois nos enganamos, não?
A frase foi tão cheia de segundos sentidos ou Rael estava ficando paranoico?
– É – ele moveu um ombro. – Olha, sobre ontem, eu gostei bastante. Acho que estava mesmo precisando de um drinque.
– Por nada – Gabriel provocou. – Pode me chamar sempre que quiser, ok?
Rael fez que sim com a cabeça e uma ideia ousada começou a se formar em sua mente.
– E que tal se for agora? – tão logo fez a pergunta, se arrependeu de ter feito.
Mas Gabriel parecia divertido com aquilo tudo.
– Claro, por que não?
É, por que não?
No inicio da tarde, Rafa estava andando pelo mesmo corredor brilhante e cor de areia que levava até as portas do escritório de Anna. Em sua frente, Andressa, Eduardo e Fernando andavam da mesma forma uniforme de sempre.
– Posso dizer o quanto isso é estranho? – ele soltou no silencio. – Eu estou aqui de novo. Andando por esse corredor de novo. Com vocês aqui... De novo.
– E esta falando demais, de novo – Andressa retrucou.
Rafa bufou.
– Mas dessa vez eu sou um de vocês – ele declarou.
– Será um de nós – Eduardo corrigiu em tom seco. – Isso se conseguir passar no teste.
– Eu acho que ele vai passar no teste – Fernando comentou.
– Achar não é a mesma coisa que ter certeza – Eduardo deu um sorriso amarelo. – Só se passaram quatro longos meses, Caubói. Muita coisa aconteceu.
– Pode ter passado sim – Rafa respondeu. – Mas não esquece que nessa muita coisa que aconteceu, eu salvei sua vida.
Eduardo parecia querer responder alguma coisa, mas eles chegaram às portas duplas do escritório, o que encerrou qualquer conversa.
– Ah, finalmente – Anna os cumprimentou com os braços abertos. – Achei que tinham se perdido.
– Para a sua infelicidade, não – Andressa deu um sorriso falso.
– E vejo que trouxeram alguém familiar – A Chefa abaixou os óculos para encarar Rafa. – É um prazer te ver de novo, garoto.
– Também – Rafa resmungou, se sentindo mais infantil do que nunca.
– Temos um pedido a fazer – Fernando se colocou para frente.
– Temos? – Edu ergueu uma sobrancelha de lado para o parceiro.
– Sim, temos – o loiro insistiu.
– Na verdade, é o Rafa que quer – Andressa disse.
– Mas somos nós que estamos solicitando – Fernando apontou.
Anna suspirou.
– Será que alguém pode ir direto ao ponto aqui?
Edu olhou de rabo de olho para Rafa e o outro entendeu isso como uma dica para que ele falasse. Tomando coragem, ele deu dois passos a frente.
– Eu quero entrar para o Pack.
Anna o olhou por segundos até que Rafa começasse a se sentir bastante desconfortável. Tamborilou os dedos na mesa a sua frente e piscou.
– Hein?
– O Pack deles – Rafa gesticulou. – Eu quero fazer parte.
– Isso eu ouvi – Anna piscou ainda mais. – Mas por que exatamente está me pedindo isso?
– Como assim? – Rafa franziu o cenho. – Não é você a Chefa deles? A dona fodona desse lugar?
– Er, Rafa... – Fernando se precipitou.
– Eu tenho conselheiros – Anna o cortou. – E eles sim são donos dessa cidade, garoto.
Rafa olhou para Fernando e ficou em silencio, se recusando a sentir muito pelo que havia dito. Ela teria que trata-lo bem ou aquilo não iria para frente.
– E quanto a isso de entrar no Pack deles – Anna coçou a nuca com as unhas grandes. – Isso não é comigo.
Rafa ficou paralisado e sentiu os outros três ao seu lado ficarem da mesma forma.
– Não?
– Claro, se você faz parte dessa cidade e quer subir um escalão maior, é lógico que tem que pedir minha permissão para entrar – Anna explicou. – Mas como você não mora aqui e não tem raízes com esse lugar, não vai caber a mim tomar essa decisão.
– E cabe a quem então?
Anna o olhou intensamente por um segundo e depois sorriu para algo atrás dele.
– Chame os juízes.
Rafa se virou a tempo de ver Layane se virar de volta para o corredor. Quando ela tinha entrado ali? Ele ficou a encarando andar com o jaleco de médica tocando o chão.
– Juízes? – questionou e avaliou os outros. Andressa parecia entediada. Eduardo sorridente e Fernando um pouco tenso demais ao encarar a Chefa.
– Isso mesmo – Anna disse. – Os juízes que vão aplicar o seu teste.
– Há quanto tempo o conhecia? – Rita perguntou, se sentando em um puff no meio da sala de estar.
Vick pousou o chá que havia oferecido na mesa de centro e despejou um pouco em uma das xicaras.
– Praticamente desde criança – Vick respondeu a pergunta sobre Lucas com um tom baixo. – Moramos um perto do outro, frequentamos a mesma escola. É inevitável não sermos próximos.
Rita assentiu, notando o uso do verbo presente e quase ficou com um pé atrás em continuar falando. Quase.
– E foi você que espalhou os cartazes pela cidade?
A pergunta poderia ter deixado Vick desconfortável, mas se deixou ou não, Rita não foi capaz de saber por que ela tinha disfarçado muito bem.
– Sim – respondeu. – Na esperança de que alguém ligue ou me conte alguma coisa.
– E acha que vão ligar?
Vick a encarou como se dissesse “Não acredito que me fez essa pergunta”.
– Acho que isso só o tempo vai dizer.
Ela era boa em evitar, Rita observou, mas podia ver o nervosismo por trás de toda a farsa.
– Desculpe se minhas perguntas foram indelicadas.
– Não, tudo bem – Vick sorriu. – Não me importo em responder. Mas quanto tempo você o conhecia?
Rita não ficou surpresa com a pergunta. Nada mais justo que revidar a pergunta, ela podia ouvir Vick pensando.
– Nos conhecemos online no ano retrasado , em um fórum – ela explicou. – Ele parecia bem inteligente e muito engraçado.
Vick agora deu um sorriso bem autentico e sonhador.
– Parece mesmo com ele – comentou. – Sempre admirei ele, apesar de ser um chato inteligente quase o tempo todo.
Rita mordeu o lábio inferior, não se acreditando no que ia perguntar:
– Eram mais que amigos?
Os olhos da outra se arregalaram e ela acabou derrubando uma das xicaras no chão. Não quebrou, mas fez um barulho bem alto.
– Desculpa, como?
– Eu sei que é indelicado da minha parte...
– E é mesmo – Vick pegou a xicara do chão e a colocou em cima da mesa. – Por que quer saber? Você e ele namoram?
Rita engoliu em seco. Era justo, ela sabia disso.
– Não – respondeu. – Que dizer, éramos próximos e sempre pensamos na possibilidade, mas... Não acho que teria dado certo.
Vick a encarou atenta e ficou claro que ela esperava que ela dissesse exatamente o contrário. Jogou uma mecha do cabelo para trás da orelha, parecendo menos na defensiva.
– Não vou mentir para você. Rolou algo entre nós. Eu nunca pensei que ele teria coragem, mas no ano passado, antes de sumir, ele se declarou pra mim e me beijou.
Rita assentiu. Tinha escutado ele e Rafa conversando na escada da academia subterrânea de sua mansão. Lucas parecia orgulhoso de si mesmo pelo que havia feito.
– E o que você pensou sobre isso?
– Chocada no inicio, pra falar a verdade. Mas depois inúmeras coisas e inúmeros sinais se juntaram na minha cabeça e eu vi que eu estava me fazendo de cega esse tempo todo. Com medo de magoar os sentimentos dele.
– Medo?
– É, muito medo. Sabe eu fiquei com medo de eu não ser o que ele queria, de acabar decepcionando. Por isso me afastava sempre que ele demonstrava.
– Mas você sentia o mesmo, não é?
– Ah, com toda certeza – a voz de Vick parecia rouca, quase como se estivesse prestes a chorar. – Ele era muito bom pra mim e eu não sei como não enxerguei tudo isso antes de...
Rita esperou que ela completasse a frase, mas não foi isso que ela fez.
– Eu notei que você me perguntou se eu e ele estávamos namorando, tipo, no verbo presente – ela a olhou. – Vick, você acredita que ele ainda esteja vivo?
– Não tenho que acreditar em nada, ele esta vivo.
A resposta e o tom duro dela fizeram o peito de Rita doer por ela não saber a verdade.
– Como você tem tanta certeza?
– Não vê que eu espalhei cartazes por toda a cidade?
– Eu vi Vick, mas pensa bem, já faz quatro meses.
– E daí? Um adolescente não pode ficar desaparecido por quatro meses que as pessoas já começam a enterra-lo?
– Não foi isso que eu quis dizer – Rita se defendeu.
– Mas foi o que disse – Vick parecia furiosa, mas os olhos estavam vermelhos.
– A policia tem batido na porta da minha casa – Rita soltou. – Eles desconfiam que algo aconteceu com ele.
– Eles que desconfiem do que quiserem, não sou obrigada a acreditar ou concordar com nenhum deles.
– Está certa – Rita assentiu, mas então fechou a cara. – Mas também não está. Eles têm teorias.
– Ah é? Quais?
– Que Rafa pode saber de algo, por exemplo.
A garota achou que finalmente tinha convencido a outra, mas as palavras seguintes dela acabaram com tudo.
– Ok, quem diabos é você e como sabe sobre o Rafa? De onde o conhece?
Estava prestes a explicar sobre a perseguição de atiradores e toda a correria em que conhecera Rafa enquanto salvava sua própria vida, até que se tocou que não podia explicar nada.
– Saía! – Vick apontou para a porta.
– Vick...
– Não se atreva – a outra cruzou os braços. – É melhor sair logo daqui, antes que eu considere te machucar.
Assustada e arrependida, Rita se levantou e foi até a porta em silencio. Mas antes de sair, olhou para trás.
– Eu também gostava dele.
E com isso fechou a porta.
Marco esperou um pouco mais de vinte segundos e então abaixou o jornal, dando uma boa olhada na loja. Procurou com os olhos até achar quem estava de olho.
Gabriella se encontrava perto de uma sessão de livros estrangeiros, os olhos analisando as capas.
Enquanto a encarava, rezou para que ela não ousasse se virar para onde ele estava.
Rita havia pedido que ele seguisse a policial na véspera, mas Marco não tinha descoberto quase nada. Então resolveu seguir a viatura com sua bicicleta. A busca deu em um apartamento em cima de uma galeria no centro da cidade.
E agora ele estava ali, ainda seguindo-a. Não sabia bem por qual motivo exatamente, apenas continuava fazendo. E tinha que admitir que estava realmente gostando daquilo tudo.
Gabriella deu dois passos para a prateleira ao lado e como isso a trazia para perto dele, Marco ergueu o jornal de novo.
Esperou uns trinta segundos e abaixou de novo. Gabriella tinha se distanciado de novo e mal olhava em sua direção.
– O que pensa que está fazendo?
Olhou para o lado e para cima e uma garota um pouco mais velha que ele de cabelo castanho escuro e cacheado o encarava. Estava prestes a responde-la de modo “educado”, até que notou que ela se vestia muito bem e era bonita.
Avaliou de novo. Bonita pra caralho.
– Nada – ele abaixou o jornal de vez. – Só... Lendo.
A garota ergueu uma sobrancelha duvidosa.
– Mesmo?
– Uhum.
– Qual é a matéria da primeira pagina? – questionou.
Marco umedeceu os lábios.
– Futebol.
– Errou, é sobre moda – a garota riu e deu uma olhada mais a frente, onde Gabriella se encontrava. – Sério, por que está espionando aquela mulher?
– Não te interessa, tá legal? – Marco reclamou, com raiva por ter sido tão facilmente descoberto.
– Ah, não? Então acho que talvez ela se interesse por isso – começou a andar na direção da policial.
– Espera – Marco a segurou pelo braço. – Não faz isso.
A garota olhou parta a mão dele por alguns segundos com uma expressão muito estranha e desagradável.
– Desculpe – ele afastou a mão. – Que diabos você quer?
– No momento? – a garota afinou o tom. – Saber por que está seguindo uma policial.
Marco foi um pouco para trás com aquela resposta.
– Como sabe disso? Como sabe o que ela é?
– Ela já me interrogou – a garota lançou um olhar mortal pra Gabriella. – E você?
– Ela interrogou minha irmã – ele deu de ombros.
– E quem é sua irmã?
Marco se levantou do banco e a encarou de cima, um pouco desconfiado.
– A pergunta certa é: quem é você?
– Taffara – a garota sorriu. – E te prometo que se me contar o que está tramando, estou disposta a te ajudar.
– Mas como uma corredora pode ser tão importante? – Erick perguntou.
Estava no mesmo lugar que mais cedo, na companhia da tal de Alex. Os dois conversavam sobre a importância do que Alex era.
– Não somos seguranças, tecnicamente – ela respondeu. – Mas circundamos os arredores do deserto todos os dias.
– Por quê?
– Pra ver se descobriremos algo de incomum fora da cidade.
– Por quê?
– Pra não sermos surpreendidos por nada.
– Por quê?
– Porque... – Alex suspirou e sorriu. – Olha, quer parar?
Erick riu e a cutucou.
– Foi mal, só estou curtindo uma com você.
– Notei!
– Mas sério o que pode ter lá fora no deserto?
– Muitas coisas – Alex respondeu com um tom mais profissional. – Descobrimos até que uma das igrejas destruídas aqui perto é usada para uma base de Vampiros.
– Caramba, e eles não causam problema?
– Problemas? Contra o tanto de caçadores aqui? Eu acho que não seriam tão loucos de se meter com a gente.
Erick assentiu.
– Seu trabalho parece ser mesmo importante.
Alex deu de ombros timidamente.
– Eu tento fazer com que seja.
– Mas acho você linda e jovem demais pra isso tudo. Sem querer soar esquisito e tarado.
– Sem problema, mas o que te faz pensar nisso?
– Sei lá... Se pudesse escolher, faria parte disso tudo? Dessa vida? Escolheria ela pra você?
Alex parecia prestes a responder, mas olhou algo atrás de Erick. Ele seguiu seu olhar e viu Layane para com as mãos na cintura.
– Preciso que venha comigo.
– Por quê? – Erick questionou, ficando subitamente tenso.
– Não falei com você, lobo – Layane bufou. – Falei com ela.
– O que foi? – Alex franziu a testa.
– Anna está chamando você e todos os outros juízes. Parece que vocês tem trabalho a fazer hoje.
Pediram a Rafa que ele ficasse bem no centro do campo de areia, em pé e imobilizado. Olhou ao redor e avistou seus três... Como podia chama-los?... Futuros colegas de trabalho? Eduardo estava com os braços cruzados. Andressa com um olhar perdido. Fernando simplesmente sorria de um jeito leve, como se tentasse encorajá-lo de que aquilo era o certo.
– Quando isso vai começar, hein? – Andressa reclamou a ninguém em particular.
– Quando todos os juízes chegarem – Anna respondeu em um tom entediado. Estava recostada em uma parede, parecendo relaxada.
– Todos? – Rafa questionou.
Ela assentiu e apontou com a cabeça para algo atrás dele. Rafa tomou o cuidado de virar a cabeça sem mexer o corpo e avistou os juízes que já haviam chegado. Conhecia dois deles. Lizz e Felipe, ambos com roupas de luta. Mas o alto parecido com Eduardo e a outra baixinha e magra de cabelo preto ele não tinha ideia de quem fosse. Nem mesmo a de olho azul com cabelo claro, a que mais parecia uma garota normal entre eles.
Os cinco estavam lado a lado e o encaravam de um jeito esperançoso. O que eles fariam com ele?
Mas antes que pudesse obter respostas, Layane apareceu à vista andando na direção deles. Logo atrás dela, uma garota loira com tranças também se aproximava. E ainda mais atrás, Erick, o lobo. Quando este o olhou, ele acenou para ele, mas Erick arregalou os olhos e encarou Alex, que apenas deu de ombros.
– Pronto – Anna cortou o ar com sua voz. – Os juízes estão todos aqui.
Rafa observou a garota loira com trança se aproximar dos outros cinco com um olhar de familiaridade, como se eles já tivessem feito aquilo muito antes.
– Por favor – Anna olhou para eles. – Se apresentem.
– Eliza Maciel – Lizz revirou os olhos.
– Felipe Carvalho – o loiro piscou para Rafa.
– Julia Magric – disse a baixinha.
– Edu Tomilhero – disse o alto intimidador.
– Maria Isabele Montini – disse a mais normal deles. – Mas, por favor, me chame de Belle – acrescentou com um sorriso.
– Alexandra Kalata – a de tranças falou uniformemente.
Rafa encarou cada um deles, colocando nomes nas faces e então viu que pareciam todos ansiosos para alguma coisa.
– Agora, juízes, por favor – Anna olhou deles para Rafa; e de Rafa para eles. – Comecem o teste.
Cada um deles começou a andar na direção de Rafa. Felipe sacou sua espada e Lizz estralou os dedos. O alto apenas chutou o ar com a perna, mas a baixinha começou a correr bem rápido, ao lado da tal de Alexandra. Belle foi a única que ficou parada atrás deles, mas ainda assim tinha uma adaga nas mãos.
Rafa começou a se apavorar ao perceber que estavam todos indo até ele. Todos de uma vez só. E então Anna declarou o pior:
– Façam de tudo para que Rafa Capoci acabe morto.
Erick tentou controlar seus impulsos de salvar Rafa quando viu os cinco Caçadores avançando na direção dele. Talvez fosse o curto tempo que passou com o garoto pálido que perdera o melhor amigo, Lucas, na noite em que derrotaram os Atiradores, que fizera com que ele quisesse salvá-lo naquele instante. Mas como Anna e Layane não se moviam um musculo, ele logo deduziu que aquilo fosse um teste.
Mas sendo um teste ou não, sentiu seus dentes baterem quando um cara alto, Tomi, que lembrava muito Eduardo, acertou Rafa com tudo no estomago e o fez derrapar na areia.
Os olhos de Rafa ficaram em ziguezague de dor por um instante, mas então ele recobrou parte da consciência e se levantou, um pouco ofegante, o cabelo um pouco sujo de areia.
– Vocês querem me matar? — ele guinchou para os juízes que o encaravam.
Ao invés de obter uma resposta, Julia Magric, uma baixa de cabelo escuro azulado, o pegou por trás e agarrou seus braços, de forma que Rafa ficasse preso.
– Mas o que é isso? — ele gritou.
– Silêncio — a menina retrucou e de repente Rafa estava caindo no chão novamente, dessa vez os joelhos se dobrando enquanto ele tremia de dor.
– Merda.
Erick procurou com os olhos quem havia dito aquilo e localizou Fernando parado ali perto ao lado de Fernando e Andressa, que o flanqueavam friamente. O loiro parecia preso em um êxtase impotente só pelo fato de não poder fazer nada a respeito, os tendões se intensificando ao lado do corpo.
– Não queremos honestamente te matar, garoto — disse Belle, saindo um pouco de trás de Felipe e Lizz enquanto mirava a adaga na direção dele. — Mas se acontecer... — ela deu de ombros e sorriu secamente. — Saiba que foi puramente acidental.
Ela jogou a adaga e então Rafa ergueu a mão por reflexo, ricocheteando a arma que caiu diretamente no chão. Por um segundo, Belle ficou pálida de medo — tanto que trocou um rápido olhar com Anna e Layane — mas então sorriu como se de repente aquilo tudo fosse um jogo prestes a se tornar mais interessante.
– Parece que temos uma raridade por aqui — murmurou e então acenou com a cabeça uma vez. No momento em que fez isso, Felipe passou zunindo por ela, a espada de madeira já fora da bainha.
– Nada pessoal, Caubói — ele riu e ergue a espada, fazendo Fernando automaticamente estralar os dedos audivelmente pelo deserto. — É apenas um teste.
E então ele abaixou sua espada.
***
– Aonde estamos indo... Exatamente?
Conforme Rael seguia Gabriel por ruas desconhecidas, percebia que os dois se afastavam mais e mais da avenida e dos terminais. Não sabia onde o novo amigo estava o levando, mas pelo resto do caminho casas grandes e coloniais se erguiam. Rael sempre morou em casas como aquelas, então achava a rua parecida com a de sua casa — mais um motivo para achar tudo aquilo entediante.
– Você é meio impaciente, né? — Gabriel se virou uma vez para sorrir misteriosamente para ele.
– Impaciente? Não, eu só não gosto de não saber onde estou indo.
O novo amigo o olhou como se ele o tivesse ofendido, então Rael logo tratou de acrescentar:
– Mas tudo bem se não quiser me dizer, sabe — ele engoliu em seco.
– A um lugar mais privado — Gabriel não parecia tão ofendido assim. — Não se cansa desses shoppings cheios de pessoas se movimentando?
Rael parou para pensar um pouco.
– É meio cansativo sim, mas faz parte. Ninguém pode ter um lugar só para si mesmo.
Gabriel então começou a virar uma rua com um pouquinho mais de rapidez, o que fez com que Rael tivesse que correr um pouco para acompanhá-lo.
– Estou prestes a te fazer discordar disso.
Rael se apressou para perguntar como, porém foi calado quando chegaram no que parecia um jardim de uma das casas, mas esse estava um pouco mais abaixo e descia um pouco mais, como um barranco. Perto dali, bem no fim de onde o moinho terminava, uma árvore enorme fazia uma sombra perfeita se derramar por toda a grama verde felpuda.
Gabriel se deitou de costas no chão e começou a brincar de anjo da neve — só que verde. Rael se aproximou dele devagar, não sabendo bem o que dizer. O lugar era mesmo lindo e não havia ninguém mesmo para perturbá-los. Depois que se sentou no chão e encarou a sombra, sentiu necessidade de ter um livro em mãos.
Por um segundo ficaram os dois calados, até que Gabriel parou de brincar e abriu um olho para encará-lo.
– E então? — provocou. — Nenhuma piadinha ou comentário?
Rael revirou os olhos para ele.
– Essa foi boa... Não, acho que esse lugar esgotou qualquer coisa ironica que poderia sair de mim agora.
– E isso é algo bom? — Gabriel perguntou e se deitou de lado, um pouco do cabelo escuro caindo na testa. E que testa mais linda, Rael pensou automaticamente.
– Bem — ele balançou a cabeça para se concentrar na resposta. — Considerando que eu estou sendo irônico todos os dias da semana...
– Huuum, então você é o engraçadinho? — Gabriel sorriu da mesma forma que antes, deixando Rael sem folego.
– Engraçadinho?
– É. Do tipo que faz as piadas só para se mostrar que é durão?
Rael riu com a tentativa do outro de tentar analisá-lo. Aquilo não era a definição de um valentão, não do que Rael era. Olhou para Gabriel e deduziu se não tinha passado a errada impressão para o amigo.
– Aham, com certeza.
– Tudo bem, eu posso estar errado — Gabriel se sentou, parecendo irrequieto. — Mas parece que esta sendo ironico agora mesmo?
– Tem razão — disse na cara dura. — Eu estou.
Os dois riram e Rael sentiu uma sensação boa invadir o estomago. Por um segundo não se perguntou se estava sonhando. Qual foi a última vez que rira com alguém daquele jeito?
Quando a linha de seus pensamentos começaram a fazer sentido a lembrança ele logo se arrependeu de ter começado a pensar e tentou se distrair cutucando a grama com a ponta dos dedos.
– O que foi?
– Hum, nada — Rael continuou olhando o chão. — Só estou pensando aqui.
– No que? — Gabriel perguntou, mas então não o deixou responder. — Seu sorriso de agora pouco sumiu... É algo ruim?
– Não — ele tentou transparecer calma, mas ficou rouco de repente. — Não é nada.
– Eu sei o que dizem sobre esse nada — Gabriel voltou a se deitar sob a grama. — Sei que me conheceu a só um dia, mas pode desabafar se quiser.
Rael quis se calar, mas então refletiu um pouco. Que mal faria só contar um pouquinho de sua história triste e desinteressante?
– Eu só estava pensando em uma pessoa que eu gostava muito — ele começou. — Eu magoei ela bastante e me arrependo até hoje.
– Já pensou em pedir desculpas?
– Já, mas não adiantou — Não é fail se desculpar por desconfiar de alguém e matar outra na mesma noite, ele queria acrescentar. — Não é algo simples.
Gabriel balançou a cabeça.
– Sendo simples ou não, mesmo assim — disse com o olhar perdido. — As pessoas tem que entender umas as outras.
Rael pensou em Rafa sem medo e invocou sua careta de raiva e decepção na noite em que ele empurrara Henrique do precipício. Ele não parecia querer entender Rael, na verdade parecia não conseguir entender como alguém que conhecia podia ser capaz de fazer algo tão ruim.
– Mas o que houve? — Gabriel questionou. — Você chateou alguma namorada ou algo do tipo?
Rael sentiu o rosto ficar vermelho com a pergunta.
– Mais ou menos.
– Mais ou menos?
– Namorado... Eu chateei meu namorado — ele soltou, esperando pelo choque e a frieza de Gabriel.
– O que fez a ele? — Gabriel continuou perguntando, o ritmo não mudando. Rael o encarou de lado e ele continuava deitado, respirando tranquilamente.
– Você ouviu o que eu disse? — perguntou.
– Sim — ele o encarou sem desviar o olhar. — E você ouviu o que eu perguntei?
Rael engoliu em seco, sentindo a testa enrugar. Será que Gabriel já suspeitava antes?
Os segundos se passavam enquanto Gabriel continuava o encarando simplesmente, sem desviar o olhar nenhuma vez. Lentamente, Rael foi criando coragem para falar e sanidade para parar de olhar aqueles belos olhos.
– Eu só me provei ser alguém que ele não esperava — deu de ombros, omitindo não só meia, mas toda a verdade em si. — E quando ele descobriu foi... Chocante.
– Nossa — Gabriel parecia ter parado de encarar. — Eu sinto muito, parece que você gostava mesmo dele.
– E eu gostava — Rael assentiu. — Mas tinha o jeito errado de demonstrar isso.
Gabriel se sentou e, dessa vez se aproximou um pouco mais para falar.
– O que vale é que você demonstrou, não é?
O jeito como ele disse aquilo não deveria incomodar tanto Rael se ele não estivesse com o rosto tão perto e os olhos descendo para seus lábios o tempo inteiro.
Meu Deus, o que estava acontecendo ali?
– É — Rael engoliu em seco. — É isso que vale.
***
– O que supostamente deveríamos estar esperando?
Marco e Taffara continuavam perseguindo Gabriella pelo Vallywood Shopping Mall. A detetive parecia não fazer o tipo das butiques e lojas de roupas que entrava, nem mesmo parecia do tipo que comia sem dó em uma praça de alimentação cheia de pessoas.
Agora Marco e Taffara observaram a detetive rodear uma prateleira de objetos de porcelana enquanto faziam o que podiam para se esconder atrás de uma barraca de sorvetes-palitos; a dona da loja não parava de encará-los com desgosto e desconfiança.
– Alguma atitude suspeita — Marco fungou. — Estou esperando ela pegar o celular ou se encontrar com algum cara assim.
– E o que acontece se ela sacar? — Taffara questionou, olhando de Gabriella para Marco. — Nós dois derrubamos ela no chão e gritamos "é um assalto"?
Marco revirou os olhos.
– Logico que não, sonsa. Só precisamos ficar de olho no caso de ela falar com alguém, minha irmã disse que ela suspeita que nós temos algo a ver com... — ele então se calou quando percebeu que estava falando demais.
Os olhos castanhos de Taffara brilhavam de êxtase.
– Algo a ver com o que? — ela incentivou. — Sua irmã? Quem é a sua irmã?
Taffara o olhou de jeito tão fixo e encantador, e era bonita, então ele podia contar a ela que... Marco então balançou a cabeça. Espera aí, ele não podia contar a ela nada sobre eles estarem ligados a Rafa ou Lucas, ou sobre qualquer coisa do mundo que descobriram ser real. Eles prometeram não contar.
– Eu não posso te contar nada — ele engoliu em seco. — Escuta, se quer me ajudar, vai ter que se contentar com o que eu disser.
Taffara franziu o cenho mas fez que sim com a cabeça de qualquer jeito.
– Tudo bem, então me diga algo — ela sorriu diabolicamente.
– Eu não vou dizer nada! — Marco retrucou e logo se recordou que estava falando alto demais. Deu uma breve olhada em Gabriella, mas ela continuava distraída, estudando um espelho pequeno com bordas de madeira. — Eu não posso dizer nada, Taff.
A garota sorriu de repente, como se algo tivesse acendido dentro dela.
– Me chame assim de novo — ela suspirou. — Taff.
Marco balançou a cabeça, confuso.
– Não — ele bufou e então olhou para a Detetive. — Precisamos focar na Gabriella. Se perdermos ela de vista...
– Por que chama ela de Gabriella? — Taffara retrucou e quando ele a encarou seu nariz estava retorcido. — Ela interroga pessoas.
Marco deu de ombros.
– E qual o problema nisso?
Taffara não respondeu de imediato, mas depois estalou o dedo audivelmente.
– Ela também te interrogou!
– O que? Não!
– Sim — ela semicerrou os olhos, medindo Marco com cuidado. — Ela interrogou você e sua irmã e agora vocês dois querem saber o que ela acha que vocês fizeram, certo? Por isso que está seguindo ela... Acertei?
O silêncio de Marco foi um sim para Taffara, que riu avidamente como se estivesse ganhando um jogo.
– O que você acha que ela acha que vocês fizeram?
A pergunta foi tão descabida e incompreensível que Marco não soube nem como responder — e, sinceramente, não queria.
– Quer saber, eu não vou contar mais nada — ele começou a se afastar de Taffara. — Posso muito bem seguir ela sozinho.
Taffara pareceu ficar brava por um segundo, mas depois de olhar para um lado por um segundo sorriu outra vez.
– Verdade? E onde ela está, gênio?
Marco seguiu o olhar para a loja e procurou por Gabriella incansavelmente. Não havia sinal da mulher jovem de aparência jovem por ali, apenas a recepcionista loira e hippie do local que sorria para ele de jeito malicioso.
– Onde ela...
– Está? — Taffara riu. — Eu não sei, não era você que ia começar uma busca indivual por ela?
Marco se virou para a garota e sentiu raiva. Ela o estava bombardeando ele com perguntas por querer, para que ele perdesse o foco da Detetive.
– Eu não sei quem você é, mas posso apostar que é uma pessoa horrível.
Taffara ficou tão ofendida com essa que guinchou, o que chamou atenção de quase todos os clientes ali perto.
– Você não me conhece!
– Tem razão — Marco suspirou pela primeira vez com certo alivio. — Não conheço mesmo — disse e então começou a se afastar rapidamente, começando a caçar Gabriella novamente.
– Espera! — Taffara o seguiu e ele se virou. — Pode ao menos me passar seu número? — ela sacou seu Iphone e começou a digitar.
Marco revirou os olhos, não acreditando e saiu correndo dali. Ficar com aquela garota era perda de tempo... Tempo que ele precisava recuperar agora.
***
Rafa sentia como se tivessem passado com um rolo compressor por ele e depois o jogado em um mar cheio de enguias. Não era exatamente isso que tinha acontecido, mas era quase. Seus "Juízes" estavam tentando matá-lo constantemente. Já tinha fugido das milhares de tentativas de Felipe de cortar sua cabeça e não era de fato tão difícil, ele só precisava se esquivar; mas isso não seria difícil se Alex vinha em sua direção como uma bala e o derrubasse com um chute ou um arrastão.
E para piorar, toda vez que ele conseguia repelir um deles ou se reerguer, Julia fazia com que ele sentisse um choque de mais de mil volts por toda a sua pele. Todos eles eram perigosos, até mesmo Lizz com sua luz cegante e entorpecedora. Sentiu falta de quando ela era sua aliada, mas agora ela só queria matá-lo.
E estava quase conseguindo.
Tomi já estava se preparando para investir em sua direção quando ele o repeliu e o fez cair de costas contra o chão, levantando um pouco da areia. Estava prestes a comemorar quando começou a notar Felipe se aproximando.
Começou a correr dele, mas logo seu pé encontrou algum obstáculo e foi o suficiente para faze-lo cair no chão novamente. Julia estava em pé acima dele.
– Ai meu Deus — ele começou a se arrastar.
– Não tão rápido — ela o tocou pelo calcanhar e Rafa sentiu as familiares ondas de choque percorrem seu corpo e castigar todo o seu sistema nervoso.
Quando parecia que a garota baixa não iria parar, ela finalmente o libertou e se afastou. Rafa se aprumou no chão, se preparando para uma Belle vindo furiosamente até ele. A cena ficava lenta enquanto ela se aproximava e isso fez seu estomago se retorcer. Percorreu os olhos pelas pessoas que o assistiam e encontrou os olhos de Fernando — era impressão ou ele parecia nervoso a ponto de se jogar no meio da briga?
Não obteve resposta porque sentiu seu corpo ser atirado novamente e só notou que estava girando na terra quando suas mãos tocaram o chão novamente.
Ele se ergueu um pouco do chão, já não se animando com a ideia do que viria. Porém pela primeira vez, conseguiu ver todos seus cinco agressores de longe, preparando o próximo ataque.
Alex parecia não muito interessada, apesar de já estar planejando uma voadora. Felipe sorria como quem se desculpava, mas sua espada cortava o ar enquanto ele a mexia ao seu lado. Julia murmurava algo para um Tomi que já tencionava os músculos, mirando a barriga de Rafa como a bandeira vermelha para um touro. Belle sorria como uma bela princesa da morte, os lábios vermelhos se destacando. Lizz já estava emitindo uma luz em sua direção, calculando onde joga-la.
Todos eram muito fortes, sem dúvida, Rafa não tinha a menor chance de vencê-los. Lançou um olhar débil para Anna, que assistia a tudo como alguém que estava vendo um filme repetido. Por que ela o estava fazendo passar por tudo aquilo se sabia que ele não conseguiria? A não ser que... Será?
Layane segurava a pasta de jeito firme contra o corpo, quase quebrando o material — o que ela provavelmente estava escrevendo ali? Análises da dor e tortura dele? Andressa, Eduardo e Fernando eram os que mais prestavam atenção, cada um do seu jeito. Pareciam preocupados, mas também levemente decepcionados. Era óbvio que sabiam o mesmo que ele... Não tinha chance de Rafa conseguir.
Ele então se levantou, aproveitando o tempo dado por seus juízes cruéis e se preparou para o próximo avanço. Julia deu um passo a frente, olhando-o fixamente.
– Tem certeza de que quer isso, Capoci? — a garotinha gritou em uma voz firme que não combinava nada com ela. — Vale mesmo a pena tudo isso para entrar no Pack?
As perguntas dela entravam em sua mente, confundindo-o. Tem certeza? Vale a pena?
Rafa apenas piscou e continuou em pé, aguardando. Felipe balançou a cabeça.
– Esse cara é um suicida — disse do outro lado do campo.
– Deixem ele — Belle começou a andar na frente de todos. — Já que quer tanto se fundir ao Pack, que se junte, da forma que puder.
– Ele nunca vai conseguir — Lizz suspirava, mais decepcionada do que triste. — Não entendo o sentido de fazermos isso ainda...
– Eu entendo — Tomi passou por ela, o corpo troncudo esbarrando nela e fazendo sua luz se perder. — Deixe-me lhe mostrar como.
Rafa deu um passo para frente, querendo adiar o inevitável, quando de repente algo em sua mente brilhou. Tomi continuava se aproximando, mas lentamente porque força era a única coisa em que ele era bom. Notou Alex já pegando impulso atrás dos outros, ela iria pular e se jogar em cima dele. Aquilo doeria muito.
Doeria.
E então Rafa se lembrou de algo e sentiu um pouco de confiança. Talvez fosse uma péssima ideia tentar, mas por que não? Ele já não tinha mais nada a perder, não? O rosto devia estar péssimo depois de ter sido espancado tanto.
Tomi então já estava a meio caminho, os passos pesados fazendo a poeira levantar. Alex já vinha como um meteorito, a trança loira balançando como louca no ar.
Tentando a sorte, Rafa foi para trás e então ergueu os braços.
E então bum!
Em uma fração de segundos, Tomi e Alex estavam esparramados no chão, cobertos pelas poeiras que o cercavam depois do impacto. Apesar de estarem no chão, Rafa conseguia ver que olhavam ele, assustados.
Os outros juízes logo atrás continuavam imóveis e isso fez com que Rafa sentisse sua confiança aumentar. Quando Alex vinha rapidamente pelo ar, Rafa fez o oposto de repeli-la — ele a conduzira. Com sua capacidade de mover as coisas, atraiu uma Alex em bala até um Tomi cheio de força e pompa.
Fundiu os dois, fazendo os dois se chocarem. Como na primeira vez em que descobrira seu poder na frente de Andressa, Fernando e Eduardo — como Belle dissera. Fundir. Essa era uma de suas habilidades.
E agora ele a usaria a seu favor.
– Ora só, que interessante — Anna cruzou os braços na frente do corpo escultural. — Layane, espero que esteja mesmo anotando tudo... Não quero esquecer de jeito nenhum como esse garoto entrou para o Pack.
Felipe e Belle encararam assustados a Chefa e depois se entreolharam, frenéticos.
– Não podemos deixar isso acontecer — Julia começou e depois olhou Lizz. — Mate-o!
Lizz, que mais parecia em conflito de todos, ergueu a mão e sua luz voltou, mais potente.
Rafa ao invés de correr ou pensar em desviar se colocou um pouco mais a frente, ansioso, louco para saber o que aconteceria a partir de agora.
***
Andressa estava tão absorta na disputa de Rafa que quando a brisa alienigena acertou seu rosto ela mal se tocou. O garoto que ela conhecera meses atrás finalmente estava demonstrando o quanto tinha de seu poder desconhecido. Não fazia do que Rafa poderia ser, mas isso não importava, o que importava era que agora ele tinha uma chance de entrar no Pack deles... E isso seria ótimo.
Se virou de lado para tentar encontrar os olhos de Eduardo, iria rir tanto quando visse o olhar espantado dele. O namorado não acreditava que Rafa Capoci tinha alguma chance e ela estava prestes a provar que ele estava enganado. Mas não o encontrou.
Confusa, sentiu novamente a brisa incomum soprar em seu cabelo escuro vindo do lado oeste. Por reflexo, virou seu rosto para o outro lado. E achou o namorado. Eduardo estava em uma das fendas de terra escuras que se encontravam próximo ao campo onde estavam. Ergueu uma sobrancelha confusa quanto captou seu olhar, mas Edu apenas começou a gesticular para que ela se aproximasse.
Sem entender ela começou a se afastar do grupo que assistia o confronto de Rafa.
A taverna era escura, mas o sorriso branco e limpo de Eduardo a saldaram. Ela sorriu nervosamente de volta, mas quando estava prestes a perguntar ele a puxou com tudo para dentro da fenda e a jogou com força contra a parede.
– Que porra... — ela xingou, mas foi calada pelos lábios dele que se grudaram aos dela. O beijo de Eduardo foi tão quente que passou todo o seu calor pelo corpo dela.
Meu Deus.
– Uau — ela respirou fundo quando ele se afastou. — Isso foi... Foi ótimo, mas posso saber por que fez isso?
Os olhos de Eduardo tinha um brilho familiar.
– Tem certeza que não sabe? — ele sussurrou e avançou para começar a dar mordidas em seu pescoço. Quando chegou a boca, beijou da mesma forma.
Andressa foi aproveitando todas aquelas sensações enquanto tentava entender. Foi só então quando ele jogou a própria jaqueta de couro no chão que ela notou porque o brilho em seu olhar era tão familiar: os olhos de Eduardo estavam dilatados.
Ela engoliu em seco.
– Edu... — ela sussurrou. — Você quer?
Ele fez que sim com a cabeça, parecendo ansioso enquanto a beijava com mais intensidade. Andressa jurou que sentiu uma mordida em seu lábio inferior.
– Mas o teste do Rafa...
– Acho que nós dois sabemos qual vai ser o resultado — ele começou a abaixar a alça da camiseta arregata dela. — E acho que também estamos os dois não dando a minima pra isso.
Edu beijou a pele acima de seu peito e depois encontrou seus olhos, quase como se pedindo permissão silenciosamente.
– Estou certo?
– Está. — Andressa ficou surpresa com o quanto aquilo estava indo rápido, sua consciencia tinha sumido e dado uma volta por Vallywood enquanto ela soava horrores ali dentro da caverna. Será que ela queria?
A indecisão dela não durou muito assim que Eduardo tirou a própria camiseta preta e pegou uma das mãos dela para que tocasse em seu abdome perfeito e duro.
– Você quer? — ele sussurrou olhando fixamente.
Andressa lançou um olhar para o campo de areia. As coisas pareciam tensas e barulhosas ali e ninguém parecia se importar ou se perguntar com o que eles estavam fazendo. Por que não?
Ela olhou o dorso de Eduardo e depois seu rosto que conhecia por anos. Um rosto que sempre quis que olhasse para ela daquele jeito. Uma boca que sempre desejou ser só sua. Se ela fizesse agora com ele, seria perfeito.
Andressa então o beijou e desceu a mão rapidamente, antes que se arrependesse, até o cinto da calça de Eduardo. Seu dedo mindinho tocou na arma do outro e ela tremeu.
– Está com medo? — ele questionou.
Andressa balançou a cabeça e o puxou para mais perto.
– Não de você.
E então fechou os olhos na taverna escura.
***
– Não precisava me trazer até em casa — Rael mudou o peso de varanda de sua casa. Lançou um olhar para dentro, para ver se havia alguém e depois olhou Gabriel sorrindo simpaticamente na sua frente.
– É lógico que precisava — ele se recostou no batente. — Fui eu que te arrastei hoje, lembra?
– Arrastar soa meio ruim — Rael sorriu. — Eu não odiei andar com você, então não fui arrastado, tá legal?
– Ah não?
– Não, eu fui porque eu quis.
Os dois se encararam e Rael se perguntou se essa era aquela hora em que, como todos os filmes de romance, o garoto bonitão do filme beijava a protagonista. Bem, no caso, o protagonista.
Mas isso não aconteceria. Karina estava certa, Gabriel não podia ser gay, devia ser só mais um cara legal de se conversar. Sim, era suspeito o modo como ele o olhava, mas não era o suficiente para desconfiar.
– Eu estava pensando — Gabriel então se desencostou da madeira. — Se você quer fazer alguma coisa amanhã também?
Rael piscou. Ele estava sonhando ou o outro tinha perguntado isso mesmo. Gabriel não parecia estar de brincadeira, aguardava sua resposta com uma expressão despreocupada.
– Você não tem nada para fazer de importante amanhã?
– Não muito. Na verdade quero aproveitar que só faltam algumas semanas para voltar às aulas, então por mim — ele deu de ombros e olhou Rael. — Estou com todos os dias livres para você.
A pulsação de Rael batia em seus ouvidos. Não, aquele garoto lindo não podia estar interessado nele, ele só estava tentando arrumar um amigo. Só isso, provavelmente.
– Tudo bem — Rael deu um passo para trás, se aproximando da casa. — Então, eu te ligo?
Gabriel assentiu, os dois haviam salvado o número um do outro em seus celulares quando estavam debaixo da árvore. Naquela hora a mão de Rael roçara a de Gabriel sem querer, masele não se importou e nem afastou a dele.
– Claro. Podemos decidir onde vamos amanhã.
Rael fez que sim com a cabeça.
– Um lugar menos movimentado de novo? — provocou.
– Talvez — Gabriel sorriu de volta. — Porque só em lugares menos movimentados é que eu posso fazer isso.
O beijo veio tão rápido que Rael só percebera depois que a mão esquerda de Gabriel estava em sua nuca, puxando seu rosto para o dele. O garoto mal acreditava que aquilo estava acontecendo.
Quando o beijo acabou, os olhos de Gabriel brilhavam para os dele.
– Isso foi — ele suspirou com o que parecia alivio, mas não completou a frase.
– Isso foi... — Rael também parecia perdido. — Eu não sei o que dizer.
Gabriel sorriu para ele, tocando seu rosto de forma carinhosa.
– Que tal não falar?
Rael tocou o dele e sorriu também sem se conter.
– Eu acho essa ideia maravilhosa.
Os dois então entraram na casa e esqueceram do amanhã que talvez viria mais rápido do que imaginavam.
***
Marco seguia pelas ruas movimentadas, procurando pelas praças e ruas na frente do shopping. Gabriella não poderia ter ido muito longe... A não ser que estivesse de carrro.
Enquanto considerava a hipótese e se voltava para a entrada do shopping, foi surpreendido por um vulto de cabelo escuro. Seu coração quase saiu pela boca.
Gabriella o encarava de braços cruzados, o olhar sério e intimidador o atravessando. O garoto não mexeu um músculo, com medo de que ela fizesse qualquer coisa.
– Por que estava me seguindo?
Marco não ficou tão surpreso por ela saber. Em algum momento enquanto ele e Taffara estavam discutindo, a Detetive provavelmente notou ele ali e se afastou. Gabriella batia o pé a cada segundo, como uma dama revoltada.
– Eu não estava te seguindo — ele mentiu se focando em encará-la. — Só estava no shopping também.
– Não acredito em você, Marco Antônio.
– Não me chame assim...
– Não me siga nunca mais — ela retrucou, fuzilando os olhos. — Não sei quanto da minha conversa com a sua irmã você sabe, mas sugiro que fique longe o bastante ou algo vai sobrar para você, eventualmente.
– Está querendo dizer que acha que fizemos algo? — ele não queria jogar tudo assim na cara dela, mas algo na mulher não despertava medo nele. E sim raiva.
Gabriella apenas o olhou misteriosamente de volta.
– O que eu posso dizer garoto, é que te vi conversando com uma das minhas suspeitas hoje — respondeu se referindo a Taffara e ele logo se lembrou que as duas se conheciam. — E isso não foi de muita ajuda para você e sua irmã.
A raiva de Marco então se descontrolou.
– Nós não fizemos nada — declarou. — O que aconteceu com Lucas foi uma coisa grave e ele era nosso amigo... Nós sentimos falta dele, não temos motivos para termos assassinado ele.
O rosto de Gabriella parecia glorioso.
– Quem está falando de assassinato? Eu estava investigando um desaparecimento.
Marco sentiu o sangue fugir do rosto. Droga, por pouco quase estava revelando o que sabia. Tinha que tomar cuidado com Gabriella, ela era inteligente.
– Agora estou mais curiosa — ela riu. — Tentei mesmo acreditar que me disseram a verdade lá em sua casa, você e sua irmã... Mas acho que decidi isso rápido demais. Parece que vocês sabem muito mais do que estão contando.
– Nada é o que parece — ele retrucou.
A Detetive fez uma expressão como se dissesse "Ah, é?" e começou a se virar. Por um impulso, Marco a segurou pelo braço e a girou para olhar em seu olho.
– Tome cuidado, Gabriella, não sabe com o que está mexendo.
Ele estava se referindo aos Atiradores e as coisas esquisitas com que ele e Rita lidaram no ano passado, mas Gabriella parecia ter entendido algo errado ao afastar a mão dele. O olhava como se estivesse com medo dele. Como se ele, normal e humano, fosse o principal problema.
– Talvez não seja tão criança assim, senhor Marco Antônio.
***
Rita ainda não tinha se distanciado muito da casa de Vick. Estava tentando ligar para Marco, mas toda vez que ligava dizia que estava fora de area ou mandava deixar um recado, com a voz de infantil de Marco dizendo:
– Se eu não te entender, é porque você não é tão importante assim. Bipe!
Depois de sua terceira tentativa, ela estava quase desistindo e cogitando se o encontrava em casa. E foi aí que alguém se aproximou dela e a chamou:
– Oi.
Ela se virou e encarou Vick, parada meio hesitante no meio da escada.
– Ei — Rita guardou o celular no bolso. — Tudo bem?
– Não — Vick suspirou e desceu o resto dos degraus. — Olha, me desculpa pela minha reação anterior... É só que, falar do Lucas me deixa assim eu não... — ela fechou os olhos como se para suprimir algum tipo de dor. — Eu o estou procurando a quase cinco meses.
Rita assentiu, sentindo seu peito doer de compreenssão e pesar escondido.
– Eu entendo, sei que não deve ser fácil lidar com uma garota esquisita dizendo que conhecia seu namorado que sumiu.
Vick sorriu de volta, mas então seu rosto enrubesceu.
– Espera, não eramos namorados... Eu e Lucas éramos apenas amigos.
– Aham — Rita revirou os olhos de brincadeira.
– Mas me desculpe mesmo, eu não tinha o direito de ser daquele jeito, sei que você também deve ter gostado bastante dele. Lucas era incrivel.
– E era mesmo — Rita assentiu.
– Olha, me desculpe ter que voltar nisso — Vick parecia menos envergonhada. — Mas de onde você e o Rafa se conhecem?
Rita dessa vez ficou esperando alguma reação da garota, mas esta por sua vez apenas esperou tranquilamente, como se não fosse tão importante a resposta. Mas era.
– Rafa gostava do meu irmão — Rita mentiu e rezou para que aquilo nunca chegasse ao Capoci. Devia muito a ele e não queria arrumar problemas a ele.
– Ah — Vick sorriu como quem entendia. — Esse Rafa... Tudo bem, Rita... Obrigado por me responder. E me entender.
– Por nada — ela sorriu e, enquanto um silencio antes da despedida se seguia, Vick então focou o olhar em algo atrás dela.
Rita se virou e as duas encararam uma garota de cabelo castanho desfilar pela rua. Quando a garota notou que elas a olhavam, fungou de jeito rude e continuou desfilando.
– Quem é essa? — Rita se perguntou em voz alta.
– Ninguém que valha a pena conhecer — Vick murmurou com desgosto e Rita se perguntou se por acaso elas não se conheciam. Ou se odiavam.
– Seja quem for — deu de ombros. — Parece ser uma pessoa horrível.
***
Lizz observava enquanto os outros caçadores caíam um a um no chão. Julia e Tomi tinham acabado de ser repelidos pelo campo anormal de Rafa, que sorria para eles como uma maquina mortifera de duas pernas.
– Qual é, ele não pode ser tudo isso — Belle começou a dizer enquanto se aproximava de Julia. — Eu tenho um plano.
Enquanto as duas conversavam, Rafa aguardava dessa vez não sorrindo, mas esperando pelo próximo movimento deles. Sua habilidade não parecia ser do tipo que ser usada de perto daria algum sucesso, então por isso ele mantinha certa distância.
Julia e Belle então começaram a convergir devagar até ele, não juntas, mas não tão separadas. Rafa ergueu as mãos, deixando o campo pairar por um tempo.
E então Belle lançou uma adaga e Lizz pode sentir que havia algo de extra nela. A ferramenta bateu contra o escudo de Rafa com um estrondo, enviando cargas elétricas por todo o campo. O garoto ficou um pouco surpreso, mas não baixou a guarda.
Belle prosseguia com as adagas-elétricas e Lizz notou que Julai as olhava fixa, manipulando a energia. As duas usavam suas habilidades para formar um ataque novo.
Mas era novo e não suficiente.
Rafa então pareceu entender o plano delas quando Alex começou a pegar impulso e então abriu mais os braços. Como uma avalanche transparente, a barreira atravessou cada um deles até que chegasse em Lizz, que caiu com força de costas no chão.
Quando se levantou, uma enorme poeira cobria todo o campo, não deixando ela ver quase nada além de Julia, que tinha chegado mais perto dela graças ao impacto.
Estava prestes a chamar a atenção da garota quando esta foi nocauteada por uma sombra. Rafa. O garoto estava mais rápido, Lizz notou.
Rafa não via muita coisa, mas podia sentir Felipe se aproximando de algum lugar do campo. Quando escutou seus passos, sentiu também outros vindo na direção contraria. Decidiu então dar um passo atrás e ouviu um baque logo depois.
A poeira sumiu um pouco e ele pode ver que o espadachin havia acertado Tomi, que agora estava inconsciente no chão. Felipe arfou e logo que viu Rafa voou na direção dele, com a espada em punho.
Rafa então usou o campo até onde deu, se distanciando a cada tentativa do loiro de acertá-lo. Porém ficou tão absorto que quando sentiu ser puxado para o chão, não sabia quem o havia feito.
Por reflexo, jogou o campo para quem quer que fosse. Se levantou e viu Alex gemer de dor no chão. Felipe ainda vinha então ele moveu sua espada com a força do pensamento e, quando o loiro percebeu o que ele ia fazer, foi tarde demais.
Rafa nocauteou mais um Juiz.
Quatro já foram, pensou, só faltavam três.
Procurou por algum sinal de Belle, mas apenas ouviu a voz da garota:
– Eu não acho que você é um caçador de verdade — ela gritava para ele, com raiva. — Sabe o que eu acho que você é? Um sortudo, isso sim.
Rafa ignorou a provocação e continuou procurando pela poeira, os olhos atentos.
– Fernando e Andressa não precisam de você — ela continuou falando. — E Eduardo não gosta de você.
– Você acha? — Rafa ouviu um movimento do lado esquerdo e se preparou.
– Eu tenho certeza.
A luz de Lizz viera de algum canto e ele se jogou no chão para desviar. Antes que tivesse tempo para levantar, sentiu alguém o puxando pelo cabelo.
– Você não é um caçador! — Belle gritava, com a adaga em seu pescoço.
– E você não é uma garota! — Rafa gritou de volta e torceu o pulso dela. A garota arquejou e ele a empurrou.
Quando ela tentou ataca-lo mais uma vez, ele defendeu.
A luz de Lizz começou a ser invocada e ele logo teve uma ideia. Empurrou Belle e depois se virou para a luz, usando toda sua força para manipular a forma de luz.
Sua testa começou a suar e seus músculos começaram a doer, mas ele mesmo assim continuou forçando a luz até que ela estivesse sob seu dominio.
E então ele a atirou em Belle, que caiu na mesma hora.
Só faltava uma.
A poeira enfim se dissipou e ele e Lizz se encaravam um ao outro no campo. A garota loira parecia impressionada, mas principalmente intimidada.
Rafa ergueu a mão, preparado para qualquer coisa, mas então a garota sorriu.
– Meus parabens — ela levantou o punho. — Você é um caçador.
De repente ela estava atrás dele e o puxando pelo pela nuca. Rafa se lembrou que ela também podia se teleportar e se arrependeu por não ter lembrado disso antes.
Lizz o derrubou e começou a chutar seu estomago sem parar. Rafa então notou um objeto escuro perto de onde estava deitado.
– Onde estão seus truques, hein? — Lizz xingava enquanto batia. — Onde hein?
E então ele pegou a adaga e colocou na frente do corpo. A perna de Lizz veio de encontro ao objeto.
Anna ou talvez Layane arfaram e Rafa se sentou no chão.
Lizz caiu no chão, a perna cheia de sangue, mas mesmo assim sorria para ele.
– Você está no Pack — e então desmaiou.
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Carla olhava Rafa se levantar do chão e Anna e Layane baterem palmas para ele. Ficou admirada com a força e a determinação do garoto, ele parecia maior do que meses atrás.
Lizz havia desabado no chão e ela a encarava com desaprovação. A garota sabia que ia perder, por isso só tinha ido até ele para desacelerar o processo. Mas tinha sido uma escolha idiota, sua perna agora ficaria sangrando.
Enquanto Layane cuidava da perna da garota, Carla sentiu alguém cutucar suas costas.
– Nossa, mas já esta me traindo?
Érika finalmente tinha aparecido. O cabelo loiro estava jogado por sobre o ombro e os olhos azuis tinham um leve olhar de desafio que não combinavam com o sorriso levado. Ou com as folhas sujando suas pernas pálidas.
– Onde você se meteu? — Carla cruzou os braços. — Eu estou te procurando o dia todo!
– Eu estava por aí — ela deu de ombros. — Na verdade — ela arrumou a camiseta um pouco suada. — Estava querendo saber onde é que o Rafa estava sendo testado.
– Ah, então você sabia que Rafa estava aqui? — Carla não acreditava em uma palavra da outra.
– Claro.
Carla apenas fungou e voltou a se concentar em um Rafa cansado, porém vitorioso.
– Ele conseguiu?
– Passar no teste? — Carla questionou e a outra assentiu. — Sim, e não foi muito fácil.
– Não deve ser — Érika disse mas então começou a abraça-lá. — Por favor, não me diz que vai ficar brava.
Carla estava prestes a parar de fazer manha quando então algo no rosto da namorada chamou atenção. Uma leve cor vermelha brilhava no canto esquerdo da bochecha.
Uma mordida?
– Eu não vou ficar brava — Carla sorriu para ela falsamente. — Você está aqui, é só o que importa, não é?
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